Menu

Reportagem

Grupo Cultural Yuyachkani, 50, expõe na Bienal de SP

26.7.2021  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Musuk Nolte

O Grupo Cultural Yuyachkani acaba de completar meio século de teatro e parte de sua memória, ela mesma uma genealogia da história recente do Peru, será compartilhada na Bienal de São Paulo, a partir de setembro. A ideia é mostrar de forma aberta e performativa documentos, imagens, revistas, apostilas, vídeos, fotografias e outras referências quanto às peças, ações de rua, oficinas e seminários realizados desde 19 de julho de 1971.

São “50 años viviendo nuestros sueños” no teatro peruano, sob o signo da sagacidade latino-americana e caribenha, o equivalente a ¼ do bicentenário da independência do país, no próximo dia 28.

Aliás, dia da posse do recém-eleito presidente Pedro Castillo, professor rural e sindicalista de esquerda (mas conservador nos costumes). Ele derrotou a herdeira do fujimorismo, a administradora de empresa Keiko Fujimori, direitista. Alinhado às forças progressistas e aos movimentos sociais, Yuyachkani resistiu à volta desse pesadelo em meio às sucessivas crises e acusações de corrupção que atingiram os últimos governantes (quatro ocupantes passaram pelo cargo máximo desde 2018). Um ex-presidente cometeu suicídio.

É nesse contexto histórico, portanto, que o público brasileiro entrará em contato com material expositivo do grupo que ao longo das últimas décadas trouxe espetáculos e atividades formativas e reflexivas para festivais internacionais em Londrina, Belo Horizonte, Porto Alegre e capital paulista.

O teatro é de natureza política, não por decisões temáticas, mas pela natureza de suas relações, e no Yuyachkani tem sido uma variante amplamente explícita, precisamente porque sempre elegeu a criação cênica como uma prática relacional, construindo seus processos a partir do diálogo com os outros e concretizando a ideia da arte como um interstício social

Ileana Diéguez

O conteúdo a ser exibido na Bienal terá dimensões e perspectivas também inéditas para os artistas de Lima, às voltas com o seu percurso, como a ecoar o próprio nome que na língua indígena quéchua quer dizer “estoy pensando, estoy recordando”.

Esse arquivo multifacetado entrelaçará variantes como o teatro enquanto forma de vida, o procedimento da criação coletiva, o corpo ante as formas de violência e a sistematização de uma prática pedagógica.

“Combater o esquecimento é uma forma poderosa de fazer justiça”. O diretor, dramaturgo e cofundador Miguel Rubio Zapata costuma citar essa frase do relatório final da Comisión de la Verdad y Reconciliación, de 2003, que apurou fatos e responsabilidades da violência política e violação aos direitos humanos no Peru, entre 1980 e 2000.

O enunciado traduz a filosofia do Yuyachkani desde a sua primeira obra, Puño de cobre (1972), radiografia de uma greve de mineiros reprimida por agentes de segurança e pelos patrões, culminando na execução de operários, prisões e demissões.

No livro El cuerpo ausente (performance política), editado pelo grupo em 2008, Zapata conta como ele, então um estudante de sociologia no início dos anos 1970, e demais pares engajados na criação do coletivo – como a atriz e cofundadora Teresa Ralli – foram a campo a fim de ouvir e vivenciar a realidade dos familiares e amigos das vítimas.

Segundo Zapata, a urgência dos acontecimentos daqueles dias se impôs e os jovens que inicialmente desejavam pesquisar e criar a partir das consequências da Guerra do Pacífico (1879-1883), em que as forças armadas peruana e boliviana foram superadas pelas chilenas, decidiram mudar os planos e priorizar o conflito socioeconômico.

A peleja do século XIX, motivada por anexação de áreas ricas em recursos naturais, só foi retomada em cena mais de 30 anos depois, em Sin título, técnica mixta, obra de 2004, ano posterior ao término da Comisión de la Verdad y Reconciliación (CVR).

