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Resenha

Prólogo

“Não vão nos matar agora”, diz Jota Mombaça, “apesar de que já nos matam”.

“A gente combinamos de não morrer”, fala Dorvi, rapaz da quebrada, personagem de Conceição Evaristo em Olhos d’água (Pallas, 2014), sobre o pacto feito com os companheiros. “Morremos nós, apesar de que a gente combinamos de não morrer”.

“Não vão nos matar agora porque ainda estamos aqui”, reafirma Mombaça.

“Eu sei que não morrer nem sempre é viver. Deve haver outros caminhos, saídas mais amenas”, fala Bica, companheira de Dorvi, mãe de um menino ainda bebê, no conto de Conceição Evaristo.

“Para nós, não basta apenas sobreviver, mancando, fazendo tudo como sempre enquanto as coisas pioram cada vez mais”, escreve a jovem Lauren Oya Olamina, personagem de Octavia E. Butler em A parábola do semeador (Morro Branco, 2018), habitante de um bairro murado em uma cidade, um estado e um país destruídos pela violência, “então pode ser que um dia nos tornemos fracos demais – pobres demais, famintos demais – para nos defender. E então, seremos eliminados.”

“A gente combinamos de não morrer”, repete Dorvi.

“Se não nos salvarmos, estaremos mortos. Agora, use sua imaginação”, diz Lauren Olamina. “Até mesmo um pouco de ficção pode ser útil.”

“Lá, aqui, onde fomos assassinadas, e nos tornamos mais velhas que a morte, mais mortas que mortas”, responde Mombaça, “fecundamos a vida mais-do-que-viva, a vida emaranhada nas coisas. Não vão nos matar agora!”

Em ‘Ñ ṽ nos matar agora’,  artista e ensaísta potiguar Jota Mombaça escreve os textos do livro para ‘politizar a ferida’, fabular outros futuros e ‘nomear a norma’. Escreve também para nós, brancas e brancos, a fim de que confrontemos nossos privilégios, reconhecendo que é preciso, sim, ‘perder espaço’, ‘perder visibilidade’, ‘perder a voz’, como assinala Mombaça, para que nos reposicionemos ‘fora da dominância’

Tensionar a ficção brasilis

Já se anunciaram o fim da arte, o fim da história, o fim do mundo (nunca o fim do capitalismo, como nos alertava o filósofo inglês Mark Fisher[1]), mas tudo isso sempre nos termos e nos modos de um saber dito universal. Ou seja, refizeram-se as narrativas; apontaram-se as insuficiências, os embates e os impasses do sistema; ajustes foram realizados e até se assimilaram as críticas, reabsorvidas sob a forma de medidas benevolentes. No entanto, a estrutura de sustentação do regime de verdade vigente nunca foi de fato desmontada, abolida ou destruída. Assim, para uma parcela significativa da população mundial ─ parcela esta subalternizada pelo colonialismo, pela racialização e pelo capitalismo, bem como marginalizada nas dinâmicas de produção de conhecimento ─, ainda não houve um “começo” da arte, da história e do mundo. Comunidades tradicionais, povos originários e grupos minorizados continuam sendo alvos da violência simbólica e material perpetrada por diversas instâncias na cena pública e têm sua existência moldada pelo terror. Lutam, portanto, para permanecer vivos; que seja o fim das desigualdades e não o deles.

Em Ñ ṽ nos matar agora (Cobogó, 2021), a artista e ensaísta potiguar Jota Mombaça convoca essas “vidas negativadas” e esses “corpos estilhaçados” a viver, apesar de tudo. Mombaça ─ “bicha não binária, nascida e criada no nordeste do Brasil”, pesquisadora das relações entre monstruosidade e humanidade, dos estudos queer e da colonialidade, cidadã em trânsito entre Lisboa e Amsterdã, onde atualmente reside ─ escreve os textos do livro para “politizar a ferida”, fabular outros futuros e “nomear a norma”. Escreve também para nós, brancas e brancos, a fim de que confrontemos nossos privilégios, reconhecendo que é preciso, sim, “perder espaço”, “perder visibilidade”, “perder a voz”, como assinala Mombaça, para que nos reposicionemos “fora da dominância”. Romper com o binarismo subalternidade-dominância significa promover um deslocamento completo de corpos, subjetividades e vidas longe desse sistema.

