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Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 26 de julho de 2007

TEATRO 
Ator busca na infância inspiração para protagonizar a nova produção da CIE Brasil, que estréia amanhã no Credicard Hall 

Ele recuperou brigas e brincadeiras com os irmãos para criar “improvisos” no espetáculo, em que canta e faz coreografias

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Desde o primeiro dia de vida, há 25 anos, Leonardo Miggiorin sabe o quanto é difícil protagonizar uma cena, como fará a partir de amanhã no musical “Peter Pan – Todos Podemos Voar”, no Credicard Hall. Ele veio à luz às 9h de um domingo chuvoso em Barbacena (MG). O pediatra da mãe estava viajando, e outro médico foi chamado. “Minha mãe não havia chegado à sala de parto quando comecei a nascer. O cara fechou as pernas dela, e eu voltei para dentro [ri]. Depois eu nasci “afogado”, roxo, fiquei dez dias em coma.” 

O ator atribui ao rito de passagem o fato de ser “mimado” pela família, tanto na infância como na vida adulta. Mas não chega a ser como o garoto do clássico da literatura infantil, do escocês J.M. Barrie (1860-1937), que não queria crescer. “Sou o irmão do meio, o garoto-enxaqueca. Dizem que é o problemático: nem o mais velho, o orgulho da família, nem o mais novo, que é o xodó”, diz. 

Muitas brigas e brincadeiras com o primogênito Rafael, hoje engenheiro elétrico, e com Gustavo, aviador, foram recuperadas nos improvisos para compor Peter em seus “vôos” até a Terra do Nunca. “[Desde criança] me chamam de Peter Pan porque sempre fui magrinho e arteiro”, diz. Filho de coronel aposentado da Aeronáutica, começou aos 12 anos no teatro infantil amador. 

Nunca mais parou de representar no palco, na TV e no cinema. “O Peter tem muitas cores. Não é só encantador, é malévolo, sarcástico.” Ao lado de 28 atores, Miggiorin alternará as oito apresentações semanais com Fellipe Ferreira. A maior exigência, diz, é cantar e fazer a coreografia junto. “Numa cena, tenho de pular, dar cambalhota, subir num quadro e ainda manter os agudos.” Com direção musical de Miguel Briamonte, direção geral de Ariel del Mastro, que montou “Peter Pan” em Buenos Aires, e orçada em US$ 2 milhões (R$ 3,7 milhões), a produção da CIE Brasil aguarda aprovação para captar recursos por meio de lei de incentivo federal. 



Peter Pan- Todos podemos Voar
Onde: Credicard Hall (av. das Nações Unidas, 17.955, tel. 6846-6000) 
Quando: estréia amanhã, às 20h30; qui. e sex., às 20h30; sáb. e dom., às 11h, 14h e 17h. Até 16/9 
Quanto: R$ 50 a R$ 150

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 24 de julho de 2007

TEATRO 
Mostra tem sete peças de São Paulo e uma do Rio, a maioria delas premiada 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Com a primeira “Mostra de Solos”, de hoje a domingo, o Espaço Parlapatões oferece ao público (cúmplice do intérprete que ocupa a cena sozinho) um painel significativo da produção recente do formato. 

O monólogo costuma refletir modo de produção mais barato. 

Daí o pé atrás: precisa de muito talento para dizer a que veio. É chance para ver ou rever espetáculos, em sua maioria premiados. São sete de São Paulo e um convidado do Rio, “A Descoberta das Américas”, que abre o evento hoje. 

Essa adaptação da peça do italiano Dario Fo (“Johan Padan a La Descoverta de La Americhe”), defendida por Julio Adrião e dirigida por Alessandra Vannucci, é exemplo de bem-sucedida recepção do formato. Adrião levou o Prêmio Shell de Teatro de 2005, no Rio, de melhor ator com as desventuras de um “zé ninguém” às voltas com a fogueira da inquisição, a caravela de Colombo, naufrágio e índios antropófagos. Além da palavra, põe em evidência a dramaturgia do corpo. São mínimos os recursos de cenografia, figurinos e luz. 

Dosagem oposta à de Marat Descartes em “Primeiro Amor”, conversão para o palco do romance de Samuel Beckett, sob direção de Georgette Fadel. 

