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mestrado

Esta dissertação circunscreve os mecanismos de organização e criação de três grupos teatrais radicados no distrito de Barão Geraldo, Campinas, SP. Os dados são coletados a partir de observações, anotações de campo e entrevistas. Como forma narrativa, procuramos colocar em relevo a subjetividade entredita nos discursos e práticas. Retraçamos o percurso histórico do lugar e dos três grupos eleitos para a análise: o Lume – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais, a Boa Companhia de Teatro e o Barracão Teatro. A partir dessas trajetórias, descortinamos um panorama bastante peculiar do fazer artístico em território de reminiscências rurais,
outrora ocupado por fazendas de café e de cana-de-açúcar, entre os séculos XIX e XX, e convertido à modernidade com a chegada do campus da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), na década de 1960. A maioria dos atores-criadores estuda ou ministra aula no Departamento de Artes Cênicas do Instituto de Artes. Primeiro como laboratório de movimentos corporais, depois como núcleo, o Lume é vinculado à instituição e, após anos de reivindicação, obtém infraestrutura razoável para manter-se. Boa Companhia e Barracão Teatro seguem caminhos independentes, mas seus profissionais também têm a universidade como referência. Os artistas fundam e sistematizam uma rigorosa pesquisa voltada à arte de ator contemplada em diferentes linhagens, como a máscara, o clown e a mimese corpórea. Seus processos transparecem uma deontologia para o ofício que abraçam. Os três grupos possuem sedes localizadas em Vila Santa Isabel. Atualmente, somando outros bairros de Barão Geraldo, existem pelo menos mais 12 coletivos em atividade. Eles sintonizam a crescente produção do Teatro de Grupo no Brasil, a partir dos anos 1990, cuja tônica são os chamados espetáculos experimentais gerados em modo colaborativo e fomentados por políticas culturais que valorizam a cidadania. A contradição evidente dessa cultura de grupo, no distrito, é a extrema dificuldade em cativar o espectador vizinho, os nativos, que também se autoexcluem por associar o teatro à UNICAMP, herança do choque socioeconômico de sua implantação. Isso relativiza a vitória artística e chama aos desafios da vida artística em comunidade.

Abaixo, disponível para download, o mestrado completo, dividido em duas partes.
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 29 de março de 2007

TEATRO
Protagonista de “O Céu de Suely” participa de “As Três Viúvas de Arthur” e de “Angu de Sangue” no Festival de Teatro de Curitiba

Autodidata, atriz começou nos palcos aos 16; na mostra, está em adaptação de contos de Marcelino Freire e em história de Arthur de Azevedo

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Curitiba

Entre as flores recebidas pela estréia da noite anterior e as luzinhas do espelho no camarim do teatro, Hermila Guedes diz à fotógrafa: “De uns tempos para cá, todos me pedem uma postura glamourosa”. É um papel (ou pose) a que a atriz de 26 anos não se submete -pelo menos ainda não, apesar do cenário propício a afetações. 

A antiestrela pernambucana, de longas como “O Céu de Suely” e “Cinema, Aspirinas e Urubus”, sobe ao palco em duas montagens no Festival de Curitiba. Hoje e amanhã, na programação da mostra paralela, no teatro José Maria Santos, ela integra o Coletivo Angu de Teatro com “Angu de Sangue”, adaptação de contos do livro de mesmo nome do conterrâneo Marcelino Freire. 

No início da semana, interpretou no teatro Guairinha uma das protagonistas de “As Três Viúvas de Arthur”, com textos do maranhense Arthur Azevedo (1855-1908), atração da mostra oficial e fruto do projeto O Aprendiz em Cena, do Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas Apolo-Hermilo, de Recife. 

Autodidata
Entre o drama contemporâneo que estreou em 2003 e a comédia clássica de 2005, Guedes diz que vai “aprendendo a fazer teatro”. A formação, autodidata, começou aos 16 anos, quando ela e vizinhos foram incentivados pelo ator veterano João Ferreira a participar de um espetáculo. 

