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Entrevista

Dialética aplicada à relação arte e sociedade

15.5.2014  |  por Michele Rolim

Foto de capa: Bob-Sousa

Retorna a Porto Alegre uma das companhias mais importantes do País, a paulista Cia. do Latão. Em 2013 o grupo trouxe ao Palco Giratório O patrão cordial; agora, são duas peças: O círculo de giz caucasiano (2006) e Ópera dos vivos (2010). A primeira é uma reestreia nacional – a peça não era mais apresentada desde 2008 – com elenco composto, em sua maioria, por novos atores. Nela, o público é convidado a embarcar em uma jornada de três horas pelo universo de Bertolt Brecht, grande influência da companhia.

A outra montagem é considerada a mais complexa do grupo, em termos de dramaturgia. A peça acompanha a formação da indústria cultural, combinando teatro, música, cinema e televisão – também tem longa duração, cerca de 4 horas. O diretor Sérgio de Carvalho discorre sobre a trajetória da companhia, a influência de Brecht, bem como a importância do grupo para o teatro brasileiro e o seu papel de intermediador entre a arte e a sociedade.

A Cia. do Latão existe há 17 anos. Como funciona o processo colaborativo de criação?

Sérgio de Carvalho – Dentro da companhia sou diretor e dramaturgo, isso faz com que o tipo de processo colaborativo nosso seja marcado por uma espécie de centralidade da dramaturgia – mesmo quando montamos uma peça de outro autor, procuramos “reescrevê-la”. Há uma ideia de coletivização do trabalho dramatúrgico, entendemos dramaturgia no sentido amplo, não só da palavra, mas da cena. Já fizemos todo o tipo de processo, aqueles em que o texto é produzido totalmente na sala de ensaio, aquele que parte é fora, a outra parte é dentro. Nos trabalhos mais recentes houve um momento de escrita separada, combinando uma dramaturgia desenvolvida em sala de ensaio com um tratamento literário fora.

Além de ser um grupo voltado para a discussão teórica e prática, o Latão está muito interessado em mediar o debate entre a arte e sociedade. Temáticas voltadas à experiência brasileira acompanham o grupo desde o início?

Acho importante olhar as questões do ângulo local, no sentido de entender que o local faz parte das redes e das conexões mundiais. A maioria das pessoas estuda teatro como se vivesse na Europa: as categorias todas são europeias, os autores centrais são da Europa. Se você olhar a maioria das pesquisas universitárias, vemos surgir especialistas em autores europeus. Apesar de termos a referência de Brecht, as coisas mais importantes do Latão são o lado de pesquisa de uma dramaturgia que considera o fato de estarmos na periferia do capitalismo, de termos uma história colonial, um passado escravista, dos processos burgueses aqui assumirem funções ambíguas e, ao mesmo tempo, contraditórias, entre outros elementos locais.

Em 2006 vocês estrearam a peça O círculo de giz caucasiano. Nesta semana, ela faz sua reestreia nacional no Palco Giratório. Como, ao longo desses anos, o Latão vem tentando romper com este “senso comum” em relação ao dramaturgo alemão?

A questão do Brecht não é ser racionalista ou não, e sim sobre o que você está racionalizando e sobre o que você sente, ou seja, o problema é o tipo de identificação que você vai ter, e não com haver emoção na cena. Há uma vulgata que acha que o Brecht é um autor ao qual você tem que associar certo estilo de cena. Para mim, quando você trabalha uma peça do Brecht, você não tem uma solução estilística pronta, nem musical e nem formal. O interessante não é Brecht, mas o quanto ele foi capaz de pensar a dialética aplicada ao teatro.

Carvalho vê o capital como problema e não solução

A montagem Ópera dos vivos pode ser considerada o trabalho mais ambicioso da companhia?

É o trabalho mais complexo do ponto de vista de uma dramaturgia própria, com texto escrito por mim e pelos atores, tanto que vai virar filme e livro. Tentamos acompanhar a modificação do trabalho da cultura e da relação teoria e prática, em cada momento histórico. Colocamos em choque diferentes momentos pra você entender a luz do passado. Por exemplo, para quem fazia cultura nos anos 1960 o capital era um problema, e para as pessoas que estão fazendo hoje, parece que é uma solução.

Qual a maior contribuição do Latão para o teatro brasileiro?

O fato de o Latão existir ajudou que muitos grupos se interessassem pelas relações teatro e sociedade, mostrou que é possível fazer teatro político de modo experimental, com uma qualidade estética de alto padrão, propondo uma reflexão crítica e estética. Mais do que uma ideia única de teatro político, evidenciou que era necessário fazer conexões de vários tipos entre arte e visão social, de mundo e de Brasil. Criamos modelos dramatúrgicos, ajudamos a formar grupos diretamente, até geramos movimentos contrários da nossa forma de trabalhar. Eu vejo certas críticas medíocres e precárias, de colocar o trabalho do Latão como anacrônico, como um passado que já teria sido superado. Essa acusação se baseia numa mistificação de uma ideia de que certas formas são mais contemporâneas que outras, em cima de conceitos frágeis, que criam generalização.

.:. Publicado originalmente no Jornal do Comércio, caderno Panorama, p. 1, em 14/5/2014.

Serviço:
Círculo de giz caucasiano
Onde: Teatro Renascença (Avenida Erico Verissimo, 307, tel. 51 3221-6622).
Quando: Quinta e sexta (15 e 16/5), às 19h.
Quanto: R$ 5 a R$ 20.

Ópera dos vivos
Onde: Teatro Renascença (Avenida Erico Verissimo, 307, tel. 51 3221-6622).
Quando: Sábado e domingo (17 e 18/5), às 19h.
Quanto: R$ 5 a R$ 20.

.:. A programação completa do 9º Festival Palco Giratório Sesc/Poa, aqui.

Michele Rolim

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