Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.
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1.11.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 01 de novembro de 2006
TEATRO
Zé Celso chama o presidente reeleito para assistir à devoração do bispo Sardinha por índios caetés
Grupo reapresenta o ciclo completo do projeto “Os Sertões”, baseado na obra do autor Euclydes da Cunha sobre a Guerra de Canudos
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O grupo de teatro Oficina Uzyna Uzona reapresenta o ciclo completo de “Os Sertões” em duas últimas semanas, esta e a próxima.
Em meio a datas cívicas, como a Proclamação da República (15/11) e o Dia da Bandeira (19/11), a expectativa do grupo dirigido por José Celso Martinez Corrêa é que o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva crave sua primeira ida ao teatro no exercício do cargo.
“Queria muito que depois de re-vitorioso, Lula viesse assistir a um dos espetáculos de “Os Sertões”, principalmente “O Homem Parte 1 – do Pré-Homem à Re-Volta'”, escreveu Zé Celso, 69, em carta encaminhada na semana passada ao presidente, pelo senador Eduardo Suplicy (PT), antes do segundo turno. “Assim, poderia 1) não somente sentir o trabalho que fazemos, totalmente em direção a um Teatro Popular Brazyleiro à altura do país do futebol e do carnaval, 2) como ver incorporada ao teatro a cena fundadora do nosso teatro: a devoração do bispo Sardinha pelos Índios Caetés.”
Banquete antropofágico
Caetés é o nome da cidade onde Lula nasceu há 61 anos, no interior de Pernambuco, então distrito de Garanhuns. Como o “banquete antropofágico” evocado pelo escritor modernista Oswald de Andrade, Zé Celso gostaria de fazer a ponte com “o primeiro presidente brasileiro antropófago”, aludindo aos índios caetés que comeram o primeiro bispo do Brasil em 1556, dom Pedro Fernandes de Sardinha, após naufrágio com sua tripulação no litoral de Alagoas.
Com patrocínio estatal (Petrobras), a maratona com as cinco peças transpõe para o teatro o clássico de Euclydes da Cunha, obra fundadora das grandes interpretações históricas do Brasil.
Em tônica musical, “ópera monumental”, é concebido um épico sobre a Guerra de Canudos (1896-97) em que seguidores do beato Antônio Conselheiro se opuseram à República naquele arraial do sertão baiano. No conflito, que envolveu quatro expedições do Exército, as três primeiras derrotadas, morreram cerca de 20 mil sertanejos e 5.000 soldados.
Em seis anos do projeto “Os Sertões”, envolvendo de 60 a cem pessoas por produção, o diretor diz que o Oficina evoluiu por meio de “uma espécie de formação universitária; hoje a gente sabe cantar, dançar, tocar e falar muito melhor”.
Na lida com a obra literária, tanto os artistas como o público teriam deixado de ver o catatau como um bicho-papão. “Com “Os Sertões”, recuperamos a busca pelo significado da palavra, a sua etimologia, coisa que havíamos perdido. Numa sociedade cada vez mais despolitizada, foi gostoso mergulhar na perspectiva histórica do livro, nos estudos da geologia, das artes militares, da geografia, da biologia, da botânica, dos minerais etc”, afirma Zé Celso.
Para o diretor, Euclydes trouxe ao coletivo “um salto enorme em termos de consciência do poder do teatro”, assim como Oswald de Andrade (com a montagem de “O Rei da Vela”, em 1967) e Shakespeare (“Ham-Let”, 1993) ajudaram a demarcar viradas importantes na trajetória do Oficina, que completa 50 anos em 2008.
“O livro nos deu forças também para enfrentar a possibilidade do massacre”, diz Zé Celso, referindo-se à anunciada construção de um shopping pelo Grupo
Silvio Santos no terreno em volta do edifício teatral tombado.
“O teatro dá a percepção da afetividade como categoria política, filosófica estética”, diz Zé Celso, para quem “o impulso da transformação social” vincula-se a “uma revolução cultural”.
