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“Valmir Santos"

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Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 09 de julho de 2007

TEATRO 

Mostra no interior paulista começa nesta noite com 18 grupos nacionais e 8 estrangeiros, incluindo a companhia francesa 111 e o coletivo holandês Dakar
 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O conceito de impermanência, que está na natureza cíclica do universo, do pensamento filosófico, da prática espiritual e da criação em artes cênicas, para citar algumas veredas, ocupa o centro da arena no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (a cerca de 450 km de São Paulo). O evento começa hoje e dura 13 dias.

Sua sétima edição internacional (nasceu em 1969 em âmbito amador e depois universitário) prioriza os grupos de pesquisa, ou os laboratórios, como são conhecidos na Europa os núcleos voltados à experimentação cênica e dramatúrgica.

Maioria acostumada à impermanência do ponto de vista das condições de trabalho, 18 coletivos brasileiros de palco, rua e espaços não-convencionais cruzam com oito companhias estrangeiras estáveis graças às políticas públicas de seus países.

Segundo o co-diretor-geral do FIT Rio Preto, Jorge Vermelho, independentemente das origens, todas as atrações perseveram na investigação e nos riscos criativos.

Metade dos participantes internacionais vem da França, tradicional na subvenção à cultura. Entre as companhias, estão a Transe Express, que passou pelo paulistano vale do Anhangabaú com “Mobile Homme” e protagoniza a abertura desta noite, ao ar livre, na represa, e a cia. 111 & Phil Soltanoff, com “Plan B”, segunda parte de trilogia sobre a busca de uma escrita poética para a cena: malabarismo, acrobacia, música etc.

Um projeto da Holanda, “Braakland”, com a cia. Dakar, e outro da Argentina, “Audiotur Ficcional”, com a BiNeural-Monokultur, chamam a atenção pelas propostas. No primeiro, inspirado em conto do sul-africano J.M. Coetzee, o público é transportado de ônibus até local desconhecido, possivelmente um terreno no qual seja possível enxergar os artistas ao ermo, num horizonte próximo.

Já o projeto argentino faz uma intervenção urbana na qual o espectador deve redescobrir lugares da cidade por meio de narrativa em áudio, gravação que o guiará a outras realidades.

Espectros da tragédia também rondam o festival. Há duas variantes do mito de Medéia. A espanhola cia. Atalaya traz “Medea – La Extranjera” (2004), em que a protagonista de Eurípides, Sêneca e Heiner Müller é quadruplicada em atrizes conforme os elementos da natureza: terra, fogo, água e vento. O subtítulo refletiria a condição do sujeito contemporâneo que parte em busca do “bezerro de ouro” em terras estrangeiras e sofre barbaridades na civilização.

Soma-se a essa releitura a “Medeamaterial” (2001), de Müller, pelo pedagogo e encenador russo Anatoli Vassiliev. Ele encerrará o festival, no dia 21/7, com a exibição em vídeo do solo da francesa Valérie Dreville, seguida de conferência.

O FIT Rio Preto é uma realização da prefeitura e do Sesc SP. Algumas atrações estarão em São Paulo. O “Hamlet” do grupo Teatro del Contrajuego (Venezuela) faz sessões nos dias 14 e 15/7 no Sesc Anchieta (sáb., às 20h, e dom., às 18h30, R$ 20). Vassiliev fala no Sesc Consolação dia 17/7 (às 19h30, entrada franca). “Medea – La Extranjera” tem apresentações de 19 a 22/7 no teatro São Pedro (qui. a sáb., às 20h30, e dom., às 17h, R$ 10). 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 07 de julho de 2007

TEATRO 
“Salmo 91” é adaptação do livro “Estação Carandiru”

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Chegou a vez do teatro dar sua versão para as experiências de Drauzio Varella como médico voluntário na Casa de Detenção de São Paulo, relatadas no livro “Estação Carandiru”. Depois do cinema e da televisão, Gabriel Villela dirige a adaptação do jornalista Dib Carneiro Neto, “Salmo 91”, que estréia hoje no Sesc Santana. 

