Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.
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3.8.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 03 de agosto de 2006
TEATRO
Encenador mineiro estréia texto com forte crítica social, do alemão Büchner
Comédia “Leonce e Lena”, em cartaz no Sesc Paulista, estabelece relação de “desesperança” com o país e com a geração do diretor
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Há 14 anos, o grupo Galpão e o diretor Gabriel Villela foram transformados pela experiência da criação de “Romeu e Julieta”. Eles trouxeram à luz uma leitura popular da tragédia dos jovens amantes de Shakespeare segundo a tradição do circo-teatro, com atalhos, entre outros, para Guimarães Rosa.
Em fase autodefinida niilista, Villela agora vai ao autor alemão Georg Büchner (1813-37) para dissipar qualquer crença romântica. “Leonce e Lena” estréia hoje no Sesc Avenida Paulista, para convidados -a temporada começa amanhã. O texto, traduzido por Christine Röhrig, é uma comédia com entrelinhas de fábula sobre os desencontros de um casamento arranjado. O príncipe Leonce (Luiz Päetow) e a princesa Lena (Ana Carolina Godoy) pertencem a reinos distintos. Em meio ao tédio de suas vidas (e do poder), vão se conhecer num outro território.
Enamoram-se e se casam sempre mascarados, sem saber de suas condições de nobreza. As máscaras, tão caras à obra do encenador mineiro, só vão cair no final, embaralhando identidades e predestinações.
Se em Shakespeare o amor não sobrevive ao jogo político dos clãs, em Büchner o objeto amoroso também morre diante das convenções. Correlação de “desesperança” que Villela estabelece com seu país, sua geração.
“É muito difícil ter 47 anos e ver que a juventude já foi. É natural, mas não melhorou nada no país, só piorou. A gente nem chegou a ver o Paraíso do ponto de vista da contracultura dos anos 70. Nascemos sob a ditadura militar, não pudemos fazer um teatro político, engajado, exercitar algumas coisas, despirocar um pouco, fazer happening”, diz o encenador.
Tempo de revisões. “Nos anos 80, pegamos o portão fechando pela Aids, o isolacionismo estético dos diretores. Nos anos 90, até houve o reencontro dos diretores com dramaturgos e atores. E confesso que chego a 2006, olho para o Brasil e vejo esta metáfora, e não só aqui, mas no mundo: estão descascando as camadas da cebola, a caixa dentro da caixa, o vazio, como bem cita Büchner. Inventam-se assuntos, um atrás do outro, mas o projeto faliu.”
Villela quer traduzir essa percepção nas chaves da paródia e do escracho. A começar pelo espaço cenográfico concebido por J.C. Serroni, todo ele sob invólucro de caixas de papelão, das paredes ao chão. Inclusive as cem poltronas que ocupam quatro módulos em arena foram confeccionadas com o mesmo material.
Para desfilar a fábula em que o poder e as pessoas “estão festejando e morrendo”, há ainda projeções de trabalhos do artista mineiro Farnese de Andrade e uma fusão de minueto, que crispa gestos aristocráticos, com cancioneiro popular (com direção musical de Babaya).
São Paulo, quarta-feira, 02 de agosto de 2006
TEATRO
Em sua primeira turnê pela América do Sul, a companhia mostra em São Paulo e no Rio o espetáculo mais antigo em seu repertório
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Gerações acostumadas a ouvir e ver as aventuras de quatro animais, jumento à frente, a desbravar a cidade grande para virar artistas agora se deparam com um garoto nascido entre os néons da metrópole e, nela, tentado a melhorar a relação com o mundo. “Os Saltimbancos” de Chico Buarque, inspirado na escrita dos irmãos Grimm do conto “Os Músicos de Bremen”, dá passagem ao “Saltimbanco” singular do grupo canadense Cirque du Soleil.
Quatorze anos após sua estréia, em 1992, o mais antigo espetáculo do repertório da companhia multinacional serve como cartão de visita ao Brasil, com temporadas inéditas em São Paulo e no Rio, a ocorrer, respectivamente, entre esta semana e o início de dezembro -392 mil pessoas devem assistir ao espetáculo no país.