Shell de melhor ator em SP, em 2006, Descartes surge contido num banco, a narrar uma desalentadora iniciação amorosa. 

Na quinta-feira, o também premiado Henrique Schafer (Shell SP 2005 de melhor ator) valoriza a expressão física em “O Porco”, do francês Raymond Cousse, com direção Antonio Januzelli. Trata da reconstituição de momentos da vida do animal “humanizado” do título: antepassados, família, condição social, desejos etc. São duas as peças de sexta. 

Mário Bortolotto interpreta “Kerouac”, com dramaturgia de Maurício Arruda Mendonça e direção de Fauzi Arap. E Maíra de Andrade protagoniza “Mukhtaran – Ensaios Sob a Guerra”, texto e direção de Eugênia Thereza de Andrade. 

Sábado tem mais jornada dupla. “Horácio”, de Heiner Müller, com direção e atuação de Celso Frateschi. E “Prego na Testa”, de Eric Bogosian, com o parlapatão Hugo Possolo e direção de Aimar Labaki. 

Lígia Cortez encerra o evento no domingo, com “A Entrevista”, texto de Samir Yazbek e direção de Marcelo Lazzaratto. 



Mostra de solos
Quando: de hoje a qui., às 21h; sex. e sáb., às 21h e à 0h; e dom., às 20h. Até 29/7 
Onde: Espaço Parlapatões (pça. Franklin Roosevelt, 158, tel. 3258 4449) 
Quanto: R$ 15 (preço único) 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 14 de julho de 2007

TEATRO 

Peça com protagonista mineiro será encenada hoje e amanhã no Sesc Anchieta
 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Um espetáculo da Venezuela sobre o enfrentamento do poder por um indivíduo pode suscitar a dúvida: é ou não uma peça com referência ao presidente Hugo Chávez? O diretor de “Hamlet”, Orlando Arocha, e seu protagonista, o brasileiro Ricardo Nortier, dizem que esta não é a questão. 

“Não é nossa intenção direta, mas a peça traz pontes pela própria força das metáforas em Shakespeare”. diz Nortier, 37, ator mineiro radicado há dez anos em Caracas. “O público se identifica com os problemas latino-americanos. Tanto que o espetáculo se passa num quarto de fundo destruído, o local da casa onde se lava roupa suja.” 

O “Hamlet” de Arocha tem apresentações hoje e amanhã, no Sesc Anchieta, e depois participa do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (SP). 

“Na Venezuela, a situação está tão polarizada [do ponto de vista ideológico] que qualquer coisa passa necessariamente por questões políticas”, diz Arocha, 53. 

Sua montagem, de 2004, aproxima a platéia do espaço cenográfico, no qual a opressão é sugerida pelo teto baixo e paredes estreitas, por onde vagam os personagens. 

Criado há 20 anos, o grupo Contrajuego transita por um teatro de arte, segundo o diretor. São ao todo nove intérpretes, entre eles Eulalia Siso (Gertrudes), Ludwig Pineda (Claudio), Diana Peñalver (Ofélia) e Julio Bouley (Horãcio)



Hamlet
Quando: hoje, às 20h, e amanhã, às 18h 
Onde: Teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 0/xx/11/3234-3000) 
Quanto: de R$ 5 a R$ 20 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sexta-feira, 13 de julho de 2007

TEATRO

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

“City tour” à la Parlapatões. No ônibus, 44 espectadores, a rodomoça, o guia engraçadinho, o motorista perdido e outros tipos rumam para o “Pior de São Paulo”, intervenção que estréia amanhã.

Não é espetáculo, diz o ator e co-roteirista Hugo Possolo (com Mário Viana). E os piores lugares podem ser mansões onde o lixo é empurrado para baixo do tapete. A inspiração vem do palhaço italiano Leo Bassi, radicado na Espanha. Em um passeio por Madri, há quatro anos, ele fez com que uma trupe paramentada de iraquianos invadisse a casa do então premiê José María Aznar, que havia apoiado os EUA na tomada ao país do Oriente Médio. 

Os alvos dos Parlapatões são públicos ou privados, mas não podem ser revelados. Exceção à estátua de Borba Gato, em Santo Amaro (zona sul), incluída no roteiro para fazer blague da eleição do Cristo Redentor como uma das sete novas maravilhas do mundo.



