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Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 28 de março de 2006

TEATRO 
Mostra alternativa do festival, que terminou anteontem, teve 192 peças; artistas e público pedem mais organização e qualidade 

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Curitiba 

A cena é conhecida dos últimos finais de março: a maioria dos artistas volta frustrada para casa, o público idem. Neste ano, porém, o feirão de espetáculos do Fringe, mostra alternativa do Festival de Teatro de Curitiba, que terminou anteontem, parece, enfim, ter encarado a crise de seu formato.

O número de peças cresce a cada ano na mesma proporção dos problemas enfrentados por artistas e público. Aqueles, pagam uma taxa de R$ 35 ou R$ 60 por apresentação (menos os espetáculos de rua) e sofrem com a desorganização e as adaptações necessárias no espaço que foi prometido assim, mas era assado.

Enquanto isso, o espectador se perde no emaranhado de sinopses-armadilhas que não deixam claro o que é demonstração de obra em processo, exercício experimental de dança-teatro, performance ou espetáculo no estrito senso da palavra.
“Tem muita porcaria, gente que entra em cena, faz sua catarse, mas se esquece do público”, afirma a fonoaudióloga Vera Santos, 49, que assistiu a várias peças.

O coordenador-geral do FTC, Victor Aronis, reconhece a falta de informação como um dos pontos críticos. O festival distribui gratuitamente um jornal diário com uma crítica e destaques, mas o conteúdo editorial deixa a desejar e não vence a demanda.

“Se nós, artistas com um mínimo de conhecimento, ficamos desorientados, imagine o público. Sem uma orientação, todos saem perdendo”, diz o diretor Luiz Fernando Marques, 28, do grupo XIX de Teatro (SP), revelado em 2002 com “Hysteria”, que voltou ao Fringe neste ano. Desta vez, não se encontrou um espetáculo de impacto na mostra.

Quando o Fringe surgiu, em 1998, foram apresentadas 32 peças. A expressão em inglês (franja, borda) é emprestada do Festival de Edimburgo, na Escócia, onde a programação off chega a mais de 700 grupos de teatro, dança etc.

Se comparada com a primeira, a nona edição curitibana foi multiplicada por seis: foram 192 peças neste ano (cinco a mais que 2005), descontados os 12 cancelamentos.

Os problemas de produção e de falta de qualidade não vêm de agora, mas ficaram mais evidentes nesses 11 dias em que foram ocupados 48 espaços da cidade.

A organização fala de um público de 110 mil pessoas (mesmo número de 2005). Pelo menos 50 mil estariam no Fringe. Mas algumas sessões foram canceladas por falta de platéia. A Folha presenciou apresentações com menos de dez espectadores.

Aronis resiste à seleção prévia pela qualidade dos projetos inscritos. Seu paradigma é o Fringe de Edimburgo, onde a participação se pretende democrática.

“Algum critério de qualidade ajudaria principalmente o público. Se uma pessoa vai ao teatro pela primeira vez e vê uma bomba, dificilmente voltará”, diz o diretor Marcos Damasceno, 28, de Curitiba, cidade que responde por 40% das produções da mostra. A maioria, segundo o diretor, presta um “desfavor” ao teatro.

No final da cobertura do evento, um grupo de jornalistas de vários Estados escreveu um manifesto no qual propõe um mecanismo de seleção mais consistente. “Diante da demanda de projetos, que se estabeleça um norte artístico e não meramente quantitativo. Não adianta mirar fixamente o modelo de Edimburgo se o contexto de nossa produção é outro”, diz o documento.



O jornalista 
Valmir Santos, o crítico Sergio Salvia Coelho e a repórter-fotográfica Lenise Pinheiro viajaram a convite da organização do FTC 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 25 de março de 2006

TEATRO 
Companhias usam espaços inusitados para montar suas peças

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Curitiba 

O ônibus estaciona ao lado de uma praça central de Curitiba. Os cerca de 40 passageiros descem, ganham um saquinho de pipoca doce, põem-se em fila, mãos nos ombros do outro, entoam “piui-piuá” e ficam em círculo sob uma araucária, a árvore-símbolo do Paraná.

