29.1.2013 | por Valmir Santos
O público brasileiro afeito aos trabalhos da portuguesa Maria de Medeiros no cinema – como atriz e diretora – ou mais recentemente na música – como cantora e compositora -, finalmente vai descobri-la no teatro, arte que considera ser fundamental em tudo que construiu em 30 anos de carreira. Ela sobe ao palco para interpretar uma psiquiatra de meia-idade às voltas com aparas ideológicas e afetivas com a filha, advogada. O espetáculo “Aos Nossos Filhos” corresponde a um instantâneo na vida de duas mulheres mobilizadas pelo que fizeram do desejo e do ofício de viver. Leia mais
23.8.2012 | por Valmir Santos

Os atores Leopoldo Pacheco e Melissa Vettore
Espetáculo Camille e Rodin tem interpretações quase protocolares e fica aquém da inquietude dos escultores franceses, protagonistas de uma trágica história de amor Leia mais
13.8.2012 | por Valmir Santos
No limiar da sua segunda década de história, o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos elabora na cena a passagem dos tempos próprio e ancestral. Em Orfeu mestiço: uma hip-hópera brasileira, parte dos atores remanescentes da origem do grupo, no ano de 2000, inscreve no corpo, na palavra, na voz, na escuta e na percepção de mundo a matridade colhida no percurso. O traço mais distintivo nesse novo trabalho é a capacidade de deslocamento da urgência da cultura urbana do asfalto, burilada como linguagem, para o chão das tradições populares, principalmente das bordas rurais, desbravando outras pulsações e saberes do Brasil também índio, negro, caboclo, camponês. Leia mais
29.7.2012 | por Valmir Santos
Esta dissertação circunscreve os mecanismos de organização e criação de três grupos teatrais radicados no distrito de Barão Geraldo, Campinas, SP. Os dados são coletados a partir de observações, anotações de campo e entrevistas. Como forma narrativa, procuramos colocar em relevo a subjetividade entredita nos discursos e práticas. Retraçamos o percurso histórico do lugar e dos três grupos eleitos para a análise: o Lume – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais, a Boa Companhia de Teatro e o Barracão Teatro. Leia mais
28.6.2012 | por Valmir Santos
Quando o grupo conclama “pedra nas veias”, em 1978, a metáfora não tinha perdido para o crack que hoje assoma os centros urbanos. No entanto, algumas palavras e ações lançadas há quase três décadas e meia, por entre labirintos lisérgicos de uma extinta boate batizada Las Piedras, sob a ditadura cívico-militar, ainda são atávicas para os artistas da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Gerações de espectadores identificam o DNA das suas obras, sem dificuldade: a busca por “um acontecimento teatral que negue a desumanização do indivíduo e denuncie a descaracterização consumista”, atualíssimos; a transposição dos “limites físicos da cena”; e a convicção da “cultura de resistência” constituindo reinvenção permanente, conforme os princípios cunhados no manifesto de origem dessa dialética da utopia em arte. Leia mais
17.3.2012 | por Valmir Santos
No final da peça Nossa cidade, do norte-americano Thornton Wilder (1897-1975), um homem já morto compartilha com uma mulher – cujo coração também parou de bater e o fluxo inconsciente da dramaturgia a faz retornar ao aniversário de 12 anos – o aprendizado de que existir é “mover-se dentro de uma nuvem de ignorância”. O texto que Antunes Filho prevê montar este ano, no marco das três décadas do Centro de Pesquisa Teatral, o CPT, possui conteúdos e estruturas correlacionados à essencialidade que o criador defende para o trabalho de ator e a cena que o envolve. “O ator tem que ser também um intelectual”, diz. A obra inspira o diretor a criticar a ascendência da cultura de massa no país e, enquanto cidadão, a perceber com ceticismo o crescimento econômico para o qual sobra “orgia” e falta realidade. Leia mais
11.12.2011 | por Valmir Santos
A crítica Mariangela Alves de Lima, 39 anos de ofício em O Estado de S.Paulo (janeiro de 1972 a dezembro de 2011), foi demitida na última sexta-feira. Choca a decisão administrativa do jornal: desligar a pensadora que inscreveu seu nome na história contemporânea do matutino e do teatro brasileiro sem que tal memória fosse ponderada.