“Tudo o que fiz foi na prática, meio a pulso”, afirma a atriz. “Para crescer como artista, o ideal é trabalhar com gente grande, porque você se esforça para ficar no nível dessas pessoas”, avalia. 

Na roda de “pais e mães amigos”, como diz, estão o próprio Ferreira, a atriz e produtora Lúcia Machado, os diretores Kleber Lourenço (com quem trabalhou em “O Amor por Anexins”, uma das três histórias das “Viúvas” de Azevedo), Marcondes Lima (de “Angu de Sangue”) e os cineastas Karim Aïnouz e Marcelo Gomes. “Sorte não faltou.” 

Em Curitiba, na peça de Azevedo, Hermila Guedes -no papel de uma costureira viúva assediada por um sujeito viciado em provérbios- contracenou com Alfredo Borba, filho do teatrólogo Hermilo Borba Filho (1917-1976), fundador do seminal Teatro do Estudante de Pernambuco (1946-1953). 

O cruzamento de gerações culmina em bom momento para o teatro local, na percepção da atriz. “O movimento de teatro está se renovando em Pernambuco, como aconteceu com a música e o cinema.” 
Num dos contos de “Angu de Sangue” (a escrita de Freire é urgente e atropela vírgulas e pontos para tocar em feridas de miséria e violência), uma criança de seis anos é estuprada e assassinada. Na cena, Guedes entoa um canto dolente “de chorar”. As outras nove narrativas não ficam atrás. 
Sobre futuros textos para teatro, ela ainda não se considera uma pessoa “muito estudiosa e conhecedora de dramaturgia”, mas promete, entre risos, começar a ser. Desvia do “eu” profundo. “Não dá para criar uma personagem de mim mesma. Fiz isso uma fez, no “Céu de Suely”, e está bom, não foi fácil”, afirma. E “viaja”: “Ainda não sou uma pessoa que cria coisas; sou uma criatura dos criadores.” 

Intolerância
O Coletivo Angu também traz para o Fringe “Ópera”, sábado e domingo, no mesmo José Maria Santos, reunião de quatro peças curtas de Newton Moreno (“Assombrações do Recife Velho”), dramaturgo pernambucano radicado em São Paulo. 

Na encenação de Lima, sete atores, entre eles a transexual Maite Schneider, vivem personagens que ora enfrentam a intolerância do outro, ora tentam se afirmar na vida amorosa. 

“O Cão”, por exemplo, narra as desventuras de um cachorro gay e os reflexos sobre a família de seu dono quando a condição vem a público. Não demora e tanto o pastor alemão como o vira-lata morrem por envenenamento.


O
jornalista VALMIR SANTOS e a repórter-fotográfica LENISE PINHEIRO viajaram a convite da organização do Festival de Teatro de Curitiba.

16º Festival de Teatro de Curitiba
Quando: de 22/3 a 1/4 
Quanto: R$ 26 (na mostra paralela Fringe, de entrada franca a R$ 24); mais informações: tel. 0/xx/41/ 4063-6290 e www.festivaldeteatro.com.br 

Bravo!

Montagem de “Till, a saga de um herói torto”, retorno do Galpão mineiro ao teatro de rua, 12 anos depois, em 2009, sob bem-sucedida direção de um dos seus atores, Júlio Maciel.

Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda- feira, 04 de maio de 2009

TEATRO
Grupo Yuyachkani abre hoje evento que acontece até domingo no CCSP

Coletivo dá sua versão a passagens históricas no Peru do século 20, em peça de tom documental; o Galpão mostra obra em progresso