Quem vê, pensa que se trata de uma excursão. Mas é teatro. A performance faz parte do espetáculo “Nessa Longa Estrada da Vida”, da curitibana Cia. dos Andarilhos, que acontece sob rodas, dentro de um ônibus em movimento.

É um exemplo dos lugares inusitados que são transformados em palco no Fringe, a mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba, que termina amanhã.

Às vezes, o próprio espaço não-convencional serve de chamariz em meio às 200 peças que compõem a grade do evento.

“E.s.t.a.c.i.o.n.a.d.o.s.” é outro espetáculo local que envolve carro, com o grupo de Risco. Acontece nos fundos de um estacionamento, a céu aberto, entre duas árvores, pneus e as tendas armadas para abrigar o público. Inspirados em suas trajetórias pessoais, quatro atores querem construir uma metáfora das pessoas “estacionadas” da vida urbana.

“A peça chamou a atenção por causa da sinopse e do lugar”, diz o arquiteto Diego Brambilla Martines, 23, que foi à sessão de meia-noite no estacionamento.

A Serafim Cia. decidiu ambientar seu espetáculo, “Febre”, numa piscina. Os idealizadores do projeto narram a história de dois irmãos que ritualizam o eterno enterro da mãe, morta há anos.

As cadeiras são colocadas dentro da piscina esvaziada. “No início, achei a idéia esquisita, mas depois fiquei emocionado com a história”, diz o gerente operacional do clube onde “Febre” é encenada, José de Ribamar Silva Menezes, 40.

Também há peças apresentadas em boate, “As Fervidas”, com a Cia. Curitibana de Comédia, e em hotéis: “Quarto de Hotel”, com a Ganesh Cia. Cênica.



O jornalista 
Valmir Santos e a repórter-fotográfica Lenise Pinheiroviajam a convite da organização do FTC

15º Festival de Teatro de Curitiba
Quando:
até 26/3
Quanto: R$ 24 (Mostra Oficial) e de entrada franca a R$ 24 (Fringe). Inf. pelo tel. 0/xx/41/3016-3400 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sexta-feira, 24 de março de 2006

TEATRO 
Atriz do clássico “O Cangaceiro” protagoniza peça no Festival de Curitiba 

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Curitiba

O Festival de Teatro de Curitiba (FTC), que vai até domingo, abriga hoje uma estréia peculiar em sua mostra paralela, o Fringe -expressão inglesa para franja ou borda, importada do tradicional evento homônimo de Edimburgo, na Escócia.

Trata-se da atriz e cantora carioca Vanja Orico, lendária intérprete do cinema brasileiro, um dos destaques do chamado Ciclo do Cangaço, entre as décadas de 50 e 70, com filmes como “O Cangaceiro” (1953), de Lima Barreto, premiado em Cannes, e “Cangaceiros de Lampião” (1966), de Carlos Coimbra.

Ela vai protagonizar o espetáculo inédito “Vanja Bonita do Cangaço Brasileiro”, que terá sessões no Solar do Barão. O autor e diretor Nilson Ferreira concebeu um enredo em que Orico, nos dias de hoje, dialoga com Lima Barreto (1906-1982). Na pele de Maria Bonita, tenta impor uma condição para continuar no filme: a personagem seguirá interpretando só se ele, o diretor, escrever os fatos mais importantes da vida da atriz.

Na estrutura da peça, cabe à atriz os excertos musicais. Ela vai cantar, por exemplo, “Sodade Meu Bem Sodade” e “Mulher Rendeira”, composições de Zé do Norte, como o fez originalmente no clássico de Barreto. A atriz, que vive no Rio, divide o palco com 19 atores e um músico da Cia. Itabira, de Suzano, SP.

Faroeste
O filme de Barreto mostra o conflito entre dois grupos de cangaceiros numa concepção que remete ao faroeste. Orico diz que era o espírito de aventura que mais a atraía nos projetos do Ciclo do Cangaço. “Sei montar muito bem um cavalo”, conta.