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22.11.2010 | por Valmir Santos
Osman da Costa Lins contava apenas 16 dias quando sua mãe, Maria da Paz, casada com o alfaiate Teófanes, morreu em decorrência de complicações no parto. O autor nunca viu uma fotografia dela. Atravessou os 54 anos de vida, até 1978, construindo com a imaginação um rosto ausente. Metáfora que acreditou traduzir à perfeição o ofício de escritor. Seu texto mais famoso é o da peça Lisbela e o prisioneiro, de 1961, popularizada pelas versões de Guel Arraes para o cinema e a TV. Ele Nasceu em Vitória de Santo Antão, na zona da mata pernambucana, criado, sobretudo, pela avó paterna Joana Carolina, a quem esculpe um memorial na mais longa e considerada mais bela das narrativas de Nove, novena, obra experimental que o projetou internacionalmente em 1966. A linguagem ousada de Retábulo de santa Joana Carolina, o eu multifacetado, levou o editor francês a rebatizar o livro com esse título, e não como no original. Retábulos são figuras pintadas ou talhadas geralmente em madeira ou mármore para ornamentar altares e podem representar uma história em série. Os 12 mistérios de Joana Carolina (como os passos na Paixão de Cristo ou os signos zodiacais, observa o poeta José Paulo Paes), seus sofrimentos de mulher simples do povo, “a vida de provações, de pertinácia e de inquebrantável firmeza de ânimo de uma modesta professora de roça”, serão encenados pelo Piollin Grupo de Teatro, da Paraíba. Leia mais
3.9.2010 | por Valmir Santos

Valmir Santos
Os dois primeiros espetáculos do Coletivo de Teatro Alfenim (João Pessoa, 2006) conformam o pensamento artístico e crítico de seu idealizador, o diretor e dramaturgo Márcio Marciano. As encenações e os textos reavivam memórias embotadas da Paraíba e do Brasil e trazem boas perspectivas à capital rarefeita em pesquisa vertical e continuada. Terra onde Ariano Suassuna (1927) e Paulo Pontes (1940-76) semearam dramaturgias de referência. Sede de grupos como o Bigorna (1968) e o Piollin (1977), tão maturados como bissextos em suas criações.
Marciano é cofundador da Companhia do Latão (1996), na qual escrevia e dirigia em parceria com Sérgio de Carvalho. A convivência por dez anos, naturalmente, impregna os procedimentos estéticos e conceituais em Quebra-quilos, de 2008, e Milagre brasileiro, de 2010.
Em ambos os espetáculos, ficam patentes os recursos épicos e dialéticos, à maneira brechtiana, e o indisfarçável desejo de transcender as próprias amarras que o tempo denota.
Quebra-quilos recorta um episódio da história da Paraíba, transpõe com didatismo para a cena os fatos ocorridos na cidade de Campina Grande, em 1874, e o faz assumindo a fábula. Camponesas expulsas violentamente para o sertão, a viúva Joaquina e sua filha Floriana têm suas vidas entrelaçadas ao fogo cruzado do levante popular de feirantes num vilarejo onde as autoridades alteram o sistema métrico decimal – o quilo, o metro, o litro – para faturar com novos impostos.
Num exercício de aproximação: se em Auto dos bons tratos (2002), do Latão, Marciano e seus pares paulistas imprimiam humor e ironia à narrativa sobre o controle da mão de obra indígena no Brasil Colônia, em Quebra-quilos a fábula transcorre enquanto drama tão estruturante quanto. As figuras centrais trilham o coração do conflito até o desenlace trágico.
A dramaturgia em colaboração com os atores escancara como a valoração do homem é medida pela mercadoria, isso numa linha de tempo que apanha o país no crepúsculo do Império, a 25 anos da Proclamação da República (1899), para não dizer desde as capitanias. “A medida do homem é a coisa”, brada o texto, ecoando Pitágoras na medida de todas as coisas ou Brecht em Um homem é um homem.