Na seqüência, com sessões apenas aos sábados e domingos, até dezembro, o grupo gravará os espetáculos em DVD.
1.11.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 01 de novembro de 2006
TEATRO
Peça do americano Israel Horovitz, dirigida por Fernando Kinas, expõe cenas de nonsense numa fila
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
“É aqui a fila?” A primeira fala da peça “Linha” pode induzir o espectador de São Paulo à identificação. Afinal, estamos na cidade em que, como se diz, para tudo há que entrar numa fila. Tratando-se de um espetáculo dirigido por Fernando Kinas, porém, a identificação pode até ser sustentada, mas o será por meio de estranhamentos, de “incômodos”, como prefere o diretor. “Linha”, que estréia hoje no N.Ex.T., em São Paulo, foi escrita há quase 40 anos pelo judeu norte-americano Israel Horovitz (1939), pai de um dos integrantes da banda Beastie Boys. Está em cartaz desde 1974 no circuito off-off da Broadway. Kinas assistiu a uma montagem em 1997, em Lisboa. Desde então, o diretor cozinhava a criação de um espetáculo com o seu núcleo de pesquisa, a Kiwi Companhia de Teatro, surgida em Curitiba há dez anos e radicada em SP. Quatro homens e uma mulher disputam entre si para ver quem vai ser o primeiro da fila. Não fica claro a que se destinam. À chegada de cada um, do sujeito que madruga ao que traz seu banquinho, surgem situações de nonsense. Kinas, 40, fala da proximidade de Horovitz nos anos 1960 com autores como Beckett e Ionesco. Chama sua atenção a circularidade das cenas, as possibilidades de desconstrução dos personagens e de uso da metalinguagem, o teatro dentro do teatro. Por exemplo: os nomes dos personagens carregam os prenomes dos respectivos intérpretes. Assim, Stephen César é representado pelo ator César Guirao. Completam o elenco Chiris Gomes, Lori Santos, Paulo Alves e Sérgio Pardal.
Provocação
Com margem para o improviso, eles exploram os limites espaciais impostos por uma linha branca no chão, acotovelamentos que chegam às raias das violências física e verbal, da dissimulação. “Nós não estamos montando [convencionalmente] a peça do Horovitz, mas partindo de uma provocação, de uma idéia contida no texto: a da competição a qualquer custo”, diz Kinas. Co-traduzido por ele e pelo assistente Fabio Salvatti, o texto vindo à luz nos EUA de 1967 soa premonitório ao pisar terrenos espinhosos das sociedades globalizadas, como enumera o diretor: “A publicidade, o mercado, o cinismo, a mediocridade classe média, a ambição de ser o melhor e de se dar bem, a falta de solidariedade e de companheirismo, o isolamento induzido pelo individualismo”.
30.10.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, segunda-feira, 30 de outubro de 2006
TEATRO
Aos 83 anos, Cleyde Yáconis protagoniza a primeira montagem brasileira de “A Louca de Chaillot”, do autor francês Jean Giraudoux
VALMIR SANTOS
Da reportagem Local
“Eu, Cleyde Yáconis, sou meio metida a besta, auto-suficiente, [alguém que] não quer ajuda, o sangue calabrês, entende? Como mulher, sou tímida no sentido feminino, não gosto de renda, de babadinhos. No teatro, sempre me deram papéis fortes, violentos, enérgicos, por causa da minha voz, do meu tipo físico. A feminilidade tem sido um treino maravilhoso, que deveria ter ocorrido aos 30, mas só o faço agora, aos 83. Tudo bem, nunca é tarde.”
Pouquíssimos artistas do país dariam depoimento tão desarmado como a dona do vozeirão acima, protagonista de “A Louca de Chaillot”, peça escrita pelo francês Jean Giraudoux entre 1942 e 43, pouco antes de sua morte sob ocupação alemã na 2ª Guerra Mundial.
