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Resenha

Abdias Nascimento: Missão e Legado na encruzilhada da história

22.1.2022  |  por Juarez Tadeu de Paula Xavier

Foto de capa: Elisa Larkin Nascimento

Ele nasceu na cidade de Franca (SP), a 399,9 km da capital, em 14 de março de 1914.

Transdisciplinar, foi poeta, ator, escritor, dramaturgo, artista plástico, ativista político, panafricanista, professor universitário emérito (University at Buffalo – The State University of New York), Doutor honoris causa (Universidade Federal da Bahia, Universidade de Brasília, Universidade do Estado da Bahia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro e University Obafemi Awolowo), exilado político (1968-1978), deputado federal (1983-1987) e senador da República (1997-1999).

Pensador irrequieto, formulou estratégias para o enfrentamento sistêmico ao racismo (sistêmico e estrutural), discriminação racial e preconceito, ampliou o escopo de abordagem da cultura negra brasileira, teorizou sobre a experiência quilombola no país, fundou o Teatro Experimental do Negro (TEN), o Museu de Arte Negra (MAN), o Ipeafro – Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, e é cofundador do Partido Democrático Trabalhista (PDT).

Denunciou o genocídio do negro brasileiro, pautando o tema na agenda política nacional, e no Congresso, nas duas câmaras, inventou o protótipo do congressista negro interseccional, com os pés no barro das lutas políticas dos movimentos negros, em todas as suas frentes de batalhas, e a cabeça sincronizada com as ações panafricanistas, para a compreensão da realidade nacional e das relações raciais no Brasil.

A vida de Abdias Nascimento atravessa o ‘breve século 20’. Ela cruza com a história política da luta antirracista no Brasil. Como intérprete desses tempos, Abdias, na dimensão pessoal e, sobretudo, na política pública, traduziu as aspirações do movimento social antirracista, foi ativista em sintonia com a experiência social, defendeu as políticas que afirmaram a humanidade negra e, dado essencial, viveu intensa e integralmente nessa encruzilhada de histórias de revisão, criação e projeção no enfretamento ao racismo, como se vê nas memórias sobre o seu legado político, retroalimentado pelas e pelos ativistas negras e negros nas câmaras municipais, assembleias legislativas, na Câmara Federal e no Senado, como denotam as ‘rodas de conversa’ ao final do livro com Benedita da Silva, Erica Malunguinho, Talíria Petrone e Paulo Paim, parlamentares expoentes da tribuna contemporânea

A sua trajetória é enciclopédica! Recém-lançado pela Editora Perspectiva e
Ipeafro, Abdias Nascimento, a luta na política, de Elisa Larkin Nascimento, recupera um fragmento dessa biblioteca em forma de gente, com o registro do cruzamento da história política nacional pela afirmação das suas raízes africanas e a história pessoal de um incansável tribuno exúnico (Laroyê!) pela afirmação da humanidade negra, tão degradada pela escravização e o racismo.

Tive a oportunidade de encontrá-lo em dois eventos políticos/acadêmicos, e impressionei-me com a potência da retórica e a argumentação pedagógica do pronunciamento. A primeira vez foi no 3º Congresso da Cultura Negra das Américas, em 1982, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), na condição de calouro. E a segunda, no Encontro das Entidades Negras das Américas, em 1995, no Parlamento do Memorial da América Latina, na condição de membro da Executiva Nacional de Entidades Negras.

Ao ler a obra de Elisa sobre a Missão e o Legado desse multiperformático ativista, cristalizou-se a percepção de que a luta antirracista pós-abolicionista, que se estende até o século 21, cruza com a luta pessoal das referências políticas negras brasileiras, como Abdias, forjada pela segregação institucional genocida.

Nascido na década de 1910, 26 anos pós-abolição, Abdias Nascimento herda todas as pré-condições históricas do racismo moderno brasileiro: a escravização negra e o genocídio indígena, base da descartabilidade humana desses segmentos sociais; a subcidadania que determina as condições de vida e morte da maioria da população não branca brasileira; e a reprodução da lógica da “casa grande & senzala”, que aparta pretos e pardos do estado “democrático de direito e dos direitos humanos” nas imensas periferias do país.