Musuk Nolte ‘Sin título, técnica mixta’ (2004), exemplo de criação que costuma reunir artistas que conformam a base do grupo peruano Yuyachkani, 50 anos: Augusto Casafranca, Ana Correa, Debora Correa, Rebeca Ralli, Teresa Ralli e Julián Vargas, além do diretor e dramaturgo Miguel Rubio Zapata e da produtora Socorro Naveda

Nessa montagem, a sala multiuso é transformada numa instalação. Os atores ocupam pequenos cenários móveis, como se fossem quadros vivos numa galeria ou museu, mediados por documentos, imagens e objetos da história contemporânea do Peru. A ação entrecruza teatro, performance e artes visuais.

Em 2001, primeiro ano dos trabalhos da comissão, o Yuyachkani participou da campanha de informação chamada Para Que Não se Repita. Percorreu nove povoados ou cidades, muitos deles atingidos pelas disputadas armadas, com os solos Adiós Ayacucho, Antígona e Rosa Cuchillo, todos mantidos em repertório.

Atuado por Augusto Casafranca, Adiós Ayacucho (1990) é a versão teatral do romance de mesmo nome do escritor Julio Ortega, publicada quatro anos antes. Narra a jornada do agricultor Alfonso Cánepa desde a cidade do título até a capital. Acusado de terrorismo, ele vai pedir ajuda ao presidente da República para recuperar as partes de seu corpo que, presume, foram levadas a Lima possivelmente pelos seus assassinos. Reivindica, para tanto, o direito de sepultar seus ossos com um mínimo de dignidade.

O ponto de partida de Ortega foi a leitura de reportagem numa revista, acerca de um atentado à bomba que mutilou uma das vítimas. Naqueles tempos bárbaros, a decapitação era outro procedimento comum. Ao mobilizar o imaginário, acredita Zapata, a literatura (e a partir dela o teatro, no caso) alude aos velórios simbólicos que a população, maioria de ascendência indígena, elaborava quando não encontrava os corpos de familiares.

Em Antígona (2000), Ralli atua na livre versão do poeta peruano José Watanabe (1945-2007) para a tragédia de Sófocles. A história da mulher que contraria o decreto de Creonte, o rei, e insiste em sepultar o corpo do irmão insurgente, o que a condenará à morte, é uma forma artística de se acercar, mais uma vez, da brutal realidade peruana relatada na comissão.

Já em Rosa Cuchillo (2002), a personagem-título atuada por Ana Correa corresponde à mãe em busca do filho – e para além da sua condição de morto. Ela recorre a outros mundos: o de baixo, Uqhu Pacha, e o de cima, Hanaq Pacha. Tem convicção de que o retorno a essa terra, Kay Pacha, buscaria harmonizar a vida e, através da dança, contribuir para que as pessoas percam o medo e comecem a se curar do esquecimento.

Zapata situa que nas audiências públicas da CVR o centro da atenção não era a obra de teatro, mas o acontecimento das próprias audiências, um exercício de pensamento crítico e coletivo que transcendia o trabalho do Yuyachkani.

As criações circularam enquanto toda a sociedade aguardava os informes da Comisión de la Verdad y Reconciliación. Pois levar arte às comunidades andinas de difícil acesso, e atingidas pelas disputas armadas, não era propriamente uma novidade para o grupo. Basta citar as edições do Encontro do Teatro pela Vida, iniciativa organizada desde 1988 em parceria com a Asociación Pro Derechos Humanos e no auge da violência política desencadeada pelo conflito do Exército com a facção maoísta Sendero Luminoso, o que obrigou o deslocamento de milhares de moradores das zonas rurais.