“Ao passar por uma experiência teatral nova, ganho como gente”, continua a atriz, minutos depois do ensaio de sexta-feira passada, como que ainda colada a Aurora, a personagem que a conduz por novos sentidos. Aurora é a protagonista da fábula contemporânea sobre cobiça; variações de bezerros de ouro como o petróleo que um grupo de especuladores intenta prospectar em pleno bairro parisiense de Chaillot, para desespero da garçonete, do catador de papel, do cantor, das loucas cativas, enfim, da gente que dá vida ao lugar.
Mas a peça vai além das questões políticas e sociais e alcança o território do afeto. Giraudoux permite-se mergulhar no onirismo; seus personagens interpõem fantasia e realidade na escavação de poéticas de existência. Por isso, o entusiasmo de Yáconis com o tempo da delicadeza que descortina com Aurora, sonhadora que põe os pés no chão ao mobilizar todos contra os especuladores, mas persevera sonhadora, à sombra do namorado que partiu.
Aurora é frágil e ao mesmo tempo é um aço, na metáfora lançada pela atriz e que lhe retorna feito bumerangue. “Ela tem essa dualidade, uma valentia, uma força de integridade muito grande”, diz Yáconis.
Trajetórias densas
“Tenho muita sorte no teatro.” Os quatro últimos papéis interpretados por ela foram de mulheres na casa dos 60, 70 anos. Em comum, mulheres de trajetórias densas, verdadeiros périplos. Karen Blixen, a canadense que inspira “As Filhas de Lúcifer” (1993), de William Luce; e duas mães sucessivas, a Mary Tyrone de “Longa Jornada de um Dia Noite Adentro” (2003), de Eugene O’Neill; e a professora francesa (simplesmente Mãe) de “Cinema Éden” (2005), de Marguerite Duras.
“Tenho de agradecer a Deus por estar com a minha cabeça boa [para memorizar os textos]”, diz, beijando três vezes os dedos da mão direita antes de levá-los à testa, benzendo-se. Os “bifes”, falas prolongadas, são recorrentes agora como eram nos espetáculos recentes.
Para a atriz, o verbo é também uma crença. “Se a palavra é o nosso meio de comunicação, ela está sendo desprezada. O ser humano não conversa mais, a nossa língua está sendo massacrada. Se é para ser antiga e careta, então eu sou; gosto da palavra, gosto de falar certo. Quando fiz “Longa Jornada…”, colegas me cumprimentaram dizendo que era “teatrão, mas era maravilhoso”, como se fosse uma pecha, um defeito.”
A atriz alimenta percepção aguda da realidade do mundo que a cerca desde a infância pobre, em Pirassununga, quando acompanhava a mãe e a irmã, Cacilda Becker (1921-69), nas mudanças constantes de casa pelo interior paulista, a transformar sobreviver em viver.
Yáconis entrou no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) no primeiro ano de atividade, 1948. Respondia pelo guarda-roupa. Até substituir Nydia Licia de supetão em “O Anjo de Pedra”, do americano Tennessee Williams, que Luciano Salce dirigiu em 1950. E nunca mais abandonou o palco.
Diante das câmeras, entra na penúltima semana de gravações de “Cidadão Brasileiro” (Record) e estuda nova proposta para o cinema. Ontem, dia de eleição, passaria o dia no sítio em Jordanésia (SP). “Não vou votar porque estou muito cansada, me dou o direto, na minha idade, de não ir para a fila. Ganho mais uma hora de repouso em casa, porque tenho a fazer algo tão importante que vale taco a taco. Não sei se é vaidade, mas acho que faço nesse espetáculo a minha função social.”
28.10.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 28 de outubro de 2006
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Mudanças na percepção do corpo ao longo da história, contextos político e social, e sua emersão nas artes cênicas compõem a base da conferência que o pesquisador polonês Michal Kobialka, professor da universidade de Minnesota (EUA), realiza hoje em São Paulo.
Na terceira visita ao Brasil, Kobialka fala sobre “Delirium da Carne: Arte e Biopolítica no Espaço do Agora”. O encontro gratuito acontece hoje no teatro Fábrica São Paulo.
