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Crítica

João das Neves e seus cruzos

Cia. Paulicea de Teatro

25.3.2023  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Arô Ribeiro

No movimento incessante das águas do oceano João das Neves, em 84 anos vividos e tudo o mais que transmitiu às gerações seguintes, a Cia. Paulicea de Teatro percorre, em Rio João, alguns dos mares navegados pelo criador que disseminou consciência sociopolítica e a pluralidade nas artes e culturas levando em conta a escala humanista.

O espetáculo demonstra conhecimento aprofundado nas decisões possíveis para a transposição desse universo à arena. Além de dar corpo ao imaginário e a alguns dos acontecimentos-chave nos caminhos de Neves (1934-2018), da nascente à foz, seus criadores permitem-se juntar as próprias memórias às dele.

Transbordamento talvez seja uma metáfora com boa margem de êxito em todas as embarcações às quais esse artista se lançou na arte e na existência. Seja no sentido de fazer sair fora das bordas ou de avançar a partir delas. A companhia que emprestou para si o nome do título original de uma coletânea de poemas de Mário de Andrade, ‘Paulicea desvairada’ (1922), proporciona em ‘Rio João’ uma experiência festiva, não laudatória e coerente com as ambições do afluente João das Neves

A escolha é soma de energias coletivas cara ao diretor, dramaturgo, escritor, ator, iluminador, cenógrafo e produtor cultural nascido no Rio de Janeiro, onde militou pelo Centro Popular de Cultura, o CPC da União Nacional dos Estudantes, a UNE, em período rente ao golpe civil-militar de 1964. Na sequência, ele foi um dos fundadores do Grupo Opinião, cujos shows e espetáculos constituíram as primeiras reações mais veementes do campo da cultura ao regime autoritário.

Tempos depois, deitou raízes em estados como Acre (na virada dos anos 1980 para os 1990) e Minas Gerais (desde os anos 1990), onde morava ao final da vida, sempre com muitas semeações nas artes presenciais nesses territórios. Também passou algum tempo na Bahia e em São Paulo, em períodos sazonais, a exemplo das parcerias com a Paulicea, a partir de 2008, culminando agora na homenagem póstuma.

Essas travessias são pontuadas na dramaturgia de Solange Dias, que propõe uma “espiral tempo-rio”, à maneira de poema, não cronológica e bastante reverberada pela vivência dela e de outras pessoas integrantes da companhia com o “homem de teatro” e sua indefectível vestimenta cotidiana: calça jeans, bata branca, sandalha de couro e a bolsa transpassada no corpo”.

Dentre os momentos que podem ser considerados sínteses no espetáculo codirigido por Dias e Alexandre Kavanji estão a narrativa de reconstituição do ataque das forças militares ao prédio da UNE, a simbolização da experiência de Neves junto ao povo indígena Kaxinawá, na fronteira do Acre com o Peru, e o endereçamento de uma carta ao saudoso diretor, em nome da companhia.

Na madrugada de 1º de abril de 1964, Neves contava 30 anos quando viu agentes de segurança de generais golpistas quebrarem as instalações da UNE. Enquanto pensava uma maneira de escapulir do cerco, saltando muro de cerca de 2 metros, teve tempo de desrosquear fusíveis da caixa de força, na tentativa de evitar incêndio, e de não deixar para trás o disco com a trilha sonora do espetáculo Auto dos 99% (1962), criação do CPC destinada a politizar estudantes a respeito dos problemas do ensino superior no país. O incêndio na sede da UNE foi colocado na conta da caça aos “comunistas” do teatro, sobretudo pela base paramilitar, a ponto de revólveres feitos de papel machê serem apreendidos como se reais.

A passagem digna de roteiro cinematográfico ganha soluções dramatúrgica e cênica partidárias dos procedimentos brechtianos no diálogo ativo com o público na roda, sentado em quatro nichos de cadeiras. Neste quesito, e em termos de configuração, o que se tem é uma inusitada quadratura do círculo, ou melhor, da arena, que comporta ainda um quinto lugar, um set para os músicos, capítulo detalhado mais adiante.

