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Crítica

Ana Kfouri clareia atravessamentos da fala

22.8.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Pedro Bastos/Solus

A atriz Ana Kfouri tem se dedicado, desde 2007, a projeto artístico singular de exposição da fala com suas lógicas musical e espacial inscritas na carne. Após dois solos com textos do francês Valère Novarina (Animal do tempo e Discurso aos animais), é a vez de radicar cenicamente a prosa do irlandês Samuel Beckett nos espetáculos Primeiro amor, do conto homônimo, e Moi lui, livremente inspirada no romance Molloy.

Tanto em Beckett (1906-89) como em Novarina (1947), a narração contrasta a consciência falante, a tentativa de agarrar a realidade que esculpe e o resíduo da memória por vezes fugidia. É a linguagem, sempre ela, a inundar de imagens e metáforas a recepção do espectador, enredado por sinestesia.

Mar de imagens sob os pés de Ana Kfouri

A palavra não é dita diretamente, mas sampleada em tonalidades e intencionalidades que a materializem no espaço cênico. Há uma atriz a mediar essa cosmogonia do presente, uma boca hipnótica, um corpo consciente, quase o tempo todo sentado, a mirar o público com olhos faiscantes e a desviar da representação do gesto e do discurso cotidianos. Os suportes são sutis. Texturas cenográficas, sonoras, luminares e visuais contribuem para os planos de retração e expansão que a escuta conduz.

Surpreende a poesia dramática contida no conto de juventude antecessor da obra de fato teatral do autor, a sete anos de Esperando Godot, que abriu as portas para Fim de partida, A última gravação de Krapp, Dias felizes, enfim, pérolas em que a revolução da linguagem elevou a dramaturgia a outros patamares e conferiu a Beckett o Nobel de Literatura em 1969.

No enredo, Primeiro amor soa a convenção do drama em suas unidades reconhecíveis. Expulso de casa após a morte do pai, rapaz deambula por entre túmulos de um cemitério e adota o banco de uma praça como morada. Até conhecer uma prostituta, de quem se enamora e vão morar juntos na casa dela. Ao descobrir as razões do coração, ele lamenta o quanto a convivência lhe subtrai o idílio. E se mostra cruel na blague ao sentimentalismo, preferindo retornar ao estado zero dos afetos em que foi criado. O conforto primitivo.

Na estrutura formal, porém, já se faz notar a verve que inspirou criadores como Eid Ribeiro (MG) e Georgette Fadel (SP) a encenarem o mesmo texto recentemente. Importa o como contar, o raciocino instantâneo do sujeito pensante e falante. A tradução de Célia Euvaldo faz jorrar o verbo com a voragem de origem.

A encenação de Guedes valoriza a espiral fonética no bojo de uma instalação configurada como um beco, em que está postado um banco, sobre o qual senta-se Kfouri, mãos nos joelhos, pés descalços esparramados no chão varrido pelas imagens projetadas e concebidas pela artista plástica Helena Trindade, uma espécie de ciclorama às avessas.

Esse fluxo narrativo vertiginoso plasma as noções de morte e nascimento, na vida e nos encontros, sob o ritmo da partitura vocal. A performance abarca o espasmo, o desgosto íntimo, a aporia, a relutância sentimental, o ensimesmamento. Ana Kfouri usufrui a sabedoria de tocar couraças com o domínio técnico que deixa entreouvir e entrever a emoção e a dor que atravessam por meio da fala.

O jornalista viajou a convite da organização do Solus – Encontro de Solos Verbais e Não Verbais, de Ipatinga (MG)

Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, em 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos no campo teatral. Colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutorando em artes cênicas pela Universidade de São Paulo, onde cursou mestrado na mesma área.

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