Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.
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10.5.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, terça-feira, 10 de maio de 2005
TEATRO
Desde os anos 90, cidade fomenta projetos gratuitos como o de Boal e o programa de formação em artes cênicas
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Reconhecido pólo industrial do país, o município de Santo André, no ABC paulista, se destaca também na área da cultura, por entendê-la como item fundamental da cidadania. Um exemplo disso é a política pública aplicada ao teatro. Durante a tarde e a noite de hoje, por exemplo, o Teatro Municipal de Santo André será ocupado pela 3ª Maratona de Teatro do Oprimido, atividade desenvolvida desde 1997 pela equipe do dramaturgo Augusto Boal.
Outro projeto irradiador das artes cênicas na cidade é o da Escola Livre de Teatro (pça. Rui Barbosa, 12, Santa Terezinha, tel. 0/xx/11/ 4996-2164). Em junho, a ELT completa 15 anos.
“É um exemplo único no Brasil, um apoio constante e decisivo para a manutenção do Teatro do Oprimido”, diz Boal, 74. “E apoio não só econômico mas desarmado de questões partidárias.”
Boal começou a sistematizar a prática do Teatro do Oprimido no final dos anos 70, durante a ditadura militar, quando deixou o Teatro de Arena, em São Paulo, e viveu exilado na França.
Sua premissa é colocar o cidadão como protagonista em esquetes, cenas curtas que retratam conflitos do cotidiano, quer em situações públicas ou privadas.
Na programação da maratona, por exemplo, o grupo Esperança, formado por idosos, toca num tema urgente: a Aids sobre o ponto de vista de homens e mulheres que estão com mais de 60 anos e precisam ficar atentos à prevenção, como o uso de camisinha, por exemplo.
“Em 1997, quando começamos a atuar, o Teatro do Oprimido era voltado para os servidores municipais e para o projeto do Orçamento Participativo nos bairros. Atualmente, existem 13 grupos populares em vários pontos da cidade”, diz o coordenador do programa em Santo André, Armindo Rodrigues Pinto, 56. Em 2004, a prefeitura gastou cerca de R$ 45 mil com o Teatro do Oprimido.
No momento, a ELT apresenta o espetáculo “E.L. Circo” sob uma lona erguida no parque Prefeito Celso Daniel, com capacidade para 400 pessoas (sáb. e dom., às 16h e 20h, com entrada franca).
Dirigido por Marcelo Milan e Renata Zhaneta, com dramaturgia de Luis Alberto de Abreu, o espetáculo resulta do Núcleo de Montagem Circense da escola (também existem os núcleos de formação ator, diretor etc).
O espetáculo anterior, “Nô Caminho – 7 Passos para Dentro”, com direção de Georgette Fadel, estava em cartaz até o início deste mês, no teatro Conchita de Moraes, também espaço da ELT, e deve retornar em junho (sáb. e dom., às 20h).
A ELT envolve atualmente cerca de 150 aprendizes. O orçamento é de R$ 330 mil. Segundo o seu coordenador, Antônio Rogério Toscano, 32, a iniciativa mudou a cara do bairro de Santa Terezinha. “Somente políticas públicas corajosas e ousadas, que coloquem o projeto e sua especificidade em primeiro plano, podem resultar em algo como é hoje a ELT, que trouxe grupos para criar suas sedes no entorno, em galpões abandonados, e amplificou conceitos arejados sobre pedagogia e formação teatral.
Hoje, fazemos teatro na rua e até dentro do trem -e não mais sobre a rua ou sobre a vida das pessoas que pegam o trem”, diz Toscano.
9.5.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, segunda-feira, 09 de maio de 2005
TEATRO
Em “Rua Taylor”, com direção de Alberto Guzik, o grupo recorta personagens do autor e os insere em outras tramas
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Ainda não é um Nelson Rodrigues (1912-80) propriamente dito, mas um dia ele deve bater à porta do número 214 da pça. Franklin Roosevelt. Por enquanto, Os Satyros abrem seu espaço para um “ensaio” sobre a obra do dramaturgo. (Em tempo: em 1996, Rodolfo García Vázquez, um dos fundadores do grupo, dirigiu “Valsa nº 6” em Portugal).