VALMIR SANTOS
Colaboração para Folha, em Lima

Alberto Fujimori e o grupo guerrilheiro Sendero Luminoso viraram sinônimos de violência e autoritarismo no Peru contemporâneo. A condenação do ex-presidente a 25 anos de cadeia, no mês passado, e a vitória do filme “La Teta Asustada” (sobre filhas de mulheres estupradas durante o conflito com a guerrilha) no Festival de Berlim deste ano põem a revisão histórica na ordem do dia.
Quem dá a sua versão teatral para essas e outras passagens do século 20 peruano é o Grupo Cultural Yuyachkani, coletivo surgido há 38 anos e batizado com a expressão do idioma quéchua, que significa “estou pensando, estou recordando”.
O Yuyachkani abre hoje a 4ª Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo com seu espetáculo mais recente, “El Último Ensayo” (2008). Durante uma semana, o evento gratuito da Cooperativa Paulista de Teatro reúne, no Centro Cultural São Paulo, 12 produções de seis países, sete nacionais e cinco estrangeiras (veja destaques em quadro nesta página).
No enredo, sete artistas preparam homenagem a uma diva legendária do canto lírico. São cantores, instrumentistas e dançarinos sob a batuta de uma maestrina. Enquanto aguardam, partitura à parte, desfilam idiossincrasias pessoais ou profissionais que terminam por dizer mais a respeito do país onde vivem: a bandeira peruana ziguezagueia o tempo todo em busca de um lugar.
Arte e vida
A ação transcorre num velho teatro, outrora uma sala de cinema. “El Último Ensayo” deseja colocar em xeque noções de representação e de presença. A criação colaborativa dirigida por Miguel Rubio Zapata e escrita por Peter Elmore é alinhada ao teatro documento, que ganha corpo no repertório do grupo nesta década.
Segundo Zapata, a ideia é diluir fronteiras entre arte/vida, ficção/realidade em peças, instalações, performances ou intervenções. Conhecido pelo ativismo na celebração da cultura popular andina, o Yuyachkani desenvolveu ações em várias cidades durante audiências públicas de uma comissão que rastreou 69 mil crimes e violações aos direitos humanos entre 1980 e 2000.
O tom documental é emoldurado em alguns momentos com a projeção de imagens em preto e branco de figuras representativas do poder político. Desfilam Fujimori, George W. Bush, Fidel Castro, Lula etc.
Sob o tema “Tradição e Atualidade”, a mostra traz ainda o uruguaio El Galpón, que completa 60 anos em setembro e monta “Un Hombre Es un Hombre” (2008), texto de Bertolt Brecht, com direção de María Azambuya.
O xará brasileiro Galpão, de Belo Horizonte, que também já montou “Um Homem É Um Homem” (2006), agora compartilha um espetáculo em progresso, previsto para junho, “Till Eulenspiegel” -com texto de Luis Alberto de Abreu e direção de Júlio Maciel.

Alberto Fujimori e o grupo guerrilheiro Sendero Luminoso viraram sinônimos de violência e autoritarismo no Peru contemporâneo. A condenação do ex-presidente a 25 anos de cadeia, no mês passado, e a vitória do filme “La Teta Asustada” (sobre filhas de mulheres estupradas durante o conflito com a guerrilha) no Festival de Berlim deste ano põem a revisão histórica na ordem do dia.

Quem dá a sua versão teatral para essas e outras passagens do século 20 peruano é o Grupo Cultural Yuyachkani, coletivo surgido há 38 anos e batizado com a expressão do idioma quéchua, que significa “estou pensando, estou recordando”.O Yuyachkani abre hoje a 4ª Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo com seu espetáculo mais recente, “El Último Ensayo” (2008). Durante uma semana, o evento gratuito da Cooperativa Paulista de Teatro reúne, no Centro Cultural São Paulo, 12 produções de seis países, sete nacionais e cinco estrangeiras (veja destaques em quadro nesta página).No enredo, sete artistas preparam homenagem a uma diva legendária do canto lírico. São cantores, instrumentistas e dançarinos sob a batuta de uma maestrina. Enquanto aguardam, partitura à parte, desfilam idiossincrasias pessoais ou profissionais que terminam por dizer mais a respeito do país onde vivem: a bandeira peruana ziguezagueia o tempo todo em busca de um lugar.

Arte e vida
A ação transcorre num velho teatro, outrora uma sala de cinema. “El Último Ensayo” deseja colocar em xeque noções de representação e de presença. A criação colaborativa dirigida por Miguel Rubio Zapata e escrita por Peter Elmore é alinhada ao teatro documento, que ganha corpo no repertório do grupo nesta década.