Nestas páginas, estão informações sobre algumas das 12 partes do espetáculo, um exemplo do moderno projeto de entretenimento ao vivo que o Soleil finca mundo afora.
Na concepção do diretor italiano Franco Dragone, que criou uma dezena de shows para a companhia entre os anos 1980 e 90, o que “Saltimbanco” sugere cenicamente é uma cidade imaginária com seus heróis anônimos, alguns saltimbancos, artistas que atuavam ao ar livre na Idade Média.
Abre com o número “Adágio”, em que uma família de origem ucraniana, os Vintilov, apresenta movimentos de contorcionismo e equilíbrio. Pai, mãe e filho -Maxsim, 10, que já passou metade da vida no posto que era da irmã, escalada para outra montagem- como que protagonizam o nascimento do garoto imediatamente engolfado pela vida adulta.
A partir daí, sucedem os quadros nos quais nem sempre se notará a trajetória desse personagem. Cabe ao espectador emendar sua própria narrativa, jamais linear, em meio a jogos de luz, som e figurinos multicoloridos, além da música ao vivo executada por uma banda.
Um pulo até o terreno ocupado pela trupe na Vila Olímpia dá conta da logística padrão alcançada em 22 anos de estrada.
Tudo destoa da visão do artista mambembe que salta de cidade em cidade. Na tenda principal não há serragens, mas piso de madeira; não há arquibancada de ripas, mas cadeiras de plástico; não há picadeiro, mas tablado que lembra uma semi-arena de teatro; não há trailer, mas contêineres.
Por cerca de uma hora no local, na semana passada, a reportagem não pôde falar com os artistas, todos concentrados em treinamentos sob uma lona reservada para isso. Cumprem de cinco a seis horas diárias.
A malabarista russa Maria Markova em nenhum momento desviou o olhar das bolinhas para as lentes do fotógrafo que a cercava. A chinesa Ren Jun improvisava a maquiagem em frente ao espelho (rito que dura até 90 minutos), antes de se equilibrar sobre um cabo de aço esticado num canto. Os gêmeos poloneses Daniel e Jacek Gutszmit também se ocupavam dos equipamentos para as paradas de mão e de cabeça.
A relações-públicas Pascale Ouimet, 31, explica que os 51 artistas tiveram seis semanas de folga após o final da temporada em Buenos Aires, no mês passado. Hospedados em hotel da região, passam boa parte do tempo ali para voltar à forma.
Segundo Ouimet, “Saltimbanco” é a melhor introdução ao Cirque du Soleil. “Um show honesto, simples e humano, pelo qual os fundadores da companhia têm muito carinho.”
É a primeira turnê do Soleil pela América do Sul -passou ainda por Santiago. O Rio será a 69ª cidade de “Saltimbanco”. E pode ser a última. Há dúvidas se o show continuará em repertório depois de tantos giros.
27.7.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 27 de julho de 2006
TEATRO
Ator cearense estréia hoje “Cleide Eló e as Pêras” no Sesc Avenida Paulista
Após “Aldeotas”, o também dramaturgo monta trilogia de peças curtas com depoimentos de quem ama com intensidades diferentes
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Gero Camilo balança prosa e poesia em suas narrativas para o teatro, como se viu em “A Procissão” (1997) e “Aldeotas” (2004). O curioso é que parte de sua dramaturgia ganha asas próprias por via do livro independente que o ator e autor lançou em 2002, “A Macaúba da Terra” (edição esgotada).
Daquelas folhas, já foram à cena parte dos contos de “As Bastianas” (2003), pela Cia. São Jorge de Variedades, e parte das peças curtas de “Entreatos” (2004), por Ivan Andrade.
É de “Entreatos” que jorram mais três peças curtas de Camilo: “Cleide Eló e as Pêras” estão umbilicadas pelo título, sem vírgula, no espetáculo que entra em cartaz hoje no Sesc Avenida Paulista. Camilo contracena com Paula Cohen em sua trilogia, um pequeno e pungente tratado “dos arquétipos da paixão”, os pontos de vista do amado e do amante, por acaso “nem longe nem perto, ao alcance”.