“Este livro foi feito como uma barricada, para roubar tempo. É uma compilação de críticas e de pistas”, anuncia Jota Mombaça. A obra começa e termina com cartas. A primeira escrita pela autora e destinada “às que vivem e vibram apesar do Brasil”, um país com altas taxas de feminicídio, estupros e assassinatos de pessoas trans, negras e indígenas. “O Brasil, essa ficção colonizada recolonial, submissa ao imperialismo e imperialista, dominada e dominante, nunca serviu de fato ao propósito das lutas contínuas por liberação do território e dos corpos subjugados em sua reconstrução”, afirma a artista.

De acordo com a ONG Transgender Europe (TGEU, na sigla em inglês), o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo há pelo menos treze anos. Só em 2021 foram assassinadas 140 pessoas trans no país, sendo 135 travestis e mulheres transexuais e 5 homens trans e pessoas transmasculinas, informa o dossiê elaborado pela pesquisadora Bruna Benevides, da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Além disso, em 2021, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a cada sete horas, uma mulher foi vítima de feminicídio e, a cada dez minutos, uma menina ou mulher sofreu estupro, considerando apenas os casos que chegaram até as instâncias policiais.

O racismo estrutural no Brasil também permanece escancarado nos dados do Atlas da Violência: a maior parte das vítimas da violência letal são negras; como evidenciam os últimos informes, o risco de uma pessoa negra ser vítima de homicídio é 2,6 vezes maior do que o de uma branca. E a violência contra os povos indígenas e seus territórios só têm aumentado; segundo o relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) referente a 2020, foram registrados 304 casos de violência, sendo 182 assassinatos. Também houve intensificação das expropriações e invasões de terras indígenas, principalmente por meio do garimpo, incentivadas por posturas questionáveis da Presidência da República.

Sebastian Bolesch Jota Mombaça e Musa Michelle Mattiuzzi durante o processo de ‘2021: Spell to become invisible’ [2021: Feitiço para ser invisível], obra cujo detalhe inspira a imagem da capa do livro lançado pela Cobogó

Diante da brutalidade do contexto brasileiro (mas não só), Jota Mombaça propõe um “aqui”: um aqui, “onde a vida infinita já não assusta” e todas aquelas vidas impossíveis importam. “Aqui, onde não nos cabe salvar o mundo, o Brasil ou o que quer que seja”. Um aqui onde aconteça “a manifestação misteriosa da existência do que não existe” – um mundo que permita viver outramente[2]. Sim: é preciso que, para além da retórica acadêmica ou ideológica, ocorra de fato o fim deste mundo, desta história, desta arte cujas estruturas perpetuam hierarquizações, privilégios, opressões, exclusões e extermínios. “Não vão nos matar agora!”, exclama Mombaça, uma vez mais.

O texto que encerra a obra a modo de posfácio, “Carta à escritora de vidas infinitas”, é assinado pela artista e pesquisadora Cíntia Guedes. Ela logo comenta que, ao rascunhar sua carta, pensou no impacto das palavras de Jota Mombaça na “ficção brasilis” ao expor os “limites dos projetos românticos de libertação de uma esquerda que se sustenta nas mesmas lógicas de dominação que afirma querer minar”. Quando a agência de um projeto dito revolucionário permanece exclusiva de um segmento social, não há rupturas de fato, apenas rearranjos[3]. A importância da arte e dos escritos de Mombaça, diz Cíntia, está na “articulação dos movimentos sensíveis, teóricos e poiéticos[4] que não se encerram no desejo de Ser, mas transbordam e transtornam o movimento de tornar-se”. A escolha de palavras não podia ser mais precisa, em especial dos verbos: transbordar, transtornar, tornar-se. Afinal, o livro conclama a um exercício de imaginação radical, em dimensões visíveis e invisíveis. Só assim, diz Cíntia, nos espalharemos “entre a vida das pedras e das estrelas”.