Segundo Zapata, a ideia é diluir fronteiras entre arte/vida, ficção/realidade em peças, instalações, performances ou intervenções. Conhecido pelo ativismo na celebração da cultura popular andina, o Yuyachkani desenvolveu ações em várias cidades durante audiências públicas de uma comissão que rastreou 69 mil crimes e violações aos direitos humanos entre 1980 e 2000.

O tom documental é emoldurado em alguns momentos com a projeção de imagens em preto e branco de figuras representativas do poder político. Desfilam Fujimori, George W. Bush, Fidel Castro, Lula etc.

Sob o tema “Tradição e Atualidade”, a mostra traz ainda o uruguaio El Galpón, que completa 60 anos em setembro e monta “Un Hombre Es un Hombre” (2008), texto de Bertolt Brecht, com direção de María Azambuya.

O xará brasileiro Galpão, de Belo Horizonte, que também já montou “Um Homem É Um Homem” (2006), agora compartilha um espetáculo em progresso, previsto para junho, “Till Eulenspiegel” -com texto de Luis Alberto de Abreu e direção de Júlio Maciel. 

Bravo!

O romance de Drauzio Varella é adaptado para o palco, em 2009, sob direção de Moacir Chaves e contracenação de Regina Braga e Rodolfo Vaz, ator do Galpão.

Bravo!

Celso Frateschi assina direção e, na segunda metade da temporada, também atua na montagem de Tio Vânia, de Anton Tchekhov, em 2008.

 

 

 

Bravo!

Eduardo Tolentino assina montagem do Grupo Tapa para o texto de Luigi Pirandello, em 2008.

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça- feira, 20 de maio de 2008

TEATRO
Cantora luso-brasileira e Kazuo Ohno inspiram espetáculo de teatro-dança que o diretor remonta em SP

Emilie Sugai é dançarina convidada a contracenar com elenco do CPT; no palco, o samba mistura-se à expressão corporal do butô, nô e kabuki 

VALMIR SANTOS 
da reportagem local 

“Você não é do tempo em que todo mundo era obcecado por Carmen Miranda?”, questiona à reportagem Antunes Filho, 78. “Não estou discutindo politicamente se ela foi usada pelo [presidente norte-americano Franklin] Roosevelt ou não, mas apenas usando o mito para compor um poema teatral.”
Antunes guarda, ele mesmo, certa obsessão com a primeira experiência radical de teatro-dança de sua carreira, “Foi Carmen” (2005). O espetáculo teve poucas sessões naquele ano (Japão, Festival de Teatro de Curitiba) e é remontado a partir de hoje no Sesc Anchieta, em São Paulo. “Virou uma obra cult. Isso me assusta um pouco”, diz Antunes. Ele convida o público a transitar por uma profusão de citações entre os mundos ocidental e oriental.
A alusão explícita à atriz e cantora luso-brasileira Carmen Miranda (1909-55), com canções, gestos, figurinos e adereços (samba, em suma), surge junto com referências ao butô, ao nô e ao kabuki, variações de gêneros dramáticos milenares e contemporâneos da dança e do teatro japoneses -luvas para o centenário da imigração.
“Faço uma reflexão sobre o tempo, o espaço, o movimento e as pulsações ocidental e oriental desses elementos em cena”, diz Antunes. A palavra sucumbe à expressão do corpo.
Na origem desse projeto híbrido, repousa uma homenagem ao dançarino japonês Kazuo Ohno, 101, que o diretor conheceu em 1980. A parte final do espetáculo faz um paralelo entre os mitos de Carmen e da bailarina argentina Antonia Mercé y Luque (1890-1936), a quem Ohno dedicou o solo “Admirando la Argentina” (1977), o primeiro que Antunes viu.
Um enredo mínimo dá conta de uma menina (Paula Arruda) que sonha em ser Carmen Miranda. Em outros tempo e espaço, um malandro (Lee Thalor) percorre ruas do Rio e tem uma visão da própria (a dançarina convidada Emilie Sugai), um vulto sempre de costas, “porque ela foi, está morta”, diz Antunes. Há ainda uma passista (por Patrícia Carvalho).
Cinco vezes Antunes
Com “Foi Carmen”, o diretor atinge nesta semana cinco produções em cartaz em São Paulo com elencos mistos do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) e do Grupo de Teatro Macunaíma.
Da série “Prêt-à-Porter”, que faz dez anos, é possível assistir à “Coletânea 1” (ter., às 20h, no Sesc Avenida Paulista, até 24/ 6) e ao “Prêt-à-Porter 9” (sáb., às 18h30, no Sesc Consolação, até 30/8). Seguem ainda “Senhora dos Afogados” (sex. e sáb., às 21h, e dom., às 19h, no Sesc Anchieta, até 27/7) e “O Céu Cinco Minutos Antes da Tempestade”, do círculo de dramaturgia do CPT, coordenado por Antunes (sex., às 21h, no Sesc Consolação, até 25/7). “Falo aos atores: “O CPT é de vocês, não sou eu”. Tenho de descentralizar esse troço. Agora temos base para isso.”
FOI CARMEN
Quando: estréia hoje, às 21h; ter., às 21h; até 29/7
Onde: Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 0/xx/11/3234-3000; classificação: 14 anos)
Quanto: R$ 2,50 a R$ 10