E a fita métrica do espetáculo é dada pela organização de seus quadros. Pelo ritmo cadenciado das falas e das ações dos atores. O entra e sai ao pisar o quadrado cenográfico desenhado pelas gavetas de legumes, cereais, frutas e rapadura, aquilo que a terra dá, o homem planta e, não raro, ele mesmo tira a troco de sangue derramado.
O balé dos pés indo e vindo na demarcação territorial da cena, um estrado de madeira também ele a centímetros do chão, corrobora o efeito de distanciamento. O ator narra, dá voz e corpo à figura e depois se dirige a uma das cadeiras à margem, mas sempre compondo o plano de visão do espectador. Os espaços do visto e do narrado resultam orgânicos.
É esse intérprete ativo, vigilante na deixa e na presença “neutra” em cena, quem sustenta a engrenagem. Visto pela primeira vez em maio de 2009, na Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, e agora, em agosto, em temporada na Funarte, sempre em São Paulo, Quebra-quilos é tributário da potência dos atores em não representar, propriamente dito, e ainda assim convencer o público a fiar-se na história. A maneira como ela é contada, esquiva à identificação, não impede a emoção infiltrada no retrato contundente da violência contra a população explorada, firmando a convicção de que a riqueza propagada é para poucos.
O primeiro espetáculo do Alfenim – nome extraído de um doce típico à base de cana de açúcar, daí a determinação do coletivo em “quanto mais dura a rapadura, mais firme e delicada a consistência” – embute essa contradição de origem, a delicadeza no seio da brutalidade. Os aportes históricos e políticos dão vazão a um tratamento poético, um esforço de Marciano em traduzir em imagem (corporal, espacial) aquilo que a palavra confere em narração, diálogo e paisagens sugeridas. O traço artesanal de um tecido vermelho, a moldura cenográfica colorida no piso, a convicção e o carisma do elenco – substituições da versão anterior para a atual não subtraem energia –, tudo leva a uma teatralidade engajada a dizer por si e não sucumbir ao discurso. Um teatro do meio e não da mensagem.
Desde a abertura de Quebra-quilos, quando um narrador afirma que, doravante, vai agir feito criança, “inventar para entender o desengonço do mundo”, entreouvimos a voz de Marciano no picadeiro do circo que se ergue com palhaços degolados e a lona esburacada, conforme as asas da metáfora. Imaginamos, pois, um “desbravador” paulista em João Pessoa a arrebanhar artistas para a causa das novas práticas e pensamentos teatrais a partir do lugar em que pisam. Ou, em chave oposta, os “nativos” ampliando os horizontes de quem chega de longe e pode colher muito desse chão.
“CRÂNIO DA CONSCIÊNCIA”
No segundo trabalho, Milagre brasileiro, a tal lona esburacada encobre o ensolarado território nacional. Um projeto sobre a obscuridade. Para tocar a ferida exposta há mais de quatro décadas, “furo no crânio da consciência”: homens e mulheres desaparecidos durante a ditadura militar (1964-85). Seria pouco correlacionar os dois espetáculos pelas truculências colonial e contemporânea. O que salta em primeiro plano são as ambições de linguagem e de forma para jogar luz em porão no qual a sociedade brasileira – e, por extensão, a maioria dos artistas – não tem coragem de iluminar suas ossadas.
Não dá para invocar esses cadáveres sem incisão. Em se tratando da trajetória de Marciano, a abordagem de assunto tão explosivo não ofusca o ímpeto em experimentar, em explorar outras “línguas” para dizer a que veio. Inclusive a francesa, literalmente inserida como blague mordaz aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade um tanto evaporados nesta era de extremos. A estratégia indicada é problematizar o signo da representação, as nuanças do naturalismo e do realismo já insinuadas em Quebra-quilos, para comunicar o estado de coisas.
