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Folha de S.Paulo

Satyros enfrentam maratona de 78 horas

29.9.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, quinta-feira, 29 de setembro de 2005

TEATRO 
“Satyrianas – Uma Saudação à Primavera” comemora 16 anos da companhia com espetáculos e atividades diversas

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Numa conferência realizada no Centro Cultural São Paulo, em 2001, durante o ciclo internacional “O Teatro e a Cidade”, o dramaturgo e ensaísta francês Jean-Pierre Sarrazac chamou de “desencantamento ativo” o fiel da balança entre razão e utopia.

Quem sabe, um pouco desse “desencantamento ativo” diante do cenário político brasileiro é o que também vai mover artistas e público durante as “Satyrianas -°Uma Saudação à Primavera”.

Das 18h de hoje à meia-noite de domingo, o evento que comemora o 16º aniversário da Cia. de Teatro Os Satyros prevê atividades ininterruptas na praça Franklin Roosevelt, bairro da Consolação.

Espetáculos teatrais, leituras dramáticas, intervenções, shows, debates e cafés literários vão ocupar os espaços 1 e 2 dos Satyros, bem como as calçadas e ruas da praça onde o grupo firmou residência em 2000.

Desde então, a Roosevelt converteu-se em personagem. O universo das prostitutas e travestis foi absorvido pela dramaturgia (como “A Vida na Praça Roosevelt”, da alemã Dea Loher).

E a praça, quem diria, perdeu a fumaça do medo que a encerrava por estigma impingido aos freqüentadores e moradores desde os anos 80. Eles não foram embora, convivem com vizinhos, poetas, músicos e atores. Agora, os artistas é que insinuam uma “estética marginal” com suas criações.

A novidade das Satyrianas deste ano é o projeto “Uroborus”, no qual 78 autores criam textos para 156 intérpretes ao longo das 78 horas do evento.

O título remete à imagem mitológica do monstro que se devora pela própria cauda, também explorado pela magia medieval como símbolo de vida e morte, segundo o dicionário “Houaiss”.

Foi criada uma comunidade no Orkut, a rede de relacionamentos, em busca de frases e passagens de textos, clássicos ou contemporâneos, para a composição de uma “peça definitiva” que se pretende sem lugar ou tempo fixos.

Idealizado pelos Satyros, o projeto tem coordenação do dramaturgo e crítico da Folha, Sergio Salvia Coelho, que define o resultado como uma “rapsodomancia para a eterna ressurreição do teatro”, conforme a versão desta primavera. Rapsodomancia é arte de adivinhar o futuro através de passagens tiradas aleatoriamente das obras de um poeta. “Uroborus” inicia hoje, com os atores Dalton Vigh e Denise Weinberg, e termina no domingo, com Bete Coelho e Pascoal da Conceição.

A maratona cultural tem largada às 18h e contará com representantes dos grupos Doutores da Alegria e Parlapatões, além do maestro Amalfi e sua Big Band Canella, com 30 músicos.

Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, em 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos no campo teatral. Colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutorando em artes cênicas pela Universidade de São Paulo, onde cursou mestrado na mesma área.

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