“Você não é do tempo em que todo mundo era obcecado por Carmen Miranda?”, questiona à reportagem Antunes Filho, 78. “Não estou discutindo politicamente se ela foi usada pelo [presidente norte-americano Franklin] Roosevelt ou não, mas apenas usando o mito para compor um poema teatral.” Antunes guarda, ele mesmo, certa obsessão com a primeira experiência radical de teatro-dança de sua carreira, “Foi Carmen” (2005). O espetáculo teve poucas sessões naquele ano (Japão, Festival de Teatro de Curitiba) e é remontado a partir de hoje no Sesc Anchieta, em São Paulo. “Virou uma obra cult. Isso me assusta um pouco”, diz Antunes. Ele convida o público a transitar por uma profusão de citações entre os mundos ocidental e oriental. 

A alusão explícita à atriz e cantora luso-brasileira Carmen Miranda (1909-55), com canções, gestos, figurinos e adereços (samba, em suma), surge junto com referências ao butô, ao nô e ao kabuki, variações de gêneros dramáticos milenares e contemporâneos da dança e do teatro japoneses -luvas para o centenário da imigração. 

“Faço uma reflexão sobre o tempo, o espaço, o movimento e as pulsações ocidental e oriental desses elementos em cena”, diz Antunes. A palavra sucumbe à expressão do corpo. 

Na origem desse projeto híbrido, repousa uma homenagem ao dançarino japonês Kazuo Ohno, 101, que o diretor conheceu em 1980. A parte final do espetáculo faz um paralelo entre os mitos de Carmen e da bailarina argentina Antonia Mercé y Luque (1890-1936), a quem Ohno dedicou o solo “Admirando la Argentina” (1977), o primeiro que Antunes viu. 

Um enredo mínimo dá conta de uma menina (Paula Arruda) que sonha em ser Carmen Miranda. Em outros tempo e espaço, um malandro (Lee Thalor) percorre ruas do Rio e tem uma visão da própria (a dançarina convidada Emilie Sugai), um vulto sempre de costas, “porque ela foi, está morta”, diz Antunes. Há ainda uma passista (por Patrícia Carvalho). 

Cinco vezes Antunes
Com “Foi Carmen”, o diretor atinge nesta semana cinco produções em cartaz em São Paulo com elencos mistos do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) e do Grupo de Teatro Macunaíma. 

Da série “Prêt-à-Porter”, que faz dez anos, é possível assistir à “Coletânea 1” (ter., às 20h, no Sesc Avenida Paulista, até 24/ 6) e ao “Prêt-à-Porter 9” (sáb., às 18h30, no Sesc Consolação, até 30/8). Seguem ainda “Senhora dos Afogados” (sex. e sáb., às 21h, e dom., às 19h, no Sesc Anchieta, até 27/7) e “O Céu Cinco Minutos Antes da Tempestade”, do círculo de dramaturgia do CPT, coordenado por Antunes (sex., às 21h, no Sesc Consolação, até 25/7). “Falo aos atores: “O CPT é de vocês, não sou eu”. Tenho de descentralizar esse troço. Agora temos base para isso.” 