Chamado à greve ontológica

Os demais ensaios que compõem o livro ─ são 11 ─ tratam de temas que atravessam e tensionam as contradições do campo institucional da arte, sempre sob uma perspectiva crítica à hegemonia do discurso normativo branco. Mombaça ressalta, em mais de um momento, uma das feridas mais profundas das sociedades marcadas pela colonização: a assimetria de posições no espectro político. Mesmo no âmbito progressista, a abertura de espaços à produção de grupos subalternizados, a articulação de programas e o financiamento de projetos se mantêm vinculados a um sistema hierarquizado, com recorte de raça e classe evidentes, fomentado pelas alianças de sempre. A inscrição de pessoas fora da normatividade branca, cis e burguesa nesses espaços geralmente se dá pelo marco da própria subalternidade (o “ser negro/a”, “ser periférico/a”, “ser trans” etc.) e menos pela produção artística em si.

Mombaça diz que as subjetividades pretas, indígenas e não normativas aparecem muitas vezes nos circuitos da arte e da intelectualidade ─ mesmo naqueles preocupados com as ditas políticas da diversidade ─ “na forma de valor roubado”, como resultado de uma “extorsão ontológica”, um “extrativismo amigável”: mercadorias críticas para consumo de audiências brancas e ricas, exibidas como sinal de responsabilidade social e inclusão. Isso, porém, às custas da exaustão e da precariedade, típicas do tempo capitalista, “dada a nossa inscrição contingente em estruturas que foram primeiramente construídas contra nós, e que agora estão no processo de atualização para ‘incluir’ desigualmente aquelas de nós que estiveram trabalhando como se corressem”. Daí a proposta de Mombaça para uma “greve ontológica”: destruir o maquinário colonial-capitalista de produção de obras do poder e refundar os sentidos, sem qualquer possibilidade de retorno ou restituição de coesão ao corpo social.

A autora articula outras ideias importantes, a exemplo do conceito de lugar de fala. Quando os ativismos do lugar de fala instalaram-se na cena político-artística-intelectual brasileira, muitas e muitos logo recorreram aos argumentos da “morte da representação” na arte e do “silenciamento” no debate público a fim de justificar seus posicionamentos contrários ─ sem antes colocar em xeque, contudo, o regime hegemônico de autorização discursiva, que permite que uns (aqueles que mais se aproximam política e enunciativamente do sujeito tido como universal) possam falar por si e por todos sem serem interrompidos.

Quais são as dinâmicas que perpetuam a hegemonia de certas vozes em detrimento de tantas outras? Como se organizam os regimes de fala, inteligibilidade e escuta política que pautam os espaços de expressão individual e coletiva? “Assim, quando os ativismos do lugar de fala desautorizam, eles estão, em última instância, desautorizando a matriz de autoridade que construiu o mundo como evento epistemicida; e estão também desautorizando a ficção segundo a qual partimos todas de uma posição comum de acesso à fala e à escuta”, escreve Jota Mombaça. “Portanto, a discussão não é sobre ‘quem’, mas sobre ‘como’.”

A autora questiona o uso apressado do conceito de identidade e alerta para o perigo da essencialização identitária, que tenta normalizar e normatizar as narrativas do corpo e sua experiência política. Segundo Mombaça, a maior parte dos ativismos do lugar de fala não busca evidenciar uma identidade, mas sim uma posição, uma certa forma de estar inscrita/inscrito no contexto político-enunciativo. Daí a importância dos saberes situados, categoria que permite tornar narráveis as experiências subalternas, marginalizadas e oprimidas e valorizá-las como modos de conhecimento.

Divulgação Sementes-ideias da impressionante obra da estadunidense Octavia E. Butler (1947-2006) reverberam nas páginas de ‘Ñ ṽ nos matar agora’; afinal, as “vidas negativadas” e os “corpos estilhaçados” da distopia brasilis estão sob ameaças e cerco constantes há muito tempo, em um país em estado de exceção naturalizado

Por um pessimismo propositivo

Nos textos de Ñ ṽ nos matar agora, Mombaça estabelece interlocuções diversas. Uma das mais presentes é com a produção literária da escritora estadunidense Octavia E. Butler (1947-2006), autora de ficção especulativa cujas obras já antecipam elementos do afrofuturismo, movimento criado na década de 1990 com ênfase na produção negra sobre o porvir a partir de temáticas da própria negritude. Há, ao longo do livro de Mombaça, vários diálogos com Lauren Olamina, personagem central da duologia Semente da Terra, composta pelos volumes A parábola do semeador e A parábola dos talentos, publicados no Brasil pela editora Morro Branco.