Desdobramento de oficina que agora ganha pernas próprias com o recém-criado Núcleo Experimental dos Satyros, “Rua Taylor nº 214 – Um Outro Ensaio sobre Nelson” cumpre temporada a partir de hoje, somente às segundas-feiras.
A montagem busca originalidade ao pisar o universo rodrigueano. Não se trata de coleta de crônicas, trechos de peças ou afins. Antes, os personagens são deslocados do original para cenas escritas em colaboração pelo elenco de 17 atores, sob coordenação dramatúrgica de Nora Toledo e Jarbas Capusso Filho.
Assim, Moema (de “Senhora dos Afogados”), Glorinha (“Perdoa-me por Me Traíres”), Sônia (“Valsa nº 6”), Leleco (“Boca de Ouro”), Pimentel (“A Falecida”) e outras tipos marcantes são envolvidos em cenas curtas. O título faz referência à rua Taylor, na Lapa carioca, para onde o núcleo projeta o bordel imaginário, ponto comum dos personagens, cuja dona pode ser Senhorinha (“Álbum de Família”), ou Madame Clessy (“Vestido de Noiva”).
“A peça ganhou muito em narrativa cênica”, diz o diretor Alberto Guzik, 60, que arrematou o espetáculo após a pesquisa do elenco, supervisionada por Ivam Cabral e Vázquez.
Com “Rua Taylor”, vão para nove as peças que revezam o cartaz durante a semana nos Satyros: “Num Dia Comum” (ter. e qua., às 21h30), “Amor” (qua., às 20h), “O Ovo ou a Metáfora do Sacrifício Feminino” (qui. e sex., às 20h), “Cosmogonia – Experimento nº 1” (qui. e sex., às 21h30), “Transex” (sáb., às 21h30, e dom., às 20h30), “A Filosofia na Alcova” (sex. e sáb., à meia-noite), “Os Assassinos de Inês de Castro” (sáb., 19h30) e “O Céu é Cheio de Uivos, Latidos e Fúria dos Cães da Praça Roosevelt” (dom., às 18h30).
São Paulo, terça-feira, 19 de abril de 2005
TEATRO
Teatro XIX embarca amanhã para 28 apresentações com 85% do texto vertido para a língua de Moliére
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Referência européia nos estudos sobre histeria no século 19, o médico francês Jean-Martin Charcot (1825-1893) costumava expor suas pacientes num teatro, diante de platéias formadas por estudantes, intelectuais e curiosos. É para aquele país que a peça brasileira “Hysteria” embarca amanhã.
O grupo paulistano Teatro XIX realiza turnê por oito cidades francesas com o espetáculo que estreou em novembro de 2001 -e o revelou quatro meses depois no Fringe, a mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba.
Na bagagem, as cinco atrizes e o diretor Luiz Fernando Marques levam 85% do texto vertido para a língua de Moliére. Foi o que mostraram na manhã da última sexta-feira durante um dos últimos ensaios antes da viagem.
Acompanhada de quatro amigas que estudam francês e foram convidadas pelo grupo, a professora Sandra Gualteri de Paula Silva assistiu à “Hysteria” pela primeira vez e saiu emocionada do encontro, à luz do dia, improvisado no terraço do prédio da escola Aliança Francesa, no centro.
“Antes do ensaio, uma colega que já havia visto me disse que a emoção talvez não fosse a mesma por causa do local, mas embarquei”, disse Silva, 53.
Ela se deixou levar pela personagem que senta ao seu lado durante toda a peça, interpretada por Sara Antunes. Trata-se de uma das cinco mulheres trancafiadas num hospício em nome da medicina da época, que via a histeria como uma questão patológica -“doença” que reafirmava preconceitos arraigados da sociedade para com a mulher.
A personagem apanha Silva pelas mãos, sussurra frases em seu ouvido, convida-a para rezar, de joelhos, até que confessa que está ali por ter matado o marido a machadadas. “Eu a perdoei porque ela não estava bem; era o que a personagem precisava naquele momento”, diz Silva.
O processo de identificação da platéia feminina é um dos trunfos de “Hysteria”. As mulheres são literalmente inseridas na roda, enquanto os homens ficam à margem, “passivos”.