“Cleide” e “Eló” são depoimentos de quem ama os respectivos personagens-título. Na primeira peça, um homem deita seu amor por ela, pleno em lirismo. Na segunda, uma mulher rasga-se por ele com entrecho mais trágico.
Segundo Camilo, são textos que tratam das variantes da paixão, a que arrebata pela poesia e a incontrolável, que não cabe no espaço da vida a dois.
“São intensidades e projeções que a paixão provoca no coração de quem sente, nem sempre no de quem recebe”, diz o ator.
Em “As Pêras”, por fim, dá-se o encontro de Cleide e Eló, os seres amados que transitam pela consciência e também se vêem insatisfeitos. “Alguém sempre está amando e alguém sempre recebe tal afeto. Claro que a troca é fundamental, mas ela não acontece na mesma intensidade.”
Quem assina a direção é o também ator Gustavo Machado, da mesma turma que Camilo e Cohen nos tempos de formação na USP.
25.7.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, terça-feira, 25 de julho de 2006
TEATRO
Com montagens de “Mozart e Salieri” e “A Ilíada – Canto 23”, Anatoli Vassiliev reafirma busca por teatro espiritual
Seguidor dos princípios de Stanislavski e Dantchenko, encenador russo mostra em festival francês peça cuja concepção levou sete anos
VALMIR SANTOS
Enviado especial a Avignon
Localizada na Europa Oriental, a Rússia é a nascente do teatro psicológico disseminado no lado ocidental daquele continente e no restante do planeta. Os responsáveis por isso foram os mestres do Teatro de Arte de Moscou (1898), Constantin Stanislavski e Vladimir Nemirovitch-Dantchenko -e depois Meyerhold. Eles legaram estudos fundamentais sobre a arte do ator.
Na Moscou de hoje, mais afeita ao capitalismo, um dos artistas que mais dialogam com aquela tradição é Anatoli Vassiliev, cuja vitalidade está na dimensão espiritual (e ritual) com que trata a cena, em chave metafísica.
Seus espetáculos são impregnados de conteúdos sobre religião (não o dogma, mas a liturgia) e filosofia (Platão), transmutáveis pela ação física e pelo canto, invariavelmente na forma de coros. Foi o que se viu nos dois trabalhos que apresentou no 60º Festival de Avignon, principal evento mundial das artes cênicas, que segue até quinta-feira, no sul da França.
“Mozart e Salieri” (2004) e “A Ilíada – Canto 23” (2003) foram levadas ao ar livre, numa pedreira desativada a 20 minutos do centro da cidade, a Carrière de Boulbon, mítico espaço onde o inglês Peter Brook mostrou sua versão para o poema épico indiano “Mahabharata”.
A peça “Mozart e Salieri” (1826), de Aleksander Pushkin, versa sobre o embate entre os dois gênios -na ficção, o último teria envenenado o primeiro. Na “Ilíada” (século 8 a.C.), épico de Homero considerado fundador da civilização e do “espírito” gregos, o recorte é pelo canto (ou capítulo) em que acontecem os funerais de Pátroclo e os jogos militares.
Ambos os textos são em versos, sobre os quais Vassiliev trabalha ritmo e entonação. Notam-se ainda os fios da ortodoxia como dado cultural da Rússia -não rechaçado, mas relido. Também estão presentes os movimentos corais, com direito a técnicas de lutas marciais em “A Ilíada” -a diretora Maria Thaís, da cia. Teatro Balagan (SP), trabalhou com Vassiliev e co-assina a coreografia.
No espaço cênico em que as paredes de pedra direcionam o olhar para o céu, sob o som noturno das cigarras, despontam os cerca de 40 intérpretes em cada um dos espetáculos, entre atores, cantores e músicos. “O trabalho não é fruto de experiências casuais, mas direcionado por teorias e práticas anteriores do teatro psicológico russo. Eu saí dessa base. O período de pesquisa da prática espiritual levou anos, até que uma metodologia exata foi formada”, afirma Vassiliev, 64.
As primeiras experiências para uma prática espiritual no teatro datam dos anos 90, com o drama litúrgico “A Lamentação de Jeremias” (1995). Um ano antes, aconteciam os primeiros estudos para “A Ilíada”.