No início da saga, Olamina está com 15 anos de idade e vive em um bairro murado, constantemente ameaçado pela barbárie que assola o lado de fora, numa cidade em frangalhos da Califórnia, nos Estados Unidos. O país está literalmente em chamas, afundado no caos e sob uma violência contínua; o ano é 2024. Intuitiva e perspicaz, Olamina constata que não há futuro possível nos termos da vida que conhece; ou se mantém confinada no bairro murado, reagindo a possíveis ataques e temendo uma invasão que pode ser fatal, ou arrisca criar o próprio destino, a despeito de todos os perigos reais e imaginados. O tempo cronológico passa, e a sensação é cada vez mais opressiva. Enquanto partilha sua inquietude e seu cotidiano no diário que escreve, Olamina também anota elucubrações sobre Deus ─ epifanias radicais que ela vai cultivando dentro de si. Ou, como diz Jota Mombaça, uma “teologia experimental” fundamentada na crença de que Deus é mudança e pode ser moldado a fim de que se molde também o destino humano.

A experiência de futuro criada por Octavia E. Butler por meio de Olamina conjuga um pessimismo propositivo ─ não imobilizador ─ e um otimismo sem esperança, isto é, uma crença em um possível não necessariamente melhor, mas efetivamente realizável. Por conta da dependência química da mãe durante a gravidez, Olamina adquiriu a “síndrome da hiperempatia”, ou seja, ela compartilha a dor e o prazer que identifica no outro ─ dores e prazeres não necessariamente reais, mas antecipados ─, o que a coloca numa posição de vulnerabilidade constante. Talvez por isso ela não acredite em milagres ou em um Deus abstrato, mas sim na ação, na práxis, na intervenção direta na realidade. “Precisamos nos preparar. É o que temos que fazer agora. Precisamos nos preparar para o que vai acontecer, nos preparar para sobreviver a isso, para construir uma vida depois”, afirma a personagem, em certo momento, à amiga Joanne.

Sementes-ideias da impressionante obra de Octavia E. Butler reverberam nas páginas de Ñ ṽ nos matar agora. Afinal, as “vidas negativadas” e os “corpos estilhaçados” da distopia brasilis estão sob ameaças e cerco constantes há muito tempo, em um país em estado de exceção naturalizado. A chaga colonial permanece aberta e purulenta, ditando dinâmicas de acesso e oportunidades à cena pública e à cena artística. Por isso, de acordo com Mombaça, é preciso identificar as forças em jogo no aqui e agora, driblando os mecanismos de captura “de nossa imaginação visionária pelas forças reativas do mundo contra o qual lutamos”, para que possamos disputar o mundo por vir.

O porvir não brotará da reconstrução das ruínas do hoje. Assim, faz-se necessário esgotar as dinâmicas existentes, refazer as cartografias da catástrofe e recusar o “apocalipse universal”, que destrói a realidade mas não a hierarquia subjacente. Empreender a fuga, porque o dano é irreparável e a existência, incompatível com as saídas oferecidas. “Depois de ser esquartejado, um corpo jamais retorna a seu estado íntegro”, escreve Mombaça no texto destinado à artista e mestra em psicologia Castiel Vitorino Brasileiro, também sob a forma de carta. “Jamais fomos humanas e por isso podemos ser flor e merda sagradas.” Por essa razão, as ruínas não interessam, mas sim as profecias que habitam as imagens, os feitiços, os testemunhos, as memórias do futuro.

Urge habitar outras temporalidades e criar outras ficções, narrativas que potencializem formas distintas de existência, corporalidade, coletividade e luta. No texto-performance “O nascimento de Urana” ─ um diálogo tácito com Paul B. Preciado e seu Um apartamento em Urano: crônicas da travessia (Zahar, 2020) ─, Jota Mombaça experimenta tal fabulação revendo seu escape da “masculinidade compulsória” imposta pelo “fundamentalismo cisgênero” e sua transformação em potência, em um mundo outro, longe do CISTEMA.