Na peça, Varella, colunista da Folha, não aparece. Nem como narrador. A adaptação opta em dar voz a dez personagens reais com os quais o autor conviveu. A dramaturgia surge na forma de dez monólogos em tom confessional, com falas dirigidas à platéia, da boca de cena, sem que os presos se cruzem. 

A intercalação cabe ao único sobrevivente desse time, Dadá (interpretado por Pascoal da Conceição). No dia 2 de outubro de 1992, em que oficialmente 111 presos foram mortos pela polícia, Dadá desobedeceu ao pedido da mãe para que lesse o referido salmo. Só o fez depois do massacre: “Mil cairão à sua direita, e dez mil à sua esquerda, mas a ti nada acontecerá, nada te atingirá”. 

Encenador marcado pela estética barroca, herança do berço mineiro que o leva a preencher a cena com minúcias, Gabriel Villela, 48, diz deparar aqui com o desafio do realismo. “Tenho enorme dificuldade em lidar com a subtração”, diz. 

Pelo ensaio a que a Folha assistiu, o vazio é evidente na grande área do gol que demarca todo o palco, tal qual campo de futebol. Nas laterais, painéis evocam o inferno de Dante Alilghieri em “A Divina Comédia”. A tragédia do Carandiru teria sua origem numa final interna de campeonato que terminou em briga de facções. 

Villela diz conceber sua montagem com um dos princípios da tragédia grega: “A palavra é mais importante que a ação, como vemos por exemplo em “Prometeu Acorrentado”, de Ésquilo”, afirma. 

“Salmo 91” promove reencontro de Villela com o ator Rodolfo Vaz, do Galpão, 14 anos depois de “A Rua da Amargura”.



Salmo 91
Quando: estréia hoje, às 21h; sex. e sáb., às 21h; e dom., às 19h 
Onde: Sesc Santana – teatro (av. Luiz Dumont Villares, 579, tel. 6971-8700) 
Quanto: R$ 8 a R$ 20 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 05 de julho de 2007

TEATRO 

Com direção de Marcio Aurélio, “A Metafísica do Amor” estréia amanhã em SP
 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

Há cinco anos, no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (SP), o encenador Marcio Aurélio e o ator Paulo Marcello, ambos do premiado “Agreste”, co-fundadores da Cia. Razões Inversas (1990), apresentaram uma performance baseada em idéias do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860). 

Agora, a experiência ganha corpo como espetáculo, somando-se a presença da atriz e bailarina Marilena Ansaldi em “A Metafísica do Amor”, a partir de amanhã, no teatro Sérgio Cardoso. Além da referência do título à obra do autor de “Metafísica do Amor, Metafísica da Morte”, que, entre outras questões, versa sobre instinto e sobrevivência, a montagem promove cruzamento com as provocações existenciais do francês Gustave Flaubert (1821-1880) em “As Tentações de Santo Antão”. 

“Apesar da visão romântica, as teorias de Schopenhauer são propícias à reflexão do caráter do homem contemporâneo, suas relações com a natureza, sua sexualidade, o amor, a morte”, diz Aurélio, 57. Flaubert serve como complemento para ler a sociedade atual. “Gosto do aspecto mítico de Santo Antão, personagem que viveu entre os séculos 3 e 4. 

É figura emblemática do cristianismo, se diferencia dos demais santos porque não tem uma busca muito firme de propósitos. Seu isolamento leva à autoreflexão sobre a existência”, diz Aurélio. “Flaubert escreveu o livro no momento em que a burguesia estava envolta no romantismo, mas também posicionava-se com atitudes.” A dramaturgia costurada em equipe por Aurélio é densa, não há propriamente um fio condutor. Em cena, um homem, em conflito, se alucina com o desejo reprimido. Em determinada passagem, surge o contraponto feminino com Ansaldi, que cria movimentos ao som de Vivaldi. 

