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Reportagem

Brasília abraça pirandellianos e coprodução

19.8.2014  |  por Teatrojornal

Foto de capa: Emilio Gómez

A natureza dramática dos escritos de Luigi Pirandello (1867-1936) e o expediente da coprodução são duas orientações-chave para navegar na programação do 15º Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília. Foram escaladas 23 encenações oriundas da Espanha, Escócia, França, Argentina e Brasil. As apresentações acontecem durante 13 noites, entre 19 e 21 de agosto, ocupando oito espaços, dois deles ao ar livre.

A prosa ou a dramaturgia do escritor italiano incidem na trilogia do ator Cacá Carvalho, sempre dirigido pelo também italiano Roberto Bacci – O homem com a flor na boca, A poltrona escura e umnenhumcemmil – assim como na adaptação do clássico Seis personagens à procura de autor pela companhia espanhola Kamikaze, em La función por hacer, codirigida por Miguel Del Arco e Aitor Tejada.

Cacá Carvalho na terceira parte da Trilogia Pirandello

Já a prática e o pensamento da coprodução convergem para Tomorrow, da companhia escocesa Vanishing Point, dirigida por Matthew Lenton. A dramaturgia colaborativa de Pamela Carter discute o que é envelhecer e necessitar de cuidados especiais num mundo em que o mito e a espiritualidade teriam sido suplantados pela constatação automática de que nascemos, vivemos e morremos. O texto pretende pôr em xeque a falta de respeito das novas gerações aos mais velhos. Se não respeitam, estão se condenando ao mesmo destino?

Tomorrow resulta de um processo de criação de cinco semanas, entre dezembro de 2013 e janeiro de 2014, e dá continuidade a uma oficina ministrada por Matthew Lenton na edição do ano passado do Cena Contemporânea – ele é cofundador da Vanishing Point Theater Company em 1999. Com elenco de múltiplas nacionalidades, esta é a primeira coprodução internacional do festival brasiliense em parceria com o Brighton Festival (Inglaterra) e o Tramway, tradicional espaço de criação artística da Escócia.

“Coproduções e residências artísticas rompem fronteiras culturais?”, eis o tema de um dos segmentos das atividades formativas, o Encontros do Cena – Espaço internacional de intercâmbio cultural e artístico. Como romper paradigmas e impulsionar novas formas de produção e de circulação da produção artística, de forma coletiva, seja em seus aspectos práticos, que envolvem planejamento, financiamento e gestão, seja em seus aspectos artísticos que implicam capacidade de diálogo com outros criadores, outras cidades, outros países.

Entre as questões norteadoras: “Quais as formas encontradas pelos artistas e empreendedores culturais para driblar as dificuldades na criação de coproduções e projetos de residência artística? Como se posicionar, pensar e atuar entre o modelo cultural local, autorreferencial e, por outro lado, o modelo da migração e do intercâmbio cultural, que quebra as fronteiras das linguagens, das formas, das raízes e das convenções? Algumas modalidades de cooperação são usuais em países europeus e ainda raras no Brasil e na América Latina. Isso é assim mesmo?”.

Coprodução do festival com companhia escocesa

Das seis obras internacionais do evento, três vêm da Espanha. Além de La función por hacer, o público tem a chance de conhecer a face dramatúrgica do crítico e jornalista Carlos Gil Zamora (da Artez – Revista de las Artes Escénicas), do País Basco, autor de Cuarteto del alba, sob direção de Lander Iglesias. A peça projeta uma geração às voltas com a dor da frustração política e aquela provocada pela perda amorosa em meio às liberdades desconstruídas pelas drogas, pelas utopias políticas.

Outro grau de insatisfação paira em La chica de la agencia de viajes nos dijo que había piscina en el apartamento, criação coletiva da Cia. El Conde de Torrefiel com dramaturgia de Pablo Gisbert. O alheamento gerado pela ideia fixa de felicidade é flagrante durante o período de férias, um exercício voluntário de esquecimento do mundo. Segundo a companhia, a arte pop (que teria lançado por terra todas as tentativas de catalogar o objeto artístico) tirou o peso político de acontecimentos do século 20, banalizando-os.

A ala estrangeira apresenta ainda a versão clown do ator, diretor e pedagogo argentino Gabriel Chame Buendía para Othelo, a tragédia de Shakespeare. A adaptação para um quarteto de atores questiona o que se entende por negro, engano, traição, lealdade e vingança na perspectiva de seu país. Na dança e suas variantes, o Cena exibe Pichet Klunchun and myself, dueto concebido pelo coreógrafo e bailarino Jérôme Bel para contracenar com o colega tailandês Pichet Klunchun. Sentados de frente um para o outro, intercalam movimentos e conversas sobre o ofício, nudez, religião, medo, tradição ou coreografia, perpassando noções de interculturalismo, globalização e eurocentrismo.

São oito as produções de outros estados, correspondendo a cinco de São Paulo, quatro do Rio de Janeiro e uma do Mato Grosso do Sul. Os espetáculos locais constituem maioria na programação, nove – o Cena é conhecido por agregar os trabalhos brasilienses com dignidade.

Os números evidenciam enxugamento nos formatos e conteúdos desta edição por impossibilidade de captar recursos. Segundo a organização, o orçamento foi reduzido à metade, comprometendo o característico arco geopolítico das obras, para não falar da suspensão do braço musical, os shows noturnos na praça do Museu Nacional, pulsação do ponto de encontro. A rigor, a média de montagens se mantém: eram 25 em 2013 e agora são 23, sendo duas a menos tanto em nível nacional como em relação a outros países.

Coube a Conselho de classe, a premiada criação da carioca Cia. dos Atores, a missão de abrir o festival na noite de terça-feira, 19, com texto de Jô Bilac em colaboração com o elenco e as diretoras Bel Garcia e Susana Ribeiro.

O Cena Contemporânea tem curadoria e coordenação-geral de Guilherme Reis, diretor teatral que encabeça o projeto desde 1995. Em 19 anos, houve um vácuo considerável de 1996 a 2001. A anuidade ininterrupta engrenou de vez a partir de 2003. O Festival é uma realização da Cena Promoções Culturais e da Fundação Athos Bulcão. A patrocinadora atual é a Petrobras, além do copatrocínio do Banco do Brasil, por meio do CCBB, e da Funarte.

.:. Mais informações sobre a programação completa e as atividades formativas no site do Cena Contemporânea, aqui.

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