Direito à opacidade e ao segredo

Devemos, portanto, confrontar e desmontar as ficções de poder que sustentam o monopólio da violência (“uma atualização perpétua da injustiça como fantasia de controle”) e produzem a realidade orientada pelos ideais de “avanço, progresso ou destino incontornáveis” na qual vivemos. Jota Mombaça, que também performa a Monstra Errática e a MC Katrina, tem apostado na força e no caráter disruptivo das imaginações visionárias e divergentes. Daí sua aproximação ao pensamento da socióloga e artista visual Denise Ferreira da Silva, diretora e professora titular do Instituto de Justiça Social da University of British Columbia, no Canadá, para quem a imaginação é uma capacidade criativa radical para estabelecer, em um exercício de poética negra feminista, o “fim do mundo como o conhecemos”[5] (o Mundo Ordenado, organizado em torno da violência racial).

Divulgação O pensamento da socióloga e artista visual carioca Denise Ferreira da Silva, diretora e professora titular do Instituto de Justiça Social da University of British Columbia, no Canadá, está no bojo do trabalho de Mombaça: diálogo com uma tradição radical de pensamento negro que passa por leituras e estudos de obras de outras brasileiras como Leda Maria Martins, Stela do Patrocínio e Conceição Evaristo, além de estadunidenses como Octavia E. Butler, Saidiya Hartman, Bob Kaufman e Fred Moten

Em entrevista ao curador suíço Hans Ulrich Obrist[6], Mombaça reafirma seu interesse por uma tradição radical de pensamento negro, que passa por leituras e estudos de obras das brasileiras Leda Maria Martins, Stela do Patrocínio, Conceição Evaristo[7] e a já mencionada Silva, além de estadunidenses como Octavia E. Butler, Saidiya Hartman, Bob Kaufman e Fred Moten, para citar alguns. Além da prática de uma escrita especulativa, a artista tem experimentado também o conceito/dispositivo da opacidade. “Sou supercrítica das novas formas de extrativismo que são viabilizadas pelo mundo da arte, por esse mercado neoliberal que tenta lucrar com a diferença, explorando precisamente a transparência e traduzibilidade dessas diferenças”, afirma Mombaça a Obrist. “Acredito que o direito à opacidade é uma reivindicação que se opõe a esses modos de extração, porque traz à tona a potência do segredo.”

Esse posicionamento fica evidente ao longo da leitura de Ñ ṽ nos matar agora. A imagem da capa do livro, aliás, traz um detalhe da obra que Mombaça realizou com a artista Musa Michelle Mattiuzzi e integrou a 34ª Bienal Internacional de São Paulo, 2021: Spell to become invisible [2021: Feitiço para ser invisível] (2019), fruto de um processo em três etapas: a sessão de estudos, leituras e escrita; o momento público de atuar sobre o papel em branco e registrar as ideias; e, por fim, a rasura performática daquilo que foi escrito momentos antes. “Nesse trabalho, a gente afirma a opacidade e invisibilidade como mecanismos de proteção. Porque tanto eu quanto a Musa, embora de gerações diferentes, fomos inscritas por uma tradição de performance muito baseada no princípio da exposição – trabalhamos com nudez, fluidos corporais, processos traumáticos, com nossas feridas”, conta Mombaça na entrevista.

No livro, nas performances, nas residências artísticas ou nos laboratórios criativos que conduz, Mombaça reafirma sua presença e seu corpo – um corpo contra ele mesmo, contra o mundo, contra o tempo do progresso, contra o texto, como se estivesse sob uma convulsão disruptiva, entre o som e a fúria. Ela se torna personagem da narrativa ficcional “Veio o tempo em que por todos os lados as luzes desta época foram acendidas” (que tensiona, curiosamente, o trabalho Atravessar a grande noite sem acender as luzes, apresentado na Bienal de São Paulo e no Centro Cultural São Paulo[ em 2021), para colocar em movimento uma história de resistência. “Somos zumbis porque, a rigor, não estamos nem vivas nem mortas, mas também porque descendemos do guerreiro Zumbi dos Palmares”, escreve. E numa longa travessia de fuga, sedimentando caminhos impossíveis em túneis subterrâneos durante a aproximação do apocalipse, elas ─ as zumbis, as mortas-vivas ─ desencadeiam um terremoto fortíssimo no “mundo deles”. Finalmente vem à luz a execrável mentira do corpo errado, da cor de pele errada, da sexualidade equivocada, do lugar errado no mundo, das existências falhas.