“Como [o pensador francês Michel] Foucault [1926-1984] exprime em “História da Sexualidade”, a modernidade biológica é o local onde a vida natural começa a ser incluída nos mecanismos e cálculos do poder do Estado; assim, a política gira em torno de biopolíticas. O Estado territorial transforma-se em Estado da população onde a saúde da nação e a vida biológica são vistas como um problema de poder soberano”, escreve Kobialka, 49, em entrevista por e-mail.
Como exemplo de ponto de partida, pode-se traçar uma linha de tempo que vá do séc. 17, quando alguns paradigmas cartesianos começam a cair, até este séc. 21, em que o domínio do medo aumenta pós-2001.
“Na cultura Ocidental, os deslocamentos e transformações na percepção do corpo estão conectados ao arranjo e rearranjo dos elementos que constituem o conhecimento sobre ele. Trata-se de uma atenção ao corpo que é construído racional e discursivamente de modo que possa ser incluído nos mecanismos e nos cálculos do poder do Estado ou da Igreja”, afirma Kobialka.
“O corpo é, primeiro e fundamentalmente, um objeto histórico e político, que se torna visível no espaço da representação [dança, teatro] definido por aquilo que pode ser compreendido sobre ele, por quem o está olhando ou como e onde ele pode ser visto.”
O professor destaca algumas etapas importantes no processo histórico, como a cultura da dissecação anatômica na Renascença (séculos 14 a 16), que marca um deslocamento logocêntrico para investigações corporais. Passa pela aporia (dúvida racional) no campo de concentração de Auschwitz (Polônia), transformado, em pleno séc. 20, em local que rasgou abertamente o pensamento Iluminista (séc. 18).
Há ainda “as deliberações pós-modernas no corpo -gênero, etnicidade, raça, globalização, o virtual etc.-, que nos fazem pensar sobre “a sociedade do espetáculo” e de seu simulacro sobredeterminado por estruturas sociais, econômicas, intenções progressivas, identidades políticas, psicanálise, feminismo etc.” O encontro com Kobialka é uma realização do Núcleo 1 da Cia. de Teatro Fábrica São Paulo, sob curadoria de Márcia de Barros. O projeto é apoiado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.
25.10.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 25 de outubro de 2006
TEATRO
Portuguesa Graça dos Santos participa de seminário na ECA-USP sobre teatro
Especialista no assunto, Santos faz parte de ciclo de debates que também lembra autores brasileiros como Guarnieri e Rangel
VALMIR SANTOS
Da Reportagem local
A rigor, não existe sociedade que tenha abolido a censura. Ela é mais óbvia em regimes totalitários e dissimulada sob democracias, quando o sufoco à liberdade de expressão tem a ver, por exemplo, com pretextos econômicos.
“Todo artista que quer fazer sua arte apela à autocensura em algum momento. Se for encenador, procura por uma produção rentável. O próprio Estado vai subsidiar determinadas peças em detrimento de outras”, afirma a professora do departamento de português da Universidade de Paris 10 (Nanterre), Graça dos Santos, que assina o parágrafo anterior.
Santos chegou a São Paulo nesta semana e fica até início de novembro para ministrar curso de difusão na USP: “Expressão e Interdição: Teatro e Censura em Portugal – Entre Sombra e Luz, um País de Paradoxos”.
A atividade integra o seminário internacional “A Censura em Cena: Interdição e Produção Artístico-Cultural”, que acontece de hoje a sexta-feira na ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo). No curso, Santos fala das marcas que a censura imprime no teatro de Portugal, onde ela nasceu. São mais de quatro séculos de intervenções, a começar pelo período da Inquisição católica (1536-1820).
A censura recrudesceu entre 1932 e 1968, sob o regime salazarista (referência ao ditador António de Oliveira Salazar, 1889-1970). “Aí, pura e simplesmente foram retomados os velhos hábitos da censura inquisitorial”, diz Santos, há 40 anos radicada na França.