A versão mostrada em Avignon foi finalizada em 2003: um processo de quase dez anos. “Eu simplesmente ocupei uma lacuna que foi deixada no teatro russo, que começou a partir do drama secular. O drama litúrgico existia somente junto aos monastérios, o chamado drama escolar. Restaurei esse período que foi deixado em branco, quase uma reconstrução. Havia resistência quanto ao drama metafísico, o realismo cênico era mais forte”, explica Vassiliev, em russo, traduzido pela atriz brasileira Marina Tenorio, integrante da Escola de Arte Dramática que ele coordena em Moscou desde 1987.
Ao sintetizar passado e presente, Vassiliev abriu novas portas para o teatro contemporâneo nas últimas duas décadas. Herdou e recriou a figura do encenador-pedagogo da escola russa. “O diretor e o pedagogo são a mesma coisa, porque a encenação não é entendida sem a pedagogia. Diferente da escola européia, que se relaciona com o ator como um objeto. O encenador-pedagogo lida com o ser humano e é a partir desse ponto que é desenvolvida toda a terminologia.” Um teatro da utopia, como ele diz.
24.7.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, segunda-feira, 24 de julho de 2006
TEATRO
Cirque du Soleil e Plume, que vêm ao Brasil pela primeira vez, pregam a fusão com dança e outras artes
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O ano de 2006 vai se revelando um dos mais movimentados em temporadas internacionais de circo. Depois da tradição do Circo Nacional da China, até ontem em São Paulo, chegam pela primeira vez ao país duas companhias alinhadas ao chamado “novo circo”: o francês Cirque Plume, a partir da próxima sexta-feira, no teatro Alfa, e o canadense Cirque du Soleil, no início de agosto, em lona montada na Vila Olímpia.
Novo circo? A expressão desponta na França entre os anos 70 e 80 e prega a fusão com outras artes, como dança, teatro, artes visuais, vídeo e arquitetura. São incorporados modernos efeitos tecnológicos em luz, som e imagem. E raramente há animais em cena.
Entre os precursores, estão o Soleil e o Plume, ambos criados em 1984, e o também francês Archaos (1986). “Há muito tempo que os cães andam de bicicleta e os cavalos sabem contar. É a mais forte mitologia do circo. O “cirque nouveau” continua essa mitologia, mas cada companhia pode fazer isso com uma linguagem própria”, afirma Bernard Kudlak, 51, diretor artístico e fundador do Plume.
“É assim desde sempre, as artes do circo utilizam as outras artes do espetáculo enquanto técnica. Mas o novo é utilizá-las enquanto forma”, diz Kudlak.
Para o ator e diretor Rodrigo Matheus, da cia. Circo Mínimo (SP), é da natureza do circo renovar-se. “Desde seu surgimento (tanto na visão de que surgiu na China, 5.000 anos antes de Cristo, quanto na leitura mais simplista de que surgiu ao final do século 18, com Philip Astley, na Inglaterra), o circo sempre buscou influências em todas as linguagens e nos avanços tecnológicos”, escreve Matheus, em artigo que está no site pindoramacircus.com.br, referência na área no Brasil.
24.7.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, segunda-feira, 24 de julho de 2006
TEATRO
O diretor Bernard Kudlak fala sobre o espetáculo e comenta as propostas adotadas há 22 anos pela companhia
Grupo circense francês traz 13 esquetes em que predominam movimentos acrobáticos (solos e aéreos), a maioria “sob chuva”
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
“O circo é a nostalgia do Paraíso”, eis o lema do palhaço e malabarista Bernard Kudlak, do Cirque Plume. Ele não está em cena, mas dirige o espetáculo “Plic Ploc”. São 13 esquetes em que predominam movimentos acrobáticos (solos e aéreos), a maioria “sob chuva”. Segundo Kudlak, “os homens voam, suas sombras são vivas e os guarda-chuvas também são seres vivos”. Leia trechos da entrevista.
FOLHA – Quando o Plume surgiu, há 22 anos, quais eram as motivações artísticas?
