Segundo sábado de propaganda gratuita no rádio e na televisão, aquecimento da campanha para as eleições municipais de 2016. Na feira do Jardim Colonial, na zona sul de São José dos Campos, carros de som e cabos eleitorais (em sua maioria contratados) aproveitam a manhã movimentada para vender seu peixe. Foi ali que o Grupo Pombas Urbanas (SP) ligou a parabólica do teatro de rua para pensar a democracia à luz da realidade. Em sua premissa fabular, Era uma vez um rei destila crítica sobre os projetos de poder – um pleonasmo à esquerda, à direita ou ao centro de qualquer sistema de governo, mas também no nível interpessoal de todo cidadão.

A adaptação do grupo para o texto do chileno Óscar Castro Ramírez coroa o momento brasileiro e mundial de falência do discurso político como ele é. Não se trata de satanizar a política, mas questionar sua prática viciada. A corrupção sistêmica e o desprezo tácito pelos interesses do povo, ao contrário do que prevê a democracia, são mostrados na peça pela perspectiva daqueles que vivem à margem: a base da pirâmide que parte da sociedade quer invisível.

O Pombas Urbanas consagra na montagem de rua da peça do chileno Óscar Castro Ramírez a disposição de diálogo permanente com artistas latino-americanos em 27 anos de estrada

Isso é evidente em localidades onde as administrações municipais praticam a “higienização”, como se tem notícia da percepção dos espaços públicos por diferentes gestões “antimendigo” que passam pela Prefeitura de São José dos Campos, a mesma que organiza o Festivale há 31 edições, por meio da Fundação Cassiano Ricardo, festival que sempre teve o teatro de rua em alta conta. E cidade em que um dos atuais candidatos à prefeitura é o advogado e vereador Shakespeare Carvalho, do PRB (Partido Republicano Brasileiro), o braço político da Igreja Universal do Reino de Deus – legenda que ora também encabeça as campanhas municipais de São Paulo e Rio de Janeiro.

Mas voltemos ao espetáculo. Sucata, Boca e Barulheira são catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis. Eles vivem literalmente na rua, conformam uma comunidade provisória de homens e mulheres que garimpam papelão, garrafa, alumínio e outros artefatos. É desse caldo territorial que emerge a trama. Além do trio original de personagens, a transposição brasileira incorpora um coro de mendigos (cinco atores) que interage com a mesma moeda da artimanha dos supostos líderes do pedaço, além de executar a música ao vivo com instrumentos melódicos, harmônicos e percussivos.

Adriano Mauriz e Paulo de Carvalho (fundo) catalisam as mudanças de regimePaulo Amaral/FCCR

Adriano Mauriz e Paulo Carvalho (atrás) catalisam as mudanças de regime

A materialidade precária da cena conduzida por personagens empobrecidos é estendida às fisionomias e corpos disformes que a ocupam. A gente desse possível beco com saída se dedica a beber, namorar, dormir, contar histórias, contar os centavos, guardar sacos de quinquilharias e estacionar o disputado carrinho compartilhado, imprescindível ao trabalho cotidiano. A essa paisagem contrasta a sofisticação do texto ao delegar a narrativa ao poder imaginário da roda de espectadores.

Os atores burilam o grotesco com sustentabilidade cômica. Adriano Mauriz (Boca) e Paulo de Carvalho (Sucata) equivalem a Dom Quixote e Sancho Pança nas reinações cervantinas. Brincam de estabelecer hierarquias em regimes monarca, democrático e ditatorial. Sistemas que não duram uma semana cada um. E nessas cartilhas Sucata é sempre subordinado aos poderes constituídos de Boca, o inventa-regras unilaterais: o colega sua no asfalto para catar papelão em dobro enquanto ele, malandro de primeira classe, manda e desmanda.

Quando o conflito pela dominação se instala entre os dois, Barulheira (Marcelo Palmares) deixa o coro para lançar-se candidato de terceira via. Ele vence as eleições presidenciais, tira uma boquinha do poder, mas não dura muito com a base aliada do coro – também legislativo quando necessário for. Afinal, nada se perde, tudo se transforma.