O pior de São Paulo
Onde: saída do Espaço dos Parlapatões (pça. Franklin Roosevelt, 158, tel. 3258-4449) 
Quando: estréia amanhã; sáb., às 16h e às 22h30; e dom., às 16h; até 22/7 
Quanto: grátis (retirar senha uma hora antes de cada sessão) 

Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 09 de julho de 2007

TEATRO 

Mostra no interior paulista começa nesta noite com 18 grupos nacionais e 8 estrangeiros, incluindo a companhia francesa 111 e o coletivo holandês Dakar
 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O conceito de impermanência, que está na natureza cíclica do universo, do pensamento filosófico, da prática espiritual e da criação em artes cênicas, para citar algumas veredas, ocupa o centro da arena no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (a cerca de 450 km de São Paulo). O evento começa hoje e dura 13 dias.

Sua sétima edição internacional (nasceu em 1969 em âmbito amador e depois universitário) prioriza os grupos de pesquisa, ou os laboratórios, como são conhecidos na Europa os núcleos voltados à experimentação cênica e dramatúrgica.

Maioria acostumada à impermanência do ponto de vista das condições de trabalho, 18 coletivos brasileiros de palco, rua e espaços não-convencionais cruzam com oito companhias estrangeiras estáveis graças às políticas públicas de seus países.

Segundo o co-diretor-geral do FIT Rio Preto, Jorge Vermelho, independentemente das origens, todas as atrações perseveram na investigação e nos riscos criativos.

Metade dos participantes internacionais vem da França, tradicional na subvenção à cultura. Entre as companhias, estão a Transe Express, que passou pelo paulistano vale do Anhangabaú com “Mobile Homme” e protagoniza a abertura desta noite, ao ar livre, na represa, e a cia. 111 & Phil Soltanoff, com “Plan B”, segunda parte de trilogia sobre a busca de uma escrita poética para a cena: malabarismo, acrobacia, música etc.

Um projeto da Holanda, “Braakland”, com a cia. Dakar, e outro da Argentina, “Audiotur Ficcional”, com a BiNeural-Monokultur, chamam a atenção pelas propostas. No primeiro, inspirado em conto do sul-africano J.M. Coetzee, o público é transportado de ônibus até local desconhecido, possivelmente um terreno no qual seja possível enxergar os artistas ao ermo, num horizonte próximo.

Já o projeto argentino faz uma intervenção urbana na qual o espectador deve redescobrir lugares da cidade por meio de narrativa em áudio, gravação que o guiará a outras realidades.

Espectros da tragédia também rondam o festival. Há duas variantes do mito de Medéia. A espanhola cia. Atalaya traz “Medea – La Extranjera” (2004), em que a protagonista de Eurípides, Sêneca e Heiner Müller é quadruplicada em atrizes conforme os elementos da natureza: terra, fogo, água e vento. O subtítulo refletiria a condição do sujeito contemporâneo que parte em busca do “bezerro de ouro” em terras estrangeiras e sofre barbaridades na civilização.

Soma-se a essa releitura a “Medeamaterial” (2001), de Müller, pelo pedagogo e encenador russo Anatoli Vassiliev. Ele encerrará o festival, no dia 21/7, com a exibição em vídeo do solo da francesa Valérie Dreville, seguida de conferência.

O FIT Rio Preto é uma realização da prefeitura e do Sesc SP. Algumas atrações estarão em São Paulo. O “Hamlet” do grupo Teatro del Contrajuego (Venezuela) faz sessões nos dias 14 e 15/7 no Sesc Anchieta (sáb., às 20h, e dom., às 18h30, R$ 20). Vassiliev fala no Sesc Consolação dia 17/7 (às 19h30, entrada franca). “Medea – La Extranjera” tem apresentações de 19 a 22/7 no teatro São Pedro (qui. a sáb., às 20h30, e dom., às 17h, R$ 10). 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 07 de julho de 2007

TEATRO 
“Salmo 91” é adaptação do livro “Estação Carandiru”

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Chegou a vez do teatro dar sua versão para as experiências de Drauzio Varella como médico voluntário na Casa de Detenção de São Paulo, relatadas no livro “Estação Carandiru”. Depois do cinema e da televisão, Gabriel Villela dirige a adaptação do jornalista Dib Carneiro Neto, “Salmo 91”, que estréia hoje no Sesc Santana. 