Aurélio a dirigiu em “Hamletmachine” (1987) e “Desassossego” (2005). O desejo do espetáculo, diz o encenador, é pensar justaposições e reorganizações em tempos pós-modernos em que misturas e retaliações levam a novas identidades. No sábado, Marcio Aurélio embarca para a Espanha, onde dirige, de 13 a 15/7, a cantora portuguesa Maria João Pires no concerto “Schubertiade”, com participação de artistas internacionais, entre eles os brasileiros André Mehmari e Jussara Silveira. 



A metafísica do Amor
Quando: estréia amanhã, às 21h30; sex., às 21h30, sáb., às 22h e dom., às 20h; até 26/8 
Onde: teatro Sérgio Cardoso -sala Paschoal Carlos Magno (r. Rui Barbosa, 153, tel. 0/xx/11/3288-0136) 
Quanto: R$ 20

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 04 de julho de 2007

TEATRO 

Após admitir erros em edital de fomento ao teatro, secretário propõe desburocratizar prestação de contas
 

VALMIR SANTOS

Da Reportagem Local

No início da polêmica sobre alterações publicadas no 11º edital da Lei de Fomento, em maio, o secretário municipal Carlos Augusto Calil (Cultura) suspeitava de que artistas e produtores de teatro de São Paulo tentavam “politizar” o debate, pelo “tom agressivo” com que foi abordado em cartas e manifestações públicas.

Dias depois, Calil elogiou justamente a “reunião política de alto nível” que, em sua opinião, restabeleceu o diálogo na sexta passada. Entre os interlocutores que recebeu em seu gabinete, estavam os diretores José Renato, fundador do Teatro de Arena; César Vieira, do Teatro União e Olho Vivo; e representantes da Câmara Municipal e da Assembléia Legislativa.

Conclusão: Calil admitiu “erros por excesso de zelo” de sua equipe, erros técnicos em conflito com o já estabelecido em lei (como o número de indicados à comissão). Corrigiu-os e republicou o edital, prorrogando as inscrições para até 23/7.

E os artistas, representados sobretudo pela Cooperativa Paulista de Teatro, reativaram a capacidade de articulação que está na origem do Programa Municipal de Fomento em São Paulo, em vigor há cinco anos: o movimento Arte contra a Barbárie, união de grupos que, a partir do fim dos anos 90, gera documento paradigmático das políticas públicas para o setor.

Na sexta, sobrou até para um carregador de cocos, “contratado” por artistas para transportar em seu carrinho, da praça D. José Gaspar, sede da cooperativa, à Galeria Olido, base da secretaria da Cultura, os 59 projetos de grupos inscritos no edital. “A cordialidade, como disse o secretário, voltou à mesa”, diz Ney Piacentini (Cia. do Latão), presidente da cooperativa.

Mas restam arestas quanto à prestação de contas. Piacentini diz que os grupos não se negam a fazê-la, pois “defendem a transparência e o acompanhamento da secretaria desde o começo”. O problema seriam “procedimentos burocráticos”.

Em correspondência enviada a César Vieira, Calil reconhece a queixa e propõe transformar as três etapas previstas de prestação de contas em uma só, a ser realizada “até 60 dias do término do projeto”. A cooperativa estuda a sugestão.

Em dois editais por semestre, o fomento reparte cerca de 9 milhões aos núcleos de pesquisa -foram 30 em 2006. Segundo Piacentini, o programa atingiria hoje cerca de 10% da população de São Paulo (ou 1,5 milhão de pessoas), entre espectadores e trabalhadores.

A cooperativa deve publicar neste ano um livro com balanço dos cinco anos da lei pelos pesquisadores Iná Camargo Costa e Dorberto Carvalho. 