“Durante a apresentação, a gente fica pensando sob tensão por causa dos relatos, mas, ao mesmo tempo, tudo acontece sem censura naquele ambiente repressor”, diz a pedagoga aposentada Cida Pereira, 63, que assistiu à peça pela quarta vez, agora em francês.
“Tenho mania de tentar traduzir a língua simultaneamente, o que poderia me deixar mais distante. Ao contrário, fiquei emocionada pela delicadeza do projeto”, diz a atriz Íris Yazbek, 25, espectadora de primeira viagem.
A assistente social Alaíde Theodoro, de 70 anos, que está no quinto estágio do francês, também já havia assistido ao espetáculo e diz que não encontrou dificuldades. “As atrizes conseguiram passar bem a emoção.”
Com exceção de Janaina Leite, que tem formação na língua, o elenco (Gisela Millás, Juliana Sanches e Evelyn Klein) começou a travar contato com o francês há pouco mais de dois anos.
Em 2003, o Teatro XIX fez apresentações em festivais de Cabo Verde, Portugal e da mesma França, para onde retorna.
Os cantos e alguns poemas e falas foram preservados em português, em nome da “música da língua”, por exemplo, quando as personagens entoam os versos: “Eu vou levar essas milongas/ Para o fundo do mar”.
A turnê percorrerá oito cidades, a começar por Arles, no sul do país. O grupo volta no dia 13 de junho e retoma em julho o seu segundo espetáculo, “Hygiene”, na Vila Operária Maria Zélia, no Belenzinho (zona leste de SP).
7.5.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 07 de maio de 2005
TEATRO
Atriz cria espetáculo solo no Sesc Belenzinho sobre vida da escultora francesa, que também assina objetos do cenário
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Conhecida pela dramaturgia que recorta questões sociais e políticas, a atriz Denise Stoklos, 54, identifica em seu encontro com a escultora, desenhista e gravurista francesa Louise Bourgeois, 93, um “divisor de águas”.
A partir do espetáculo “Louise Bourgeois: Faço, Desfaço, Refaço”, que estreou em 2000 no LaMama -espaço voltado para o teatro experimental em Nova York-, o repertório de Stoklos se encaminhou para um plano mais introspectivo.
Como se vê na temporada paulistana, que começou ontem no Sesc Belenzinho, depois de passar pelo Rio de Janeiro, trata-se de uma performance solo que coloca Bourgeois na primeira pessoa.
Vida, obra e pensamento. “São situações difíceis pelas quais ela passou. Enxergando seus medos, sua dor, sua imensa angústia e a coragem de se encontrar com o vazio, estarei falando da minha dor, da dor de cada um de nós, com a diferença de que nosso pai não trouxe uma amante para dentro de casa”, diz Stoklos, ilustrando uma das passagens.
Movida pelo “âmago dos indivíduos e sua luta por libertação”, a atriz recolheu depoimentos que a escultora francesa radicada nos EUA deu à imprensa. Também serviu de fonte a autobiografia “Louise Bourgeois – Desconstrução do Pai/Reconstrução do Pai”.
Normalmente autora de seus projetos, aqui Stoklos faz as vezes de tradutora. “É a faísca desse diálogo que faz com que a gente se transforme, se torne sensível e crítico”, diz ela.
O impulso para dentro -antes, mirava mais os “inimigos externos”, instituições que lidam com o poder- se reflete no último espetáculo, “Olhos Recém-Nascidos” (2004), que é “quase confessional” se comparado à indignação presente em “Vozes Dissonantes”, por exemplo.
Esta montagem, aliás, retorna ao cartaz no Teatro Folha, dentro do projeto “Grandes Baratos”, a partir do dia 17 deste mês, que traz “Calendário da Pedra”, às terças-feiras, e “Vozes Dissonantes”, às quartas.
O cenário de “Faço, Desfaço, Refaço” incorpora uma escada de ferro, um espelho oval e uma gaiola de ferro, todos criados pela própria artista homenageada, que vive em Nova York.
“A Louise é uma personalidade incrível, está em contato permanente consigo, não se desliga em nenhum momento, nem de dia nem de noite.”