Peça: Foi Carmen
Quando: estréia hoje, às 21h; ter., às 21h; até 29/7 
Onde: Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 0/xx/11/3234-3000; classificação: 14 anos) 
Quanto: R$ 2,50 a R$ 10 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 14 de maio de 2008

TEATRO

“Amaro”, drama do ator e autor Luciano Schwab, que contracenou com Paulo Autran em “O Avarento”, estréia hoje em SP
Espetáculo mostra nuanças da vida amorosa em sete cenas curtas sobre queixas, despedidas e vazios de um relacionamento

“Amaro”, drama do ator e autor Luciano Schwab, que contracenou com Paulo Autran em “O Avarento”, estréia hoje em SP

Espetáculo mostra nuanças da vida amorosa em sete cenas curtas sobre queixas, despedidas e vazios de um relacionamento 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

“Amaro” é um termo para representar uma variação de estado -amoroso para o amargo- a que pode sucumbir uma relação. Pelo menos é assim segundo a peça que estréia hoje no Viga Espaço Cênico. Ator que contracenou com Paulo Autran (1922-2007) em sua derradeira produção, “O Avarento”, Luciano Schwab, 34, produziu e escreveu o drama que, segundo ele, tem lá sua pitada de humor. 
 
“Amaro” expõe nuanças da vida a dois em sete tempos, sete cenas de diálogos curtos sobre queixumes, despedidas e vazios. “É uma pequena coletânea de imagens e situações cotidianas que evocam um lado mais amargo do universo amoroso”, diz Schwab, que assume os papéis masculinos, enquanto Ingrid Souza, 32, faz os femininos. Ambos vêm da Escola de Arte Dramática da USP. 
 
“A dramaturgia é feita de uma costura de imagens muitas vezes simbólicas. Na verdade, é um espetáculo bastante sensorial. Existe uma forte linguagem corporal, quase um teatro-dança em alguns momentos”, diz o ator-autor. 
 
O texto cita fragmentos de “A Voz Humana”, de Jean Cocteau, quando a relação está por um fio, e de “A Raiz do Grito”, de Alcione Araújo. Einat Falbel assina preparação corporal e assistência de direção. 



Peça: Amaro
Quando: estréia hoje; sempre qua., às 21h; até 4/6 
Onde: Viga Espaço Cênico (r. Capote Valente, 1.323, Pinheiros, tel. 3801-1843; classificação: 14 anos) 

Quanto: R$ 20 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 07 de maio de 2008

TEATRO 

Sem arroubos de produção, nova peça de Hirsch liga as razões do coração à linguagem
Os atores Leonardo Medeiros e Arieta Corrêa dão vida à correspondência entre o autor russo Shklovsky e sua musa

Sem arroubos de produção, nova peça de Hirsch liga as razões do coração à linguagem

Os atores Leonardo Medeiros e Arieta Corrêa dão vida à correspondência entre o autor russo Shklovsky e sua musa 

VALMIR SANTOS
Enviado especial ao Rio 

O diretor Felipe Hirsch, 36, traz a São Paulo duas interpretações do discurso amoroso. “Não sobre o Amor” é o espetáculo mais recente da Sutil Companhia de Teatro, que encerrou temporada no domingo no Rio e estréia nesta sexta no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo (CCBB-SP). Dois dias depois, o Teatro Municipal abriga a primeira de quatro sessões de “O Castelo do Barba-Azul”, a incursão de Hirsch pela direção cênica de ópera. 
 