Musuk Nolte Em ‘Discurso de promoción’ (2017), uma imagem síntese das crises acumuladas no cenário peruano: política, econômica, social e sanitária

No prefácio a El cuerpo ausente (performance e política), a professora-pesquisadora Ileana Diéguez, da Universidad Autónoma Metropolitana, no México, comenta a ação de núcleos sociopolíticos e artísticos em diferentes países da América Latina, à margem dos mecanismos e discursos de poder. Pondera que “se bem temos vivido neste continente complexos processos de cumplicidade civil, de medo e perplexidade ante o exercício impune do horror, também é certo que existe um relato de gestos que assumiram o risco para romper a inércia e o silêncio”.

“O teatro é de natureza política, não por decisões temáticas, mas pela natureza de suas relações, e no Yuyachkani tem sido uma variante amplamente explícita, precisamente porque sempre elegeu a criação cênica como uma prática relacional, construindo seus processos a partir do diálogo com os outros e concretizando a ideia da arte como um interstício social”, afirma Diéguez.

Na superposição das crises política, econômica, social e sanitária, o grupo sediado no distrito limenho de Magdalena del Mar, já acostumado a transitar de sua casa para o espaço público – como no Carnaval Negro, desde 2004, em lembrança à abolição da escravatura em 1854 –, assim o fez em ações pontuais. Como na incursão pela Praça San Martín, em novembro de 2020, fase mais aguada do momento peruano, em que a população foi às ruas se manifestar contra o estado de coisas na política, em paralelo, performers carregaram imagens pictóricas acompanhadas de cartazes que questionavam as versões oficiais a respeito dos levantes indígenas ou afrodescendentes na história do país. Ou na intitulada Marea roja – Ponte el alma, em maio passado, por meio da qual 50 mulheres percorreram ruas vestindo saias vermelhas e camisetas brancas, lançando mão de coreografias e instrumentos musicais para exigir justiça e uma nova Constituição. Esse projeto aconteceu em parceria com os coletivos autônomos Warmikuna Raymi e Collera Red.

Nas semanas que precederam ou se seguiram ao aniversário, o grupo cultural vem programando, toda sexta-feira, ao meio-dia, o chamado Terraço Cultural, que compreende esquetes, trechos de espetáculos, números musicais e outras atividades improvisadas na calçada ou no tablado especialmente montado em frente à casa, em celebração ao cinquentenário. Um espaço pensado para reencontrar o público – pois a sede permanece fechada em virtude das medidas de distanciamento –, sobretudo as pessoas da vizinhança.

Como cenário, a fachada recebeu o mural do artista plástico Daniel Cortez, o “Decertor”, inspirado na aquarela de Ever Arrascue para o mesmo local, pintor que traduz a expressividade do Yuyachkani plasmando cores vermelha, verde, azul e amarela.

Acervo Yuyachkani O espetáculo de rua ‘Los músicos ambulantes’ (1983), um clássico do repertório do núcleo sediado em Lima, baseado em ‘Os saltimbancos’, de Luis Enríquez e Sergio Bardotti, e ‘Os músicos de Bremen’, dos irmãos Grimm

Uma chance de se aprofundar a respeito do pensamento e da estética forjados pelo grupo em sua trajetória são dois dossiês publicados neste ano. A revista Rascunhos: Caminhos da Pesquisa em Artes Cênicas, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), dedica a edição mais recente a UN SOLO CORAZÓN: 50 anos de caminhos do Grupo Cultural Yuyachkani, com 24 ensaios. Já a Conjunto: Revista de Teatro Latinoamericano y Caribeño, dirigida pela crítica Vivian Martínez Tabares junto à Casa de las Américas, de Cuba, também abriga cinco artigos afins.