5.5.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 05 de maio de 2005
TEATRO
Grupo mineiro espanca!, destaque no último Festival de Curitiba, apresenta peça de Grace Passô no Sesc Pompéia
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O mundo carece de boas histórias para se proteger do mundo. Em “Por Elise”, elas são trançadas por uma dona-de-casa, um lixeiro, um homem, uma mulher, um funcionário da carrocinha e um cão. Vizinhos -tão perto e tão longe-, os personagens são sacudidos por encontros delicados na dramaturgia de Grace Passô, 24, que contracena com mais quatro atores-criadores no grupo espanca!, de Belo Horizonte, uma das revelações do Fringe no último Festival de Teatro de Curitiba.
O espetáculo chega a São Paulo para três apresentações no Sesc Pompéia, de amanhã a domingo.
“O lixeiro é a representação da fé. Portanto, a ação da fé na peça é a ação de correr. A mulher é a representação da emoção. A emoção na peça tem a ação de cair. O cão é a representação da verdade. A ação da verdade é latir. Latir é a reação mais fiel ao instante. O funcionário é a representação do medo. A ação do medo é portanto, esconder-se. A dona-de-casa é a representação da razão. A ação da razão é falar”, cravou Passô, às 14h26 do dia 17 de fevereiro, no diário virtual da montagem (www.porelise.blogger.com.br), quando alcançou o que diz ser sua versão particular do texto.
Não se trata de pragmatismo, longe disso. Em um ano de existência, o espanca! assimilou que o tempo dá cambalhotas.
As coisas se cristalizam no “durante”, como o sol que agora, pós-Curitiba, ganha corpo na iluminação, um céu cujo movimento, nos conformes da narrativa, traduz o ciclo da natureza.
Circular é mesmo a estrutura, fim e recomeço. O lixeiro (Gustavo Bones) e a mulher (Samira Ávila) correm para lá e para cá. Ele, por conta do ofício, atrás do caminhão; ela em busca de consolo: seu cão será sacrificado.
O cão (Marcelo Castro, que desmonta a estereotipia do intérprete que se quer passar por animal e, ao “imitá-lo”, dá com os burros n’água) e o funcionário (Paulo Azevedo) emanam afetividade e derrubam o muro que os separava à beira do sacrifício.
Destino, acaso, sabe-se lá, assim gira a ciranda dessa fábula contemporânea costurada pela senhora Elise, a dona-de-casa (Passô). Ela é demasiado insegura quanto ao outro, assim como o é em relação ao abacateiro no quintal, que lhe prega sustos com os frutos que se espatifam no chão, mas, antes, podem colher alguma cabeça. Abacates, abates. “Os personagens se salvam mais pela fé”, diz Passô. Ou pela correria, o ir e vir que, em certos momentos, vaza para as coxias e alonga o vazio no palco, corações em eco.
“”Por Elise” é muito a gente, a maneira como nossa geração vê as coisas. O que nos uniu foi mais uma questão filosófica do que técnica”, diz a autora e diretora.
Passô é estudante de letras. Caçula de sete irmãos, tem numa das irmãs, professora de língua estrangeira, a inspiração pela palavra que depois viu lapidada em Guimarães Rosa e Clarice Lispector. “Por Elise” é o seu primeiro texto para teatro.
Azevedo, 27, e Ávila, 25, são jornalistas. Castro, 22, e Bones, 20, estudam artes cênicas e, como Passô, pertenciam à cia. Clara, também de BH (“Coisas Invisíveis”). “Por Elise” nasceu para a edição 2004 do Festival de Cenas Curtas Galpão Cine Horto e dali cresceu para correr o mundo.
2.5.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 02 de maio de 2005
TEATRO
Projeto Três Vezes Rua promove debate com artistas e pesquisadores e programa peças em três regiões de SP
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
“Em primeiro lugar vem a pança, logo depois venho eu. Que o povo não perca a esperança de ter sua pança também.”
Era uma espécie de Fome Zero, francamente brechtiano (em primeiro lugar a pança, depois a consciência), a cutucar a ditadura militar à época, 1976, lembra o então ator e hoje professor da Unicamp, Rubens Brito, 54, sobre os versos de uma das canções do espetáculo de rua “A Vida do Grande D. Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança”. Tratava-se de uma adaptação de Antônio José para a obra-prima de Miguel de Cervantes, que o extinto grupo Mamembe (1976-1986) estreou na praça da República, no centro de São Paulo, com duração de três horas e platéia espontânea de até 2.000 pessoas.
