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Crítica

Sampleando desejos

19.8.2015  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Divulgação/Téspis

Em Itajaí

A neutralização do corpo é uma das constantes no teatro pós-dramático. Ele não modula esforço por linhas de emoção ou de identificação. Os atores Denise da Luz e Max Reinert seguem essa percepção à risca em Esse corpo meu? (2014), da Téspis Cia. de Teatro, de Itajaí.

Eles adicionam fortes ingredientes da ação performativa para desconstruir a ilusão cênica e criticar a fixação biológica de gênero, como se as genitálias presumissem o desejo.

Seus corpos-manequins são suportes para samplear o gesto, a vestimenta, a atitude, o estereótipo. Desfilam no palco desvios e deslizamentos do masculino e do feminino com variantes para as transgeneridades.

Na criação colaborativa com a argentina Periplo Compañía Teatral – a direção é de Diego Cazabat –, a partitura física estiliza a glamorização da vida e provoca estranhamentos nos papeis sociais do homem e da mulher, ruídos representacionais a ver com a pele que cada um habita.

O texto-pensamento flutua em voz off sobre a dança dos corpos de Reinert e Denise, que transitam diálogos não-verbais e olhares que dizem muito. A fala gravada funde-se à paisagem sonora desenhada por Hedra Rockenbach, instigando uma dramaturgia que abre paralelos ou surte efeito direto.

A dupla atira-se de peito aberto. Seus corpos-narradores frequentemente vêm do fundo para a boca de cena. A frontalidade desenha como que um corredor-passarela em direção ao público. Também ao fundo, dois painéis lado a lado, de pé-direito alto, são os respectivos guarda-roupas. Atrás de cada um deles Denise e Reinert providenciam as mutações.

as duas companhias se permitiram contextualizações e relativizações históricas, econômicas e antropológicas sutilmente sinalizadas em objetos, adereços e figurinos, ou assumidamente viscerais nos corpos convulsos ou estatelados

A pesquisa da coprodução encontrou níveis sofisticados de associação trabalhando com um material difícil de ser processado. Samplear significa montar. Não bastasse o campo de suas culturas em cruze, as duas companhias se permitiram contextualizações e relativizações históricas, econômicas e antropológicas sutilmente sinalizadas em objetos, adereços e figurinos, ou assumidamente viscerais nos corpos convulsos ou estatelados.

Afinal, estamos diante de diferentes níveis de violência na sociedade, como aquela exercida particularmente sobre o corpo da mulher, do cala boca machista ao fetichismo publicitário e cosmético.

Denise da Luz e Max Reinert desnudam contradiçõesViviane Silva de Paoli

Denise da Luz e Max Reinert desnudam contradições

As miniaturas de um carro e de uma boneca mimetizam infâncias emolduradas pelo tempo. Em alguma medida elas eram descondicionadas pela ternura acenada no desfecho.

São imagens políticas que ampliam horizontes e refutam as agendas conservadoras sobre as normatizações da sexualidade, desculpa para o preconceito.

Entre chegar a esse raciocínio e transpô-lo à cena a Téspis e a Periplo, companheiras de intercâmbio desde 2007, conseguiram friccionar heterogeneidades também artísticas. A terceira via é o que Esse corpo meu? mostra equilibrando-se sobre o fio da navalha. Risco superado até durante a apresentação para uma plateia lotada, sobretudo, por estudantes do ensino médio. Apesar de um ou outro espectador incauto, o público em geral fruiu uma obra artística inquietante, além do que é um alento notar a floração adolescente tolerando as diferenças.

.:. Escrito no âmbito do IV Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, de 7 a 16/8, em Itajaí. O jornalista viajou e trabalhou a convite da organização do evento.

Ficha técnica:
Direção: Diego Cazabat
Com: Denise da Luz e Max Reinert
Diretor assistente: Hugo De Bernardi
Dramaturgia: Processo colaborativo entre a Téspis Cia. de Teatro e Periplo Compañia Teatral
Ambientação sonora: Hedra Rockenbach
Figurinos: Cristine Conde e Denise da Luz
Costureira: Lélia Machado de Melo
Cenário e iluminação: Max Reinert e Diego Cazabat
Cenotecnia: Fer-Forge
Operação técnica: Jônata Gonçalves
Design gráfico: Max Reinert
Fotografias: Lote 84 e Emanuele Matiello
Produção executiva: Téspis Cia. de Teatro
Apoio: Projetos patrocinados através dos editais Iberescena e Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura

Valmir Santos

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