Arô Ribeiro Atuantes Edi Cardoso (esquerda) e Denise Guilherme contracenam em ‘Rio João’, trabalho da Cia. Paulicea de Teatro em que a representatividade negra é acolhida e conforme ao pensamento e prática artística do diretor e dramaturgo João das Neves, morto em 2018, aos 84 anos

Cada atriz ou ator quebra a ação ao autodeclarar seu nome e enunciar sobre a respectiva personagem, a exemplo de um dos policiais, uma vizinha e uma repórter de televisão, testemunhas do episódio, cada qual a sua maneira e moral.

A estratégia é retomada quando atuantes parelham com os dribles que Neves deu (Garrincha chega a ser aludido) para conquistar voos artísticos e socioculturais mais ambiciosos e gregários. “Como João, também já chorei muito agarrada a meus sonhos”, afirma a atriz Denise Guilherme. Na condição de mulher e negra, ela expõe como foi vítima de racismo no próprio meio teatral, preterida em um papel.

Mais dois artistas criadores, Dudu Oliveira e Edi Cardoso, além do músico bandolinista Maurício Pazz, reafirmam em cena a representatividade negra. Modulação imprescindível quando se fala do teatro de Neves, que encenou a trilogia afro-brasileira composta das peças Besouro Cordão de Ouro (2006), texto de Paulo César Pinheiro; Galanga, Chico Rei (2011), também de Pinheiro; e Zumbi (2012), baseada em Arena conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal. Todas com elenco majoritariamente negro.

Ainda no terreiro da identidade, Rio João alcança o coração da prática e das ideias do artista João das Neves ao abrir uma janela sensorial para a visão do mundo espiritual dos povos da floresta. Afinal, como proporcionar ao público sentir a dimensão autóctone dos laços que o diretor firmou com a nação Kaxinawá em sua temporada acreana? Tarefa das mais difíceis quando, ao que consta, não há participação indígena em cena. Não há corpo que implique tamanha ancestralidade.

Pois, a acerta altura, uma suspensão narrativa gerada por blecaute total faz dos minutos seguintes um instante de sonoridades, falas e cantos rituais em língua indígena e português. Canta-se as raízes a propósito do céu que escureceu, da morte de pelo menos 570 crianças yanomami com menos de 5 anos durante o governo anterior, de extrema direita, por doenças que têm tratamento. Entoa-se ainda os desafios do fazer teatral em pleno rio Madeira, na região amazônica.

Sob o breu aparente, espectadores são como que transportados ao estado luminar da natureza e suas verdades. Aquela à qual o padre francês Constant Tastevin (1880-1962), que também foi missionário, etnólogo e antropólogo – uma bacia de contradições em termos –, se referiu quando em contato com a nação indígena no início do século XIX, relatado em O Rio Muru: seus habitantes, crenças e costumes Kachinawá (1925), de acordo com ortografia da época:

[…] o Kachinaua acredita na existência de um firmamento que, como um teto, separa o mundo dos espíritos do nosso mundo corrente. A vida dos espíritos é mais ou menos a mesma que a nossa. […] eles não veem a Divindade, que reside num lugar inacessível aos humanos. Existe no firmamento um grande lago e dentro deste um maguari gigantesco (uma cegonha) que pesca lá como as garças reais pescam nos nossos rios. O seu pé tampa o buraco por onde escapam, como chuva, as águas do céu quando ele voa.

Ao lançar mão de uma estética filiada à tradição indígena e poeticamente potente, a Cia. Paulicea, portanto, dá conta desse aspecto significativo do pensamento de Neves. Sabe-se que em terras e águas acreanas ele dirigiu o espetáculo Tributo a Chico Mendes (1989), no ano seguinte ao assassinado do líder seringueiro e sindicalista. E mais tarde publicou a dramaturgia Yuraiá: O rio do nosso corpo, de evocação aos ritos dos Kaxinawá.