BERNARD KUDLAK – Queríamos encontrar uma linguagem que fosse a mais universal possível. Um espetáculo rigoroso, mas que fosse capaz de se comunicar com todo tipo de público. Ao estilo do que dizia [o diretor francês] Jean Vilar: a idéia de um teatro popular e, ao mesmo tempo, elitista. Abrimos os baús do circo e ali dentro havia um tesouro. Essa arte nos permite encenar um universo de poeta. Por outro lado, nos obriga a ter uma prática física cotidiana, o que põe em equilíbrio o sonho e a realidade. O circo era uma arte à margem do espetáculo vivo, não tinha conhecido as mudanças que o teatro conheceu, assim como a dança. Era de certo modo marginal essa idéia de praticar uma arte popular. Marginal mas fascinante, e que tanto influenciou os poetas, os escritores, os cineastas e os pintores.
FOLHA – Como a metáfora da água é usada em “Plic Ploc”?
KUDLAK – “Plic Ploc” coloca os atores em cena lidando com um elemento desagradável. Esse tipo de elemento pode se transformar em catástrofe. A questão da água é colocada de modo poético. Aciona entre os seres humanos a possibilidade de abordar os transtornos, coletivamente e recorrendo ao riso, transformando por meio do imaginário e da inventividade o tal elemento desagradável em questão. Não proferimos um discurso ideológico. O circo é um poema encenado, escreveu Henry Miller.
Essa é a nossa filosofia.
FOLHA – O aspecto visual parece ter um poder decisivo no Plume. Como o circo pode enfrentar a ditadura da imagem no mundo contemporâneo?
KUDLAK – O mundo contemporâneo coloca telas em tudo. Procuramos a poesia das trocas simples. Não vamos além com as tecnologias sofisticadas utilizadas em outros lugares. Não procuramos mais cor, mais sons, mais efeitos, mais, mais… Procuramos o gesto exato.
FOLHA – A temporada do Plume em São Paulo antecede a do Soleil. A comparação é inevitável…
KUDLAK – A comparação entre as duas companhias sempre vem à tona. Elas têm em comum o fato de terem sido criadas na mesma época, em 1984, a partir de um projeto de renovação do circo. Os fundadores tiveram uma trajetória de artistas de rua antes de criar seu próprio circo. Sem fazer comparações, privilegiamos o encontro poético com o público.
23.7.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, domingo, 23 de julho de 2006
TEATRO
O dramaturgo, que estava hospitalizado havia 49 dias, sofria de insuficiência renal; enterro será na tarde de hoje
Autor mudou a história do teatro brasileiro com “Eles Não Usam Black-Tie”; como ator, seu último papel foi na TV, na novela “Belíssima”
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri, 71, morreu ontem, às 16h30, “em função de complicações geradas por insuficiência renal crônica”, conforme nota do hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.
Guarnieri estava internado havia 49 dias, mas tratava a doença desde 2001. Em períodos críticos, fazia até três sessões semanais de hemodiálise. Deixa cinco filhos e sete netos.
O velório, fechado ao público, aconteceria na noite de ontem no hospital. Às 15h de hoje, o corpo será levado para o cemitério Jardim da Serra, em Mairiporã, onde será enterrado.
Quando recebeu a Folha em sua casa, na serra da Cantareira (SP), em abril de 2005, o autor de “Eles Não Usam Black-Tie” falou sobre a doença: “Ainda bem que existe a hemodiálise, sempre agradeço. Após quatro anos, sinto-me mais animado. A doença dá uma depressão terrível, aquele cansaço. Não é moleza, não. Mas, ao mesmo tempo, não é dizer: “Que terrível, morreu”. Morreu o escambau. Está aí e vai em frente, rapaz, com todo o sorriso de felicidade que tem”.
Nos últimos anos, Guarnieri pontuou trabalhos aqui e ali, como sua recente atuação na novela “Belíssima”, da TV Globo, na qual interpretava Peppe. O personagem foi retirado da história por causa do agravamento do seu estado de saúde. Guarnieri atuou em outras novelas, como “O Meu Pé de Laranja Lima” (1970) e “Mulheres de Areia” (1973).
Filho de italianos, Guarnieri nasceu em Milão, em 1934. Seu teatro é conhecido pelo forte cunho político. Com “Eles Não Usam…” (1958), inscreveu seu nome na história da dramaturgia brasileira. Dirigida por José Renato no Teatro de Arena, a peça demarcou a presença do autor ao contar a história de um líder operário que tem no próprio filho um fura-greve. Foi adaptada para o cinema em 1981, por Leon Hirszman, que recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza.
