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Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 05 de outubro de 2006

TEATRO 
Dirigido por Roberto Lage e Juca Rodrigues e escrito pela alemã Dea Loher, “Cachorro” homenageia o escultor suíço 

Peça promove interface com a literatura, tendo como referência Jean Genet, e as artes visuais, que aparecem em instalação cenográfica 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O escultor e pintor suíço Alberto Giacometti (1901-1966) dizia-se fracassado diante da impossibilidade de transpor para a arte a realidade que o cercava. Ela, a realidade, lhe escapava na mesma proporção em que era perseguida. Um tanto dessas solidão e miséria humanas, que grudam nos calcanhares feito o trabalho vicioso de Sísifo, estão retratadas no espetáculo teatral “Cachorro”. 

A dramaturga alemã Dea Loher (de “A Vida na Praça Roosevelt”) toma emprestado o título de uma obra de Giacometti, “Cachorro”, justamente uma das esculturas no apartamento da personagem Velha Puta, ao lado das criações “Mulher em Pé” e “Homem que Anda”. 

O ano é 1966, em Paris. O Ladrão Coxo (Edson D’Santana) encontra na rua a Velha Puta (Irene Stefania). Vai ao apartamento dela em busca de três obras do escultor que recentemente morreu na Suíça. São obras desconhecidas, deixadas com sua provável amante. 

“Poderia resumir a peça como uma história de amor entre excluídos, mas é mais que isso. O Giacometti também era coxo, por exemplo, o que permite a metáfora do artista como um ladrão de imagem”, diz Roberto Lage, 59, que co-dirige o espetáculo com Juca Rodrigues. 

Como o texto de Loher, a montagem promove interface do teatro com a literatura e as artes visuais. Estas ganham relevo na instalação cenográfica que ocupa a sala Subterrâneo do Instituto Cultural Capobianco, onde o espetáculo faz temporada a partir de amanhã. 

Concebida pelo Ateliê Estúdio de Arte La Tintota, surgido na Venezuela há cinco anos, a instalação abriga o espetáculo nas sessões noturnas e, de dia, pode ser visitada pelo público em geral, a partir de 10/10, quando se completam 40 anos da morte de Giacometti. 

Na literatura, a principal referência é o escritor francês Jean Genet (1910-86), cujo ensaio “O Ateliê de Giacometti” (vertido para o português pela artista plástica Célia Euvaldo) é considerado uma recriação literária da obra do escultor. 

“A beleza tem apenas uma origem: a ferida, singular, diferente para cada um, oculta ou visível, que o indivíduo preserva e para onde se retira quando quer deixar o mundo para uma solidão temporária, porém profunda”, escreve Genet. “A arte de Giacometti parece querer descobrir essa ferida secreta de todo ser e mesmo de todas as coisas, para que ela os ilumine.” 



Cachorro
Onde:
Instituto Cultural Capobianco – sala Subterrâneo (r. Álvaro de Carvalho, 97, tel. 0/xx/11/3237-1187) 
Quando: estréia amanhã, às 21h; sex. e sáb., às 21h; dom., às 19h. Até 1/12 
Quanto: R$ 20 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 04 de outubro de 2006

TEATRO 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O Brasil recebe pela primeira vez a companhia belga de teatro Needcompany. São 20 anos de experimentos de linguagem costurados a outras formas de expressão, como dança, música e artes visuais. E sem prejuízo da cena de origem, o verbo. 

“O que faço é teatro. Teatro da palavra”, diz o diretor artístico Jan Lauwers. Ele assina ainda dramaturgia e cenografia de “O Quarto de Isabella”, que estreou no Festival de Avignon em 2004 e foi exibido há dez dias na Bienal de Dança de Lyon, na França.

Na criação, Lauwers conjuga a perda recente de seu pai à dor de um mundo acossado por terrorismo. 

São duas apresentações no Sesc Vila Mariana, na Temporada Sesc de Artes, hoje e amanhã, e duas no riocenacontemporânea, dias 7 e 8, no Sesc Ginástico (RJ). Segundo Lauwers, trata-se de “uma história de verdade” com janelas para a ficção. A narrativa linear contrasta com outras montagens da Needcompany, conhecida pela disponibilidade para o risco e o experimento. 