A abertura do seminário “A Censura em Cena” rende homenagem a nomes brasileiros ligados à resistência contra a censura: o diretor Flávio Rangel (1934-1988), o ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006) e o crítico e tradutor Miroel Silveira (1914-88). A escritora Renata Pallottini fará uma conferência.
Foi o próprio santista Silveira quem, em 1985, último ano da ditadura militar, resgatou do prédio da Secretaria da Segurança Pública de SP, no centro, onde funcionava o Departamento de Diversões Públicas, os cadernos de capa dura com processos de 1927 a 1968, quando o regime federalizou os mecanismos de controle.
Amanhã e sexta, participam de encontros abertos ao público pesquisadores como Adriana Florent (Universidade de Paris 8), Isabel da Cunha (Universidade de Coimbra) e Boris Kossoy (USP); e personalidades do teatro, como a historiadora Maria Thereza Vargas e os diretores César Vieira (Teatro União e Olho Vivo) e Sérgio de Carvalho (Cia. do Latão).
Estão previstos ainda lançamentos de dois livros, apoiados pela Fapesp, no MAC (Museu de Arte Contemporânea), às 18h de amanhã. O primeiro é “A Censura em Cena: Teatro e Censura no Brasil” (ed. Edusp/Imprensa Oficial, 296 págs., R$ 80), de Maria Cristina Castilho Costa. Traz os primeiros resultados do estudo científico, sociológico e histórico do Arquivo Miroel Silveira, composto por mais de 6.000 processos de censura teatral.
O segundo livro é “Censura e Comunicação: O Circo-Teatro na Produção Cultural Paulista de 1930 a 1970” (ed. Terceira Margem, 244 págs., R$ 30), com textos de vários autores e organização de Maria Cristina Castilho Costa.
A obra expõe como o híbrido palco-picadeiro representou um apoio indispensável ao desenvolvimento da dramaturgia e da encenação nas primeiras décadas do século passado.
19.10.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 19 de outubro de 2006
TEATRO
Autora alemã de “A Vida na Praça Roosevelt” fala de solidão e niilismo em “Inocência”, montagem da companhia Os Satyros
Nova peça mostra ciranda de culpas, desprezos e falta de compaixão; para Dea Loher, “teatro sem questões sociais não faz sentido”
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Nascida no país de Bertolt Brecht, a dramaturga alemã Dea Loher, 42, passou anos esquivando-se do “teatro político”. “No início [final dos anos 1980], achava um pleonasmo.
Todo teatro é político, ainda que o termo soe hoje desgastado e que provavelmente eu não o entenda como Brecht”, diz a autora de “A Vida na Praça Roosevelt”.
Em boa parte das 13 peças de Loher, o teatro político ganha corpo por causa do desencanto dos personagens consigo mesmos, com o outro e com a sociedade, não necessariamente nesta ordem. “Se o teatro não tratar de questões sociais, ele não tem sentido”, afirma.
Isso fica explícito em “Inocência”, a segunda visita da Cia. de Teatro Os Satyros à autora, também tradução e encenação de Rodolfo García Vázquez (Prêmio Shell 2005 de melhor diretor por “A Vida na Praça Roosevelt”). A montagem estréia hoje no Espaço dos Satyros Um, em São Paulo. A peça é uma ciranda de culpas, desprezos e falta de compaixão entre homens e mulheres, parentes, amigos ou amantes. São histórias que transcorrem paralelas cena a cena.
Entre as formas de expiação, há a dos imigrantes em situação ilegal, Fadul e Elísio, em penitência por não salvar uma mulher que morre afogada. Temiam a deportação.
Há a Senhora Zucker, que vê na opressão um modo de tangenciar seu amor pela filha, paradoxo sintetizado numa espécie de bordão: “Se trabalhasse num posto de gasolina, só precisava de um cigarro para fazer tudo voar pelos ares. Penso nisso às vezes. Mas nem tenho gás em casa”, diz, entre pausas.