Folha de S.Paulo

São Paulo, domingo, 01 de julho de 2007

TEATRO 
Cia. Anjos Pornográficos estréia adaptação de poema

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

“Sem o relógio, tudo é mais afastado e misterioso”, diz uma das três veladoras da donzela morta em “O Marinheiro” (1913), poema dramático de Fernando Pessoa (1888-1935) -ou “drama estático”, como preferia-, em rara incursão pelo teatro. 

A peça tem seu título multiplicado como os heterônimos do escritor português em “Os Marinheiros”, montagem da Cia. Anjos Pornográficos que entra em cartaz hoje no Instituto Cultural Capobianco. Dirigido por Miguel Hernandez, 38, o espetáculo faz parte da Mostra Estadual de Teatro – Prêmio Desabrochar, com curadoria de Ricardo Muniz Fernandes. 

Na concepção dramatúrgica, também por Hernandez, Pessoa é convertido no morto (ou “quase morto”) velado por três mulheres. O marinheiro em questão é personagem da história narrada por uma das moças naquela noite. O enredo dela, de forte carga simbólica, fala de um homem que naufraga numa ilha e se safa, anos a fio, por meio da imaginação, a ponto de confundi-la com a realidade. 

“Situamos a ação dentro da cabeça de Fernando Pessoa em seu último dia de vida, quando internado com problemas hepáticos. Em meio a distúrbios e delírios que sofreu, ele relembra as veladoras do texto que criou na juventude”, diz Hernandez. 

O diretor co-fundou a companhia em 2000, na cidade portuguesa do Porto, onde três anos depois dirigiu sua primeira versão da obra. O núcleo paulista é de 2005. No elenco, estão Danielle Farnezi, Natália Corrêa e Virginia Buckowski. 

A mostra estadual segue até setembro, com mais duas montagens: “Ay, Carmela!”, de José Sanchis Sinisterra (4 a 26/8), e “Clarices”, com textos de Clarice Lispector (1º a 23/9). 



Os marinheiros
Onde: Instituto Cultural Capobianco -teatro da Memória (r. Álvaro de Carvalho, 97, centro, tel. 3237-1187) 
Quando: estréia hoje, às 18h; sáb., às 20h, e dom., às 18h. Até 29/7 
Quanto: R$ 20 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 30 de junho de 2007

TEATRO 

Companhia encena “Se Eu Fosse Eu…”, inspirada no livro “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”
 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Se a obra de Clarice Lispector (1925-77) manifesta-se ao leitor como extensão da vida, então é desejável que o teatro que a visite também firme esse elo. 

“O termo presença cênica não corresponde somente ao palco, mas à vida de quem cria e de quem recebe o espetáculo”, afirma o diretor Antônio Januzelli, 66, o Janô, que assina o espetáculo “Se Eu Fosse Eu…”. 

O trabalho da Companhia Simples teve curta temporada em São Paulo, um ano atrás, e volta hoje no Núcleo Experimental de Teatro (N.Ex.T). 

Os sentidos da aprendizagem perpassam ator, espectador e escritora. A inspiração para a montagem vem justamente do romance “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” (1969). 

Trata dos conflitos íntimos da protagonista, Lóri, para alcançar Ulisses e se deixar levar pelo sentimento amoroso. 

A iniciativa é do quarteto de atores que passou pelo Laboratório Dramático do Ator, na USP, sob coordenação de Janô. “No início, o Janô supervisionava o trabalho. Na nova temporada, ele assume a direção de vez, traz delicadeza e profundidade através de seu olhar sutil para a prática do ator”, diz a atriz Flavia Melman, 28. 

Segundo ela, o espetáculo tenta se esquivar da cortina existencial que às vezes é colocada automaticamente sobre a autora e obscurece os sentidos (de novo) da razão e da emoção. “Depois da primeira temporada, no Tusp, a gente se apresentou para públicos diversos, como adolescentes. 

Eles mergulham de outra forma, escolhem outras linhas de aproximação com o espetáculo, como as movimentações energéticas do corpo em cena”, diz Melman. A intérprete compartilha o palco com Daniela Duarte, Luciana Paes de Barros e Otávio Dantas. 