É a primeira vez que atua num espetáculo dramático. Já o fez em musicais, inclusive na França. Filha do romancista e diplomata Osvaldo Orico (1900-1981), ela passou parte da infância e adolescência na Europa. Estudou em colégio de freiras, mas foi expulsa. “Porque coloquei uma tinta vermelha na água benta”, explica. E isso foi em Roma, onde, aos 16 anos, participou de um filme dirigido por Federico Fellini e Alberto Lattuada, “Mulheres e Luzes” (1950), no qual canta “Meu Limão Meu Limoeiro”.

Durante a ditadura militar no Brasil, Orico protagonizou uma imagem histórica. Em novembro de 1968, no Rio, durante os protestos contra a morte do estudante Edson Luis, ela foi fotografada quando se ajoelhou na frente de um carro do Exército, lenço branco numa das mãos, e disparou a seguinte frase, que ainda hoje ela repete com veemência: “Não atirem, somos todos brasileiros”. Foi detida.

Uma de suas últimas atuações no cinema aconteceu em “A Terceira Margem do Rio” (1993), de Nelson Pereira dos Santos. Na adaptação do conto de Guimarães Rosa, Orico faz o papel de uma parteira. Agora, seus olhos castanhos iluminam o teatro.



O jornalista 
Valmir Santos e a repórter-fotográfica Lenise Pinheiro viajam a convite da organização do FTC



 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 23 de março de 2006

TEATRO 
Paulo José dirige o grupo mineiro em “Um Homem É um Homem”, que passou pelo festival de Curitiba e estréia em São Paulo 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Nos anos 60, Paulo José adaptou “Um Homem É um Homem”, uma comédia de Bertolt Brecht (1898-1956) que dissocia o estômago da moral e cola o negócio à alma, com fortes influências do cabaré, do circo e do teatro de rua. Cerca de quatro décadas depois, o ator e diretor volta ao texto e encontra no grupo Galpão o caminho seguro para uma comunicação direta com a platéia.

O espetáculo participou do Festival de Teatro de Curitiba (FTC) no final de semana e faz temporada em São Paulo a partir de amanhã, no Sesc Anchieta.

Segundo José, 68, “Um Homem É um Homem” (1927) não é uma peça que se explique facilmente. “É que foi escrita por um poeta. Brecht não se segura nos limites convenientes do drama. Ele se espraia”, diz o diretor que também dirigiu “O Inspetor Geral” (2003), do russo Gogol, com o Galpão.

“Brecht brinca com a linguagem do teatro, ele é muito jocoso nesse texto de passagem entre o Brecht expressionista e o dialético, o que caminha depois para o teatro épico”, diz o ator Eduardo Moreira, 44, um dos fundadores do grupo de Belo Horizonte. “É um texto híbrido, difícil de encontrar o tom entre o cabaré, o cinema mudo, influências do [cômico alemão] Karl Valentim.”

Com uma carreira profundamente influenciada pelo pensamento de Brecht, Paulo José quer reforçar o vínculo político com o mundo contemporâneo em duas frentes: a anulação do indivíduo diante dos interesses coletivos e a atuação de forças militares que ditam regras em quintais alheios.

O enredo mostra como o estivador Galy Gay, um homem simples (interpretado por Antonio Edson), se deixa mudar de identidade e vira soldado de um grupo de metralhadoras do Exército que invade seu país. O que em princípio ele acreditava tratar-se de uma brincadeira em troca de charutos, revela-se um grande equívoco.

“Nosso ratinho de laboratório vai aprender como viver é perigoso”, diz um dos soldados da tropa que convencem Galy Gay a vestir a farda -e a carapuça.

O espetáculo foi concebido tanto para o picadeiro quanto para o palco italiano, com platéia frontal. São 11 atores em cena, que também cantam ou tocam composições originais de Paul Dessaun e citações de Kurt Weill.