A sincronicidade com o golpe parlamentar em curso no Brasil realçou, junto ao público, os mecanismos do jogo de poder. Curiosamente, a última vez que o grupo paulistano participou do Festivale foi em 1992, com a peça Os tronconenses, justamente o ano do impeachment de Fernando Collor de Mello. A maioria dos atores é calejada para o improviso. Atualiza o “Fora Temer”. Faz com que seus tipos esfarrapados ironizem a concorrência do carro de som que passa com estridência ao lado da praça. Catimbam a cumplicidade do público para as maracutaias, em vão – pelo menos naquela apresentação os filtros da consciência pareciam mais críticos.

Além de colocar essas contradições em relevo, a direção da também atriz Juliana Flory expõe o quanto a fixação pelo poder é capaz de instaurar a discórdia tanto junto aos mais miseráveis como aos mais notáveis dos seres. Ela dosa bem a dramaturgia de ideias e a distensão tragicômica. Suscitar reflexão e manter a escuta atenta é desafio redobrado no âmbito de uma feira livre – se bem que a do Jardim Colonial estava mais para troca e venda de produtos usados e afins.

Em termos geopolíticos, a historiografia das ditaduras latino-americanas no século XX tem tudo a ver com o enredo de Era uma vez um rei. Estudos recentes contam pelo menos 16 interrupções presidenciais na região, de 1985 até agora. Em pelo menos nove países as rupturas não se deram pelos quartéis generais, mas por desencadeamento de fatores como rearranjos clientelistas, oligarquias e patrimonialismo.

Público acompanha apresentação de 'Era uma vez um rei' no FestivalePaulo Amaral/FCCR

Público acompanha apresentação de ‘Era uma vez um rei’ no Festivale

Óscar Castro Ramírez escreveu a peça em 1971, dois anos antes do golpe militar que derrubou o presidente chileno Salvador Allende e forçou o exílio do dramaturgo radicado na França. A inspiração, por sua vez, veio do texto do colega espanhol Fernando Arrabal, O arquiteto e o imperador da Assíria (1966), em que dois homens numa ilha, sendo um nativo e outro sobrevivente de acidente aéreo, polarizam dominação e dependência. Ramírez foi um dos fundadores Teatro Aleph (1968, Santiago), um dos agrupamentos emblemáticos da região no período de resistência a governos autoritários, entre as décadas de 1960 e 1980.

O Pombas Urbanas consagra nesta montagem a sua disposição de diálogo permanente com artistas latino-americanos em 27 anos de estrada. Desde o início da década de 1990 o diretor e cofundador do grupo, o peruano Lino Rojas (1942-2005), cogitava encenar a obra que seus discípulos produziram e circulam desde julho de 2014. Aqueles que conviveram ou conheceram as criações de Rojas enxergam sua presença de espírito na gestualidade e na musicalidade de Era uma vez um rei. Estão alinhadas a capacidade de indignar-se diante da injustiça social e de perseguir a dimensão poética. Um projeto que expressa aquela frase pintada nas ruas de Paris, em maio de 1968, em defesa da imaginação no poder. Lema que muitos da geração de Rojas levaram ao pé da letra.

PS: O jornalista foi um dos fundadores do Pombas Urbanas, em outubro de 1989, e integrou o grupo nos três primeiros anos de formação.

– Escrito no contexto do 31º Festivale – Festival Nacional de Teatro do Vale do Paraíba, de 2 a 11 de setembro de 2016

Ficha técnica:
Texto: Óscar Castro Ramírez
Direção: Juliana Flory
Com: Adriana Mauriz, Paulo Carvalho, Marcelo Palmares, Cinthia Arruda, Juliana Flory, Marcos Kaju, Natali Santos e Ricardo Big
Cenografia: Alexandre Souza
Direção musical: Grupo Pombas Urbanas e Giovanni Di Ganzá
Figurinos: Carlos Alberto Gardin