Seguiram-se outras peças de igual tom político, como “Arena Conta Zumbi” (1965) e em um dos seus últimos textos, “A Luta Secreta de Maria da Encarnação” (2001).
Guarnieri foi secretário municipal de Cultura de São Paulo de 1984 a 1986.
20.7.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 20 de julho de 2006
TEATRO
Após tragédias gregas, diretor adapta o romance brasileiro “A Pedra do Reino”
Projeto surgiu na década de 80, mas teve de superar a resistência do escritor paraibano, que temia um espetáculo autobiográfico
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
“Voltei ao meu velho estilo”, avisa Antunes Filho. Ele interrompe um ciclo de tragédias gregas (Sófocles e duas vezes Eurípides, montados desde 1999) e reabre as entranhas do Brasil real da literatura, para citar Machado de Assis, com a teatralização do romance “A Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna.
O sonho cultivado e adiado desde os anos 80 é materializado hoje, com o seu grupo Macunaíma, braço do CPT (Centro de Pesquisa Teatral do Sesc), em pré-estréia no teatro Anchieta, em São Paulo. A temporada começa amanhã. A ponte livro-palco aparece aqui e ali na carreira do diretor, como divisor de águas: em “Macunaíma” (1978), da obra homônima de Mário de Andrade, e em “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” (1986), de João Guimarães Rosa. O último fio-terra com o país, por assim dizer, foi a peça “Vereda da Salvação” (1993), de Jorge Andrade. Ao visitar tal universo, Antunes, 76, diz que se deixa levar pelo espírito moleque. “Comigo o Brasil flui, posso abrir meu coração, não tem esforço como na tragédia grega. É fechar os olhos e a coisa sai; é epidérmico.” Mas às vezes deixa hematomas, como na peleja com Suassuna para convencê-lo da idéia.
Desde o início, há pelo menos 20 anos, era intenção de Antunes tomar por base o “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta” (1971) e sua continuação, “História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão – Ao Sol da Onça Caetana” (1977).
Quase biografia
Ocorre que, nessa que seria a primeira parte da continuação de “A Pedra do Reino”, Suassuna, 79, se deu conta de que havia cometido um erro de apreciação. “Se você ler os dois livros, verá que o [personagem protagonista] Quaderna que aparece no segundo não é o mesmo do primeiro. Queria fazer um personagem que de certa forma encarnasse o povo brasileiro, e ali ele estava mais reduzido à história pessoal de Ariano Suassuna. Eu parei o projeto por causa disso, mas não avisei o Antunes”, afirma.
Quando o diretor tentou surpreendê-lo com a boa-nova, a teatralização pendia justamente para o lado biográfico do qual Suassuna fugia como o diabo da cruz. Trocaram cartas de zanga. Só retomaram o assunto -e a paz- nestes anos 2000, quando Suassuna leu num jornal de Brasília que Antunes ainda acalentava encenar “A Pedra do Reino” e lhe deu carta branca. “Ele [Suassuna] não é o Quaderna, mas tem muito do Quaderna. É nesse limite que esbarram certos problemas”, afirma Antunes, que manteve a junção dos dois livros.
Utopias
Brasileiro e sertanejo, o narrador atravessa os dois romances oscilando faces de rei e palhaço, de dor e humor que rimam tragicidade. Se Macunaíma é o arquétipo do herói sem caráter, Quaderna é o herói movido pelo moinho da utopia, devagar e sempre.
Como nesse trecho substancial da lavra de Suassuna: “Eu, ao montar no meu cavalo Pedra-Lispe, ao colocar na minha pobre cabeça a minha pobre coroa de flandre de palhaço e de rei -eu galopo também pelas estradas e descaminhos desse meu reino e Castelo da Raça Brasileira, e oponho, assim, às misérias, feiúras e tristezas da vida real, a galope livre do sonho e da desaventura, sentido-me ir, como um Dom Sebastião, talvez grotesco mas indomável, ao encontro de Deus, de meu Povo e da sagrada Morte Caetana- ao encontro da morte que me imortalizará”.
