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Crítica

Elenco compensa texto precário de ‘Última Sessão’

22.3.2014  |  por Ferdinando Martins

Foto de capa: João Caldas

O horário é pouco provável para uma sessão de teatro adulto, quatro da tarde em uma quinta-feira. Na entrada do teatro, a fila impressiona. Cabelos brancos são comuns. Bolachas e chás são oferecidos enquanto o saguão do Teatro Frei Caneca, em São Paulo, lota. Essa cena tem se repetido desde a estreia de A última sessão, texto e direção de Odilon Wagner, com um elenco muito particular.

Já a chamaram ironicamente de “a peça do milênio”, dada a idade avançada dos atores. “A gente fez as contas, e juntos somamos mais de 570 anos só de carreira artística”, brincou o diretor em entrevista ao jornalista Dirceu Alves Junior .“Imagina se a gente incluir no cálculo a idade de cada um de nós?”, completa.

De fato, A última sessão é um pretexto para reunir velhos amigos. E  é justamente este seu mérito maior. Afinal, trata-se de amigos que testemunham a história das artes cênicas no Brasil nas últimas cinco décadas. A trama é de um grupo de amigos, entre 75 e 85 anos, que almoçam juntos semanalmente em clube inglês. Laura Cardoso é a mais velha, com quase 70 anos de carreira, e uma das mais conhecidas do público. Junto com Etty Fraser e Miriam Mehler, compõe o núcleo de mulheres emancipadas da trama. Etty e Miriam fizeram parte do Teatro Oficina nos anos 1960, participando de encenações históricas como A vida impressa em dólar, Os inimigos e O rei da vela.

Nívea Maria, que faz sua trajetória profissional em televisão desde 1964, e Sonia Guedes, 60 anos de carreira, compõem o núcleo recatado, de donas de casa exemplares e boas esposas. O elenco masculino, mais exíguo, tem os veteranos Sylvio Zilber, Gésio Amadeu e Yunes Chami. A costureira, cabeleireira e camareira Marlene Collé, conhecida nos bastidores dos teatros paulistanos, é homenageada com uma participação especial.

Esse elenco estelar compensa, em vários momentos, as precariedades do texto de Odilon Wagner, que também assina a direção do espetáculo. Casos conjugais, traições, desejos e expectativas frustrados são alinhavados. No esforço de fazer um trabalho que ao mesmo tempo contemplasse o talento de cada um e refletisse sobre a velhice e as transformações sociais nas últimas décadas, a dramaturgia caiu em armadilhas do melodrama, com grandes reviravoltas na trama, muitos segredos revelados e lições de vida que visam extrair lágrimas do público.

Não há inovações no figurino, ou, ao contrário, é possível dizer que há um naturalismo extremo. O elenco apresenta-se com roupas que poderiam ser suas. Como se trata de pessoas conhecidas pelos meios de comunicação, não as vemos diferentes da maneira em que aparecem na televisão ou nas revistas. Míriam Mehler, por exemplo, aparece com uma discreta calça em tom ocre, elegante como a atriz. Etty Fraser, em um vestido estampado como os que usava quando apresentava programas culinários. Esses trajes aproximam o público e intensifica a sensação de intimidade, de encontro entre amigos. O restaurante, esse sim, apresenta-se em uma cenografia mais elaborada, com frases de Shakespeare espalhadas em painéis e um bar com longo balcão.

Deixando de lado as questões artísticas, A última sessão faz lembrar que o teatro serve para muitas coisas, inclusive reunir amigos. No palco ou na plateia.

Serviço:
A última estação
Quando: Quinta, às 16h; sexta e sábado, às 21h; e domingo, às 18h. Até 27/4.
Onde: Teatro Shopping Frei Caneca [Rua Frei Caneca, 569, 7º andar, Consolação, São Paulo, tel. (11) 3472-2229.
Quanto: R$ 80

Etty Fraser ao centro em ‘A última sessão’

Ficha técnica:
Texto e direção: Odilon Wagner
Com: Laura Cardoso, Nívea Maria, Etty Fraser, Sonia Guedes, Sylvio Zilber, Miriam Mehler, Gésio Amadeu,Gabriela Rabelo, Yunes Chami e Marlene Collé.
Cenografia: Chris Aizner
Figurino: Tica Bertani
Visagismo: Rosemary Paiva
Direção musical e arranjos: Swami Jr.
Desenho de luz: Marisa Bentivegna
Direção de produção: Gabriel Paiva
Assistentes de direção: André Acioli e Priscila Jorge
Produção executiva: Marlene Salgado
Assessoria de imprensa: Pombo Correio

Jornalista e produtor cultural, com passagens pelo Teatro Oficina e Ágora Teatro, entre outros. Doutor em Sociologia com tese sobre o teatro paulista na década de 1960. Professor nas áreas de História e Teoria do Teatro na Universidade de São Paulo. Diretor do Teatro da USP. Coordenador de Cooperação Cultural entre a USP, a Universidade Nacional Autônoma do México e a Universidade de Buenos Aires. Coordenador Acadêmico do Programa Nascente/USP. Pesquisador do Laboratório de Informações e Memória do Departamento de Artes Cênicas, CAC/USP. Realizou pesquisas sobre a produção cultural em países da América Latina (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e México) e do Oriente Médio (Turquia e Irã). Além da área de produção em artes cênicas, trabalha com questões relacionadas a gênero e sexualidade no teatro. No momento, coordena a pesquisa “Teatralidade e performatividade na produção de corpos abjetos no teatro brasileiro contemporâneo”.

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