Na peça, Varella, colunista da Folha, não aparece. Nem como narrador. A adaptação opta em dar voz a dez personagens reais com os quais o autor conviveu. A dramaturgia surge na forma de dez monólogos em tom confessional, com falas dirigidas à platéia, da boca de cena, sem que os presos se cruzem. 

A intercalação cabe ao único sobrevivente desse time, Dadá (interpretado por Pascoal da Conceição). No dia 2 de outubro de 1992, em que oficialmente 111 presos foram mortos pela polícia, Dadá desobedeceu ao pedido da mãe para que lesse o referido salmo. Só o fez depois do massacre: “Mil cairão à sua direita, e dez mil à sua esquerda, mas a ti nada acontecerá, nada te atingirá”. 

Encenador marcado pela estética barroca, herança do berço mineiro que o leva a preencher a cena com minúcias, Gabriel Villela, 48, diz deparar aqui com o desafio do realismo. “Tenho enorme dificuldade em lidar com a subtração”, diz. 

Pelo ensaio a que a Folha assistiu, o vazio é evidente na grande área do gol que demarca todo o palco, tal qual campo de futebol. Nas laterais, painéis evocam o inferno de Dante Alilghieri em “A Divina Comédia”. A tragédia do Carandiru teria sua origem numa final interna de campeonato que terminou em briga de facções. 

Villela diz conceber sua montagem com um dos princípios da tragédia grega: “A palavra é mais importante que a ação, como vemos por exemplo em “Prometeu Acorrentado”, de Ésquilo”, afirma. 

“Salmo 91” promove reencontro de Villela com o ator Rodolfo Vaz, do Galpão, 14 anos depois de “A Rua da Amargura”.



Salmo 91
Quando: estréia hoje, às 21h; sex. e sáb., às 21h; e dom., às 19h 
Onde: Sesc Santana – teatro (av. Luiz Dumont Villares, 579, tel. 6971-8700) 
Quanto: R$ 8 a R$ 20 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 05 de julho de 2007

TEATRO 

Com direção de Marcio Aurélio, “A Metafísica do Amor” estréia amanhã em SP
 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

Há cinco anos, no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (SP), o encenador Marcio Aurélio e o ator Paulo Marcello, ambos do premiado “Agreste”, co-fundadores da Cia. Razões Inversas (1990), apresentaram uma performance baseada em idéias do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860). 

Agora, a experiência ganha corpo como espetáculo, somando-se a presença da atriz e bailarina Marilena Ansaldi em “A Metafísica do Amor”, a partir de amanhã, no teatro Sérgio Cardoso. Além da referência do título à obra do autor de “Metafísica do Amor, Metafísica da Morte”, que, entre outras questões, versa sobre instinto e sobrevivência, a montagem promove cruzamento com as provocações existenciais do francês Gustave Flaubert (1821-1880) em “As Tentações de Santo Antão”. 

“Apesar da visão romântica, as teorias de Schopenhauer são propícias à reflexão do caráter do homem contemporâneo, suas relações com a natureza, sua sexualidade, o amor, a morte”, diz Aurélio, 57. Flaubert serve como complemento para ler a sociedade atual. “Gosto do aspecto mítico de Santo Antão, personagem que viveu entre os séculos 3 e 4. 

É figura emblemática do cristianismo, se diferencia dos demais santos porque não tem uma busca muito firme de propósitos. Seu isolamento leva à autoreflexão sobre a existência”, diz Aurélio. “Flaubert escreveu o livro no momento em que a burguesia estava envolta no romantismo, mas também posicionava-se com atitudes.” A dramaturgia costurada em equipe por Aurélio é densa, não há propriamente um fio condutor. Em cena, um homem, em conflito, se alucina com o desejo reprimido. Em determinada passagem, surge o contraponto feminino com Ansaldi, que cria movimentos ao som de Vivaldi. 