A memória de Isabella puxa fios pessoais, afetivos, em meio a um painel histórico. Contracenando com nove atores, Viviane de Muynck vive a velha cega, que habita um quarto em Paris repleto de objetos antigos, parte da coleção do pai do diretor.



O quarto de Isabella
Onde:
Sesc Vila Mariana (r. Pelotas, 141, tel. 0/xx/11/5081-3000) 
Quando: hoje e amanhã, às 21h 
Quanto: de R$ 10 a R$ 30 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 28 de setembro de 2006

TEATRO 
Kama Ginkas traz ao Brasil montagem baseada na miséria de Katerina Ivánovna

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

Numa de suas noites numa engordurada taberna de São Petersburgo, o protagonista de “Crime e Castigo”, o estudante Ralskólnikov, é abordado por um beberrão que lhe conta sobre a vida miserável que leva: ele, Marmieládov, três filhos menores e a mulher, Katerina Ivánovna. 

Esta personagem secundária do romance do russo Fiódor Dostoiévski, publicado em 1866, ganha corpo e voz no espetáculo teatral “K.I. do Crime” -suas iniciais. A montagem do diretor lituano Kama Ginkas (pronuncia-se “guinkas”), um solo da atriz Oksana Mysina, estreou em Moscou há 12 anos. Conquistou prêmios e viajou a outros países da Europa e EUA. 

O Brasil pode assisti-la desde a semana passada, quando estreou no 7º Cena Contemporânea-Festival Internacional de Teatro de Brasília. Em São Paulo, haverá sessões de hoje (para convidados) a domingo, no Sesc Ipiranga. Na próxima semana, é a vez da também 7º edição do evento riocenacontemporânea, no Rio. 

No livro, Katerina Ivánovna é apresentada sob o ponto de vista do marido. Na dramaturgia adaptada por Daníl Gink, 37, filho de Ginkas, 65, ela surge em desespero após a morte do marido, que se autodenominava “um porco”. Soma-se ao baque a tuberculose que abate a viúva, magra e irascível também por causa da fome, a ponto de encaminhar a filha mais velha, adotiva, para a prostituição. 

“Como Dostoiévski, preocupamo-nos não somente com os problemas sociais, que existem na Rússia de ontem e de hoje, como em outros países. O que nos interessa é o problema do ser humano e a sua relação com Deus”, afirma Ginkas. 

Inevitável a associação com Jó, personagem bíblico. “Todo humano tem o direito de perguntar: por que estão me obrigando a provações para mostrar o meu lado negativo? Todo ser contém as faces do santo e do demônio”, diz o diretor, que atende a reportagem em quarto de hotel em São Paulo. 

Em “K.I. do Crime”, a personagem como que convida o público a entrar em seu quarto, um canto frio onde ela organiza um almoço em memória do marido, uma cerimônia tradicional entre os russos após a morte de um familiar. 

Nesse espaço opressivo -em São Paulo, a garagem do Sesc Ipiranga é adaptada para cerca de 80 pessoas-, vem à tona o estado confuso de Ivánovna, em meio às crianças (três atores russo) ao seu lado. 

Remoinho
Oksana Mysina interpreta o texto em russo, mas lança frases em português e inglês, aqui e ali, o que não significa clareza no discurso que remoinha. 

Guinkas chegou a ensaiar a peça com a veterana Mariana Neyolova (que passou há pouco pela cidade com “O Capote”), mas problemas na agenda impediram que ela seguisse. Mysina abraçou o projeto de tal forma, desde a estréia em 1994, que o espetáculo tornou-se sua extensão orgânica. “Não poderia ser feita por outra mulher”, diz o encenador-pedagogo ligado ao Teatro do Jovem Espectador de Moscou (1918). “K.I. do Crime” encerra o projeto Estação de Teatro Russo-Brasil 2006, que desde julho trouxe cinco montagens daquele país, uma realização da Funarte/MinC, Sesc SP e Festival Internacional de Teatro Anton Tchecov, entre outras parcerias. Mais detalhes no site www.teatrorusso.com.br.