A extensão afro-ameríndia do projeto contempla a capacidade de Neves em percorrer veredas que se cruzam com outros. “Às vezes a gente se esquece de que as lutas deveriam ser uma só”, diz o texto, a certa altura, quando se está a descrever as tantas personagens femininas da historiografia ou das tragédias clássicas referendadas em seus trabalhos. Uma cena que flertava constantemente com as culturas e realidades latino-americanas.

A partir da esquerda, Denise Guilherme, Edi Cardoso, Cássio Castelan, André Pastore e Dudu Oliveira, atuantes na peça com dramaturgia de Solange Dias, codiretora com Alexandre Kavanji
Arô Ribeiro A partir da esquerda, Denise Guilherme, Edi Cardoso, Cássio Castelan, André Pastore e Dudu Oliveira, atuantes na peça com dramaturgia de Solange Dias, codiretora com Alexandre Kavanji

Esses cruzos são lembrados no terceiro movimento a sublinhar em Rio João. O dispositivo de uma carta endereçada ao criador por “saudades de alguém que acreditava na capacidade da arte de transformar as pessoas”; “que amava incondicionalmente o Brasil, esse nosso trem que vivem descarrilhando”. Essa parte da dramaturgia adapta vídeo elaborado por Solange Dias para a série 13 cartas imaginadas (2020), iniciativa do Centro Cultural São Paulo, em que escritores gravaram suas impressões a destinatário ou destinatárias, vivos ou mortos, em geral abordando a condição da humanidade emparedada naqueles primeiros meses da pandemia de Covid-19.

“Como te falar sobre o país, o mundo em que vivemos como autores- intérpretes de um papel que não sabemos como conduzir”, indaga-pondera o ator Cássio Castelan ao microfone, performando as palavras de Dias agora em nome da Paulicea. “Você sabe disso, foi com esse mundo que você sempre dialogou poeticamente com o teatro tão radical, tão quixotesco, não é mesmo?”, continua, no afã de “encontrar todos os dias a tua força de cantante-brincante em mim”.

Toda a pesquisa e construção do espetáculo assenta-se sobre um colchão musical que opera como um “sexto ator” em cena. Com direção de Léo Nascimento, ao violão, os demais músicos conduzem percussão, bandolim, baixo e violão a bom termo nas mais distintas esferas do narrado. A musicalidade é senhora, inclusive no canto.

Por outro lado, uma dissonância verificada numa das primeiras apresentações de Rio João tem a ver com a demão da caricatura gestual ou textual no desenho de duas figuras femininas no episódio da invasão da sede da UNE, a vizinha conservadora e a repórter televisiva. Houve sensação de ruído também na cena alusiva ao espetáculo O último carro (1976), escrito e dirigido pelo artista homenageado na fase do Grupo Opinião. O elenco achega-se a uma das ilhas da plateia-arquipélago a fim de convertê-la em passageiros e passageiras no vagão de trem lotado, com atores embrenhados em meio ao público feito usuários do transporte. Em ambas as ações, fazem falta nuances para transcender a superfície das intenções, o que talvez conspire justamente para que na segunda o fluxo de tempo se alongue.

Neves morreu em consequência de um câncer, em agosto de 2018. Não viu a democrática e mortífera ascensão do discurso de ódio nas eleições de outubro daquele ano no Brasil. O artista não tinha vocação para pavonear. Ia a campo, botava a mão na massa, agia. Para quem não assistiu a um de seus últimos trabalhos, Lazarillo de Tormes (2016), adaptado, dirigido e coatuado por ele em Minas Gerais, há um registro em vídeo com trechos da montagem comentada pelo ator Glicério do Rosário, integrante de Primeiras estórias (1992), uma das incursões mais memoriosas de Neves ao universo de João Guimarães Rosa.

