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Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

TEATRO

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Um frio corredor de concreto aparente, o espaço Mezanino do Centro Cultural Fiesp torna-se acolhedor na encenação de “Caminhos”, projeto mais recente do Núcleo Experimental do Sesi. 

Convidados da vez, a diretora Cristiane Paoli-Quito e o dramaturgo Rubens Rewald parecem conceber o espetáculo como uma instalação. Se Lygia Clark incita com objetos manuseáveis, por exemplo, a dupla, vinda de parcerias na cia. Nova Dança 4, toca e mobiliza o público por meio da palavra. 

Não por meio dos diálogos correntes no teatro, mas em verso solto, torto e quebrado, à imagem da beleza de jovens ainda não inoculados por vícios na representação. 

No autodeclarado “drama de formação”, moças e rapazes deitam o verbo em sussurros, sibilos, tartamudeios. É um espetáculo que chama à escuta, ao mistério do outro e de si. 

Dramaturgo por vezes hermético (vide “Umbigo”), Rewald soa surpreendentemente suave nesse exercício colaborativo, e não menos rigoroso na ossatura. 

Não há história, nem personagens. Não há um fio, mas muitos. O espectador é co-autor em obra aberta. Ocupando almofadas no chão, ele relaxa e se deixa levar pelos caprichos orais de um curioso jogo que se impõe por sensações. 

O roteiro parte do depoimento dos atores, fala de questões íntimas, familiares. Lança dúvidas de percursos existenciais e políticos, a contrastar com o império das certezas em ser “feliz” e “sarado”. 

Com frases curtas e movediças, “Caminhos” chega a usar letras de MPB como porta-voz. Não precisava. Tem a sua própria musicalidade firme. As interferências de luz são mínimas; o espaço cenográfico, discreto. Resta a presença do ator, veículo de sentidos. 

A esfera da delicadeza é dominada com muita habilidade por Paoli-Quito, como se viu em “Aldeotas”. Sua pedagogia para um ator-criador é transitar o vazio, desarmar convenções. E redirige a percepção do espectador, instado a sondar outras camadas em tudo que vê, ouve, respira. 

Arte (também) do dizer, o teatro encontra aqui o rumor da língua e do silêncio. Parafraseando o bordão jurídico, e tudo mais foi dito e perguntado, pois a montagem segue com quem ela conversou.



Peça: Caminhos
Onde: Mezanino do Centro Cultural Fiesp (av. Paulista, 1.313, tel. 3146-7405) 
Quando: qui. a sáb., às 20h30; dom., às 19h30; até 23/12 
Quanto: entrada franca (retirar ingressos com antecedência) 
Avaliação: bom 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

TEATRO 

Vocalista do Cordel do Fogo Encantado estréia performance em que questiona a condição de vendedor de poesia
 

Músico carrega para a cena uma caixa-carrinho a partir da qual aciona alavancas e pedais para disparar luzes e sons durante suas falas

 
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Poeta e vocalista do Cordel do Fogo Encantado, João Paes de Lira, o Lirinha, contava 12 anos quando recebeu o primeiro cachê na vida. Ele não lembra o valor, mas “era pouco”. 

Foi num concurso de cantoria de viola no teatro Guararapes, em Recife. No intervalo, recitou poetas populares no centro do palco, atrás de um microfone, sob luzes e olhares. 

“Estranhei receber aquele dinheiro por algo que até então fazia de graça, e com muita alegria”, diz Lirinha, 31. 

Um tanto daquela passagem, e a trajetória artística cumprida dali em diante, com o híbrido de poesia, teatro e música, está na performance que ele protagoniza, “Mercadorias e Futuro”. A estréia acontece em duas apresentações, hoje e amanhã, no Sesc Pompéia. 

Lirinha retoma o espírito do teatro que deu origem à banda no espetáculo “Cordel do Fogo Encantado”, que criou com amigos na Arcoverde natal, no sertão de Pernambuco, aos 16. 

“Com o espetáculo, exponho um dos meus maiores questionamentos como artista, que é a venda da poesia; a função que o capitalismo me impôs para viver de poesia”, conta o autor.

Ele surge em cena como Lirovsky, vendedor de livros que monta banca em qualquer canto da fictícia Interlândia. 