K.I. do crime
Quando:
estréia amanhã, às 21h; sex. e sáb., às 21h; dom., às 20h; até 1º/10 
Onde: Sesc Ipiranga (r. Bom Pastor, 822, tel. 3340-2000) 
Quanto: R$ 15 (ingressos esgotados) 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 14 de setembro de 2006

TEATRO 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Em “Carreiras”, que fez temporada em julho em São Paulo, a personagem, âncora de telejornal, passava boa parte da peça ao telefone. Na nova incursão de Domingos Oliveira pela cidade, em que co-escreve e dirige “Rita Formiga”, a protagonista também tem no aparelho um aliado. 

Estamos nos anos 60. A história que se verá no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) paulistano, onde o espetáculo pré-estréia hoje, é fruto de passagem autobiográfica dos autores, Oliveira e a atriz Maria Gladys, nome presente em produções do cinema novo. 

Há cerca de 40 anos, Oliveira morava em um apartamento em Copacabana. Gladys era sua amiga. E vizinha. Na época, ela não tinha telefone e usava o dele. Invariavelmente, no meio da tarde, quando o escritor tinha mais inspiração em escrever. 

Eram horas no aparelho conversando com uma amiga, o que afetava a concentração de Oliveira. O jeito foi transformar os “percalços da intimidade” em uma peça. 

“A Maria Gladys é dona de uma personalidade fascinante. Veio do subúrbio, foi musa do teatro, do cinema, uma mulher com muita generosidade. Falava coisas interessantes no meu telefone. Um dia, pedi a ela que repetisse, gravei e compus o texto. Ficou completamente documentário, como se fosse [o trabalho de] um repórter”, afirma Oliveira, 69. 

Ao texto, acrescentou uma segunda narrativa em que o personagem Escritor acaba criando sua primeira peça teatral a partir das histórias da vizinha. Rita Formiga (Guga Stresser) irrompe no apartamento, às vezes sem cumprimentar ao Escritor (Cláudio Tizo), e vai direto ao telefone falar com Íris, interlocutora com quem compartilha conquistas e desilusões amorosas, mais essas que aquelas. 

Rita vê o amor chegar, mas também o vê partir num cotidiano em que freqüenta bares como o Degrau e o Zepelin. “Há um pouco de crônica da boemia ipanemense dos anos 60”, conta o autor. 

Em meio à voz da narradora, ora chorosa ora esfuziante, o Escritor apela ao algodão no ouvido, mas sucumbe à condição de espectador privilegiado. 

E por que Formiga? “Não tem um motivo. Às vezes, se você der um nome que não é o do personagem, ele reclama”, explica Oliveira.



Rita formiga
Quando: pré-estréia hoje, às 20h, para convidados; temporada a partir de amanhã, às 19h30; sex., às 19h30; sáb., às 18h e às 19h30; e dom., às 18h; até 5/11 
Onde: CCBB-SP (r. Álvares Penteado, 112, centro, tel. 0/xx/11/3113-3651) 
Quanto: R$ 15 

Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 11 de setembro de 2006

TEATRO

Atração do 13º Porto Alegre em Cena, versão de “O Pequeno Polegar” é assistida em camas individuais
 

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Porto Alegre 

Se algum espectador dormir, não quer dizer que o espetáculo seja ruim. Pelo menos não no caso de “Buchettino”, que a companhia italiana Societas Raffaello Sanzio estréia hoje no 13º Porto Alegre em Cena, o festival internacional de artes cênicas que vai até domingo. 

Crianças ou adultos deitam-se em 50 camas individuais para ouvir e imaginar a história de “O Pequeno Polegar”, como se fossem ninar. “É um espetáculo em que não se vê, só se sente”, diz o integrante da companhia Federico Lepri, 32, um dos técnicos responsáveis pelos efeitos sonoros. 

Enquanto a atriz Monica Demuru, na pele de Mãe, narra (em português) a lenda européia na versão do francês Charles Perrault (1628-1703), do lado externo do espaço cenográfico retangular chegam as sonoridades, em percussão ou playback, que reforçam a atmosfera de suspense sobre as aventuras do personagem-título, caçula de sete irmãos. Eles atravessam perigos num bosque, com direito a aroma de eucalipto, e são ameaçados por lobos, morcegos e um ogro. 