Em que medida o teatro de rua no Brasil comporta, hoje, essa capacidade de intervenção no espaço público, essa arte cuja extensão política foi contemplada pelo pesquisador norte-americano John Downing no livro “Mídia Radical – Rebeldia nas Comunicações e Movimentos Sociais”?
Eis uma das questões a nortear o projeto Três Vezes Rua, que dá início, hoje, à edição do Reflexos de Cenas 2005, uma iniciativa do Sesc Consolação que envolve ainda as unidades de Pinheiros e Santo Amaro.
O projeto, que entra no quinto ano, é um foro para a troca de experiências e para o debate tanto de processos de criação e pesquisa, como de trabalhos que tenham pouco ou nenhum espaço para a divulgação. No plano das idéias, acontecerão debates em torno da relação ator/obra e ator/espectador, a retomada do espaço público, a atualidade do teatro de rua, o redimensionamento do trabalho do ator enquanto técnica e discurso, o ator-dramaturgo, a questão espetacular e a função social.
Debates
Hoje, às 20h, no teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000), o debate “A História, a Atualidade e a Importância do Teatro de Rua” reúne os diretores Amir Haddad (grupo carioca Tá na Rua, com 30 anos de história) e Lucciano Draetta (Circo Navegador), além de ex-integrantes do grupo Mambembe do Sesc (Brito, Calixto de Inhamuns, Flávio Dias, Suzana Lakatos, Eunice Mendes, Douglas Salgado, Noemi Gerbelli, Wanderley Martins, Júlio de Moraes, Rosi Campos, entre outros). O dramaturgo e diretor Carlos Alberto Soffredini (1939-2001) também foi um dos fundadores do grupo Mambembe do Sesc, que nasceu assim, integrado à entidade.
Amanhã e quinta, às 20h, no Sesc Consolação – sala Ômega, serão debatidos, respectivamente, os temas “Espaço Público: Reflexões” e “Formação de Público: Ações e Desdobramentos”, com participações de artistas e pesquisadores.
Nos mesmos dias, uma hora antes de cada encontro, a Cia. Seres de Luz (Campinas) promove intervenções cênicas (“A-la-pi-pe-tuá”) em vários espaços do prédio do Sesc Consolação.
Amanhã, às 20h, Andréa Macera media um debate no Consolação sobre o espaço público. No dia 4/5, às 18h, a atriz e diretora Georgette Fadel (Cia. São Jorge de Variedades) dará aula-espetáculo no hall do Consolação, expondo parâmetros para encenar um espetáculo de rua.
Paralelamente, até o final do mês, estão programados espetáculos gratuitos em três regiões da cidade (veja programação no quadro ao lado).
Foram escalados grupos que desenvolvem pesquisa na área, alguns deles premiados, como o carioca Teatro de Anônimo; o Fora do Sério, sediado em Ribeirão Preto; os paulistanos Cia. do Feijão e Tablado de Arruar; além do ator e palhaço Alexandre Roit (ex-Parlapatão).
A curadoria do Reflexos foi realizada por Andréa Macera e Roberto André.
30.4.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 30 de abril de 2005
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Na era da sublimação da individualidade, paradoxalmente, é quando ela escorre cada vez mais pelas mãos, tantas as forças contrárias. É por aí que o grupo Fora do Sério, de Ribeirão Preto, caminha para levar à cena a sua versão do romance “A Ilha do Dr. Moreau”, clássico do escritor inglês H.G. Wells (1866-1946).
Narra a história de um náufrago resgatado para uma ilha no oceano Pacífico, onde um cientista recria a forma humana a partir da remodelagem física de animais, um processo de vivissecção, no qual a dor poderia trazer à tona a “humanidade” dessas criaturas.
A encenação do Fora do Sério poderia pegar carona nas polêmicas em torno da clonagem, célula-tronco e que tais, mas preferiu o plano da filosofia. “O conhecimento é ampliado a todo instante, muitas vezes representado por instituições religiosas e científicas. Mas, ao mesmo tempo em que as novidades edificam o ser humano, podem enquadrá-lo em dogmas, a liberdade sofre manipulação”, diz o diretor Dino Bernardi, também responsável por argumento e concepção. A dramaturgia é assinada por Amir Abdala.