Quem o interpreta é o ator de nome artístico e próprio Lee Thalor, 22, que faz sua estréia profissional após cursar o CPT. Nascido em Goiás, ele diz identificar-se com os traços regional e universal da obra.
Existem mais 19 intérpretes, a maioria em seu primeiro trabalho com Antunes. O grupo assume a direção musical, canta e toca. O palco surge praticamente nu, como a mente do protagonista a ser preenchida por peripécias. Os figurinos e adereços foram criados para remeter à memória a às invenções de Quaderna, por meio de uma pesquisa que inclui a história política da Paraíba e do Nordeste coronelista da década de 30. Há citações ainda à Coluna Prestes, ao Cangaço, à Revolução de 30, enfim, ao início da Era Vargas.
O maior desafio, diz Antunes, é equilibrar os tons picarescos e dramáticos que às vezes não se comportam. Nas entrelinhas, ambiciona a montagem como espelho crítico “diante da imoralidade que presenciamos na política e na atitude de alguns brasileiros”. Leia-se corrupção. Em sincronicidade, como diria Jung, referência obrigatória para o diretor, o teatro abraça duas epopéias: Zé Celso com “Os Sertões” e Antunes com “A Pedra do Reino” (ele assistiu a uma das partes no Oficina e saiu revigorado).
“Se eu pudesse escolher um patrono para a minha carreira de escritor, seria Euclydes da Cunha. É como se “Os Sertões” fosse o Velho Testamento e “A Pedra do Reino”, pelo menos na minha intenção, um Novo Testamento, uma herança de “Os Sertões'”, afirma Suassuna.
14.7.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, sexta-feira, 14 de julho de 2006
TEATRO
Abertura do evento acontece hoje com “Um Molière Imaginário”, espetáculo encenado pelo Galpão
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
“O teatro, como a natureza, mais que nunca necessita atualmente de proteção, de consciência sobre a enorme devastação ambiental, sobretudo política, econômica e cultural.”
O alarme é do diretor peruano Carlos Cueva, 59, à frente do grupo LOT Teatro (Asociación para la Investigación Teatral La Otra Orilla), um dos destaques da sexta edição do FIT (Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto), de hoje até o dia 24.
A organização do encontro do interior paulista (orçado em R$ 1,9 milhão) acolhe as mais diversas linhagens dessa arte em palco, ao ar livre e em espaços não-convencionais. São sete atrações estrangeiras entre as 51 da programação. A abertura acontece hoje na Represa Municipal com o grupo mineiro Galpão, que apresenta o espetáculo de rua “Um Molière Imaginário”, direção de Eduardo Moreira, uma evocação ao comediógrafo francês de “O Doente Imaginário”.
Criado em 1998, o grupo LOT traz de Lima o projeto “Matéria Material” (2002), que pertence ao campo experimental das artes cênicas contemporâneas que o FIT Rio Preto atrai. Segundo Cueva, várias “matérias” confluem para um espetáculo que é teatro, mas corresponde mais a uma instalação, como se verá na antiga fábrica Swift, em meio a atores, espaço, texto, música e máquinas.
Melancolia
Fragmentos textuais do escritor alemão autista Birger Berlín (nascido em 1973) refletem uma melancolia desesperadora da época atual. Aquela que, sob a perspectiva do LOT, segue definindo os seres pelo acatamento ao poder da norma, “delimitando os que se exilam (marginais) dos que não fazem (normais)”. Paradoxos da incomunicabilidade. Também serviu de inspiração o quadro “A Lição de Anatomia do Dr.
Tulp”, de Rembrandt, uma sondagem do corpo como objeto. Um ano atrás, o LOT convidou o Teatro da Vertigem (“BR-3”) e outros grupos para o simpósio “Zona Fronteiriça”, que ocupou um prédio abandonado de Lima e resultou numa performance coletiva de “experiências que, em outras latitudes, e de maneira contundente, contribuem para a expansão da linguagem teatral”.