O documento audiovisual disponível em canal da Associação Campo das Vertentes, de Belo Horizonte, no contexto da Mostra Vertentes 2022, é precioso ao focar um ser octogenário esbanjando voz altissonante e rolando pelo palco como se num corpo de menino. Ele não atuava havia 25 anos. “A razão da sem razão que a mim razão me parece”, afirma um dos arquétipos de palhaço que são operários durante a reforma de um castelo medieval.

Na narrativa anônima do século XVI, impulsionadora do romance picaresco, os palhaços-operários acidentalmente derrubam uma parede e descobrem ali uma biblioteca oculta há mais de quatro séculos. Nela, provavelmente protegida dos olhos da Santa Inquisição por seu proprietário, encontrava-se, entre outros, cuidadosamente embrulhado, o que se presumiu ser o texto original da obra.

Ao discorrer sobre o desejo de montar a história, em 2015, um deveras inquieto João das Neves profetizou em entrevista: “Quero participar como ator, hoje não tenho 20 anos e nem 30, tenho mais de 80. Talvez sejam minhas últimas apresentações nos palcos que só frequento esporadicamente. Eu quero fazer essa peça e vou fazer, haja o que houver”.

Transbordamento talvez seja uma metáfora com boa margem de êxito em todas as embarcações às quais esse artista se lançou na arte e na existência. Seja no sentido de fazer sair fora das bordas ou de avançar a partir delas. A companhia que emprestou para si o nome do título original de uma coletânea de poemas de Mário de Andrade, Paulicea desvairada (1922), proporciona uma experiência festiva, não laudatória e coerente com as ambições do afluente João das Neves.

.:. O jornalista mediou a mesa ‘A vida e obra de João das Neves’, em 14 de março de 2023, na Oficina Cultural Oswald de Andrade. A ação organizada pela Cia. Paulicea de Teatro foi remunerada e prevista no projeto Missão João das Neves: Em Busca de uma Nação Imaginada, contemplado na 38º edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.

Serviço:

Rio João

Quinta a sábado, 21h; domingo, 19h. De 23 a 26 de março de 2023.

Espaço Cia. da Revista (Alameda Nothmann, 1.135, Campos Elíseos, tel. 11 3791-5200)

Grátis.

80 minutos

14 anos

*

A temporada de estreia do espetáculo aconteceu entre 2 e 5 de março, no Teatro Arthur Azevedo, na Mooca. A segunda, de 8 a 18 de março, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro.

Arô Ribeiro O bandolinista Maurício Pazz chega a contracenar com elenco no espetáculo em que a música e os instrumentistas e cantores são como que um “sexto ator” na arena
Divulgação O artista João das Neves

Ficha técnica:

Dramaturgia: Solange Dias

Direção: Alexandre Kavanji e Solange Dias

Artistas criadores: André Pastore, Cássio Castelan, Denise Guilherme,

Dudu Oliveira, Edi Cardoso e Érika Coracini

Direção musical: Léo Nascimento

Músicos: Cleiton Pellado, João Rocha, Maurício Pazz e Léo Nascimento

Preparação corporal e direção de movimento: André Pastore

Provocadores: Luís Alberto de Abreu (dramaturgia), Titane (voz

e canto) e Maurício Tizumba (interpretação)

Cenário e figurinos: Guto Togniazzolo

Assistente de figurino: Ana Griz

Iluminação, operação e luz e adereços: Mauro Martorelli

Registro fotográfico: Arô Ribeiro

Registro audiovisual: Léo Xymox

Registro do processo criativo/publicação: Natália Batista

Designer gráfico: Pedro Penafiel

Assessoria de imprensa: Luciana Gandelini

Direção de produção: Iarlei Rangel

Produção executiva: Maju Tóffuli Assistente de produção: Bina Oliveira

Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Cursa doutorado em artes cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado na mesma área.

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