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Crítica

Os limites de ‘País clandestino’

15.3.2018  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Guto Muniz/Foco in Cena

Parece haver uma inclinação expedicionária nas etapas de produção, pesquisa e criação do espetáculo País clandestino, participante da 5ª MITsp. Seu ponto de partida foi um laboratório para diretores emergentes realizado em 2014 no Lincoln Center Theater, em Nova Iorque. Cinco desses, também dramaturgos e vindos de cinco países e dois continentes, encontraram afinidades para atuar e falar de suas diferençaspontilhando trajetória pessoal e instantâneos da conjuntura de Argentina, Brasil, Espanha, França e Uruguai.

Imersões virtuais e ensaios presenciais em Madri e Buenos Aires embasaram as ideias desse formato de intercâmbio pouco usual, desdobrado na efetivação do coletivo Les Five Pay. Entre uma evocação simples e um esforço de recordação, a montagem que estreou em 2017 no Chile toca em perdas, períodos de exceção, inclinações conservadoras disseminadas nas respectivas sociedades e os futuros embaçados, vistos do presente endurecido.

A exposição das experiências individuais por deslocamentos e memórias leva à conciliação que está na gênese dessa aventura artística coletiva. Nem sempre a pertinência do conteúdo se reflete nas escolhas formais

Antes de subir ao palco e habitar o espaço configurado como um ateliê, as duas mulheres e os três homens ocupam os corredores da plateia. Assumem estados performativos nas transposições de línguas, culturas e fronteiras. As cenas iniciais sugerem potencial político que não demora a ser amortecido pelo tom episódico das informações dispostas.

O pretendido congraçamento de relatos autobiográficos e nacionais termina por simplificar questões complexas. Acontecimentos históricos, frutos de mobilizações de massa, são citados como mera ilustração da narrativa dos atuantes conforme os sentidos depreendidos do lugar em que vivem ou para onde viajaram. Como a crise econômica de 2001, na Argentina, quando o país teve cinco presidentes em dez dias; o movimento dos indignados nos protestos de 2011, na Espanha, catalisador da crise de representatividade dos poderes instituídos reverberada em outras regiões do planeta; e aqui nos protestos ante o golpe parlamentar de 2016, cujo contexto nos é mais próximo, mais um capítulo das polarizações em curso.

Guto Muniz/Foco in Cena

Encontros presenciais e virtuais marcaram o processo criativo

Esses exemplos mostram que a ambição pela totalidade tende a abafar a singularidade quando as relações humanas estão no radar. O fundamento documental tão acessado na cena contemporânea resulta mais produtivo quando essa ponderação é considerada.

O espetáculo é empático no modo como transparece a aliança dos estrangeiros nascidos no início dos anos 1980, que fazem ou tentam fazer da arte do teatro um ofício e desfrutam oportunidades de estudo no exterior, dentre alguns dos denominadores comuns afetivos. O quinteto estabelece interação direta com o público, mas essa rede provisória de reciprocidades apazigua as tensões por trás das intrincadas abordagens.

De fato, a exposição das experiências individuais por deslocamentos e memórias leva à conciliação que está na gênese dessa aventura artística coletiva. Nem sempre a pertinência do conteúdo se reflete nas escolhas formais.

Painéis de papel são pichados feito muros de um espaço público, com palavras de ordem. A tentativa de inter-relacionar arte de rua e protesto termina uniformizada. Há limitação ainda nas breves e frágeis evoluções coreográficas do quinteto. Ou no momento em que o roteiro desvia para uma noitada regada a sexo e bebida em Madri. O desbunde da pessoalidade, aqui, pode ser um forte indício de que País clandestino é o passaporte dos seus criadores para um prolongamento da residência artística que os uniu.

Guto Muniz/Foco in Cena

Diretores e dramaturgos de cinco países atuam na peça

Os procedimentos de produção e criação da peça destoam da forte vocação do teatro de grupo latino-americano, ou mesmo de experiências ibéricas, que valorizam o relato individual e o contexto histórico por uma percepção mais aguda da realidade. A realidade de hoje ou aquela do massacre a povos indígenas e civilizações maias, astecas e incas.

Espectadores mal concluíam os aplausos, na segunda noite, no Teatro Cacilda Becker, quando foram surpreendidos pela intervenção cênica com imigrantes e refugiados participantes do laboratório teatral “Através das fronteiras”. Eles cohabitaram a sala, entre cantos a capela e ao violão, nas vozes masculinas e femininas. Um palestino relatou que o assassinato do seu diretor de teatro está entre as razões que o trouxeram ao Brasil. Um congolês saiu de seu país, em guerra, para encontrar na terra anfitriã um estado de guerra alimentado pela nada velada prática do racismo, tão belicoso quanto.

Seria leviana uma aproximação analítica entre dois trabalhos de procedimentos estéticos e temáticos tão díspares – a intervenção referida e a ação pedagógica foram conduzidas pelo diretor Miguel Rocha, da Companhia de Teatro Heliópolis (SP).

Navegar pelas duas criações factualmente colocadas em sequência, porém, estimula a pensar sobre as naturezas do acaso. Foi ele, em certa medida, que juntou nos EUA os atuantes originários de terras colonizadoras ou colonizadas – as explorações e dominações europeias passam ao largo dos horizontes dos artistas sul-americanos, e vice-versa. E foi o acaso que estendeu os braços a cidadãs e cidadãos da África, da Ásia e das Américas do Norte e do Sul por meio da atividade da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. De maioria negra, vocalizaram a luta e a resistência permanentes contra a intolerância e a xenofobia.

Guto Muniz/Foco in Cena

A imigrante sul-africana Sophie na intervenção cênica

.:. Mais informações sobre a MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo.

Equipe de criação:

Direção: Mäelle Poésy e Jorge Eiro

Dramaturgia e realização: Florencia Lindner, Jorge Eiro, Lucía Miranda, Mäelle Poésy e Pedro Granato

Produção: Les Fives Pays

Coprodução: Crossroad Compagnie, Cia Sudado, Invasivo Teatral, Pequeno Ato, The Cross Border Project e Instituto Francês

Distribuição no Brasil: Ariane Cuminale – Vuela

Espetáculo apoiado pelo Festival Internacional de Buenos Aires (FIBA)

 

Valmir Santos

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