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Crítica

Redenção feminista-migrante de Medeia?

11.6.2021  |  por Mariana Queen Nwabasili

Foto de capa: João Caldas Fº

“Ela não quer mais ser Medeia”. “Eu não quero mais ser mulher”. Essas duas frases-falas proferidas pela protagonista de Terra Medeia, dramaturgia da sueca Sara Stridsberg escrita em 2009, são exemplos de como o elogio à opacidade como recurso ficcional no teatro e em outras artes e a crítica feminista (com algumas limitações ou contradições) são os aspectos que têm mais relevo na atual tradução e montagem da peça no Brasil, sob a direção da também sueca Bim de Verdier e com transmissão online e ao vivo na Plataforma Teatro.

Em Terra Medeia, a personagem trágica grega é construída como uma mulher que passa a ter perturbações mentais, a ingerir bebidas alcoólicas e a tomar remédios psiquiátricos ao se auto-internar em um hospital após ser abandonada por seu marido Jasão. Como na tragédia de Eurípides, Jasão abandona Medeia após os dois chegarem a Corinto e ele se apaixonar pela filha do rei da região, Creonte. A diferença proposta na dramaturgia de Stridsberg é tratar Corinto e Cólquida, local onde o pai de Medeia é rei e do qual a protagonista vai embora para seguir jornada com seu amado e com os dois filhos do casal, como estados-nação.

Após ser descartada pelo marido em terras estrangeiras, Medeia se torna imigrante ilegal em Corinto. Sem residência, sem meios para sustentar a si e aos filhos e na iminência de ser deportada ao seu país de origem, ela usa seu corpo-sexo-gênero como moeda de troca para seduzir Creonte e solicitar a ele que possa ficar mais alguns dias em Corinto. A situação agrava a vulnerabilidade da personagem, que a certa altura assassina seus filhos e a dona da “buceta maldita” que conquistou Jasão, para utilizar o linguajar da protagonista que, nessa versão, assume – ou denuncia? – a escolha por estereótipos mais contemporâneos da mulher traída vingativa.

Paralelamente, torna-se interessante a seguinte questão: o anseio explicitado pelo médico quando Medeia chega ao hospital tão desatinada, a ponto de sugerir querer mudar de sexo e gênero. Isso seria coisa de uma revisão (feminista?) que, mesmo numa ligeira passagem dramatúrgica, sugere o vínculo entre mudanças de sexo feminino para masculino – e de gênero mulher para homem – a uma intenção de gozo de privilégios de homens em uma sociedade machista e a desilusões amorosas heterossexuais? O teatro grego e Freud explicam os avanços limitados sintetizados nessa e em algumas outras passagens da peça

A montagem de Terra Medeia em um formato que podemos chamar de “vídeo-teatro ao vivo” está relacionada às atuais necessidades de experimentação teatral junto à linguagem audiovisual em meio às exigências de distanciamento social em mundo tragicamente pandêmico. Diferentemente de demais experimentos teatrais realizados no cenário atual, autointitulados por alguns como vídeo-teatro ou mesmo peça-filme, Terra Medeia mescla gravações em audiovisual com momentos de atuação ao vivo para a câmera feitos por atores que estão divididos entre Brasil, França e Suécia.

A escolha por um “vídeo-teatro ao vivo” com ambientações minimalistas – possivelmente devido à conjuntura para a montagem da peça –, em termos da exploração de pouco ou nenhum cenário onde as atuações acontecem, enfraquece a atualização dramatúrgica do mito de Medeia quanto à intenção de conexão com a prolongada e contemporânea crise migratória mundial. Ao apostar nesse minimalismo e na reiteração muito mais discursivo-verbal da condição de Medeia como imigrante ilegal, Terra Medeia se curva à força inexorável do mito de Eurípides quanto ao fato de as principais motivações para as ações da protagonista, inclusive seus esforços para permanecer em Corinto, serem decorrência do ódio e vontade de vingança direcionados a Jasão como faces do amor ainda sentido por ele.

O argumento não é uma exigência ou anseio por uma ambientação realista, mas sim a exposição da sensação de que ficam faltando outros recursos para contar a história, mesmo dentro do minimalismo proposto ou de outras possibilidades audiovisuais, como o uso de imagens de arquivo ou a construção de mais cenas gravadas que seguissem o mesmo tom daquela em que vemos a queima do passaporte de Medeia nessa montagem. Faltam recursos que ancorem, ou melhor, aproximem a protagonista da crítica social à qual Terra Medeia quer se vincular desde seu título, a saber: a ideia de que, ao colocar seus filhos, sobretudo suas filhas, em situações de vulnerabilidade extrema em termos sociais e políticos vinculados à questão migratória, a (mãe) Terra faz parte e é geradora de um ciclo vicioso de propensão aos filicídios maternos, o assassinado dos filhos pelas mães.