Professores-pesquisadores do Grupo de Estudos e Investigação sobre Processos de Criação e Formação em Artes Cênicas (Geac), do Instituto de Artes da UFU, Ana Julia Marko e Narciso Telles conjecturam na apresentação da Rascunhos que organizaram: “Yuyachkani batalha por memórias escondidas e se pergunta: como, através do teatro, é possível ampliar a visibilidade de culturas originárias dos homens e mulheres dos Andes, amazônicos e afrodescendentes, que desde o Peru-Colônia são ameaçadas pelas políticas civilizatórias de branqueamento e olvido [esquecimento]? Como experimentar no trabalho cênico a subversão das cosmogonias ocidentais que se impõem como única possibilidade de produção de conhecimento. Como assumir a responsabilidade de enunciação inerente ao espaço teatral para fazer com que versões outras da História se manifestem, visando a problematização da narrativa oficial e heroica?”.

Faz escuro mas eu canto

A participação do Yuyachkani vai integrar a exposição coletiva Faz escuro mas eu canto, enunciado da curadoria da 34ª Bienal de Artes de São Paulo. Serão abarcadas obras de cerca de cem artistas e outros pensadores num único espaço, sob o título comum, um verso extraído do poema Madrugada camponesa (1965), do amazonense Thiago de Mello. Agendado para 4 de setembro a 5 de dezembro de 2021, no pavilhão do Parque Ibirapuera, com entrada gratuita, o evento chegou a ser inaugurado em 8 de fevereiro de 2020, mas foi suspenso em razão da Covid-19.

Ao convergir obras, identidades de sujeitos e grupos sociais, além de geografias ou geopolíticas tantas, o projeto curatorial quer reconhecer a urgência dos problemas que desafiam a vida no mundo atual, e que a pandemia tornou ainda mais urgentes e dramáticos, bem como reivindicar a necessidade da arte como um campo de encontro, resistência, ruptura e transformação, conforme se lê no site oficial e se infere do Faz escuro mas eu canto, de Mello.

“Desde que encontramos esse verso, o breu que nos cerca foi se adensando: dos incêndios na Amazônia que escureceram o dia em São Paulo aos lutos e reclusões gerados pela pandemia, além das decorrentes crises políticas, sociais e econômicas. Ao longo desses meses de trabalho, rodeados por colapsos de toda ordem, nos perguntamos uma e outra vez quais formas de arte e de presença no mundo são agora possíveis e necessárias. Em tempos escuros, quais são os cantos que não podemos seguir sem ouvir?”, afirma o material de divulgação.

Tallinna Linnateater Cena de ‘El último ensayo’ (2008), obra apresentada na Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, em São Paulo

Dentre demais artistas da cena e da performance escalados para a Bienal, estão Eleonora Fabião (RJ), com ações; Grace Passô (MG-SP), com Ficções sônicas; Jota Mombaça (RN), com performance; Roger Bernat (Espanha), com obra recente do seu grupo FFF; e Uýra (PA), mote para série fotográfica de suas performances.

Por fim, vale rememorar que o histórico da Bienal reserva passagens antológicas de intersecção das artes. A exemplo da 21ª edição, em 1991, que programou apresentações do grupo catalão La Fural del Baus (Suz/o/suz); o argentino La Oganización Negra (La tirolesa); o romeno Teatro Nacional de Bucareste, com a Trilogie Antica, composta de Medea, Troienele e Electra, sob direção de Andrei Serban; o grupo Teatro União e Olho Vivo (SP), com Barbosinha Futebó Crube – Uma história de Adonirans, texto e direção de César Vieira; a atriz Denise Stoklos (SP), acerca de seu Teatro Essencial; e a encenação de A vida é sonho, de Calderón de La Barca, por Gabriel Villela (SP-MG).

.:. O site do Grupo Cultural Yuyachkani

.:. Sobre a participação do grupo na Bienal

.:. A 34ª Bienal de São Paulo

Reprodução A aquarela de Ever Arrascue, a partir da fachada da casa do Grupo Cultural Yuyachkani, inspiração para o mural do artista plástico Daniel Cortez, o “Decertor”, no detalhe abaixo
Reprodução

Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, em 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos no campo teatral. Colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutorando em artes cênicas pela Universidade de São Paulo, onde cursou mestrado na mesma área.

Relacionados