Há ainda os casos da jovem cega que dança numa boate, do rapaz que prepara os mortos, da filósofa em crise, do pai da filha assassinada, das suicidas -e por aí vão os quadros de angústia, baixa auto-estima, vazio ideológico, niilismo.
“O que teria sido a vida se, num certo momento, eu tivesse tomado outra decisão?”, eis a questão-chave de “Inocência”. “A expressão da dor [que perpassa a peça] tem a ver com a busca do sentido da vida. Como poderia fazer melhor? Cada ação implica uma reação, um efeito físico ou espiritual sobre si e o outro”, diz Loher, formada em literatura e filosofia.
Defendido por 13 atores, o texto traz diálogos em que os próprios personagens, às vezes, assumem a voz de narrador; às vezes, parecem fundir prosa e verso, extrato poético em meio à contundência da crítica social. Loher se diz adepta da estrutura de linguagem a menos ordinária possível. “Não tenho uma imaginação muito visual dos textos. Nunca poderia montar uma peça minha ou de outro autor. Mas tenho uma forte imaginação para o som da língua, a atmosfera a se criar.”
Em outra peça sua em cartaz na cidade, “Cachorro” (2003), dirigida por Roberto Lage, os protagonistas também são seres à margem, um ladrão e uma prostituta. A inspiração é uma homenagem ao escultor suíço Giacometti, morto há 40 anos, com atalhos para a dramaturgia do francês Genet. Palavras, pois, malditas e benditas.
Cachorro
Onde: Instituto Cultural Capobianco -sala Subterrâneo (r. Álvaro de Carvalho, 97, tel. 3237-1187)
Quando: sex. e sáb., às 21h; dom., às 19h; até dezembro
Quanto: R$ 20
19.10.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, terça-feira, 19 de setembro de 2006
TEATRO
Companhia exibe fusão de teatro, dança e circo de hoje até o fim do mês na 2ª Mostra de Repertórios Contemporâneos
“Cidade dos Sonhos”, o infantil “Os Artistas” e a aula-espetáculo “O Físico e o Simbólico” serão encenados no Centro Cultural São Paulo
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Prestes a completar 14 anos, em outubro, a Companhia Cênica Nau de Ícaros, conhecida pela fusão de teatro, dança e circo, ocupa sua vez na 2ª Mostra de Repertórios Contemporâneos, no CCSP (Centro Cultural São Paulo).
De hoje ao final do mês, serão apresentadas duas peças recentes do repertório, “Cidade dos Sonhos” (2003) e o infantil “Os Artistas” (2002). Também é possível acompanhar, em forma da aula-espetáculo, “De Um Espaço Vazio: o Físico e o Simbólico”, o processo da criação do novo trabalho do grupo.
Segundo Marco Vettore, ator e diretor da Nau de Ícaros, trata-se de estudo coreográfico sobre o corpo e o movimento das danças e manifestações populares brasileiras. A aula-espetáculo, que quer valorizar espaços sociais e históricos, tem apoio do Prêmio Estímulo de Dança da Secretaria de Estado da Cultura. “O Físico e o Simbólico” terá sessões às terças e quartas, às 21h.
Em paralelo, o grupo prevê outra meta até o primeiro semestre de 2007: realizar um espetáculo inspirado no universo literário do paraibano Ariano Suassuna, conforme projeto selecionado no programa municipal de fomento ao teatro.
De quinta a sábado, às 21h, e aos domingos, às 20h, será apresentado o espetáculo “Cidade dos Sonhos”, que Vettore define como uma “ópera bufa circense”. Com dramaturgia de Fabio Malavoglia e co-direção de Leopoldo Pacheco e Vettore, a história resgata o milenar mito de São Saruê, fabulosa terra da prosperidade e da abundância, onde não há dor, suor, velhice ou morte.
Aos sábados e domingos, às 16h, a Nau de Ícaros apresenta “Os Artistas”, de autoria de Paulo Rogério Lopes e direção de Vettore. Dois ajudantes de um suposto Grande Circo ocupam o espaço, montam picadeiro, preparam equipamentos etc. Na hora de iniciar o espetáculo, eles se dão conta de que falta “um pequeno detalhe”: e os artistas?