Como o mascate que atrai sua clientela para a roda anunciando atravessar o aro de bicicleta adornado com facas, o personagem apela a uma caixa-carrinho de som e luz. Lirovsky carrega consigo essa parafernália eletrônica a um só tempo rudimentar e sofisticada. Por meio de alavancas e pedais, dispara os recursos com os quais interage com as falas. “Vender é descobrir nas coisas outras propriedades”, afirma. 

A corruptela do apelido Lirinha com o nome do personagem, Lirovsky, dá a medida da extensão biográfica do projeto. 

Passa pela memória pessoal, como no episódio da doença que o abateu aos 9 anos, parcialmente descrito em off pela mãe, Lizete, que perambulou com o menino raquítico por vários médicos, até levá-lo a um curandeiro, atendendo ao clamor da vizinhança. Fé à vista. 

“Lirinha estudou profundamente o tema da profecia para ter o domínio que o Lirovsky pede. Fez um processo parecido com construção de personagem, não foi apenas criação de texto”, afirma a atriz Leandra Leal, 25, que co-dirige a performance do poeta.
 
A narrativa pretende conciliar os profetas com a consciência da loucura. Roça realidade e ficção ao percorrer o legado de três deles: os visionários João Pedra Maior, Teresa Purpurina e Benedito Heráclito. “Eles têm a dimensão do sagrado, mas sem perder o devaneio. É como se a profecia fosse devolvida ao seu lugar de origem, que é a poesia”, diz Lirinha. 

Quase paralelo à performance, ele deu à luz o também romance “Mercadorias e Futuro”, que deve publicar em 2008, ano em que gravará o quarto álbum do Cordel.



Mercadorias e futuro
Quando: hoje e amanhã, às 21h 
Onde: Sesc Pompéia (r. Clélia, 93, tel. 0/xx/11/3871-7700) 
Quanto: de R$ 4 a R$ 16 

Folha de S.Paulo

São Paulo, domingo, 16 de dezembro de 2007

TEATRO

Temporada teatral chega ao fim, mas algumas produções apresentadas na cidade ainda poderão ser vistas em janeiro
 

Entre as montagens que saem de cartaz há um pouco de tudo, de comédia a paralelos literários entre escritores brasileiros

VALMIR SANTOS
Da Reportagem local 

Hoje é o último dia da temporada de teatro na maioria dos espaços de São Paulo, cidade que tem abrigado um grande e variado número de produções. 

Algumas das montagens deverão retornar em janeiro, caso de “Pálido Colosso”, da Companhia do Feijão. Outras, fecham as cortinas de vez ou buscam nova agenda, como é o caso de “Amada, Mais Conhecida Como Mulher e Também Chamada de Maria”, da Companhia Artehúmus de Teatro, que possivelmente voltará ao cartaz em março. 

Das que hoje se despedem da cidade há um pouco de tudo, de comédia a paralelos literários entre escritores brasileiros, caso de “A Última Quimera”, de Ana Miranda, que trata de dois poetas, Augusto dos Anjos e Olavo Bilac. 

“A Dama e Os Vagabundos”, uma bem-humorada incursão ao mundo do relacionamento homem-mulher, também tem hoje a sua última apresentação paulistana. “Pálido Colosso” e “Amada, Mais Conhecida Como Mulher e Também Chamada de Maria” têm em comum uma abordagem histórica, e de tom politizado, do país. 

Depois de olhar a realidade por meio do passado ficcional registrado por escritores como Mário de Andrade (mote para peças como “O Ó da Viagem” e “Nonada”), a Companhia do Feijão recorreu agora a depoimentos de seus próprios integrantes. “Os observadores do tempo não são mais os escritores, às vezes melhores que historiadores, mas nós mesmos, os vivos”, diz Zernesto Pessoa, 45, que assina dramaturgia e direção com Pedro Pires. Os fatos políticos são costurados com as memórias pessoais da infância, adolescência e vida adulta. 

As cenas nasceram de improvisações a partir de acontecimentos vivenciados ou não, como a censura à imprensa e a luta pelas Diretas-Já. O resultado é um cabaré “degenerado” com quadros que recortam episódios após a instalação da ditadura militar no Brasil, em 1964. 

Por vezes cômico, ácido e poético, o painel procura expor a “alienação” que seria perpetuada em brincadeiras infantis ou no futebol, passando por intervenções nem sempre felizes de artistas e pela conhecida fauna política brasileira -nunca ameaçada de extinção. “Uma das questões é que o Brasil dá a sensação de um permanente estado de coito interrompido”, diz Pessoa. 