“Ela não quer mais ser Medeia”

Dita pela protagonista logo no início da peça, a frase-fala “Ela não quer mais ser Medeia” torna opaco o fato de que Medeia é (muito bem) interpretada por alguém, a atriz Nicole Cordery, capaz de apontar para o público o que está acontecendo com o emocional da protagonista, que a todo momento da trama irá questionar seu destino mesmo seguindo inexoravelmente para ele.

Como explicitado anteriormente, a crítica à escolha por ambientações minimalistas quanto ao local que as atuações ocorrem não implica em um anseio realista para a montagem no que tange o tema da migração ou outros. Afinal, o elogio à opacidade como recurso ficcional no teatro e em outras artes, ou seja, a crítica à ideia de que o realismo é necessariamente o melhor caminho para fazer com que espectadores mergulhem em uma história, aparece como ponto forte a ser destacado nesse “vídeo-teatro ao vivo”. O audiovisual é entendido em sua potência artística de construção de sentido, e não como recurso técnico para o registro e transmissão de uma peça teatral devido a impossibilidades presenciais.

Print de vídeo O ator Renato Caldas interpreta Creonte e Nicole Cordery, o papel-título em ‘Terra Medeia’, direção de Bim de Verdier para a peça da sueca Sara Stridsberg: no recurso da montagem paralela, comum no cinema, o tamanho do quadro em que cada personagem dialoga com outra diz sobre quem está com mais poder ou necessidade de fala

Nesse sentido, destacam-se: a exploração da montagem ao vivo de uma obra audiovisual, que implica em organizar imagens em tempo real dentro de uma proposta poético-narrativa; a exploração da montagem paralela, como chamada no cinema, que se dá quando, dentro de um quadro-tela, são colocados outros quadros-telas lado a lado ou sob outras disposições; e a sobreposição de imagens, ou seja, a exploração da chamada, também no cinema, montagem vertical (uma imagem em cima da outra), como parte de um jogo de transparência e opacidade que agrega sentido à história contada.

Sobre a montagem paralela em Terra Medeia, vale observar que o tamanho do quadro em que cada personagem é apresentada quando está em diálogo com uma outra diz sobre quem está com mais poder ou necessidade de fala em determinadas cenas. Por exemplo, em uma das vezes que Medeia fala com Creonte, o quadro dele é evidentemente maior do que o dela. Já em cenas em que Medeia fala com Jasão, o quadro dela é maior que o dele; afinal, em desespero e desatino e sendo a protagonista da história, Medeia é quem precisa de todo espaço possível de tela para falar por meio de áudio e visual.

Nos quadros dispostos na tela para possibilitar os diálogos no “vídeo-teatro ao vivo”, ora as personagens estão olhando para o lado para gerarem a ilusão, assumidamente não-realista, de que estão no mesmo plano filmado ou espaço cênico, ora os diálogos entre duas personagens se dão com elas olhando para a câmera, ou seja para nós, o público, estando em quadros diferentes dispostos um do lado do outro na tela. A quebra do que seria a quarta parede no teatro e da objetividade transparente da filmagem realista no cinema gera um distanciamento que aproxima o público da proposta, prende a atenção mesmo causando certo estranhamento no começo.

Com relação à sobreposição de imagens, ainda no início do “vídeo-teatro ao vivo”, vemos a imagem em movimento de uma paisagem em que a água do mar bate contra pedras, sobreposta à imagem da personagem-atriz Medeia-Cordery pouco depois da proferição da frase “Ela não quer mais ser Medeia”. Essa composição anuncia o encontro de Medeia com a possibilidade que nos é apresentada ao fim da peça de ela, após matar os filhos, ter se suicidado ao se jogar no mar usando um vestido cheio de pedras. 

“Eu não quero mais ser mulher”

Outra sobreposição de imagens interessante no começo de Terra Medeia é a da protagonista e de sua mãe, interpretada pela diretora Bim de Verdier. A certa altura da história, percebemos que a mãe está morta e é, em verdade, um desdobramento do inconsciente de Medeia, que oscila, por meio das opiniões manifestadas pela mãe-inconsciente e fantasmagórica, entre querer aceitar o destino de sua deportação e ficar em Corinto para se vingar de Jasão. Ou seja, como sugere a sobreposição de imagens desde o começo da obra, Medeia e sua mãe são a mesma pessoa: ambas são resultado e síntese da mãe Terra geradora do ciclo vicioso de propensão ao filicídio.