15.10.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, domingo, 15 de outubro de 2006
TEATRO
Intelectuais como Roberto Schwarz e José Antônio Pasta falam à Folha sobre peça da Cia. do Feijão
Montagem tem temporada prorrogada até dezembro; para pensadores, peça evidencia vivências de povo que “se vira como pode”
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
“O que resta é a memória da gente”, diz o taxista ao final de “Mire Veja” (2003), premiada adaptação teatral de contos de Luiz Ruffato pela Cia. do Feijão. Na nova peça do grupo, “Nonada”, cuja temporada é prorrogada até dezembro na recém-inaugurada sede da companhia no centro, a memória atinge dimensão coletiva e diz respeito à “alma brasileira”.
Pelo menos é dessa maneira que alguns pensadores lêem mais essa aliança “unha e carne” do teatro com a literatura, eixo dos oito anos de trabalho da Cia. do Feijão.
Pensadores como Iná Camargo Costa, José Antonio Pasta Jr., Paulo Arantes e Roberto Schwarz foram alguns dos interlocutores no processo e após a estréia, em julho.
Em espaço que lembra arena circense, “Nonada” conta a história de Natimorto (interpretado por Vera Lamy), espécie de palhaço triste em busca de suas origens. No calvário por identidade, cruzará outros personagens, entre eles seu antípoda, Sr. Leal (por Guto Togniazzolo), proprietário do circo. Para Iná Camargo Costa, a peça evidencia o conflito de classes. “É do confronto entre os dois, que atravessa todo o espetáculo, que se produz o ponto de vista da cena”, afirma a professora aposentada de teoria literária da USP.
Nesse “mundo dos mortos”, o dono do circo é figura colada ao narrador de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Mas são também outros contos do próprio Machado (como “Pai Contra Mãe”, inclusive visitado pela companhia em “Antigo 1850”, montagem de 2000), de Mário de Andrade (como “Túmulo, Túmulo, Túmulo”) e de Clarice Lispector (como “A Bela e a Fera”) -dramas pessoais ou familiares-, que sustentam a dramaturgia de Pedro Pires e Zernesto Pessoa, também co-diretores.
“Nos três autores, a questão da crise moral é apresentada sob o ponto de vista dos de cima, enquanto os criadores da Cia. do Feijão retomam isso totalmente sob o ângulo de Natimorto, que é o povo desprovido de direitos, que tem que se virar como pode”, afirma Schwarz, crítico e professor aposentado de teoria literária da Unicamp.
Segundo José Antonio Pasta Jr., resulta no espelho de um país que se constitui sem propriamente se formar, ou que se faz se desmanchando.
“O país que sempre se modernizou pela reposição do atraso, impedindo o acesso da maioria a uma vida cidadã, constituiu essa entidade chamada “povo brasileiro” ao mesmo tempo que a suprimia”, afirma Pasta Jr., professor de literatura brasileira na USP e espectador entusiasta de grupos como Teatro de Narradores, Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, Teatro da Vertigem e Cia. do Latão.
Literatura
A Cia. do Feijão foi formada em 1998. É conhecida por tomar a literatura como principal meio de conhecimento da história do Brasil. Ou, no dizer de Pires, citando Schwarz, a literatura como espelho de nossas “idéias fora do lugar”, do eterno descompasso de nossas “modernizações conservadoras”.
Parte da pesquisa que gerou “Nonada” foi subsidiada pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.
11.10.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 11 de outubro de 2006
TEATRO
Evaldo Mocarzel, que acaba de receber prêmio por “Do Luto À Luta”, é o diretor
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O espetáculo “BR-3”, do grupo Teatro da Vertigem, será materializado em película, para além da memória daqueles que o assistiram ao vivo.