O “parto” do país está no cerne de “Amada, Mais Conhecida Como Mulher e Também Chamada Maria”. O diretor Evil Rebouças, que finalizou a dramaturgia em colaboração com os atores da Companhia Artehúmus, concentra-se na relação colonizador-colonizado.



Amada, Mais conhecida como mulher e também chamada de Maria
Quando:
hoje, às 21h 
Onde: CCSP (r. Vergueiro, 1.000, tel. 3383-3400) 
Quanto: R$ 15


Pálido Colosso
Quando:
hoje, às 21h 
Onde: teatro da Companhia do Feijão (r. Teodoro Baima, 68, tel. 3259-9086) 
Quanto: R$ 10

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

TEATRO 

Encontro em Porto Alegre foi marcado por cancelamento do convênio de R$ 50 mil com braço das artes cênicas do MinC
 

Em documento de balanço, grupos alegaram demora da disponibilização dos recursos firmados e dificuldade de comunicação

VALMIR SANTOS
Em Porto Alegre 

Grupos de teatro do movimento Redemoinho criticam a gestão de Celso Frateschi na presidência da Funarte, o braço das artes cênicas do Ministério da Cultura. O 4º Encontro Nacional do Redemoinho, ocorrido durante três dias da semana passada, em Porto Alegre, foi marcado pelo cancelamento do convênio de R$ 50 mil assinado com o órgão federal que apoiou edições anteriores.

Em documento de balanço divulgado na noite de quarta-feira, os grupos alegaram “demora da disponibilização dos recursos firmados”, sinalizados a quatro dias da abertura, e “dificuldade de comunicação” com a Funarte.

No encontro, por exemplo, o ator e um dos fundadores do grupo Galpão (MG), Chico Pelúcio, afirmou que a relação “está ruim” e que era preciso mostrar que “estamos insatisfeitos com o tratamento que a Funarte deu ao Redemoinho”.

O também ator Frateschi, nome ligado à aprovação da pioneira Lei de Fomento paulistana (2002), se disse decepcionado e reclamou de “leviandade”. Segundo ele, a responsabilidade pelo atraso do repasse é do próprio movimento, por razões de documentação, e mesmo assim haveria “tempo hábil para ser realizado”.

O Redemoinho diz que a negociação vinha desde julho e a verba não poderia ser usada porque liberada de fato quando a reunião “já estava em andamento”.

Com representantes de 37 grupos de 11 Estados, o encontro decidiu que a principal ação política em 2008 será a mobilização pela aprovação do projeto de lei que institui um Fomento em nível federal. No dia 27 de março, em que se comemora o Dia do Teatro, os artistas lerão aos seus espectadores um manifesto sobre o programa. O documento também será encaminhado ao presidente Lula e a deputados e senadores.

O evento divulgou ainda carta aberta à prefeitura de Porto Alegre cobrando providências quanto à ordem de despejo sofrida pela Terreira, sede da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, onde aconteceu o encontro -o grupo completa 30 anos em 2008.
A próxima edição do Redemoinho ocorrerá em dezembro de 2008, em Salvador.

O movimento de coletivos surgiu em 2004 como rede brasileira de espaços de criação, compartilhamento e pesquisa teatral. E vem se afirmando pela proposição de políticas públicas para a área. 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sexta-feira, 07 de dezembro de 2007

TEATRO

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O drama norueguês contemporâneo ganha vez em palcos brasileiros. Do país de Henrik Ibsen (1828-1906), os textos mais encenados em São Paulo nesta década são de Jon Fosse, por Denise Weinberg (“Nome”) e Fernanda D’Umbra (“Roxo”).

Agora, o encontro é com o dramaturgo Arne Lygre, em “Homem sem Rumo”, pelas mãos de Roberto Alvim.

Também artista plástico, Lygre, 39, estreou profissionalmente com “Mother and Me and Men” (“A Mãe, Eu e os Homens”), em 1998.

“Man Without Purpose”, o título em inglês do texto cuja montagem está em cartaz no Sesc Avenida Paulista, é o penúltimo dos cinco que somam a sua curta obra para teatro, mas o primeiro a ser encenado no Brasil.

