Crítica
Em sua segunda sessão, ainda como trabalho em processo, Submersa expõe complexidades de conteúdo e abordagem dignos de nota. O solo em dança-teatro apresenta uma intérprete criadora segura, Maria Cloenes, quanto ao que deseja falar. A saber, evocar reminiscências das enchentes na infância. São episódios de calamidade que a marcaram por aprender, desde cedo, a contornar as instabilidades do existir, outrora causadas pelas águas das chuvas que faziam transbordar o rio vizinho e invadiam sua casa.

Maria Cloenes escala imóvel em imagem da infância
Na abertura do espetáculo, sob direção de Marcos Nauer, a bailarina Cloenes surge no plano baixo, arrastando-se como uma borboleta saindo de seu casulo, um vestido de noiva ou afins. O rastejar não demora, e ela já escala uma estante de prateleiras vazadas. Tal objetivo aparentemente invasivo na cena despojada, acaba revelando-se orgânico ao contribuir para a leitura do que se passa dentro de uma casa inundada: suspender os móveis e, imaginariamente ou era assim com sua família, escalar os mais resistentes até o limite do teto.
As ações e movimentos gravitam em torno dessa estante. Cloenes galga cada prateleira, enganchando-se parcimoniosamente e suscitando, em vários momentos, a possibilidade de queda. A cada prateleira, ela passa para a seguinte os objetos remanescentes, tentando salvar a si e o pouco que a água não engoliu.

Bailarina faz recortes sobre instabilidades do existir
Quando atinge o topo do totem cenográfico, a bailarina fica em pé e amplia o suspense com o seu equilíbrio. Nesse rito de ascensão, do chão ao céu, seu figurino é descamado, um vestido atrás do outro, panos vindo abaixo a cada passo ou estação de sua subida, denotando a transformação da menina em mulher. A escalada intuída como evolução e negociação permanentes de uma guerreira.
Os traços mestiços de Maria Cloenes, o colorido dos figurinos, a delicadeza dos objetos e a atmosfera ritualística levam a referências sobre o realismo fantástico característico da literatura latino-americana. Submersa remete às mulheres da Macondo imaginária de Gabriel García Márquez, a cidade onde chove por cinco anos em Cem anos de solidão. A liberdade com que os criadores do espetáculo se apropriam dessa memória de infância tem a ver com essa disponibilidade poética ao se deixar contaminar entre as linguagens da dança e do teatro.
O jornalista viajou a convite da organização do Solus – Encontro de Solos Verbais e Não Verbais, de Ipatinga (MG)
Crítico e repórter no site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Publicou em periódicos como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes (SP). Autor de livros ou capítulos afeitos à memória e à história do campo teatral. Formado em Comunicação Social, habilitação jornalismo. Cursou doutorado e mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da USP, com pesquisas em crítica e teatro de grupo, e especialização em jornalismo cultural pela PUC-SP. Colabora em curadorias, consultorias ou comissões para mostras e festivais em iniciativas públicas e privadas, bem como elabora textos para enciclopédias e catálogos. Fez parte da fase amadora do Grupo Pombas Urbanas, no bairro de São Miguel Paulista.