Uma das companhias conceituais mais respeitas da Europa, a Societas Raffaello Sanzio nasceu em 1981, na cidade de Cesena (norte da Itália), iniciativa de Chiara Guidi e dos irmãos Claudia e Romeo Castellucci, então jovens estudantes embevecidos pelo signo das artes visuais e sob contaminação absoluta de outras áreas, como a música, a ópera, a ciência, a medicina, a teologia etc. A companhia passou por São Paulo nos anos 90, inclusive com uma versão de “Hamlet”. 

Grupo lituano
Em sua primeira semana, um dos destaques internacionais do festival, além da passagem da companhia da coreógrafa alemã Pina Bausch, foi o grupo lituano Meno Fortas, dirigido por Eimunthas Nekrosius. 

A versão de “Othelo”, de Shakespeare, apresentada até ontem no teatro São Pedro, dura cerca de quatro horas. Na concepção de Nekrosius, Othelo, Iago e Desdêmona são personagens que têm pesos equilibrados em meio ao torvelinho de inveja e ciúmes em que são enredados. A metáfora da água surge o tempo todo, referência à ilha de Chipre onde se passa parte da ação. A cenografia, os adereços, os objetos e a música transportam o público para uma embarcação. 

Nekrosius, que já havia mostrado em Porto Alegre cinco anos atrás seu “Hamlet”, em “Othelo” revela que não sucumbe ao maneirismo visual no seu modo de fazer teatro. Ao contrário, é um apaixonado diretor de atores como Vladas Bagdonas (Othelo), Rolandas Kazlas (Iago) e Egle Spokaite (Desdêmona).

Num momento em que o Brasil recebe o projeto Estação de Teatro Russo, circulação de cinco espetáculos daquele país, é pena que Nekrosius e Meno Fortas, que vêm de uma das repúblicas do Mar Báltico que pertenciam à ex-União Soviética, ainda sejam desconhecidos em São Paulo e Rio.



O jornalista VALMIR SANTOS viajou a convite da organização do festival


13º Porto Alegre em Cena
Quando: 5 a 17/9 
Quanto: R$ 20. Mais informações pelo tel. 0/xx/51/ 3235-2995 ou através do site 
www.poaemcena.com.br

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, domingo, 10 de setembro de 2006

TEATRO 

Autor russo é encenado nas peças “Ralé Ainda Pulsa”, em prédio em ruínas no centro, e “A Mãe”, no Fábrica SP
 

Raramente visto no Brasil, espetáculo “A Mãe” é adaptação feita por Bertolt Brecht para o romance homônimo de Gorki

 
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Um escritor que assina “Minha Triste Infância” dificilmente olhará o mundo com condescendência. Foi com esse título que Máximo Gorki (1868-1936) lembrou seus primeiros anos de vida.

Na literatura e no teatro, sua escrita sempre diz respeito à miséria material e humana. Duas peças em cartaz refletem isso ao mergulhar no modo realista com que o russo Gorki encarava a sobrevivência e a convivência em sociedade.

No Teatro Fábrica São Paulo, o Núcleo 2 monta “A Mãe”, adaptação de Bertolt Brecht para o romance homônimo de Gorki raramente vista no Brasil, num espaço cenográfico conformado em uma arena.

Já o grupo de Teatro Meio transpõe a ação de “Ralé Ainda Pulsa”, peça baseada em “Ralé” (ou “No Fundo”), de Gorki, para São Paulo em uma triste atualidade, segundo os criadores: a do Castelinho, como é chamada a construção de 1912, ora decadente, na rua Apa, região central.

“Nossa opção foi menos pela idéia de encenar em um espaço alternativo simplesmente e mais pela vontade de provocar o espectador -o de classe média, de um modo geral- com as cores, texturas e cheiros desse mundo de miséria, tão próximo de nós e numeroso, e ao mesmo tempo, como diz o texto [de Gorki], tão ignorado: “As pessoas se acostumam com a pobreza e nem olham mais'”, afirma o diretor do espetáculo, Alex Brasil, que também assina a adaptação.