“Vão embora!”, vocifera Zezita Matos, de largada, na voz e no olhar petrificadores de sua Antígona, coerente com a recepção antipassiva ao espectador que atravessou um corredor de fotografias de rostos ampliados e ouviu vozes nomearem os desaparecidos, os fantasmas que se farão presentes. O público adentra o espaço para ocupar as arquibancadas, uma de frente para a outra. É um espetáculo incômodo.
Em princípio, soa lugar-comum recorrer a Antígona para lembrar corpos insepultos. Mas logo se verá que o mito da heroína grega que enfrenta o poder autocrático pelo direito de enterrar o irmão serve como uma das antecâmaras. A dramaturgia encontra atalho em Nelson Rodrigues e uma de suas peças míticas e autodenominadas desagradáveis, Álbum de família, no rol das “obras pestilentas, fétidas, capazes, por si sós, de produzir o tifo e a malária na plateia”.
A interseção Sófocles e Nelson gera estranhamento que adensa aos poucos. A tradição, a família e a propriedade atemporais cristalizam-se no clã do coronel nordestino ou no tio de Antígona, o rei Creonte. Licença para pensar que Tebas não está tão longe de Taperoá, embaralhando símbolos, sonoridades, valentias e adestramentos em habitantes das cidades de ontem e de hoje.
Entusiasma notar em Marciano a liberdade de encenador que revela outras camadas nas palavras que ele mesmo escreveu. Milagre brasileiro o expõe em bem-vinda orgia criativa, arriscando-se abrir janelas como nos quadros familiares aparvalhados, de registro tragicômico, com parênteses para o teatro de animação, fantoches e máscaras de caveiras que mimetizam a derrisão.
Um contraponto negativo, porém, vem com a ênfase maniqueísta nas irmãs gêmeas da família subserviente ao pai coronel, como se o instinto de maldade fosse intrínseco às futuras gerações, aos algozes que virão. Apesar de jogar com o grotesco, a desesperança movediça é reforçada no instante em que as crianças crucificam a sua boneca tomando cuidado em ocultar a sessão de tortura dos olhos adultos.
O devaneio, de um lado, e o suporte factual da história do país, de outro, conduzem a um terceiro ponto: o das contradições. Colocadas em perspectiva, elas instauram a crítica. Um exemplo disso é a passagem do tricampeonato mundial de futebol pela seleção, em 1970, apenas alguns meses após o regime militar recrudescer com o decreto do Ato Institucional número 5.

Preciso nos silêncios, o espetáculo é permeado por uma espécie de cabaré dos mortos-vivos com o acompanhamento de dois músicos na percussão e ao piano. E um terceiro contraste vem da própria condição da recobrada democracia brasileira 25 anos após o regime de exceção. Ela vê a tortura de esguelha, ao contrário de Chile, Argentina e Uruguai. Tenta escapar à outra face da tortura disseminada no cotidiano de camburões, cadeias, morros, favelas, campos, shoppings e condomínios.
Para fundamentar em cena a liturgia de ideias que propõe, o Coletivo Alfenim possui artistas experientes e recém-iniciados no ofício, uma mistura sugestiva para instaurar a provocação. Mas há desníveis acentuados no elenco em Milagre brasileiro. Não vemos a apropriação da fala e das entrelinhas como em Quebra-quilos, do qual uma boa parte migrou.
A presença das atrizes e atores vem carregada do rigor da marcação, uma sombra que não deixa transparecer humanidade no olhar e na expressão do rosto do artista – mesmo quando sob o julgo de um carrasco em cena. Essa dimensão espreitada na primeira montagem tinha tudo para aflorar aqui, em formato teoricamente mais aberto, com sua dança pelos gêneros e jogos de representar acionando o espírito lúdico. Ao contrário, o que prevalece é o franzir da preocupação em dar conta da brincadeira inventada para tratar de tema sério.