Cena mineira
A presença do Galpão em Curitiba combina com a safra de novos grupos de Belo Horizonte que despontaram na mostra paralela do festival, o Fringe. É o caso da Cia. Clara, que veio ao festival em 2004 com “Coisas Invisíveis” e retorna com “Cinema”, ambos dirigidos por Anderson Aníbal. Outro destaque é o grupo Espanca!, revelado em 2005 com “Por Elise” e guindado à Mostra Oficial com “Amores Surdos”, também dramaturgia de Grace Passô, agora dirigida por Rita Clemente. Os dois conjuntos são embrionários de projetos do Galpão Cine Horto, referência na cena mineira.



O jornalista 
Valmir Santos e a repórter-fotográfica Lenise Pinheiroviajam a convite da organização do FTC 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 22 de março de 2006

TEATRO 
Com dramaturgia de Bernardo Carvalho, o grupo de Antônio Araújo abre temporada de “BR-3” na sexta-feira 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

A ocupação do leito, margens e algumas pontes num trecho do Tietê pelo grupo Teatro da Vertigem deve proporcionar um novo olhar sobre o principal rio de São Paulo. É o que espera a equipe capitaneada por Antônio Araújo, atento à relação do teatro com a cidade. O espetáculo “BR-3” tem pré-estréias hoje e amanhã para convidados. A temporada começa na sexta-feira.

Em seu primeiro texto para teatro, o jornalista e escritor Bernardo Carvalho, colunista da Folha, espera que o rio funcione como um eco de sentido, dando um segundo grau de compreensão ao que é narrado. A peça trata da saga de três gerações da família de Jovelina (Cácia Goulart), uma nordestina que após a morte do marido na construção de Brasília vai para São Paulo e se torna chefe do tráfico em Brasilândia.

A trajetória da mulher e dos filhos, Jonas (Roberto Audio) e Helienai (Daniela Carmona), se desenrola entre as décadas de 60 e 90, percorrendo Brasília, Brasilândia e Brasiléia.

Em mais de três anos de processo, o grupo pesquisou a questão da identidade nacional, diálogos ou tensões entre os três pontos: a capital federal, o distrito da zona norte de São Paulo e a cidade do interior do Acre.

Segundo Carvalho, 45, o texto foi concebido com inspiração na condição trágica e paradoxal da espécie humana de ter de se matar para sobreviver -e de que não basta a consciência para interromper esse processo. Não por acaso, o mote de Jonas é: “Tudo em que eu toco morre”.

“O Jonas tenta fugir de um acerto de contas que significaria matar a própria irmã, quem ele mais ama, e acaba matando, sem saber, os próprios filhos. É claro que isso não tem a ver só com o Brasil, mas estando o Brasil numa espécie de periferia do capitalismo, um país onde vivem índios, onde ainda existe uma floresta das dimensões da amazônica, me parece que o país com suas contradições, é um cenário especialmente significativo dessa condição humana paradoxal”, conclui Carvalho.

Se fazer arte implica riscos, no rio a prontidão é regra diante das intempéries. Se o nível da água sobe com as chuvas, por exemplo, torna insegura a navegabilidade do Almirante do Lago, o barco que conduzirá 60 espectadores.

“Fomos imunizados, assistimos a palestras e recebemos orientações”, afirma Cácia Goulart, 38.

“No Tietê, é como trabalhar com um paciente em coma, mas que está em tratamento”, diz Roberto Audio, 40. “Ao mesmo tempo que tomo os devidos cuidados para não ser infectado, estou atento para melhorar suas condições de saúde e ajudar. Esperança requer atenção.” 



BR-3 
Quando:
estréia hoje e amanhã para convidados, e sexta-feira para o público; qui. e sex., às 21h; sáb. e dom., às 20h; até 28/5
Onde: no rio Tietê, entre o Cebolão e o viaduto da Bandeirantes. O ponto de encontro para o público é o estacionamento do Memorial da América Latina, na Barra Funda (av. Auro Soares de Moura Andrade, portão 8). Dois ônibus levarão os espectadores até o local de embarque.
Quanto: R$ 40, nas lojas da Fnac Pinheiros (pça. dos Omaguás, 34) e Fnac Paulista (av. Paulista, 901), de ter. a dom., das 10h às 22h. Mais informações, tel. 3115-0345 

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 21 de março de 2006

TEATRO 
Atores se adaptam às condições 

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Curitiba 

Nos 11 dias desta edição do Fringe, mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba (FTC), as cerca de 200 produções levam em média duas horas para transformar cada um dos espaços conforme sua concepção. Mal termina a sessão, em minutos tudo é desmontado para o espetáculo seguinte.