A Companhia Simples vem à luz em 2003 e logo elege Clarice como moto-contínuo de pesquisa alimentada por improvisação e expressão corporal. “Se Eu Fosse Eu…”, o primeiro espetáculo, é embrionário do experimento “Porque o Ar em Movimento É Brisa” (2005), apresentado no Sesc Pompéia.



Se eu fosse eu…
Onde: N.Ex.T (r. Rego Freitas, 454, Vila Buarque, tel. 0/xx/11/3106-9636) 
Quando: reestréia hoje, às 20h; sáb. e dom., às 20h; até 15/9 
Quanto: R$ 20
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 28 de junho de 2007

TEATRO
Atriz volta a SP com peça de Flavio de Souza que marcou sua estréia no palco, há 18 anos 

Montagem tem direção de Walter Lima Jr. e Murilo Benício como o morto que passa a limpo relação com viúva durante velório

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

A atriz Marisa Orth tinha 25 anos quando estreou profissionalmente no palco, num teatro que se chamava Igreja, no Bexiga, em São Paulo. Fazia o papel de uma viúva na noite do velório do marido -estirado na cama, e não no caixão, encostado no corredor da casa. Afinal, era e é uma comédia mais sobre a alcova do que sobre o além. Orth, 43, volta a “Fica Comigo Esta Noite”, de Flavio de Souza, que a dirigiu em 1988. A nova montagem é assinada por Walter Lima Jr., cineasta recém-chegado ao teatro.

Estreou no Rio em 2006, girou por vários Estados e cumpre temporada em São Paulo a partir de amanhã, no Teatro Folha. 

A intérprete da viúva diz que amadureceu com as experiências desses 18 anos; ela, que se tornou uma celebridade de novelas, programas humorísticos e capas de revista masculina. “Hoje, minha idade é mais próxima à da viúva. Antes, era difícil imaginar uma mulher que tivesse vivido um casamento de mais de dez anos, sofrido desgastes. Eu era muito nova, não tinha subsídios para falar de amor e de morte”, diz Orth. 

No final dos anos 80, ela freqüentava o underground com a banda Luni, ao lado de Théo Werneck, Natália Barros e outros. Emendou depois com a banda Vexame. A carreira logo virou revezamento entre música, teatro, TV e cinema. De volta ao cartaz em um palco da cidade onde nasceu, Orth atribuiu sua revelação, na época, à qualidade do texto de Souza. Aquela versão era praticamente um monólogo. O defunto, interpretado por Carlos Moreno, tinha menos peso nas falas e ações. Agora, a atriz contracena com Murilo Benício. 

Foi com a produção carioca de 1990, dirigida por Jorge Fernando e interpretada por Débora Bloch e Luiz Fernando Guimarães, que Souza consolidou a dramaturgia. “Uma comédia de velório”, como brinca Orth. Ou uma “comédia dramática”, como prefere o autor. Ela é uma dona de casa que nunca saiu do bairro onde nasceu. O clímax de sua vida foi o casamento. Ele, funcionário de uma firma medíocre, teve o ápice da existência na morte. Na peça, os personagens atravessam presente e passado.
A viúva é a interlocutora das pessoas invisíveis que dão as caras na noite: o chefe dele, as moças do escritório, o padre, a vizinhança, os parentes etc. 

O espectador é cúmplice das falas-pensamentos do morto, que levanta da cama e circula para lá e para cá. “Faz tempo que morri. Olha, estou com o terno novo. De gravata. É a mesma do casamento. O quarto está cheio de gente. Não me puseram na sala. Ela não quis”, diz ele, em tom confessional. 

No princípio, ela não ouve as intervenções do “espírito”. Até que, na segunda parte do espetáculo, numa atmosfera de sonho, eles ficam sozinhos (todos são expulsos da casa). Finalmente, entabulam uma conversa e acertam as contas na cerimônia particular de adeus. “Apesar de certas passagens patéticas, a comédia emociona, faz o público sair do teatro e pensar sobre relações, despedidas, tempo perdido”, diz Orth.