As ousadas concepções do encenador e do dramaturgo traem a si mesmas quando não se permitem o “descontrole”; não confia a mesma pulsão autoral aos homens e mulheres que o traduzem em carne e osso. Nesses quatro anos de vivência em João Pessoa, Márcio Marciano cativou artistas locais para um projeto consistente. Quebra-quilos dá notícias do encantamento dos integrantes do grupo envolvidos. Milagre brasileiro expõe o diretor e o dramaturgo avançados em suas rubricas e, no entanto, isolados na dianteira, na cabeça de Marciano a negociar com a realidade gritante, os contrastes de produção e de criação aos que perseveram fazer teatro na Paraíba, no Nordeste. Dessa precariedade, o Coletivo de Teatro Alfenim já lapidou preciosidades. Seu futuro está inscrito na generosidade de ambas as partes: o diretor paulista, pecha que lhe rende louros na proporção que lhe custa um bocado, e os artistas de João Pessoa em suas infinitas territorialidades e sotaques universais.
(1 de setembro de 2010)
trecho do programa de Quebra-quilos:
NA LAPADA DA VIDA, NOS FAZEMOS ALFENINS
Márcio Marciano
O Alfenim está nascendo da labuta de trabalhadores artistas empenhados na fatura e no debate de um teatro que se processa como forma estética interessada em se inscrever no âmbito da ação política, porque não existe arte que não seja política. Teatro do prazer que vem da crítica, da invenção formal que os novos assuntos exigem, da dialética entre o ontem e o agora, o amanhã e a tradição.
Este primeiro espetáculo, Quebra-quilos, reflete o compromisso de extrair beleza da matéria crua produzida pelo desmando patrimonialista, secular, vil, que tem marcado a sociabilidade brasileira e nordestina. Beleza extraída da matéria múltipla, ao mesmo tempo grandiosa e amesquinhada, que compõe o perfil bifronte de uma gente que só se reconhece na desidentidade.
Nossa arma é artesania material e simbólica, funda contra gigantes de um olho só. Somos Alfenins: quanto mais dura a rapadura, mais firme e delicada a consistência, mais complexa a doçura.
fichas técnicas/artísticas:
QUEBRA-QUILOS
Com: Coletivo de Teatro Alfenim
Texto, direção e iluminação: Márcio Marciano
Elenco: Adriano Cabral, Ana Marinho, Daniel Araújo, Daniel Porpino, Fernanda Ferreira, Verônica Souza e Zezita Matos.
Direção musical: Marco França
Cenário: Márcio Marciano
Figurinos: Maurício Germano
Programação visual: Daniel Porpino e Leonardo Rolim
Consultoria de encenação: Fernando Yamamoto
Produção: Humberto Dias
MILAGRE BRASILEIRO
Dramaturgia e encenação: Márcio Marciano
Elenco: Adriano Cabral, Ana Marinho, Daniel Araújo, Daniel Porpino, Fernanda Ferreira, Paula Coelho, Verônica Sousa e Zezita Matos
Músicos: Diego Souza e Wilame AC
Iluminação: Ronaldo Costa
Bonecos/Instalação da família: Vilmara Georgina
Bonecos/Manipulação direta:
Artur Leonardo, Amanda Viana, José Valéria e Aline Barreto
Costureiras: Vilmara Georgina e Maria Georgina
Arte gráfica: Shyko
Fotografia: Adriano Franco
Assessoria: Calina Bispo e Cristhine Lucena
Oficina “Treinamento e criação no momento cênico”: Norberto Presta e Andréa Nascimento
Consultoria de manipulação de bonecos: Grupo Boca de Cena
Consultoria historiográfica: Professora Regina Beah
Produção executiva: Humberto Dias
Composições: Diego Souza, Márcio Marciano, Paula Coelha e Wilame AC
Direção musical: Wilame AC
Direção de arte: Maria Botelho
NALAPADA DAVIDA, NOS FAZEMOS ALFENINSMárcio MarcianoO Âlfenim está nascendo da labuta de trabalhadores artistas empenhados na fatura e no debate de um teatro que se processa como forma estética interessada em se inscrever no âmbito da ação política, porque não existe arte que não seja política. Teatro do prazer que vem da crítica, da invenção formal que os novos assuntos exigem, da dialética entre o ontem e o agora, o amanhã e a tradição.Este primeiro espetáculo, Quebra-Quilos, reflete o compromisso de extrair beleza da matéria crua produzida pelo desmando patrimonialista, secular, vil, que tem marcado a sociabilidade brasileira e nordestina. Beleza extraída da matéria múltipla, ao mesmo tempo grandiosa e amesquinhada, que compõe o perfil bifronte de uma gente que só se reconhece na desidentidade.Nossa arma é artesania material e simbólica, funda contra gigantes de um olho só, Somos Alfenins: quanto mais dura a rapadura, mais firme e delicada a consistência, mais complexa a doçura.