Aurélio a dirigiu em “Hamletmachine” (1987) e “Desassossego” (2005). O desejo do espetáculo, diz o encenador, é pensar justaposições e reorganizações em tempos pós-modernos em que misturas e retaliações levam a novas identidades. No sábado, Marcio Aurélio embarca para a Espanha, onde dirige, de 13 a 15/7, a cantora portuguesa Maria João Pires no concerto “Schubertiade”, com participação de artistas internacionais, entre eles os brasileiros André Mehmari e Jussara Silveira. 



A metafísica do Amor
Quando: estréia amanhã, às 21h30; sex., às 21h30, sáb., às 22h e dom., às 20h; até 26/8 
Onde: teatro Sérgio Cardoso -sala Paschoal Carlos Magno (r. Rui Barbosa, 153, tel. 0/xx/11/3288-0136) 
Quanto: R$ 20

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 04 de julho de 2007

TEATRO 

Após admitir erros em edital de fomento ao teatro, secretário propõe desburocratizar prestação de contas
 

VALMIR SANTOS

Da Reportagem Local

No início da polêmica sobre alterações publicadas no 11º edital da Lei de Fomento, em maio, o secretário municipal Carlos Augusto Calil (Cultura) suspeitava de que artistas e produtores de teatro de São Paulo tentavam “politizar” o debate, pelo “tom agressivo” com que foi abordado em cartas e manifestações públicas.

Dias depois, Calil elogiou justamente a “reunião política de alto nível” que, em sua opinião, restabeleceu o diálogo na sexta passada. Entre os interlocutores que recebeu em seu gabinete, estavam os diretores José Renato, fundador do Teatro de Arena; César Vieira, do Teatro União e Olho Vivo; e representantes da Câmara Municipal e da Assembléia Legislativa.

Conclusão: Calil admitiu “erros por excesso de zelo” de sua equipe, erros técnicos em conflito com o já estabelecido em lei (como o número de indicados à comissão). Corrigiu-os e republicou o edital, prorrogando as inscrições para até 23/7.

E os artistas, representados sobretudo pela Cooperativa Paulista de Teatro, reativaram a capacidade de articulação que está na origem do Programa Municipal de Fomento em São Paulo, em vigor há cinco anos: o movimento Arte contra a Barbárie, união de grupos que, a partir do fim dos anos 90, gera documento paradigmático das políticas públicas para o setor.

Na sexta, sobrou até para um carregador de cocos, “contratado” por artistas para transportar em seu carrinho, da praça D. José Gaspar, sede da cooperativa, à Galeria Olido, base da secretaria da Cultura, os 59 projetos de grupos inscritos no edital. “A cordialidade, como disse o secretário, voltou à mesa”, diz Ney Piacentini (Cia. do Latão), presidente da cooperativa.

Mas restam arestas quanto à prestação de contas. Piacentini diz que os grupos não se negam a fazê-la, pois “defendem a transparência e o acompanhamento da secretaria desde o começo”. O problema seriam “procedimentos burocráticos”.

Em correspondência enviada a César Vieira, Calil reconhece a queixa e propõe transformar as três etapas previstas de prestação de contas em uma só, a ser realizada “até 60 dias do término do projeto”. A cooperativa estuda a sugestão.

Em dois editais por semestre, o fomento reparte cerca de 9 milhões aos núcleos de pesquisa -foram 30 em 2006. Segundo Piacentini, o programa atingiria hoje cerca de 10% da população de São Paulo (ou 1,5 milhão de pessoas), entre espectadores e trabalhadores.

A cooperativa deve publicar neste ano um livro com balanço dos cinco anos da lei pelos pesquisadores Iná Camargo Costa e Dorberto Carvalho. 

Folha de S.Paulo

São Paulo, domingo, 01 de julho de 2007

TEATRO 
Cia. Anjos Pornográficos estréia adaptação de poema

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

“Sem o relógio, tudo é mais afastado e misterioso”, diz uma das três veladoras da donzela morta em “O Marinheiro” (1913), poema dramático de Fernando Pessoa (1888-1935) -ou “drama estático”, como preferia-, em rara incursão pelo teatro. 