Cortiço
Dentro do Castelinho, conta Brasil, foi montado um cortiço. “Exatamente igual a diversos cortiços visitados na região. O próprio Castelinho já foi um, de fato, quando ainda tinha teto”, diz o diretor. “O público entra nesse cortiço e sente, por uma hora e quinze minutos, a pulsação de vida que ainda resiste dentro dele.”

Ainda de fora do Castelinho, antes do início do espetáculo, o Teatro Meio exibe um vídeo de oito minutos que condensa a pesquisa realizada em áreas miseráveis da cidade.

Considerado uma das obras-primas de Gorki, “A Mãe” promove diálogo sintomático entre o autor russo e o alemão Brecht (1898-1956). “O romance de Gorki vai até 1905, um dos anos mais violentos da história da Rússia, que ele viveu in loco, quando milhares de camponeses morreram em luta por terra, e várias greves foram deflagradas”, afirma Sérgio Audi, diretor de “A Mãe”. “Brecht vai lá, ressuscita a personagem e amplia a trajetória da Mãe até 1917, ano da Revolução Russa.”

Gorki teria tomado como inspiração a trajetória de uma mãe de operário que liderou um movimento de conscientização social naquele início de século 20. 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 09 de setembro de 2006

TEATRO 
Canal exibirá 13 dos cerca de 30 teleteatros que o coordenador do Centro de Pesquisa Teatral dirigiu na década de 70 

Programas selecionados incluem “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues; atores, críticos e pesquisadores comentarão as histórias 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O diretor de teatro Antunes Filhos também foi um homem de televisão, veículo contra o qual hoje pragueja ao ver atores com quem trabalhou atuando em novelas (caso de Luís Melo).

A face televisiva do diretor poderá ser vista na série “Antunes em Preto e Branco”, que a TV Cultura promete levar ao ar até o final do ano -dia e horário de exibição a definir.

Serão apresentados 13 dos cerca de 30 teleteatros que Antunes dirigiu e adaptou para a emissora, na década de 70.

Todos os programas serão apresentados na íntegra. Entremeando os três blocos, haverá depoimentos de artistas que participaram dos projetos ou de críticos e pesquisadores.

Os teleteatros foram produzidos originalmente em preto e branco. A Folha teve acesso a um deles, “A Casa Fechada” (1975), adaptado da peça de Roberto Gomes (1882-1922).

No trabalho, é possível entrever também o olhar cinematográfico de Antunes. A fotografia explora a atmosfera de Paranapiacaba (SP), a locação escolhida, com a neblina nas ruas, a arquitetura inglesa nos casarões e a estação de trem.

A séria é rara oportunidade para assistir, por exemplo, às atuações de Jofre Soares, Karin Rodrigues, Jairo Arco e Flexa.

Numa cidade interiorana, os moradores estão em polvorosa com o caso de uma mulher que trai o marido e é obrigada a fugir. Tempos depois, o casal, os três filhos e um delegado estão de volta à casa desabitada. Enquanto decidem o rumo de suas vidas, trancafiados, do lado de fora a vizinhança maldiz a adúltera.

Entre os títulos selecionados pelo núcleo de dramaturgia da TV Cultura, constam ainda “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, com Lilian Lemmertz e Edwin Luisi no elenco, e “A Escada”, de Jorge Andrade, com Rodolfo Mayer, Antônio Fagundes e outros. 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 07 de setembro de 2006

TEATRO 
Grupo, que completa sete anos, une lendas urbanas à “Odisséia”, de Homero

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local

Quando o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos lançou o projeto de intervenções artísticas “Urgência nas Ruas”, em 2001, as ruas do centro de São Paulo eram lidas como um “mar sem fim”. Ao tomar a “Odisséia”, de Homero, como referência para o seu novo espetáculo, a diretora Claudia Schapira descobriu que a metáfora era mais palpável do que imaginava. Na Grécia Antiga, todo pedaço de terra equivalia à propriedade privada e o único espaço neutro era o mar, para onde as pessoas erravam em busca de liberdade -isso antes que surgisse a ágora, a praça do povo. 