“Tenho andado interessado em experimentar formas e estruturas de peça em minha escrita. Tentar descobrir um novo caminho para contar uma história é das minhas principais inspirações na literatura”, diz Lygre.

Em 2004, ele lançou uma coletânea de contos, “In Time”, pela qual foi premiado em seu país. Na semana passada, participou em São Paulo de um encontro na Mostra Sesc de Artes em que falou de dramaturgia dentro de segmento que incluiu leituras de outros autores da Noruega, como Fosse, Nïels Fredrik Dahl e Tryti Vennerod.

“É interessante desenvolver uma história sob diferentes ângulos. A perspectiva de tempo é algo sobre o qual venho trabalhando bastante. A linguagem também tem muita importância nas peças, o ritmo do texto. A respeito disso, não me ocupo do realismo. Acho que é mais interessante quando os personagens, o contexto e o sentimento surgem um pouco como arquétipos, não necessariamente ligados a tempo ou lugar”, afirma Lygre.

“Homem sem Rumo” é baseada na crença de que só o dinheiro garante a felicidade.

Em suas peças, Lygre cria personagens que passam por deslocamentos interiores, irrompem em pequenos monólogos na terceira pessoa, dirigindo-se diretamente ao espectador. Reflexo da contaminação do teatro pelo romance na assinatura do autor?

“Não sei exatamente como as minhas peças e os romances influenciam um ao outro. Por um longo tempo, só fui dramaturgo. Depois, desejei escrever romances e contos também, como se fosse um desafio para mostrar a minha capacidade de usar a linguagem de outra forma.”

Para Lygre, às vezes é bom que um texto seja lido nas páginas de um livro e não interpretado no palco por outro artista. 
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 05 de dezembro de 2007

TEATRO 

Quebra de imagem de santa por um rapaz, em 1978, inspira peça de Carlos Alberto Soffredini montada pela filha Renata
 

“Minha Nossa” estréia hoje no Espaço dos Satyros 2 e mantém características do teatro popular e do circo-teatro de Soffredini

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Em maio de 1978, na Basílica Nacional de Aparecida (SP), um homem de 19 anos, integrante de uma romaria, ergueu as mãos para o altar e, num impulso, esmurrou a redoma de vidro e agarrou a imagem da santa. As luzes teriam se apagado e, no fuzuê, a imagem católica da padroeira do Brasil foi ao chão em mais de 160 pedaços. 

Quase linchado pelos romeiros, Rogério de Oliveira foi preso por tentativa de roubo e, em seguida, internado em hospital psiquiátrico. Na Folha de 19 de maio de 1978, um padre declarou que o rapaz fora “possuído de uma psicose religiosa”. 

O dramaturgo Carlos Alberto Soffredini (1939-2001) recriou esse episódio em “Minha Nossa”, peça escrita para o extinto grupo Mambembe (estreou em 1984) e definida como “reportagem para sete atores, em cinco partes”. Agora, o drama popular é montado por sua filha, Renata Soffredini, em temporada a partir de hoje no Espaço dos Satyros 2. 

“É o texto dele mais documental, com depoimentos colhidos em campo e trechos do que revistas e jornais publicaram à época”, diz Renata, 45, que segue as estéticas do teatro popular e do circo-teatro que balizaram o autor de “Na Carreira do Divino”. 

Para a diretora, ao reconstituir dramaturgicamente o “atentado” à imagem de Nossa Senhora Aparecida, o autor compõe simbolicamente “quase a origem do povo brasileiro, da família, dos costumes e dos desgovernos desde a colonização portuguesa”. 

O cenário é reduzido a um telão ao fundo, pintado. A igreja, políticos, polícia, pais, enfim, todos se perguntam o porquê do ato do rapaz, que no início se chama Ramar (“da mesma forma que crescem as ramas das árvores”) e, no final, vira Rumar (“que se vai embora”).



Peça: Minha Nossa
Quando: estréia hoje, às 22h30; qua., às 22h30; até 19/12 (volta em janeiro)
Onde: Espaço dos Satyros 2 (pça. Roosevelt, 124, tel. 3258-6345) 
Quanto: R$ 20
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 03 de dezembro de 2007

TEATRO 

Livros narram as trajetórias do escritor e empreendedor cultural Alfredo Mesquita e da atriz Dulcina de Moraes
 

Biografia do criador da Escola de Arte Dramática em SP e coletânea de histórias da atriz expõem formas de “amor ao teatro”

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Os centenários de nascimento do escritor e empreendedor cultural Alfredo Mesquita, neste ano, e da atriz Dulcina de Moraes, em 2008, trazem suas memórias à tona. Eles foram contemporâneos no “amor ao teatro”, que os conduziu a ações objetivas, mas suas trajetórias não se tocaram. 