Fica comigo esta noite
Onde:
Teatro Folha – shopping Pátio Higienópolis (av. Higienópolis, 618, 2º piso, tel. 0/xx/11/3823-2323) 
Quando: estréia amanhã, às 21h30; sex., às 21h30; sáb., às 20h e 22h; e dom., às 19h30. Até 16/9 
Quanto: R$ 60 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 27 de junho de 2007

TEATRO 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Artistas e produtores, de um lado, e Secretaria Municipal da Cultura, de outro, enfrentam-se por conta do 11ª edital do Programa de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. A Cooperativa Paulista, que representa mais de 90% dos grupos, pede alterações na lei assinadas em maio pelo secretário Carlos Augusto Calil, sobretudo quanto à obrigatoriedade de prestação de contas dos selecionados.

“Qual o problema em prestar contas? Tenho certeza de que a cooperativa é idônea”, diz Calil. Ele afirma que é determinação da Constituição Federal e da Lei Orgânica do Município. Até então a Lei de Fomento pedia a justificação de despesas por meio de relatório de atividades e de processo de espetáculo. Segundo a cooperativa, as novas exigências tornarão o processo mais burocrático.

Calil admite erros apontados no edital lançado, como o do valor máximo que poderá ser concedido a cada projeto (até R$ 577 mil, e não R$ 543 mil). Para corrigi-los, prorrogou o prazo de inscrições por um mês, até 23/7, mas resiste em voltar atrás quanto à prestação de contas.

Na manhã de anteontem, cerca de 200 artistas se manifestaram em frente à sede da secretaria, na Galeria Olido. Ney Piacentini, presidente da cooperativa, entregou a Calil carta em que relata insatisfação com “equívocos” e “abusos”.

Piacentini afirma que a lei, implantada há cinco anos, é auto-regulamentada e que nem os artistas, nem o Legislativo, teriam sido chamados para discutir as mudanças.

Nova reunião do secretário com artistas e produtores está prevista para hoje à tarde na SMC. O programa de fomento apóia a manutenção e criação de trabalho continuado de pesquisa e produção teatral. São dois editais por ano, uma composição de verba de cerca de R$ 9 milhões. 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 21 de junho de 2007

TEATRO

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Praga

Entre 55 países, Brasil e Rússia coincidiram ao escolher dramaturgos de peso como eixo de suas exibições na 11ª Quadrienal de Praga (República Tcheca), que termina domingo. Na confluência da palavra para o desenho de cena, porém, Anton Tchecov se saiu melhor que Nelson Rodrigues, conforme o júri. 

No início da semana, artistas da Rússia conquistaram o troféu mais importante do encontro, pelo tratamento dado ao tema. Triunfaram sobre o uso duvidoso de tecnologias e o pendor institucional de boa parte das representações nacionais. Por 11 dias, estandes que exibem a produção contemporânea em palcos e espaços alternativos ocupam o salão central do Palácio Industrial. 

A PQ (sigla da Quadrienal) nasceu há 40 anos sob influência da Bienal de Artes de SP, que dedicava espaço ao teatro. O encontro se propõe a incentivar a formação e acolher tendências da criação e pesquisa em cenografia, figurinos e arquitetura e tecnologia para teatro. 

O estande brasileiro não decepciona dentro do que se propõe. A estrutura de ferro em espiral, co-criação de Daniela Thomas, permite ao visitante experimentar ascensão e queda ao percorrer imagens em vídeo e fotos de montagens, pontuadas por frases de Nelson Rodrigues. 