Segundo Bernardi, Welles captou bem as contradições sociopolíticas do final do século 19, colocando-as em xeque sob o ponto de vista da ciência, mas não só. “Wells foi um escritor de antecipação, não de ficção. Tudo o que escreveu praticamente se tornou realidade”, afirma o cenógrafo Jair Correa.
No espetáculo, um quarto de uma instituição religiosa, quarto de uma pessoa desmemoriada, serve como metáfora para a ilha.
Diante de personagens e situações de suspense, o espectador também experimentará uma trajetória de perdição, como a do narrador de Welles, Edward Prendick, que na ficção sobrevive ao naufrágio e, mais que isso, às castrações que sofria num ambiente sombrio e hermético. (Ainda que, retornando à civilizada Inglaterra, viria a notar que muito do que o dr. Moreau experimentava já se tornara regra cotidiana.)
Criado há 16 anos, o Fora do Sério é conhecido e premiado pela apropriação da linguagem da Commedia dell’Arte, movimento teatral popular surgido na Itália no século 16, que se utiliza principalmente de máscaras. Aqui o grupo busca outro registro. Não que as máscaras, como se viu em “Mistério Bufo” (92) e “Auto da Barca do Inferno” (02), tenham sido abolidas; antes, recriadas.
28.4.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 28 de abril de 2005
TEATRO
Zé Celso e Gerald Thomas levantam bandeiras políticas em espetáculos que estréiam em SP
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
As novas peças de José Celso Martinez Corrêa e Gerald Thomas, que entram em cartaz nesta semana em São Paulo, estão impregnadas do discurso político.
Zé Celso, 68, por exemplo, faz referências explícitas ao novo papa, Bento 16, em “A Luta – 1ª Parte”. Ele mesmo, o diretor e ator, que já interpretou um papa em “Ela” (1997), de Jean Genet (1910-86), agora surge em vídeo caracterizado como o pontífice alemão.
“O Bento 16 diz que é preciso enfrentar a ditadura do relativismo e cair na democracia do fundamentalismo. Mas são as democracias republicanas fundamentalistas que massacram os povos que têm autonomia, como mostrou “Os Sertões”, um livro universal e profético”, diz Zé Celso.
A degola de soldados em Canudos (BA) é colocada em perspectiva pelas cenas de horror que militares norte-americanos protagonizaram em Fallujah, no Iraque.
A interpretação das realidades brasileira e internacional (a mídia é colocada em xeque o tempo todo) não está no panfleto. E se quer orgânica. “Minha direção nasce de uma visão poética que tenho do teatro. Poética, para mim, é política. É a mesma coisa. Poética, política e poder. O poder do teatro”, diz Zé Celso, que assina a dramaturgia da transcriação do épico de Euclides da Cunha.
Thomas, 50, diz que faz sua peça “mais brasileira” em “Um Circo de Rins e Fígados”, que também escreveu. Ao final, na seqüência de um crime, a colorida bandeira do país contracena com uma bandeira preta, à la Glauber Rocha. Um dos atores do coro que vela um cadáver traz na camisa a inscrição G-8. Tudo ao som do Hino Nacional em versão batucada.
“Eu sou como o Brasil, não tenho solução, sou um problema”, diz o protagonista. Thomas se diz “deprimido”, “com vergonha da reeleição de Bush, irado com a invasão do Iraque, furioso e frustrado pela morte tão absurda de mais de uma centena de milhares de civis iraquianos e com a transgressão escancarada de todos os tratados assinados em Genebra e em outros lugares a respeito do respeito sobre os direitos humanos; irado e frustrado e perplexo com estas chacinas no Brasil, essa violência que não pára, com esta burrice que a televisão mundial espalha e que não pára, estes reality-shows que se procriam como se fossem o outro lado do terrorismo…”
27.4.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 27 de abril de 2005
TEATRO
Aos 70 anos, autor participa, no Sesc Ipiranga, em São Paulo, de evento que resgata peças que criou com Augusto Boal
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Para Gianfrancesco Guarnieri, 70, é mais fácil abrir uma peça com música composta do que com um protocolar “cena 1”. Ele fez assim em alguns dos cerca de 25 textos que escreveu, muitos deles musicais, como “Arena Conta Zumbi” (1965) e “Arena Conta Tiradentes” (1965), em co-autoria com Augusto Boal.