A peça tem seu título multiplicado como os heterônimos do escritor português em “Os Marinheiros”, montagem da Cia. Anjos Pornográficos que entra em cartaz hoje no Instituto Cultural Capobianco. Dirigido por Miguel Hernandez, 38, o espetáculo faz parte da Mostra Estadual de Teatro – Prêmio Desabrochar, com curadoria de Ricardo Muniz Fernandes. 

Na concepção dramatúrgica, também por Hernandez, Pessoa é convertido no morto (ou “quase morto”) velado por três mulheres. O marinheiro em questão é personagem da história narrada por uma das moças naquela noite. O enredo dela, de forte carga simbólica, fala de um homem que naufraga numa ilha e se safa, anos a fio, por meio da imaginação, a ponto de confundi-la com a realidade. 

“Situamos a ação dentro da cabeça de Fernando Pessoa em seu último dia de vida, quando internado com problemas hepáticos. Em meio a distúrbios e delírios que sofreu, ele relembra as veladoras do texto que criou na juventude”, diz Hernandez. 

O diretor co-fundou a companhia em 2000, na cidade portuguesa do Porto, onde três anos depois dirigiu sua primeira versão da obra. O núcleo paulista é de 2005. No elenco, estão Danielle Farnezi, Natália Corrêa e Virginia Buckowski. 

A mostra estadual segue até setembro, com mais duas montagens: “Ay, Carmela!”, de José Sanchis Sinisterra (4 a 26/8), e “Clarices”, com textos de Clarice Lispector (1º a 23/9). 



Os marinheiros
Onde: Instituto Cultural Capobianco -teatro da Memória (r. Álvaro de Carvalho, 97, centro, tel. 3237-1187) 
Quando: estréia hoje, às 18h; sáb., às 20h, e dom., às 18h. Até 29/7 
Quanto: R$ 20 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 30 de junho de 2007

TEATRO 

Companhia encena “Se Eu Fosse Eu…”, inspirada no livro “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”
 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Se a obra de Clarice Lispector (1925-77) manifesta-se ao leitor como extensão da vida, então é desejável que o teatro que a visite também firme esse elo. 

“O termo presença cênica não corresponde somente ao palco, mas à vida de quem cria e de quem recebe o espetáculo”, afirma o diretor Antônio Januzelli, 66, o Janô, que assina o espetáculo “Se Eu Fosse Eu…”. 

O trabalho da Companhia Simples teve curta temporada em São Paulo, um ano atrás, e volta hoje no Núcleo Experimental de Teatro (N.Ex.T). 

Os sentidos da aprendizagem perpassam ator, espectador e escritora. A inspiração para a montagem vem justamente do romance “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” (1969). 

Trata dos conflitos íntimos da protagonista, Lóri, para alcançar Ulisses e se deixar levar pelo sentimento amoroso. 

A iniciativa é do quarteto de atores que passou pelo Laboratório Dramático do Ator, na USP, sob coordenação de Janô. “No início, o Janô supervisionava o trabalho. Na nova temporada, ele assume a direção de vez, traz delicadeza e profundidade através de seu olhar sutil para a prática do ator”, diz a atriz Flavia Melman, 28. 

Segundo ela, o espetáculo tenta se esquivar da cortina existencial que às vezes é colocada automaticamente sobre a autora e obscurece os sentidos (de novo) da razão e da emoção. “Depois da primeira temporada, no Tusp, a gente se apresentou para públicos diversos, como adolescentes. 

Eles mergulham de outra forma, escolhem outras linhas de aproximação com o espetáculo, como as movimentações energéticas do corpo em cena”, diz Melman. A intérprete compartilha o palco com Daniela Duarte, Luciana Paes de Barros e Otávio Dantas. 

A Companhia Simples vem à luz em 2003 e logo elege Clarice como moto-contínuo de pesquisa alimentada por improvisação e expressão corporal. “Se Eu Fosse Eu…”, o primeiro espetáculo, é embrionário do experimento “Porque o Ar em Movimento É Brisa” (2005), apresentado no Sesc Pompéia.



Se eu fosse eu…
Onde: N.Ex.T (r. Rego Freitas, 454, Vila Buarque, tel. 0/xx/11/3106-9636) 
Quando: reestréia hoje, às 20h; sáb. e dom., às 20h; até 15/9 
Quanto: R$ 20