Mesquita (1907-85) é mais conhecido pela criação da Escola de Arte Dramática em São Paulo. Dulcina (1908-96) legou a Fundação Brasileira de Teatro, em Brasília. Eles convergiram no ideal de formação e reconhecimento profissional de atores nos anos 1940, quando a cultura do teatro firmava seus primeiros passos em busca de teorias e práticas mais modernas. 

É o que mostram os livros “Alfredo Mesquita – Um Grã-Fino na Contramão”, da jornalista e dramaturga Marta Góes, primeira biografia sobre o escritor, e “Dulcina de Moraes -Memórias de um Teatro Brasileiro”, da atriz e pesquisadora Michelle Bastos.

Inaugurada em 1948, a EAD passou 20 anos sob o comando de Mesquita. Em 1968, a crise financeira levou a escola a ser incorporada pela USP, instituição que catalisa o trabalho de Góes. Mas a autora contextualiza o percurso intelectual que ajuda a entender como a vocação para educador ganhou consistência. 

O filho do dono do jornal “O Estado de S.Paulo” protagonizou feitos como a abertura de uma livraria em sociedade, a Jaraguá, no centro paulistano (1940-54), freqüentada por Oswald e Mário de Andrade, além de jovens como Hilda Hilst. Coube a Mesquita lançar a “Clima” (1941-44), “uma revista de gente nova e desconhecida”, como a publicação se auto-declarava. Gente como Décio de Almeida Prado (teatro), Paulo Emílio Salles Gomes (cinema), Antonio Candido (literatura), Lourival Gomes Machado (artes plásticas), Antonio Lefèvre (música) e outros. 

Em 1944, Mesquita criou o Grupo de Teatro Experimental (GTE), integrado por artistas amadores. Escreveu e dirigiu peças que atraíram o industrial Franco Zampari para aquela arte, inspirando-o a inaugurar o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) em 1948, na Bela Vista. 

Em abril daquele ano, a EAD começou a funcionar no porão do externato Elvira Brandão, nos Jardins. A cidade contava apenas três teatros: o Municipal, o Boa Vista (atual Sérgio Cardoso) e o extinto Santana. No semestre seguinte, a EAD ocupou o 2º andar do TBC a convite de Zampari. A sede mudou depois para um casarão em Higienópolis (1952-60) e o prédio da atual Pinacoteca do Estado, antes de ir de vez para a Cidade Universitária, em 1970. 

“Alfredo acreditava que os fundamentos da formação do ator eram cultura, disciplina e ética”, escreve Góes. Entre os mestres, estavam Cacilda Becker, o crítico alemão Anatol Rosenfeld, o filósofo tcheco Vilém Flusser e o cenógrafo italiano Gianni Ratto, além da então secretária e bibliotecária da escola, Maria Thereza Vargas. 

A EAD formou turmas de 1950 a 2007. São centenas de artistas, da geração de Myriam Muniz à de Marat Descartes. A autora não pisa o terreno afetivo de Mesquita, reservado no trato pessoal. “A intimidade o assustava mais do que o desrespeito ou a agressão.”



Alfredo Mesquita – Um grão- fino na contramão 
Autora : Marta Góes 
Editoras : Albatroz, Loqüi e Terceiro Nome (304 págs.) 
Quanto : R$ 68 
Lançamento : 5/12, às 19h, no Teatro Municipal (pça. Ramos de Azevedo, s/ nº, 3222-8698)
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sexta-feira, 30 de novembro de 2007

TEATRO 
Ator quer endereçar carta de “amor e repúdio” ao país na última parte da série que traz a SP 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Meia hora ao telefone com Michel Melamed, 30, dá a medida da urgência que imprime à verborragia. Ele fala sem parar do “desejo absoluto e perpétuo de fazer arte sem concessão”, de espalhar “verdades plurais” no livro ou no palco, de “produzir pensamento”, de “desestabilizar o olhar” do espectador e, mais recentemente, desestabilizar até “o ouvir” do público. 