Trechos das peças serão encenados amanhã e sexta-feira, no Sesc Ipiranga, em São Paulo, dentro do projeto “Em Cena, Ações!”, que relembra ícones do repertório teatral brasileiro dos anos 60 e 70, em plena ditadura militar.
Hoje é dia de hemodiálise para Guarnieri. São três sessões por semana, enfrentadas com mais humor e esperança do que há quatro anos, quando iniciou o tratamento. Na tarde do último domingo, após almoço em família, Guarnieri recebeu a Folha em sua casa, na serra da Cantareira. Ao lado, a mulher Vanya Sant’Anna, 61, socióloga com quem está casado há 40 anos e com quem também contracenou em “Zumbi”.
EDU LOBO – O “Arena Conta Tiradentes” tinha músicas de Caetano, de Gil, de Sidney Miller, Theo de Barros e daí por diante. Eram muitos. Enquanto “Arena Conta Zumbi” tinha um autor só. Sem querer desfazer dos outros, era um só com essa grande responsabilidade. O Edu Lobo era fantástico; moçíssimo, tinha acabado de ser premiado no Festival da Excelsior [1965, com “Arrastão”, parceria com Vinicius de Moraes e interpretação de Elis Regina]. O melhor mesmo é quando você tem um compositor com o qual se afina, conversa, vai junto, aí é muito legal. O Edu ficou com a gente. Éramos dois tímidos, uma coisa terrível. Eu perguntava: “Dá para tocar?”. Ele respondia: “É bom”. Ficamos nessa dois dias, até que chegamos a coisas que realmente nos entusiasmaram.
PÁTIO DOS MILAGRES – A única coisa que a gente poderia fazer era sobre a história brasileira, porque aí ninguém cobraria, não proibiriam logo de cara. Chegamos à conclusão de que Zumbi seria realmente fantástico. Foi o início de um intercâmbio muito grande entre nós e os diversos setores das artes, desde instrumentistas, compositores, atores, jornalistas, enfim, eram todos. Parecia que um fio começava a se juntar. Aquilo se tornou realmente um pátio dos milagres, no bom sentido. Vinham pessoas de outros Estados e se juntavam lá no Redondo [bar e restaurante na esquina da av. Ipiranga com a r. Teodoro Baima, em frente ao Arena, reduto de artistas e intelectuais].
DOENÇA – É uma insuficiência renal crônica. Essa aí, ou você fica fazendo hemodiálise, três vezes por semana, como eu, ou faz um transplante. Ainda bem que existe a hemodiálise, sempre agradeço. Após quatro anos, sinto-me mais animado. A doença dá uma depressão terrível, aquele cansaço. Não é moleza, não. Mas, ao mesmo tempo, não é dizer: “Que terrível, morreu”. Morreu o escambau. Está aí e vai em frente, rapaz, com todo o sorriso de felicidade que tem. A ciência trabalha com essas tecnologias todas e, puxa, te dá um rim novo. Uma injeçãozinha e uma maquininha te viram o sangue de cabeça para baixo. Estou discutindo com os médicos para saber se vale a pena tentar o transplante ou se deixa para lá.
REALISMO SOCIALISTA – A questão da transformação, eu acho que continua. Não escrevo nada que não vá transformar. Agora, ao mesmo tempo, não posso me esquecer daquela tendência à ingenuidade na nossa juventude. De achar que vai dar tudo certo, é assim mesmo, ah, não tem galho, porque a gente sempre termina ganhando. Depois, percebemos que não era nada disso. O que realmente não admito é deixar a bola cair. Há momentos em que cai; puxa, tudo é uma bosta. Mas isso é um momento e, depois, deixa de frescura, bicho, vai em frente.
