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Crítica

Arquitetações do lembrar e do esquecer

16.12.2015  |  por Maria Eugênia de Menezes

Foto de capa: Frederico Chigança e equipe

Memória e esquecimento são os componentes com os quais Guillermo Calderón construiu Villa + Discurso. Originalmente, o diretor e dramaturgo chileno – talvez o mais destacado de sua geração – concebeu a peça como um díptico.

Ao lado de Villa, encenada pelo mesmo elenco, aparecia também Discurso, um fictício pronunciamento de Michelle Bachelet no momento em que se preparava para deixar a Presidência. Sua fala contundente, na qual transformava em palavras tudo aquilo que os políticos costumam deixar em silêncio, vinha lidar com as feridas que a ditadura de Augusto Pinochet deixou sobre uma mulher, sobre sua conduta política, sobre o Chile – a herança neoliberal da ditadura e as possibilidades de futuro.

Na Bienal Internacional de Teatro da USP, Villa foi apresentada de forma independente. Talvez, porque Bachelet esteja de volta ao poder. Talvez, porque seu discurso, hoje, seria de retorno e não de despedida. Especulações à parte, fato é que Villa funciona como obra autônoma. Lidando com o real, olhando a barbárie em seus detalhes mais prosaicos. Transcendendo, porém, a discussão sobre os horrores da repressão ao olhar para o complicado equilíbrio entre lembrar e esquecer.

Qual o sentido de se falsear o passado com um cópia do antigo centro de horrores? A simples tentativa de simular o que se passou não é uma violação?

Ao redor de uma mesa, três jovens mulheres (interpretadas por Francisca Lewin, Macarena Zamudio e Maria Paz Gonzalez) devem decidir o que fazer com os resquícios da Villa Grimaldi, o maior centro de tortura e extermínio do período Pinochet. As razões para terem sido elas, todas de nome Alejandra, as escolhidas para tal missão só se esclarecem ao longo da encenação. Mas é menos nesse mistério e mais na palavras que escolhe para compor esse percurso que Calderón sobressai.

No ascético cenário, reduzido ao mínimo, as três mulheres debatem as possíveis destinações da Villa. Estamos no terreno do realismo, mas não podemos observar a construção de personagens em sua acepção clássica: desconhecemos seus passados, seus conflitos, seus desejos. E, mesmo quando suas origens são reveladas, não faria sentido supor que alguma ‘verdade interior’ da personagem virá à tona. Não há ‘mundo subjetivo’ a ser revelado. Há discursos a serem sustentados. Há visões de mundo, ideias, possibilidades. Um pêndulo, incessante, entre passado e futuro.

Existem, inicialmente, duas opções em debate: reconstruir a edificação da Villa Grimaldi tal como era antes (hoje, restam apenas escombros do prédio original) ou fazer um museu no local. Um centro de memória que poderia contar o que se passou durante o período de tortura, lembraria aqueles que lá passaram e poderia trazer a arte para suavizar esse quadro.

As atrizes Francisca Lewin e Macarena ZamudioFrederico Chigança e equipe

As atrizes Francisca Lewin e Macarena Zamudio

Incontáveis são os argumentos contra e favor a cada uma das teses. Qual o sentido de se falsear o passado com um cópia do antigo centro de horrores? A simples tentativa de simular o que se passou não é uma violação? A experiência não pode ser repetida. Não será por meio de uma cópia do cenário que se repetirá a vivência. Contudo, se o espaço não for reconstruído, mas modificado, transformado em espaço museológico, não estariam a ‘embelezar’ o que deveria ter sido mantido em sua crueza e horror?

Tudo poderia resultar em mero exercício de oratória. Um ziguezague infinito de elocubrações. Mas Villa se faz da incapacidade de encontrar uma solução pacificadora. Não há meios de se apagar o que passou. Nem de se vingar. Tampouco de reviver indefinidamente o que já aconteceu. Todas as torturas, todas as mortes fizeram um rasgo no tempo. Ficaram ali, aprisionadas. Ainda que continuem a reverberar.

A memória e o esquecimento. A luta e a conciliação. Ficar ou seguir? A obra de Guillermo Calderón propõe ficar e seguir. É evidente a conotação política de seu teatro. Em duas criações anteriores do autor, Neva e Dezembro, esse vínculo com a dimensão histórica já se colocava. E nelas também o bordado intrincado que tece entre o público e o indivíduo. A dimensão social se dá para cada um e de maneira particular. O que não nos leva a pensar que todos os fatos são relativos e todas as verdades passíveis de desconstrução. Não o assalta a histeria relativista da contemporaneidade. Mas todas as ideias, ao fim, parecem mesmo estar meio fora de lugar.

.:. Escrito no contexto da II Bienal Internacional de Teatro da USP (27/11 a 18/12).

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Ficha técnica:
Direção e dramaturgia: Guillermo Calderón
Assistência de direção: María Paz González
Com: Francisca Lewin, Macarena Zamudio e María Paz González
Direção de arte: María Fernanda Videla
Produção: Fundación Teatro a Mil (Fitam) e Compañía Teatro Playa

Maria Eugênia de Menezes

Maria Eugênia de Menezes

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