“Homemúsica”, novo trabalho do poeta e ator, estreou no Rio em setembro. É a última parte da “Trilogia Brasileira” que ganhou pernas próprias com “Regurgitofagia” (2004), performance na qual ele recebe descargas elétricas -no que vê como libelo ao engajamento voluntário do público-, e “Dinheiro Grátis” (2006), em que promove a circulação literal, em espécie, na platéia. 

São Paulo vê a trilogia de hoje a domingo, no Sesc Santana, dentro da Mostra Sesc de Artes -inédita na cidade, “Homemúsica” fica mais uma semana. “Como apresentar um personagem que a cada movimento do corpo gera o som de um instrumento?”, questiona Melamed, criador e intérprete do jovem Helicóptero. A trajetória desse sujeito, seus impasses e superações, compõem uma carta de amor e repúdio ao Brasil, conforme roteiro e encenação assinados pelo artista. 

“A música surge como símbolo da criatividade, da multiplicidade das potências que nos fazem enfrentar as maratonas do dia-a-dia. E, por outro lado, fala de um Brasil onde não há cidadania e das impressionantes matizes dessa sociedade.” 

O protagonista também busca a fama. Sua trajetória inclui passagem por um programa de auditório, o “Show do Estupra”, migrado de “Regurgitofagia”. A proposta é de obra aberta, como nos trabalhos anteriores, em nome de um espectador ativo na “produção de sua subjetividade, de sua verdade”. 

Guitarra em punho, dessa vez o show-de-um-homem-só é acompanhado por uma banda, “não no sentido musical canônico”, tenta explicar. São incorporados recursos tecnológicos. “Um dos postulados da trilogia é trabalhar com diversas linguagens, o teatro, a performance, a stand up comedy, a poesia falada”, diz. 

“Eu quero me entender como poeta. É meu desafio”, diz Melamed, também apresentador do “Re[corte] Cultural”, da TVE. Diferentemente de “Regurgitofagia”, que deriva de livro homônimo, “Homemúsica” gera um romance a ser publicado em breve, além de um CD com as canções do espetáculo.



Trilogia Brasileira 
Quando: hoje, às 21h (“Regurgitofagia”); amanhã, às 21h (“Dinheiro Grátis”); dom., às 19h (“Homemúsica”). “Homemúsica” segue até 9/12; sex. e sáb., às 21h, e dom., às 19h 
Onde: Sesc Santana (av. Luís Dumont Villares, 579, tel. 0/xx/11/6971-8700) 
Quanto: R$ 4 a R$ 16 

Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 26 de novembro de 2007

TEATRO 

Evento gratuito realizado pela Folha e pelo teatro Augusta discute produção atual nos dois países
 

Debate “Da Encenação à Realidade” reúne hoje, em São Paulo, curador artístico italiano Michele Panella e três especialistas brasileiros

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

A dramaturgia contemporânea da Itália, um país de autores clássicos como Carlo Goldoni e Luigi Pirandello, finalmente deu um salto no final dos anos 90. Até então, era difícil identificar consistência no experimento de novos caminhos para a escrita teatral. 

A avaliação é de Michele Panella, 35, curador artístico do teatro Della Limonaia (Florença), que participa hoje em São Paulo da mesa-redonda “Da Encenação à Realidade – Intercâmbio Cultural Brasil-Itália”, no teatro Augusta. 

“Pode-se falar de um renascimento da dramaturgia italiana a partir da década passada, sobretudo em conseqüência da União Européia, que fortaleceu os intercâmbios”, diz Panella. 

Ele traçará um panorama da cena atual de seu país em encontro com a pesquisadora Neyde Veneziano (Unicamp), especializada em teatro italiano; a diretora Débora Dubois, que participou de projeto no Della Limonaia há cerca de três anos; e o crítico daFolha Sérgio Salvia Coelho, que situará a produção brasileira recente. A mediação será feita pela atriz Inês Aranha. 

O evento gratuito marca os cinco anos da Associação Cultural Augusta. Panella vem ao Brasil por meio da parceria do teatro Augusta com a Folha. 

Ele destaca três autores da nova safra: Letizia Russo (1980), Fausto Paravidino (1976) e Spiro Scimone (1964). “Essa geração pratica um realismo muito particular. É um tipo de estrutura de texto que surge da fala cotidiana”, diz. 