Ambos os trabalhos, um contemporâneo e outro clássico, tocam as vicissitudes de um homem e de uma mulher na tentativa de alinhar o outro ao um. “Não sobre o Amor” é um espetáculo de câmara, sem arroubos na produção, para dois atores. O ponto de partida para a dramaturgia são as cartas -reais e ficcionais- trocadas entre dois escritores, o russo Victor Shklovsky (1893-1984) e a franco-russa Elsa Triolet (1896-1970). 
 
Ópera composta pelo húngaro Béla Bartók, em 1911, “O Castelo do Barba-Azul” também é protagonizada por um casal, o duque e sua quarta mulher, Judith, que, encerrados em um palácio sombrio, tentam superar traumas do passado. “Na ópera, a força do amor fez com que o duque abrisse as portas, iluminasse o castelo, que no fundo é ele mesmo, e refletisse sobre sua condição”, diz Hirsch. “Em “Não sobre o Amor”, o sentimento também esteve presente entre figuras reais. Só que Victor, como formalista, envolveu esse amor na busca de um formato para uma obra literária.” Ou seja, “Zoo, or Letters Not about Love”, cuja primeira edição alemã é 1923. 
 
Elsa Triolet foi casada com o poeta surrealista Louis Aragon e alçada à condição de musa de Victor Shklovsky, especialista em Tolstói e um dos principais teóricos do formalismo russo. 

Estranhamento
Ao permitir-se sentimental na relação epistolar com Triolet, Shklovsky não dissocia as razões do coração da linguagem. Não à toa, faz citações a Cervantes, Andersen e Swift, entre outros. Alude à técnica de “desfamiliarização” que estruturou, na qual desloca um elemento de seu contexto para fazer com que seja percebido por meio da sua ausência. Isso remete ao efeito de “estranhamento” de Bertolt Brecht, em favor do ponto de vista crítico do espectador. 
 
É o que acontece na correspondência com Triolet, ou Alya, como a batiza no livro. Ela pede ao interlocutor que não deite mais palavras sobre amor. “Pare de escrever sobre o quanto, o quanto, o quanto, o quanto você me ama, porque, no terceiro “quanto”, eu começo a pensar em outra coisa.” 
 
“Essa condição apaixonada serviu a ele como metáfora para um livro que falaria de exílio, de distâncias”, afirma Hirsch. O diretor co-adaptou com o assistente Murilo Hauser a tradução do inglês pelas irmãs Erica e Ursula Migon. 
Na adaptação, são incluídos trechos de cartas entre os escritores Vladimir Maiakóvski e Lilia Brik, irmã de Triolet. Os personagens são vividos por Arieta Corrêa e Leonardo Medeiros. 
 
À narrativa verborrágica, pautada por conceitos e idéias densos em torno da nostalgia, da memória, a cenógrafa Daniela Thomas, parceira da Sutil desde 2001, esquadrinha uma caixa cênica em que o espaço é literalmente desarranjado. Cama, mesa, cadeira, chão, parede, tudo está fora de lugar. 
 
Tal assimetria dialoga com a luz desenhada por Beto Bruel, outro parceiro fixo da companhia. O raio solar que incide sobre a janela transforma-se, cenas adiante, numa clarabóia sob o luar de São Petersburgo ou de Berlim, por onde transitam os enamorados. 
 
Hirsch lança mão de um recurso característico da Sutil: a projeção, no próprio suporte do cenário, de imagens que ajudam a recriar tempos e espaços. Ou de frases introdutórias a cada uma das 28 cartas em jogo. A angústia de Shklovsky é partilhada desde a abertura do espetáculo, quando seu prefácio surge projetado. Um trecho: “Todas as palavras boas estão pálidas de exaustão. Flores, lua, olhos, lábios. Eu gostaria de escrever como se a literatura nunca tivesse existido. Eu não consigo; a ironia devora as palavras. É a maneira mais fácil de superar a dificuldade de se descrever as coisas”. 



Peça: Não sobre o Amor
Quando: estréia sex., às 19h30; qui. a sáb., às 19h30; dom., às 18h. Até 6/7 
Onde: CCBB-SP – teatro (r. Álvares Penteado, 112, centro, tel. 0/xx/11/ 3113-3651) 
Quanto: R$ 15