Print de vídeo Cordery e o ator André Guerreiro Lopes, como Jasão, no trabalho que pode ser entendido como um “vídeo-teatro ao vivo” que mescla gravações em audiovisual com momentos de atuação ao vivo para a câmera feitos por atores que estão divididos entre Brasil, França e Suécia

A perspectiva feminista de tal crítica, a que ganha mais relevo na montagem, provavelmente por não carecer de ancoramentos que não sejam a própria trama mitológica e discursos verbais evidentemente propostos em sua atualização por Stridsberg e Verdier, é explicitada em uma das conversas com Jasão por meio de montagem paralela. “Eu fico feliz de não ter tido filhas. Uma filha é só o espelho da dor de sua mãe. O Tigre e o Aquiles [filhos de Medeia e Jasão] vão sair ilesos de cada batalha, como o pai deles”, diz a protagonista ao ex-marido.

Ainda dentro dessa perspectiva crítica, em um dado momento na peça, a figura inconsciente da mãe de Medeia assume a fisionomia estereotipada das bruxas, remetendo-nos à importante revisão feminista sobre o fato de as bruxas terem historicamente sido, em verdade, mulheres subversivas perseguidas durante a Idade Média europeia, e também à crítica feminista simbólica presente em Terra Medeia quanto ao filicídio como questionamento da compulsoriedade da maternidade inclusive a mulheres abandonadas afetiva, social e politicamente por homens e pelos Estados administrados por homens.

Assim, o filicídio seria coisa não só de uma Medeia louca a ser medicada, mas também coisa de uma Medeia filha-mãe bruxa – sendo que a áurea de semideusa com conhecimentos sobrenaturais é atribuída a Medeia desde sua origem grega –, dentro da ambiguidade do termo quando considerada também a revisão e reivindicação feminista da bruxaria. Paralelamente, torna-se interessante a seguinte questão: o anseio explicitado pelo médico quando Medeia chega ao hospital tão desatinada, a ponto de sugerir querer mudar de sexo e gênero. Isso seria coisa de uma revisão (feminista?) que, mesmo numa ligeira passagem dramatúrgica, sugere o vínculo entre mudanças de sexo feminino para masculino – e de gênero mulher para homem – a uma intenção de gozo de privilégios de homens em uma sociedade machista e a desilusões amorosas heterossexuais? O teatro grego e Freud explicam os avanços limitados sintetizados nessa e em algumas outras passagens da peça.

.:. Leia artigo da diretora Bim de Verdier acerca de Terra Medeia, aqui.

Serviço:

Terra Medeia

Transmitidas pela Plataforma Teatro, as últimas sessões acontecem sábado (12, esgotada, com possibilidade de ingressos extras) e domingo (13), 17h. De 22 de maio a 13 de junho

Grátis

80 minutos

14 anos

Ficha técnica:

Texto: Sara Stridsberg

Tradução: Bim de Verdier e Nestor Correia

Direção: Bim de Verdier

Com:

André Guerreiro Lopes…………….Jasão

Bim de Verdier………………………..Mãe e Deusa

Daniel Ortega………………………….Médico

Nicole Cordery………………………..Medeia

Renato Caldas………………………….Creonte

Rita Grillo……………………………….Babá

Direção de arte, fotografias e filmagens: João Caldas

Equipe de captação de imagens, edições e transmissão: Marcela Horta, João Caldas e Andréia Machado

Operação de vídeos ao vivo: Marcela Horta

Contrarregra: Madu Arakaki

Composição original de trilha sonora: Leo Correia de Verdier

Direção de produção: Selene Marinho

Produção executiva: Marcela Horta

Designer gráfico: Leonardo Miranda

Assessoria de imprensa: Pombo Correio

Produção: SM Arte Cultura / Cordery e Viana Produções Artísticas

Consultoria de figurino: Julia Correia de Verdier

Execução vestidos Medeia: Flávio Mothé

Participação especial (Voz da Princesa): Anna Zepa

Consultoria em áudio: Alexandre Martins

Jornalista e pesquisadora, doutoranda e mestre em meios e processos audiovisuais pela ECA-USP, onde se graduou em jornalismo. Estuda representações, identidades, recepções e relações de gênero, raça, classe e colonialidade no audiovisual. Por vezes, amplia essa perspectiva para tecer olhares acerca das artes da cena (teatro, performance e dança) e televisão. Atualmente, como bolsista do Projeto Paradiso, cursa master em curadoria cinematográfica na Elías Querejeta Zine Eskola, na Espanha.

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