Desde o final dos anos 80, o Della Limonaia realiza o festival Intercity, uma ponte com autores de outros países. Em 2004, o Brasil marcou presença com a encenação de textos do cearense Marcos Barbosa e do paulista Aimar Labaki. “Em geral, esses brasileiros alcançam linguagem universal a partir de realidades locais e histórias de intimismo”, afirma. A abertura e o final do encontro terão apresentação musical de Andréa Kaiser e Rosana Civile, ao piano.



Da encenção à realidade – Intercâmbio Cultural Brasil-Itália 
Quando: hoje, às 20h 
Onde: teatro Augusta (r. Augusta, 943, tel. 0/xx/11/ 3151-4141) 
Quanto: entrada franca
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 22 de novembro de 2007

TEATRO 

Bruce Gomlevsky estudou gestual e maneiras de falar e cantar do músico
 

Peça, que entra em cartaz no CCBB após 200 apresentações no país, mostra ator em “show” no qual narra passagens da vida do cantor

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

 

Pessoalmente, Bruce Gomlevsky diz que não tem nada a ver com Renato Russo, mas há dois anos ele traz de volta, num palco de teatro, o cantor e compositor da banda Legião Urbana, com seus gestos, voz, barba, bigode, óculos e camisas de mangas largas. 

“Dizem que eu “incorporo”, mas não gosto da palavra, apesar de ser um elogio”, diz o ator. O carioca Gomlevsky faz 33 anos hoje, na estréia para convidados, em São Paulo, do solo musical “Renato Russo”, no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, onde fica em cartaz até fevereiro do ano que vem, descontado recesso de final de ano. A peça estreou no Rio em outubro de 2006, nos dez anos da morte de Russo. Percorreu vários Estados e ruma a 200 apresentações. Foi vista por mais de 60 mil pessoas. Em São Carlos (SP), a sessão ao ar livre reuniu cerca de 6.000, o recorde. 

O molde é o mesmo de um show, em que o personagem narra passagens da vida e da carreira, na maioria das vezes à frente de uma banda -que, na ficção, é a embrionária Aborto Elétrico ou a Legião Urbana, mas, na realidade, é a Arte Profana -que acompanha o Russo de Gomlevsky em 22 canções. 

Na peça, seu interlocutor de fato é o público, mas há também os invisíveis, como amigos, familiares e jornalistas, como quer a dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho, em colaboração com o ator e o diretor Mauro Mendonça Filho. “Por onde a gente passa, de Norte a Sul, as pessoas cantam todas as músicas. Nunca tinha feito uma peça que emocionasse tanto”, diz o protagonista. 

Ele destaca ainda a adesão de adolescentes que descobrem a Legião agora. 

Gestos e canto

Gomlevsky diz ter estudado “internamente” a aproximação física nos gestos e maneiras de falar e cantar do vocalista. 

“Sempre quis trazer a alma do Renato para a cena”, diz Gomlevsky, que rejeita a pecha de “cover”. Ele idealizou o espetáculo há quatro anos, quando ganhou da mulher e co-produtora, a atriz Julia Carrera, uma biografia de Russo. Botou a voz num CD, tirou fotos caracterizado e pediu autorização à família do artista, que endossou o pré-projeto e, depois, cedeu os direitos para o espetáculo. 

Mauro Mendonça Filho, 42, atribui a recepção do trabalho não apenas à técnica de Gomlevsky, há 14 anos na estrada (dirigido por Gerald Thomas, Enrique Diaz, Felipe Hirsch e outros) e que dias atrás defendia o papel-título de “Macbeth”, no Rio, ou ainda foi visto na TV Globo no especial “Por Toda a Minha Vida”, homenagem ao líder da Legião. 

Para o diretor, o que o ator alcança seria fruto de sua “sensibilidade”. Daí certa “confusão espírita”, conclui ele, quando se está diante de um artista que “recria a alma, e não a imita”. É o resultado que esperam lmanter na transposição do musical para o cinema, em breve.



Renato Russo
Onde: CCBB (r. Álvares Penteado, 112, centro, tel. 0/xx/11/3113-3651) 
Quando: hoje, às 20h (convidados); qui. a sáb., às 19h30; dom., às 18h. Até 16/12 (volta de 10/1 a 10/2) 
Quanto: R$ 15