“BR-3”, o filme, virá com assinatura de Evaldo Mocarzel. Na verdade, serão dois registros: um, “fidelíssimo” à montagem, e outro, documentário propriamente dito, decomposição do processo de cerca de três anos, incluindo expedição do grupo por Brasília e Acre.
Ocorreram apenas 50 apresentações em São Paulo, entre março e maio, num trecho do rio Tietê. A temporada foi interrompida por falta de recursos para uso de embarcações que conduzem público e elenco por leito, margens e pontes. Das cerca de 170 horas de gravação (boa parte delas captadas por nove câmaras), editou-se um clipe de dez minutos, em exibição até novembro na Mostra Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza.
O mesmo é projetado hoje na programação do 7º riocenacontemporânea, o festival internacional de artes cênicas do Rio. “O espetáculo fez uma intervenção urbana. O rio é o espelho da cidade, e São Paulo tem dificuldade em se ver nesse espelho narciso, comatoso e pútrido”, diz Mocarzel, 46, que está em busca de recursos para finalização do projeto.
“BR-3” obteve seis indicações ao Prêmio Shell 2006. Por enquanto, não há perspectiva de reestréia. O festival riocena estuda para 2007 apresentações da peça na baía de Guanabara (www.riocenacontemporanea.com.br).
6.10.2006 | por Valmir Santos
São Paulo, sexta-feira, 06 de outubro de 2006
TEATRO
Em tributo ao cantor, ator produz e co-dirige com Flávio Marinho musical que estréia amanhã em SP
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Diogo Vilela não tem notícias de que Cauby Peixoto tenha assistido a “Cauby! Cauby!”, o musical. Foram 11 semanas em cartaz no Rio. “A família dele viu”, diz o ator. Agora, são mais 11 semanas em São Paulo, onde o cantor terá chance de ver o que se canta e conta de sua vida.
Vilela diz saber o que quer quando se propõe a produzir e estrelar uma biografia musical. Ele já dirigiu um espetáculo sobre Elis Regina (2002) e protagonizou outro sobre Nelson Gonçalves (1996).
“O desafio é contar a história do biografado e torná-la verossímil, de maneira que exista uma dramaticidade sempre pungente, principalmente quando se trata de Cauby, dono de uma teatralidade natural”, diz Vilela, 48.
Muitos dos acertos de “Cauby! Cauby!” ele credita ao autor, Flávio Marinho, com quem divide a direção. É a primeira parceria deles.
A peça fala de um artista que acredita ter que viajar ao exterior para ser feliz. “A melancolia é muito forte no espetáculo”, diz Vilela.
A cronologia da vida e da carreira de Cauby não é linear. O personagem conversa com um jovem jornalista, com quem estabelece “um jogo de memória”. O repórter, interpretado por Rodrigo França, transforma-se ao longo do diálogo, refutando possível descaso quanto à geração de Cauby. Quando toca em um assunto, esse surge algumas cenas adiante.
“O jornalista e o público vão se ajustando ao tempo de Cauby e ao curso da história do próprio país”, diz Vilela.
“Criamos “pilares” como Di Veras, espécie de alter ego das situações que o Cauby viveu. Ele se valia muitos das amigas, da Ângela Maria, da Lana Bittencourt, da Maysa, que não aparece, mas é citada.”
Segundo o ator, há passagens doloridas, como aquela em que se fala do ostracismo que Cauby experimentou pós-bossa nova. De acordo com Vilela, a história emana algo de Fausto, o personagem de Goethe que “vende a alma ao Diabo”, Mefistófeles, em troca de sucesso.
“É legal exercitar coisas que aprendi nesses quase 36 anos de carreira, com personagens de diversas faixas etárias”, diz Vilela, que já fez “Hamlet”, de Shakespeare, e “Diário de um Louco”, de Gógol.
Vilela relata que a pesquisa de campo (assistiu a vídeos e a pelo menos quatro shows) e os estudos de técnica vocal lhe consumiram três anos. “Você diz isso no Brasil e ninguém acredita, mas é verdade”, afirma o barítono.