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Reportagem

Dossiê sobre a cena de Buenos Aires

4.9.2013  |  por Ferdinando Martins

Foto de capa: Divulgação

Crise econômica, sujeira nas ruas, turismo em baixa. Buenos Aires já não está tão atraente como no passado. Mas no teatro, a cidade ainda pode se gabar da fama de capital europeia na América do Sul. A produção continua efervescente e dinâmica. Na Avenida Corrientes, reduto dos espetáculos comerciais, as filas e aglomerações são constantes nas portas dos teatros. Em Abasto e arredores, proliferam produções independentes.

De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da prefeitura de Buenos Aires, há um crescimento contínuo de público desde 2003 nos teatros dos circuitos comercial e oficial, chegando a 3.893.044 de espectadores em 2011 (os dados de 2012 ainda não estão consolidados). “Oficial”, no caso, refere-se a salas mantidas pelo poder público: o Teatro Nacional Cervantes, o Teatro Colón e o conjunto de cinco teatros que fazem parte do

Complejo Teatral Buenos Aires. Não há dados sobre a cena independente, mas nota-se que esta também vem crescendo. O site Alternativa Teatral registrou 406 espaços com programação na cidade em 2010. Em 2011, esse número subiu para 424. Para comparar, todo o Estado de São Paulo tinha 306 teatros em 2010, segundo os últimos dados disponibilizados pelo Ministério da Cultura. O Rio de Janeiro, 231.

Veronese (centro) com equipe de Los elegidos

Outra comparação se impõe para nós, brasileiros. Diferente daqui, cujo modelo de financiamento às atividades teatrais é fortemente dependente de renúncia fiscal ou fomentos públicos, há na Argentina um mercado teatral. Além de maior presença de público pagante nas plateias, isso se reflete na quantidade e variedade da oferta. Os espetáculos mais vistos na cidade, segundo a Associação Argentina de Empresário Teatrais, AADET, são produções privadas sem nenhum apoio do poder público, todos em cartaz na Avenida Corrientes e imediações.

Para o teatro independente, o subsídio existe, mas é pouco e não supre as necessidades dos grupos. O Instituto para a Proteção e Fomento à Atividade Teatral, Proteatro, foi criado pela prefeitura de Buenos Aires em 2000 e beneficia salas, grupos estáveis ou evetuais e projetos especiais. Em 2011, o total de recursos investidos foi de 4.091.597,00 pesos argentinos (aproximadamente R$ 1,8 milhão), 4% menores que em 2010. Em São Paulo, no mesmo ano, os recursos do Programa Municipal de Fomento ao Teatro foram de R$ 8.240.095,69.

Embora seja verificada uma produção significativa, tanto em números de espetáculos oferecidos, quanto na variedade de propostas estéticaas, o teatro independente portenho reclama das dificuldades do mercado. Documento lançado em maio deste ano pela Associação Argentina de Atores, AAA, afirma que o teatro independente vive uma “situação precária” e “embora seja vendido turisticamente pelo governo da cidade, sobrevive com magro orçamento e sustenta sua programação fundamentalmente com o esforço e uma incansável luta das salas e dos atores”.

O mesmo documento denuncia a deterioração do circuito oficial, especialmente do Complexo Teatral de Buenos Aires, em suas cinco salas. Segundo a AAA, os principais problemas são a falta de manutenção das salas e camarins, o uso do espaço para fins privados, a diminuição de produções próprias, associada à terceirização de suas atividades para produtores comerciais, a redução de oficinas oferecidas para a formação em atividades teatrais. Em duas visitas a esse espaço, verifiquei falta de funcionários, assentos quebrados, falhas no sistema de som durante a apresentação e a limpeza não era das melhores. Mesmo assim, o complexo recebe aproximadamente 90 mil pessoas por ano.

Variedade estética

No circuito comercial, as sessões costumam ser de quarta a domingo, com duas apresentações aos sábados. Os empresários preferem não correr riscos e investem em fórmulas de êxito garantido. O espetáculo mais visto nos últimos cinco meses, segundo a AADET, foi a revista Stravaganzza, em cartaz há dois anos no Teatro Broadway. A poucos metros dali, no Teatro Tabaris, outra revista faz sucesso desde 2011, Escandalosas. O gênero, que no Brasil já não existe, é ainda promissor na capital portenha. As vedetes que estrelam Escandalosas, Moria Casán e Carmen Barbieri, são celebridades desde os anos 1970.