A reportagem da Folha acompanhou essa rotatividade típica do evento. O local escolhido, entre os 48 oferecidos, foi o Solar do Barão, complexo de quatro edifícios históricos do centro de Curitiba, o mais antigo deles erguido em 1880. No sábado passado, cinco grupos passaram por ali.

Às 9h30, a atriz Evelyn Ligocki é a primeira a pedir a chave a um dos vigias. Ela é de Porto Alegre, mora há três meses em Campinas e traz o monólogo “Borboletas de Sol de Asas Magoadas”, sobre o cotidiano de um travesti.

Não demora, aparece o funcionário do festival que vai ajudá-la na montagem. É o terceiro dia de sessão no Fringe, e Ligocki, 26, está mais conformada com os problemas que diz enfrentar.

Pagou R$ 60 por cada uma das oito apresentações (R$ 480), sob a promessa da organização de que as cadeiras do público seriam colocadas sobre o palco, formando uma semiarena. Só não esperava que o tablado medisse apenas 7 m x 10 m, improvisado numa sala originalmente destinada a concertos (no fundo da platéia, nota-se um piano de calda). “Fiquei decepcionada. Depois daqui, supero confusões de produção em qualquer lugar”, afirma Ligocki.

A produtora Bianca Petersen, 28, coordena os trabalhos no Solar do Barão. Ao longo do evento, 13 grupos passarão pelo espaço, revezando os horários das 11h, 14h, 17h, 20h e 23h. Desde fevereiro, ela procura atender às necessidades dos artistas relacionadas à adaptação do espaço.

A apresentação de “Borboletas…” termina às 12h05 e é vista por 26 espectadores.

O grupo seguinte é o Teatro Fúria, de Cuiabá (MT). Seus oito integrantes viajaram 28 horas para fazer dez apresentações. Conseguiram passagens com a prefeitura de sua cidade e gastaram cerca de R$ 2.500 para trazer “Toma Lá, Dá Cá – A Justiça do Zero a Zero”, sobre seres que querem “dormir o sono dos justos”.

“Havia 116 peças em 2001, quando viemos pela primeira vez. Agora, é quase o dobro. O festival aumentou, mas o público do Fringe ficou mais disperso”, diz o diretor do Fúria, Giovanni Araújo.

Nove pessoas assistem à sessão, que termina às 14h10. No edifício vizinho, às 17h, acontece o solo “Isadora Duncan”, de SP, interpretado por Izabela Pimentel.

Plano B
Foi o vigia Pedro Witkovski quem indicou a sala alternativa a Levy. Ela levou um susto ao se deparar com a sala das demais produções, não apropriada à sua proposta cênica. O “plano B” encaixou-se plenamente.

De volta ao outro edifício, a quarta atração, “Estado de Sítio”, resulta de projeto do Galpão Cine Horto, de Belo Horizonte. A montagem é dirigida por Marcelo Bones. Os 11 atores e dois técnicos se hospedaram num hotel da esquina do solar. O elenco usa espelhos do quarto como camarim. Descem as escadas, passam pelo saguão, atravessam a rua e chegam ao espaço para a sessão das 20h. Com 62 espectadores.

Já passam seis minutos de domingo quando a Cia. Paulista de Artes, de Jundiaí, entra em cena com “Jogos na Hora da Sesta”, direção de Jorge Julião, com 29 pessoas na platéia. Cerca de 90 minutos depois, o vigia terá fechado o Solar do Barão até o reinicio da jornada na manhã seguinte.