A elite nacional alimenta o sonho eugenista de uma nação branca, com a “política pública” racista adotada entre 1870 e 1930, defendida em fóruns nacionais e internacionais, como ratificou o médico e antropólogo João Baptista de Lacerda, em 1911, no Congresso Universal das Raças, em Londres, que profetizou a eliminação das presenças física e cultural da população negra em cem anos. Esse foi o Brasil herdado por Abdias.

A luta contra esse “espólio” na imprensa negra, no movimento social negro, na experiência com o racismo na curta passagem pela Ação Integralista Brasileira (1936-1937), na militância no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), por duas décadas (1945-1965), no Teatro Experimental do Negro (TEN, 1944-1961), na docência na Universidade Estadual de Nova Iorque, em Buffalo, na Escola de Arte Dramática da Universidade de Yale e no Departamento de Línguas e Literaturas Africanas da Universidade de Ifé, na Nigéria, no período de exílio (1968-1978), deram os elementos para que Abdias Nascimento forjasse os mandatos no Congresso Nacional como “ferramenta” política do movimento negro, “a serviço da causa maior que o motivava: os direitos humanos e civis da população negra”, na luta contra o racismo, como observa Elisa.

No retorno do exílio, Abdias Nascimento encontra o país na eminência de um ponto de inflexão histórico provocado pelo movimento negro: a fundação do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial (MNUCDR, depois apenas MNU), em 7 de julho de 1978, nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo, na confluência da discriminação de quatro jovens atletas negros no Clube de Regatas Tietê e a prisão, tortura e morte de Robison Silveira da Luz por policiais, acusado de roubo de frutas numa feira livre.

O ato inaugura a fase moderna do movimento social de negras e negros e desenha as métricas políticas da luta antirracista, em novo cenário internacional: final das lutas pela descolonização de África; internacionalização da luta contra o apartheid na África do Sul; e a emergência radical do Partidos dos Panteras Negras nos Estados Unidos da América, nos de 1960.

A manifestação do MNUCDR traz os traços embrionários desses eventos: o caráter internacional da luta antirracista, a natureza sistêmica e estrutural do racismo e a necessidade de políticas públicas para a superação do supremacismo racial branco reprodutor das desigualdades.

Marcelo Faustini O livro ‘Abdias Nascimento, a luta na política’, de Elisa Larkin Nascimento, diretora do Ipeafro – Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, parceiro da Editora Perspectiva na publicação, centra na atuação do escritor, artista plástico e dramaturgo no Congresso Nacional, nos anos 1980, em que acreditava ser necessário pôr em pauta as questões raciais e implementar políticas públicas de reparação

No período da democratização pós-ditadura civil-militar (1964-1985), o movimento social negro compreende a magnitude do racismo institucional, e suas implicações nas relações econômicas com a concentração de renda no topo da pirâmide; nas relações culturais, em particular no sistema educacional com reprodução de valores supremacistas na abordagem histórica e no material didático, em especial em relação às matrizes ancestrais africanas; nas relações sociais que se materializam no território dos círculos de privilégios versus círculos de vulnerabilidades; e nas relações políticas com a consolidação da ausência negra em áreas de visibilidade e de poder político. Torna-se essencial a eleição de congressistas comprometidas e comprometidos com essa agenda. E o deputado federal Abdias Nascimento, do Partido Democrático Trabalhista do Rio de Janeiro (PDT-Rio), cumpriu essa função. E muito mais!

Na sua atuação congressual, “Abdias Nascimento se dedicava a um trabalho didático, informando seus colegas acerca da história e vida da população negra e realçando o protagonismo dos descendentes de africanos, desde o início da colonização do Brasil, à frente de quilombos, insurreições e movimentos sociais e como principais responsáveis pela construção da Nação”, acentua Elisa.