Navio negreiro
A partir deste Dia da Pátria, os espectadores, segundo Schapira, embarcam num “navio negreiro”, nas ondas de “Frátria Amada – Pequeno Compêndio de Lendas Urbanas”. A reunião de cidadãos gregos que faziam sacrifícios aos deuses era chamada de frátria. Schapira, que também assina o roteiro, costura com sua equipe histórias de personagens da metrópole, autodenominados “zés-ninguém”. 
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Sujeitos como o migrante nordestino que revê a volta da selva de pedra; a artista que foi trabalhar como balconista no exterior e viu que seu lugar era aqui; e o detento que se recusa a fazer acordo com o diretor de presídio. Todos refletem a respeito de outras possibilidades em suas vidas. 

Com direção musical do DJ Eugênio Lima, direção de arte de Julio Dojcsar e 13 “atores-Mcs” em cena (teatro épico casado com cultura hip hop), o espetáculo faz parte da mostra de aniversário do grupo, “Bartolomeu, 7 Anos Nele Deu!”. Até dezembro, serão reapresentadas duas peças do repertório: “Acordei Que Sonhava” (27/10 a 17/11) e “Bartolomeu -Que Será Que Nele Deu?” (24/ 11 a 15/12). Estão previstos ainda lançamentos de livro, documentário e CD sobre o projeto “Urgência nas Ruas”, além de uma exposição e uma radionovela. Tudo por conta do Programa de Fomento ao Teatro.



Frátria Amada Brasil 
Onde: Núcleo Bartolomeu (r. Dr. Augusto de Miranda, 786, Pompéia, tel. 0/xx/11/3803-9396) 
Quando: estréia hoje, às 21h; de qui. a sáb., às 21h, e dom., às 20h. Até 22/10 
Quanto: R$ 18 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 02 de setembro de 2006

TEATRO

Comemorando 27 anos, grupo monta “Camaradagem”, sobre embate nas relações homem-mulher

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

Protagonista de três casamentos malsucedidos, o sueco Johan August Strindberg (1849-1912) tingiu boa parte de seus contos e peças com a misoginia, aversão às mulheres. Vide “Senhorita Júlia”, em que uma aristocrata apaixona-se por um criado e termina se suicidando. Ou “Camaradas”, em que uma mulher assume papel machista -montagem inédita no Brasil que o grupo Tapa apresenta a partir de hoje no Viga Espaço Cênico. 

Na tradução de Rafel Rabelo, optou-se por “Camaradagem”, já que o título original é de cunho mais ideológico em português. É camaradagem no sentido da relação aberta a que se propõe o jovem casal Axel (interpretado por Tony Giusti) e Bertha (Patricia Pichamone). 

Eles são pintores. Metida em terno e gravata, Bertha se passa por amigo de Axel, sob consentimento deste, como forma de conseguir espaço no mercado de trabalho. A “encenação” estremece quando ambos disputam vaga num salão de pintura. A quem caberá mais poder? Em certa medida, Bertha é a antípoda de Nora, aquela que bate as portas e vai-se embora do casamento em “Casa de Bonecas”, do norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), com quem Strindberg rivalizava. 

Segundo o diretor Eduardo Tolentino de Araújo, 51, “Camaradagem” é politicamente incorreta em vários sentidos. “Mostra como a sociedade suaviza algumas questões, não bota o dedo em feridas, não dá nome aos bois. Esse embate entre masculino e feminino vem desde as cavernas”, afirma. Paralelamente à boemia dos intelectuais e às noitadas de absinto, Strindberg amplia os estados interiores a outras relações decadentes, como a do militar com sua “Amélia”. São 12 atores no tablado do Viga, onde a platéia fica mais próxima da cena. Espaço propício ao “teatro íntimo” que Strindberg defendeu até em manifesto. 

Nascido no Rio há 27 anos, o Tapa acaba de completar duas décadas de permanência em São Paulo, onde constrói elogiado repertório. Ergue “Camaradagem” com recursos do Programa de Fomento (município) e Prêmio Estímulo (Estado).