O jornalista 
Valmir Santos e a repórter-fotográfica Lenise Pinheiroviajam a convite da organização do FTC 

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 21 de março de 2006

TEATRO 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O cenógrafo e diretor teatral Gianni Ratto, morto no ano passado, aos 89 anos, e a crítica Barbara Heliodora são colocados em perspectiva no programa “Palco e Palavra”, da STV. O jornalista Ricardo Soares conversa com os dois, em momentos diferentes, sobre suas experiências literárias: ela uma tradutora e especialista da obra de Shakespeare, ele um contista e cronista a mancheias, guiado pela arte do teatro que herdou da Itália natal.

A contracenação dos entrevistados, portanto, se dá por meio da palavra. “Eu adoro teatro e ele deve ser tratado com respeito”, afirma Heliodora. “O que exijo não é que gostem do que eu gosto, mas que falem bem o que se propõem a fazer.”

Em outro bloco, Ratto afirma que muitos encenadores “ignoram a palavra” ao se fixarem no “espetáculo pelo espetáculo”. Instiga que um homem devotado também à criação do espaço cênico destine em suas criações igual peso ao universo do verbo.
Ratto diz que foi empurrado organicamente pela vida a escrever livros como suas memórias em “A Mochila do Mascate” (1996).

Esquiva à imagem de crítica implacável, Heliodora surge bem-humorada e chega a brincar que, ao contrário do que dizem, “não sou um dragão que solta fogo pelas ventas”.

Para a crítica, a evolução do cinema e da televisão levou, ou pelo menos deveria levar, o teatro a encontrar formas menos realistas. Heliodora afirma que não tem reservas quanto ao chamado teatro experimental, mas observa que “essa etiqueta às vezes é usada para esconder o malfeito”. E dá um último puxão de orelha nos atores: eles se esqueceram de que o texto em verso ajuda, não deveria ser um estorvo. Ela mesma dirigiu leituras públicas de Shakespeare, fiel à estrutura do autor, e diz que sempre funcionou.

Ao superpor brevemente as idéias de Gianni Ratto e Barbara Heliodora, o programa ajuda a compreender alguns aspectos importantes da cena contemporânea. 



Palco e Palavra – Gianni Ratto e Barbara Heliodora
Quando:
hoje, às 18h30, na Rede Sesc Senac 

Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 20 de março de 2006

TEATRO 
Duas montagens cariocas inspiradas em textos do autor gaúcho são encenadas hoje 

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Curitiba 

Morto há dez anos, Caio Fernando Abreu (1949-96) tem sua obra evocada no Fringe. Duas produções cariocas, dirigidas por gaúchos, como o escritor, estréiam hoje na mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba.

Gilberto Gawronski traz o que chama de um estudo cênico sobre a peça “Pode Ser Que Seja Só o Leiteiro Lá Fora” (1973), apresentada hoje, às 23h, no Solar do Barão. Renato Farias, uma adaptação do conto “Os Dragões Não Conhecem o Paraíso” (1988), do livro homônimo, no Espaço Dois, também hoje, às 18h e às 23h.

Gawronski conviveu com Abreu. Dele, levou o conto “A Dama da Noite” ao palco e ao cinema. Em 1983, atuou em Porto Alegre justamente numa montagem de “Pode Ser…”, dirigida por Luciana Alabarse. No ano passado, foi convidado a dirigir a mesma peça para um grupo de ex-alunos do Centro de Artes da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL).

Abreu escreveu a peça em Londres, à mão e à luz de vela, aos 20 e poucos anos, a idade dos personagens. Eles vivem a experiência de deixar a casa dos pais em busca de independência e pernoitam num casarão abandonado, embalados por sexo, drogas e rock’n’roll.

O autor criou outros seis títulos possíveis para a peça, como “Você Tem Certeza Que São Mesmo Dez Pras Sete?”, “Luxúria Seminua”, “Uma Visita ao Fim do Mundo” e “Vamos Fazer uma Festa Enquanto o Dia Não Chega” -este é o que será apresentado no Fringe.