OS PORQUÊS – E tem o lado que eu me preocupo cada vez mais, que é com as grandes questões filosóficas, os porquês disso, daquilo. De onde vem a vida? Vou lá saber… Aí começo a rir. Perguntar para mim mesmo é covardia. E é lindo você pensar de onde veio e para onde vai. Eu talvez me preocupe mais para onde vou. Mas sei que para onde vou terei uma calma. Se você me perguntar se tenho medo da morte, não tenho, me enturmo com o que vier. Eu tenho medo do sofrimento. Eu sei que o que vier vem de bom.
OTÁVIO, TIÃO E AGILEU – Para imaginar esses personagens [de “Eles Não Usam Black-Tie” e “A Semente”, ambas sob o ponto de vista dos operários] na atual sociedade brasileira, é preciso colocá-los imutáveis. Seriam daquela época vivendo hoje. Acho que eles enlouqueceriam, não agüentariam. Têm coisas sólidas na cabeça, a questão moral. Esses caras não mudariam nada, possuem uma ética brutal.
25.4.2005 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 25 de abril de 2005
TEATRO
Espetáculo histórico de Millôr Fernandes e Flávio Rangel é remontado por Cibele Forjaz e vai a universidades
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Em discurso de posse neste ano, o presidente George W. Bush, reeleito, usou e abusou do “poder da liberdade”. Referiu-se a ela 42 vezes (“freedom”, “liberty”).
Quarenta anos atrás, Millôr Fernandes, 81, e Flávio Rangel (1932-88) bradavam por “Liberdade, Liberdade” em contexto político bastante diverso.
Os autores abriram espaço para o teatro de protesto em plena ditadura militar, numa co-produção dos grupos Opinião e Arena que estreou num teatro improvisado do Rio de Janeiro, em 21 de abril de 1965.
Para rememorar o espírito daquela época e repensar o conceito de liberdade nos tempos atuais (o passado que reinterpreta o presente), uma remontagem da peça será levada neste semestre a 40 universidades da capital e da Grande São Paulo.
O projeto Teatro nas Universidades começa hoje com apresentação fechada da peça no auditório da Fundação Getúlio Vargas.
Cibele Forjaz dirige os atores Renato Borghi, Débora Duboc, Élcio Nogueira, Paulo Goulart Filho e o músico Celso Sim. Eles se desdobram nas 56 vozes de “Liberdade, Liberdade”, que combina política, poesia, humor e música a partir de trechos de obras clássicas. O roteiro passeia por julgamentos como o do filósofo grego Sócrates (470-399 a.C.), que preferiu a cicuta ao pedido de clemência, e o do poeta russo Joseph Brodsky (1940-1996), condenado a trabalho forçado pelo regime comunista.
Há ainda remissões a eventos históricos como a Revolução Francesa (1789) e a Guerra Civil Espanhola (1936-39). Mas o espetáculo não se quer uma aula, ao contrário. Millôr e Rangel não abriram mão do humor, e tampouco o fará a nova versão, que enxertou fatos e personagens contemporâneos. Impossível escapar de Bush, por exemplo.
“Há 40 anos, a peça fez comício em relação ao golpe militar, o país tinha um inimigo comum e o mundo estava dividido em dois [EUA e URSS]. A peça tem essa vocação para fazer o público refletir sobre as possibilidades de transformação, e é isso que a torna obra de arte, tanto ontem como hoje”, diz Forjaz, 38.
“É um espetáculo de contraposições entre os discursos pelas liberdades bélica e utópica”, diz Borghi, 68, estimulado a reencontrar o público universitário, maioria nas platéias dos anos 60 e 70.
Cada sessão será seguida de debate. O de hoje reúne o jornalista Gilberto Dimenstein, colunista da Folha, e um professor da instituição, Mario Aquino Alves. A mediação é do ator Tadeu di Pyetro.
Entre os nomes que já estão confirmados para participar dos próximos encontros, estão Lauro César Muniz, Augusto Boal, Aderbal Freire-Filho, Domingos Oliveira, Oswaldo Mendes, José Renato, Consuelo de Castro, Ulysses Cruz, Umberto Magnani e Antonio Abujamra.
Universidades e faculdades que estiverem interessadas em receber a montagem podem entrar em contato pelo tel. 3258-1110, ramal 7, ou então pelo e-mail teatronasuniversidades@pop.com.br