Camaradagem
Quando:
estréia hoje, às 21h; de qui. a sáb., às 21h; e dom., às 19h. Até 29/10 
Onde: Viga Espaço Cênico (r. Capote Valente, 1.323, tel. 3801-1843) 
Quanto: de R$ 20 a R$ 30 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sexta-feira, 01 de setembro de 2006

TEATRO 
Diretor da companhia alemã Volksbühne inicia turnê por seis cidades do país 

“O Teatro é o esporte do pensamento”, diz Castorf; “Na Selva das Cidades” será apresentada hoje e amanhã no Sesc Pinheiros, em SP

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem local

O diretor alemão Frank Castorf age um pouco como os personagens de “Na Selva da Cidade”: aprecia dizer não. Na peça do dramaturgo também alemão Bertolt Brecht (1898-1956), um bibliotecário se recusa a “vender” a um negociante a sua opinião negativa sobre determinado romance. 

É o “parti pris” algo surrealista do texto que se revelará mais complexo nas relações humanas sob os vetores afetivos, políticos e sociais. Isso tanto no contexto da Chicago de 1912, centro financeiro em que se passa a ação original, quanto na geografia indefinida da releitura de Castorf, que cabe em qualquer metrópole de 2006. 

Em nova passagem pelo Brasil com a cia. Volksbühne (da qual se viu “Estação Terminal América” no ano passado, livríssima adaptação de “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams), Castorf traz a montagem de “Na Selva das Cidades” que estreou em fevereiro na sede do teatro estatal, na antiga Berlim Oriental -espaço inaugurado em 1914 e construído por uma associação de operários. No Brasil, a turnê passa por seis cidades, começando por São Paulo (há apresentações no Sesc Pinheiros, de hoje a domingo). 

Castorf já disse não, por exemplo, a um teatro que dirigia e do qual foi demitido no início dos anos 80, por causa de um espetáculo politicamente incorreto. Mais recentemente, resistiu apenas um ano como diretor artístico do Ruhrfestspiel, um festival internacional do interior alemão, sob alegação de “afastar o público”. 

Deu tempo de levar o projeto “Os Sertões”, do grupo Oficina Uzyna Uzona, que depois fez temporada no próprio Volksbühne.

“Teatro é o esporte do pensamento”, diz Castorf, 55, que recebe a Folha no hotel em que está hospedado. 

Saudade da morte
Como Zé Celso, que dirigiu “Na Selva das Cidades” em 1969, ele destaca a antevisão do jovem Brecht -é sua terceira peça- quanto aos regimes de exceção e à deterioração da vida, em vários aspectos, na cotação do sistema capitalista. 

E nem é o Brecht, cujo cinqüentenário de morte é lembrado este ano, do paradigma da luta de classes, do contorno épico que vai caracterizar a fase, por assim dizer, mais madura de sua obra. Nos anos 20, segundo Castorf, sua dramaturgia soava lírica, sob influências do dadaísmo e do jazz, em meio à lama, à solidão, à selva, ao inferno de Rimbaud. 

Anos depois, Brecht dizia que “Na Selva…” embutia alguma “saudade da morte”. “Ele assimilou e vomitou tudo por meio da escrita. 

Ao terrorismo político, contestou com o terrorismo poético, a independência de pensador que praticou a vida toda.” No enredo, o bibliotecário Shlink e o comerciante Garga entram numa espiral de discussões que passa por valores materiais e imateriais. 

Eles até convivem, conhecem o campo de um e de outro, há inclusive uma sugestão homoerótica, mas o ringue é inevitável. 

“O Garga entra com família, o Shlink com a riqueza. Um sabe que vai perder a família e o outro sabe que vai perder o dinheiro, num comportamento de quem é viciado em jogo, um jogo de forças”, diz o diretor. 

A turnê, que incorpora técnicos e atores brasileiros, faz parte do programa Copa da Cultura (MinC, Instituto Goethe e Sesc-SP) e segue para Santos (Sesc local, 5 e 6/9), Salvador (Teatro Castro Alves, 9 e 10/9), Guaramiranga, no CE (Festival Nordestino de Teatro, 15/9), Fortaleza (Teatro José de Alencar, 18/09) e Brasília (Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro, 21 e 22/ 9).


Na selva das cidades
Quando: hoje e amanhã, às 21h; dom., às 18h 
Onde: Sesc Pinheiros – teatro (r. Paes Leme, 195, tel. 3095-9400) 
Quanto: R$ 20