8.3.2010 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi, sem data. Caderno A – capa
VALMIR SANTOS
O espírito da brincadeira em “Nas Trilhas da Transilvânia”, o esboço, um ano atrás, está presente no primeiro ato de “Drácula e Outros Vampiros”, título da montagem agora em cartaz em São Paulo. Antunes Filho, aos 67 anos, libera sua verve juvenil no novo espetáculo.
Com um elenco repleto de adolescentes, a sensação é de que estamos acompanhando um bando de estudantes aprontando das suas num playground de horror e riso.
De fato, na primeira parte, com exceção do transe efêmero provocado pela vibração dos movimentos dos atores, adaptado de uma dança de Bali (kecak), não há indícios de um trabalho do qual o público assimile imediatamente se tratar da assinatura do diretor, um mestre da cena brasileira.
Um Antunes surpreendente e aventureiro é o que desponta nesta montagem do Centro de Pesquisa Teatral (CPT). A começar pelo peso do tratamento visual em cena. Parênteses para a equipe de J.C. Serroni, com um cenário entranhado no mito do vampiro, sobretudo nas texturas. Idem para o tratamento de sombra na iluminação de Davi de Brito.
No início, muito gelo seco ao som de Black Sabbath. A competente trilha sonora de Raul Teixeira é crucial nas passagens em que a atmosfera, a instalação do clima (gótico ou passional, com direito a tango), importa mais do que propriamente o jogo interpretativo.
Sim, o ator que Antunes sempre colocou em primeiro plano, surge aqui diluído. O álibi talvez fique por conta da safra de novatos, a maioria com “bagagem” de apenas quatro meses de CPT.
Resta a investida no coletivo, na “coreografia” de palco que o diretor domina muito bem. O deslocamento dos coros (Mortos-Vivos, Comitê de Recepção e Dracula’s Club, por exemplo) se dá harmoniosamente no espaço cênico.
Antunes inverte a expectativa para trazer à tona o “trash” que assume em sua formação. Permite-se revelar um outro lado criador – mais anárquico, por que não? É escancarado o ar patético com o qual constrói o Drácula interpretado por Eduardo Cordobhess. Um Drácula palhaço.
No segundo ato, volta o encenador-cabeça. E “Drácula e Outros Vampiros” diz a que veio. Entra em cena a metáfora da burguesia sanguessuga e da direita extremista que avança à beira do próximo milênio. A síntese do espetáculo demora, mas aparece: a cena em que Drácula é convertido em Hitler, emoldurado no esquife, discursando raivosamente. A intolerância está na ordem do dia.
Mas não é o arremate antuniano que se esperava. Apesar das várias citações (o coreógrafo Kurt Jooss, a cineasta Leni Riefenstahl, o escritor Baudelaire), a peça resulta uma metáfora pálida. Nem Sepultura, ao final, dissimula a frustração. A concepção da montagem que fruía na cabeça de Antunes quando da conversa com os jornalistas, na véspera da estréia, prometia mais encantamento e fúria.
DRÁCULA E OUTROS VAMPIROS – Concepção e direção: Antunes Filho. Com Grupo Macunaíma (Lulu Pavarin, Geraldo Mário. Ludmila Rosa e outros). Quarta a sábado, 21h; domingo, 19h. TEATRO SESC ANCHIETA (rua Doutor Vila Nova, 245, Vila Buarque, tel. 256-2281). R$ 16,00 e R$ 20,00 (sábado). 75 minutos