Abdias desenhou o tipo ideal do congressista negro na década de 1980.

Entre o final do mandato de deputado federal e o retorno ao Congresso em 1997, ele teve atuação em sintonia fina com o movimento social de negras e negros, em instâncias partidárias, institucionais e em fóruns nacionais e internacionais; com a agenda da criminalização do racismo e a elaboração de políticas públicas “compensatórias” para a superação das desigualdades raciais, no Centenário da Abolição e nos debates da Assembleia Nacional Constituinte, em 1988; na denúncia do genocídio da população negra e na produção de dados e informações sobre racismo; no Tricentenário de Rememorização de Zumbi dos Palmares, em 1995; e na participação política da preparação da III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, promovida pela ONU, em 2001, em Durban, na África do Sul.

A vida de Abdias Nascimento atravessa o “breve século 20”.

Ela cruza com a história política da luta antirracista no Brasil. Como intérprete desses tempos, Abdias, na dimensão pessoal e, sobretudo, na política pública, traduziu as aspirações do movimento social antirracista, foi ativista em sintonia com a experiência social, defendeu as políticas que afirmaram a humanidade negra e, dado essencial, viveu intensa e integralmente nessa encruzilhada de histórias de revisão, criação e projeção no enfretamento ao racismo, como se vê nas memórias sobre o seu legado político, retroalimentado pelas e pelos ativistas negras e negros nas câmaras municipais, assembleias legislativas, na Câmara Federal e no Senado, como denotam as “rodas de conversa” ao final do livro com Benedita da Silva, Erica Malunguinho, Talíria Petrone e Paulo Paim, parlamentares expoentes da tribuna contemporânea.

Sem dúvida, um baita Legado!

Trecho do livro:

Os orixás de Abdias Nascimento invadiram o Salão Negro do Congresso Nacional a convite do presidente do Senado Antônio Carlos Magalhães, em exposição que criou naquele ambiente a explosão de cores e economia de formas características da arte africana que inspirou a vanguarda artística da Europa quando deparou com elas no final do século XIX. O patriarca baiano pensava homenagear a religiosidade de seu estado, mas não esperava a polêmica criada pela imprensa, que no meio de 53 telas só conseguiu enxergar duas: uma intitulada Opachorô, o falus cosmogônico e a outra que se chama Xangô crucificado ou O martírio de Malcolm X. Nesta, o militante afro-americano, identificado com o orixá da justiça, é representado nu, pregado a uma cruz. A criação artística de Abdias Nascimento não cabia nos padrões de uma moral hipócrita, supostamente cristã, capaz de condenar a nudez e silenciar-se diante da miséria de milhões e do assassinato sistemático de crianças e adolescentes. A imprensa não compreendeu o significado da mostra. Ao ver algo implicitamente escandaloso na religiosidade de matriz africana evocada naquelas telas, ela participou da própria intolerância que o senador Abdias Nascimento denunciava. Avesso à publicidade negativa, o senador Antônio Carlos Magalhães, que antes apoiaria com entusiasmo a iniciativa, se calou e recuou. Ou seja, ele também não compreendeu.

(Páginas 141 e 140)

Serviço:

Abdias Nascimento: a luta na política

De Elisa Larkin Nascimento

Editora Perspectiva, coleção Debates, e
Ipeafro – Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros

240 páginas

R$ 49,90

Reprodução/Foto de capa Bia Parreiras

Jornalista, mestre e doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina, o Prolam-USP, no eixo comunicação e cultura. Docente da Universidade Estadual Paulista, a Unesp, nas áreas de graduação e pós-graduação. Coordenador do grupo de pesquisa Núcleo de Estudos e Observação em Economia Criativa - NeoCriativa: mídias, artes, tecnologias e relações interseccionais. Membro da comissão de heteroidentificação para ingressantes pelo sistema de reserva de vagas e pesquisador do Núcleo Negro Unesp para Pesquisa e Extensão - NUPE.

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