Este primeiro final de semana traz ainda o “teatro sonoro” que o compositor Livio Tragtemberg desenha em “Diário de Um Louco”, no Sesc Rio Preto. Não se trata da peça clássica do russo Gogol, mas uma novela do chinês Lu Hsun (1881-1936), um dos principais críticos de sua sociedade no período de pré-revolução maoísta (1973), e depois dela. Sua escrita é freqüentemente associada às de Jean Genet ou de Franz Kafka.
Teatro sonoro? “O público senta-se em volta da atriz Rita Martins, que procede a leitura do texto com alterações eletrônicas na voz. O espaço é envolvido por um círculo de alto falantes no chão, que emitem sons , ruídos, sussurros e que dialogam com a atriz. Ao longo da leitura, ela movimenta o conjunto de alto-falantes reconfigurando o som no espaço e estabelecendo novas situações dramático-sonoras”, afirma Tragtemberg.
A intenção é estabelecer uma relação mais direta com o espectador, de forma até contemplativa. “O foco é a geração de imagens na mente do espectador através da riqueza de estímulos sonoros.”
5.7.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 05 de julho de 2006
TEATRO
Exposição no Sesc Pinheiros e biografia a ser lançada amanhã revisitam obra de Maurice Vaneau
Evento homenageia o encenador belga, que foi um dos remanescentes dos imigrantes que aportaram no país dos anos 40 a 60
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Belga naturalizado brasileiro, Maurice Vaneau, 80, é remanescente da geração de diretores estrangeiros que inscreveu seu nome na história do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) entre as décadas de 40 e 60, ao lado de nomes como os italianos Adolfo Celi, Gianni Ratto, Ruggero Jacobbi e Flaminio Bollini-Cerri e o polonês Zbigniew Ziembinski.
A partir de amanhã, São Paulo acompanha uma homenagem -como raramente ocorre em vida- à obra e ao pensamento do encenador e coreógrafo por meio da exposição “Maurice Vaneau – Artista Múltiplo/80 Anos”.
Dividida em sete módulos, a mostra ocupa o terceiro andar do Sesc Pinheiros e procura dar conta justamente da vocação multidisciplinar nutrida por esse homem das artes cênicas e visuais, por meio de fotos, desenhos, croquis, maquetes, textos, objetos, adereços e figurinos expostos em manequins.
O organizador, o cenógrafo e arquiteto J.C. Serroni, deseja proporcionar ao visitante o lado processual do artista. Como ao penetrar o apartamento em que Vaneau mora há 30 anos, em Higienópolis, com a mulher e coreógrafa Célia Gouvêa.
Atmosfera doméstica
A idéia é recriar a atmosfera da casa que também é ateliê de trabalho e quase um “museu”, a traduzir em cada canto do espaço o intenso trabalho desenvolvido por ele. “O seu traço existe nos móveis, nas paredes, em peças penduradas no teto, dentro de baús, latas, em dezenas de pastas e arquivos guardados cuidadosamente e até nas portas, onde vemos brincadeiras gráficas do mais refinado humor”, diz Serroni.
O módulo sete, no miolo da exposição, apresenta uma instalação com 16 baús cheios de objetos pessoais. Os mesmos baús com os quais Vaneau viajava mundo afora.
Cursou belas-artes. Começou profissionalmente no teatro em 1948. Viveu um período de estudos nos EUA. Integrou o Teatro Nacional da Bélgica, com o qual excursionou pela América do Sul em 1955. Aportou no Brasil naquele mesmo ano, adotando-o como morada a convite de Franco Zampari, responsável pelo TBC.
Em 1956, estreou “A Casa de Chá do Luar de Agosto”, de John Patrick, que trazia Ítalo Rossi, Mauro Mendonça, Sérgio Brito e Nathalia Timberg.
Assinou mais de 60 espetáculos, alguns deles premiados, como “Os Ossos do Barão” (1963), de Jorge Andrade, 19 meses em cartaz no TBC, com Cleyde Yáconis e Lélia Abramo.
Ator, cenógrafo, figurinista, pintor, enfim, o homenageado também ganha uma biografia, “Maurice Vaneau – Artista Múltiplo”, da jornalista Leila V.B. Gouvea, que sai pela coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado, em lançamento na mesma noite do vernissage da exposição, que prevê ainda performance de 12 atores-bailarinos com figurinos originais criados por Vaneau.