Errado está este mundo.

O mundo, como nos foi dado, deve acabar.

.

.

.

“Estávamos vivas.

Nós viveríamos.”


Matadero Madrid – Divulgação Ao lado da escritora Conceição Evaristo, Jota Mombaça (à direita) participa do Laboratório de Ficcíon Visionária, ação que concebeu para o Matadero Madrid, em 2019, centro espanhol de criação contemporânea

[1] Autor de Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? (Autonomia Literária, 2020), sobre a estrutura ideológica que tem pautado a produção cultural contemporânea.

[2] Termo também usado pela socióloga e artista Denise Ferreira da Silva, uma das referências de Mombaça.

[3] Recordo-me aqui do livro O 18 de brumário de Luís Bonaparte (Boitempo, 2011), de Karl Marx, em que o autor discute que, para abolir o sistema de opressão, não basta assumir o aparato existente, é preciso desmanchá-lo.

[4] De poiesis: a ação de criar, a obra no ato de fazer.

[5] Em A dívida impagável, publicação disponível no site da Casa do Povo, em São Paulo, Denise Ferreira Silva desenvolve sua proposta teórico-prática. E remete à produção ficcional da escritora Octavia E. Butler, mais especificamente à obra Kindred – Laços de sangue (Morro Branco, 2017). Ver: https://casadopovo.org.br/wp-content/uploads/2020/01/a-divida-impagavel.pdf.

[6] A entrevista, que integra o livro o livro Hans Ulrich Obrist: Entrevistas brasileiras vol. 2 (Cobogó, 2021), também pode ser lida na íntegra no site da Revista Zum: https://revistazum.com.br/radar/obrist-entrevista-jota-mombaca/

[7] Mombaça realizou uma sequência de performances na Casa do Povo, em São Paulo, inspirada no conto “A gente combinamos de não morrer”, do livro Olhos d’água (Pallas, 2014), de Conceição Evaristo.

Reprodução

Serviço:

Ñ ṽ nos matar agora

Jota Mombaça

Cobogó, 2021, coleção Encruzilhada

144 páginas

R$ 26 (até 1º/5/2022) e R$ 52

Resenha

No início, há apenas a voz ─ e essa voz é. Em seguida, a voz escolhe um corpo para habitar: o corpo de uma mulher negra. E esse corpo também é. Assim, em Vaga carne, tanto a peça (2018) de Grace Passô quanto o média-metragem (2019) codirigido por ela e por Ricardo Alves Jr., voz e corpo ora se fundem, ora se confundem, se conformam e se confrontam. Toda uma história se narra nas modulações, nos tons, nos ritmos da voz ─ e em seus silêncios. O íntimo e o coletivo permeiam cada gesto, cada movimento do corpo, cada pequena coreografia ─ e suas pausas. Em sua performance, Passô mobiliza também o invisível e o indizível. Assistimos ao encontro entre voz e corpo no agora da encenação, mas as experiências que ambos carregam não se limitam ao tempo linear ou cronológico. Por fim, o desconcerto: o que vai ser do corpo, daquele corpo, quando a voz se desgrudar dele?

Vaga carne é um dos espetáculos citados pela poeta, ensaísta, dramaturga e professora Leda Maria Martins em Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela (Cobogó, 2021), como exemplo das criações artísticas brasileiras que têm reconfigurado a representação do negro em cena. Trata-se de um repertório crescente de poéticas, que, por meio de ousados procedimentos e elaborações estéticas, afirmam as corporeidades negras como episteme, exercitando uma memória cultural que atualiza acervos cognitivos e performáticos de matrizes africanas e afro-brasileiras. Um aporte urgente e fundamental para a cena teatral (e política) brasileira, que em muitos momentos ainda se revela resignada diante de narrativas desgastadas, modos de produção excludentes ou exclusivistas, estruturas colonialistas e racistas etc.

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