O problema talvez seja esse: a palavra rouba a cena. Não por acaso, o curador da exibição brasileira, o ator Antônio Grassi, distribuiu no local 900 livros da edição inglesa do autor publicada pela Funarte em 1998. O órgão do MinC, que Grassi presidia até 2006, investiu cerca de R$ 800 mil. Foi a verba mais robusta em participação brasileira. Desde 1967, nunca tantos profissionais ou estudantes brasileiros foram a Praga (cerca de 30), a maioria às próprias custas, em busca de aperfeiçoamento. 

Na seção de arquitetura e tecnologia, tampouco a mostra com maquetes e desenhos de obras de Niemeyer, “escondida” na ponta do espaço expositivo, convenceu o júri. Aliás, não houve premiação em arquitetura. Ao evocar Tchecov, a Rússia dá sentido orgânico à dramaturgia e ao espaço. Observada nos estandes da PQ, a cenografia até pressupõe certa autonomia, mas incorre em armadilha, posto que só ganha “corpo” quando encontra o ator, a luz, o som etc. 

O atual espírito pantanoso da Rússia é esculpido em maquetes sobre pratos, cadeiras, gaiola; enfim, suportes frágeis diante do peso da existência. Goteiras, piso encharcado e botas de borracha sugerem, quem sabe, o drama de um país em xeque.
 

O jornalista VALMIR SANTOS viajou a convite da Funarte/ MinC.

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 14 de junho de 2007

TEATRO
Beatriz Azevedo assina a peça “Matamoros [da Fantasia]”, adaptação do texto da poeta que começa temporada em SP 

Elenco tem Sabrina Greve como protagonista e Maria Alice Vergueiro como mãe; peça se baseia no livro “Tu Não Te Moves de Ti”  

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Ainda adolescente, “descabelada”, a poeta Beatriz Azevedo ganhou o livro “Tu Não Te Moves de Ti” das mãos da própria Hilda Hilst (1930-2004). “Ali estava “Matamoros, da Fantasia”. Este vertiginoso texto em prosa poética foi meu ponto de partida no universo literário de HH”, escreve ela no programa da sua adaptação teatral que pré-estréia hoje para convidados no Centro Cultural Banco do Brasil. A temporada começa amanhã. 

“Matamoros [da Fantasia]” é um espetáculo que reaproxima Beatriz do teatro. Nos anos 90, ela levou Oswald de Andrade, Maiakovski e outros para a cena, sempre em interseção com outras expressões artísticas, como agora: a música, as artes plásticas e o vídeo. 

“O teatro é lugar privilegiado para a palavra da Hilda. Ela é eloqüente, não é para ler em casa, aquela literatura intimista, não”, afirma Beatriz. Para protagonizar a trajetória de Matamoros, menina nascida numa aldeia longínqua, que cresce vigiada pela mãe por travar experiências sensoriais com a natureza (dialogando com o “corpo da água”, bebendo o vinho das frutas carnudas, embriagando-se com o vermelho dos morangos), a diretora usa o mesmo ímã de Hilst e traz de volta ao palco Sabrina Greve, atriz formada com Antunes Filho e há quatro anos dedicada ao cinema e à televisão. 

“A Matamoros tem um percurso a cumprir e se deixa levar pela fantasia, não discerne a realidade, parece criança”, diz Sabrina. “Começa a alimentar uma desconfiança com a mãe e dá vazão a pensamentos livres. 

Age e sofre muito por isso.” A personagem é movida pela curiosidade e atiça os meninos da aldeia. Ela contracena com a mãe Haiága (Maria Alice Vergueiro), com quem trava duelos verbais, ameaçando matá-la ou matar-se. Junto desse diálogo de gerações, Maria Alice se diz estimulada. “Como eu tenho filha e mãe, estou dando uma mergulhada nessa minha relação também. E começo a perceber que tem algum denominador comum, essa história de passar o bastão, por exemplo.” 



Matamoros [Da Fantasia] 
Quando: pré-estréia hoje (convidados), às 20h; qui. a sáb., às 19h30; dom., às 18h; até 5/8 
Onde: CCBB-SP (r. Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651) 
Quanto: R$ 15