“Sair do conforto da casa dos pais implica uma outra fase na vida de quem é jovem, como os sete atores do elenco. É uma porta que amedronta, mas precisa ser aberta”, diz Gawronski, 44.

Em “Os Dragões”, Renato Farias, da Companhia de Teatro Íntimo, adapta e dirige o solo de Fernanda Boechat no conto que faz uma metáfora do dragão que existe dentro de cada um. Para ampliar a cumplicidade com a platéia, a montagem recorre ao aroma do alecrim e serve vinho.



O jornalista 
Valmir Santos e a repórter-fotográfica Lenise Pinheiro viajaram a convite da organização do FTC


15º Festival de Teatro de Curitiba
Quando:
até 26/3 
Onde: Espaço Dois (r. General Carneiro, 814, Centro, tel. 0/xx/41/3362-6224) e Solar do Barão (r. Carlos de Carvalho, s/ nº, Centro, tel. 0/xx/41/3321-3367)
Quanto: R$ 24 
Site: www.festivaldeteatro.com.br

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 18 de março de 2006

TEATRO 
Na peça do irlandês Brian Friel, Julia Lemmertz vive mulher que é submetida a operação para enxergar e sofre impacto da realidade 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Metáfora da condição humana em escritores como Borges e Saramago, a cegueira surge como um dado da realidade na peça “Molly Sweeney – Um Rastro de Luz” (1992), do irlandês Brian Friel.

Sem enxergar desde seus primeiros meses, uma mulher de 41 anos mergulha numa infelicidade sem fim quando depara com a recuperação parcial da visão.

Julia Lemmertz interpreta o papel na montagem que estréia hoje no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, uma encenação de Celso Nunes, e na próxima semana vai ao Festival de Curitiba.

A atriz surge ao lado de Orã Figueiredo, o marido que convence a personagem a fazer uma operação de risco; e de Ednei Giovenazzi, o oftalmologista outrora renomado que vê na paciente a chance de recuperar seu prestígio.

“Os homens induzem Molly à operação, não de forma maquiavélica, mas eles se esquecem de perguntar se isso seria bom para ela”, afirma Lemmertz, 42.

“Enxergar é um aprendizado difícil para quem já viveu tanto tempo e tem que encaixar o repertório de palavras às imagens. Ela abre o olho e não sabe o que fazer”, continua Lemmertz.

Um exemplo. Em criança, Molly ouvia dizer que seus olhos eram azuis feito uma florzinha do quintal de casa. No pós-operatório, o espelho lhe mostra os olhos em tons vermelhos, por causa do sangramento. Choque.

Por trás da lida com a deficiência, o diretor Celso Nunes afirma que Friel toca ainda na aceitação da diferença, da individualidade.

“A reflexão está fundamentada nos verbos ver e conhecer. O espectador pode transpor a história dessa mulher para a sua vida, questionando-se sobre a visão cega, a busca de caminhos quando a solução está mais próxima do que se imagina”, diz Nunes, 64.

“Visão Cega” era o título de outra montagem do texto em 2000, por José Renato, com Miriam Mehler, Oswaldo Mendes e Francarlos Reis. “É importante dizer que se trata de uma peça com três protagonistas, do contrário não poderia existir”, diz Lemmertz.

O trio passa o tempo em cena, cada um ocupando o nicho dos respectivos personagens que não conversam entre si; dirigem-se ao público na forma de depoimento. Cada um conta sua versão da mesma história.



Molly Sweeney – Um Rastro de Luz
Quando:
estréia hoje, às 19h; sáb., às 19h, e dom., às 18h; até 25/6 
Onde: CCBB – teatro (r. Alvares Penteado, 112, centro, tel. 3113-3651) 
Quando: R$ 15 

revistas

artigo  A convite da revista aParte XXI, publicação histórica dos anos 1960 retomada pelo TUSP, analiso o decênio paulistano sob a perspectiva dos oito anos da Lei de Fomento. Vide a paradoxal corrida dos grupos aos projetos, em prejuízo da pesquisa e da experiência, e o cúmulo da sessão única semanal.
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