Outra aposta segura são os textos da moda, os que atraem público em vários lugares do mundo, como a comédia Love, love, love, de Mark Bartlett. Na mesma linha, estão em cartaz O armário, de Francis Veber, adaptação do filme francês que acabou de estrear no Teatro Lola Membrives,Os 39 degraus (Los 39 escalones), de Patrick Barlow;Toc-toc¸ do francês Laurent Baffie; e musicais como A família Addams (Los locos Addams) – essas três últimas conhecidas do público paulistano.

Nomes conhecidos da televisão ou do cinema também fazem parte, é claro. Ricardo Darín está em cartaz no Teatro Maipo com Escenas de una vida conyugal. Cecília Roth, estrela de filmes de Pedro Almodóvar e da televisão argentina, atrai público para o espetáculo Una relación pornográfica, em cartaz há oito meses no Teatro Paseo La Plaza. No mesmo espaço, Benjamin Vicuña, astro de telenovelas, protagoniza a peça Los elegidos, de Theresa Rebeck – e arranca gritinhos da plateia ao tirar a camisa em cena.

Pablo Zunino, autor de El doctor Lacan

O principal pólo de teatro independente não fica muito distante da Corrientes, subindo a avenida até chegar em Abasto. Próximo ao antigo mercado municipal que hoje é um moderno shopping, estão as ruas Zelaya, Lavalle, Anchorena e Jean Jaures. Outrora frequentadas por cantores de tango (Carlos Gardel e sua mãe moraram na região), hoje vê proliferar espaços teatrais. O Teatro El Cubo tem programação de segunda a domingo e na fachada exibe o slogan “Teatro de Arte”, embora sua programação mescle obras de pesquisa, comédias populares e stand-ups. O Teatro del Abasto também funciona todos os dias, no momento com nove espetáculos em cartaz, todos de teatro de grupo. Algumas produções, como Absentha, do Grupo La Fronda, estão em cartaz há mais de um ano.

Cabe notar que, diferente do Brasil, teatro de grupo na Argentina não é sinônimo de teatro de pesquisa ou experimental. Segundo Lucas Rinaldi, professor da Universidade de Buenos Aires, “muitas vezes a organização em grupo é questão de sobrevivência e não se converte em uma proposta estética”.

Além de Abasto, o teatro independente se espalha por salas alternativas e espaços históricos. Uma excelente montagem de Credores, de August Strindberg, feita pelo grupo vocacional Asunto Guevara está em cartaz no Auditório Losada – que funciona dentro de uma livraria. El doctor Lacan está no Teatro La Comedia, com duas salas junto a uma academia de ginástica. No Teatro El Picadero, que abrigou o teatro de resistência nos anos 1980 e foi destruído por um incêndio pelos militares durante a ditadura, Daniel Veronese apresenta Sonata de otoño, adaptação sua do filme de Ingmar Bergman.

A trajetória de Veronese é um caso não incomum na Argentina de diretores que circulam com certa tranquilidade entre os diferentes circuitos. Fundador do El Periférico de Objetos, grupo experimental de grande projeção internacional nos anos 1990, Veronese assina produções alternativas (caso de Sonata de otoño) como comerciais (é dele a direção de Los elegidos). Na mesma linha, Javier Daulte mantém seu prestígio no teatro independente e na Avenida Corrientes, onde está em cartaz como diretor de Una relación pornográfica e do deplorável El hijo de p#$* del sombrero – espetáculo de piadas rasteiras e mal produzido. Segundo o jornal Clarín, Daulte é um dos diretores mais influentes do país. Para a publicação, declarou: “Cuido para preservar a inutilidade do teatro, porque é a única maneira de garantir a liberdade criativa. Teríamos problemas se o teatro servisse para alguma coisa. O teatro tem de ser basicamente inútil”.

>> Norma Aleandro dirige Bergman convencional

 

Ferdinando Martins

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