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“Valmir Santos"

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Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 13 de junho de 2007

TEATRO 

Principal evento mundial de cenografia, Quadrienal começa amanhã na República Tcheca

Por três vezes curador do Brasil na mostra, J.C. Serroni agora faz parte do júri; Daniela Thomas co-desenha estande brasileiro
 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

 
O dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) e o arquiteto Oscar Niemeyer, 99, são homenageados na representação brasileira da 11ª Quadrienal de Praga (PQ, na sigla original). A exposição abre amanhã no Palácio Industrial, complexo em estilo art noveau construído em 1891 na capital da República Tcheca. A cada quatro anos, e há quatro décadas, o encontro internacional projeta tendências na criação e pesquisa em cenografia, figurinos e arquitetura para teatro.

O universo das peças e crônicas de Nelson inspira trabalhos exibidos nas seções nacional (destinada à cenografia e a figurinos de espetáculos) e escolas de cenografia (projetos de estudantes). Niemeyer comparece no terceiro módulo do evento, o de arquitetura teatral. Leva quatro concepções de palcos italianos (Niterói, Duque de Caxias, parque Ibirapuera e Avilés, na Espanha) caracterizados por uma segunda boca de cena ao fundo, que se abre para uma praça ou um parque.

O Brasil mantém forte vínculo com o evento. As representações da antiga Tchecoslováquia na Bienal Internacional de São Paulo (1957, 1959 e 1965), encabeçadas por artistas como Frantisek Troster e Josef Svoboda, foram determinantes para a Quadrienal de Praga vir à luz em 1967. A PQ atravessou a cortina de ferro e a dissolução da URSS e alcança os 40 anos como única plataforma do gênero na contemporaneidade.

O arco de participações históricas vai da vanguarda do polonês Tadeusz Kantor ao surrealismo do espanhol Salvador Dalí. Entre os brasileiros, erguem-se duas pilastras: o carioca Helio Eichbauer, que estudou nos anos 60 em Praga com Svoboda (1920-2002), de quem tornou-se discípulo, e o paulista J.C. Serroni, por três vezes curador do país e, agora, integrante do júri internacional. A mostra é competitiva e já premiou, além do próprio Serroni, trabalhos de Gianni Ratto, Fábio Penteado, Daniela Thomas (que co-desenha o estande brasileiro), José de Anchieta, Edson Elito e outros.

Ao contrário de edições anteriores, este ano a organização não estabeleceu tema comum. Cada país cura o seu. O ator Antonio Grassi assina a representação brasileira, que organiza desde 2004, e põe em relevo sobretudo Nelson para o mundo ver.

Grassi é ex-presidente da Funarte, órgão do Ministério da Cultura que investe cerca de R$ 800 mil no encontro.

A coordenadora da PQ, Daniela Parízková, fala em “laboratório vivo” das artes cênicas. “Esperamos ver um mosaico de culturas e diferentes temas”, afirma. Ao todo, 55 países expõem na seção cenografia e figurinos; 40 em escolas de cenografia; e 25 em arquitetura e tecnologia para teatro. 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 09 de junho de 2007

TEATRO 

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

Paulista radicado no Rio, Caio de Andrade, 45, escreve para teatro desde o início da década. Suas peças apresentam pano de fundo histórico. É o caso de “Trindade”, primeiro texto em palco paulistano, sob direção do próprio, a partir de hoje no teatro Aliança Francesa. 

O contexto é o da disputa entre os segmentos civil e militar no início da República. Em 1909, a sucessão presidencial é disputada pelo marechal Hermes da Fonseca e pelo escritor Rui Barbosa, derrotado. 

“Era um momento de confusão política, vários poderes tentavam se estabelecer. Era a chance para falcatruas”, diz Andrade. Espetáculo carioca de 2004, remontado para a nova temporada, “Trindade” põe em relevo o drama do jovem médico Emílio (Pedro Neschling). 

Criado pela família de um general (Luciano Chirolli), o rapaz se depara com o pai natural (Guilherme Leme), que dava por morto. Sabe-se depois, virou militante da causa operária. Encontros clandestinos expõem os conflitos. Para Andrade, a configuração é brechtiana, à la “O Círculo de Giz Caucasiano”, que põe em xeque os direitos da mãe que dá à luz sobre aquela que cria. 

“O personagem vive o dilema entre o general que o criou e o pai que foi lutar por um mundo melhor. Estão em jogo também os limites que a história impõe a cada pessoa”, diz o autor. Chirolli, 45, ilustra o assunto com uma citação de Sartre: “Você é aquilo que você faz do que fizeram de você”. 

Para Leme, 46, que vive o pai em identidade dupla, a peça constata que transformações se dão a partir do questionamento individual da ordem e das instituições. A Neschling, 25, coube estabelecer a trilha, angústia juvenil sintonizada em bandas como Muse e Radiohead.



Trindade
Quando: estréia hoje, às 22h; sáb., às 22h; dom., às 20h; até 29/7 
Onde: teatro Aliança Francesa (r. General Jardim, 182, tel. 0/xx/11/3188-4141) 
Quanto: R$ 20 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 06 de junho de 2007

TEATRO 
De hoje a 23/6, evento paranaense recebe 42 espetáculos vindos de nove países 

A companhia experimental Big Dance Theatre é uma das atrações inéditas; evento também inclui nova peça do Grupo Galpão

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem local 

O espectador de Londrina, no norte paranaense, é ensinado a olhar o teatro e a dança com abertura e criticidade raramente encontradas em outras platéias do Brasil. São 39 anos de formação, desde a primeira edição do encontro universitário de grupos, no emblemático 1968, até a consolidação do Festival Internacional de Londrina, em 1988. 

A edição do Filo que começa hoje e prossegue por 18 dias, até 23/6, é representativa dessa exigência na recepção. São 42 peças com os mais variados formatos: o drama clássico, o teatro de bonecos, de objetos, de sombras, de animação e de rua, passando por dança contemporânea, intervenção aérea, circo, mágica e música. 

Quem abre o festival esta noite, no Teatro Ouro Verde, é a companhia colombiana de dança contemporânea L’Explose. Em “La Mirada del Avestruz”, nove personagens se desprendem de seus limites físicos e simbólicos num espaço cênico coberto de terra. A montagem dirigida por Tino Fernández quer remeter à dimensão da memória e à recuperação de uma história coletiva. A proposta é fazer uma reflexão sobre a realidade do país e seus entraves sociais e políticos. 

Ao enfiar a cabeça no buraco, o avestruz foge de seus temores. É a metáfora da criação de Fernández para questionar formas de violência na atualidade -eixo efetivamente explosivo com o qual a L’Explose lida artisticamente desde sua fundação, em 1995.

A Colômbia é única representante da América do Sul, exceção óbvia do Brasil, o que contrasta com edições anteriores em que o Filo deu mais ênfase à produção vizinha. Entre os nove países da programação deste ano, prevalece o recorte europeu (Espanha, Suíça, França, Inglaterra, Bélgica e Rússia). A América do Norte é representada por México e EUA. 

Pequenos milagres
É justamente americana uma das atrações inéditas em solo brasileiro: a companhia experimental Big Dance Theatre, nascida em Nova York em 1991. Assinada pela dupla Paul Lazar e Annie-B Parson, a coreografia “The Other Here” (o outro aqui) mescla dança, teatro e desenho visual com inspiração nas histórias clássicas do escritor japonês Masuji Ibuse (1898-1993). 

Outro destaque é o grupo russo Derevo (árvore), fundado em 1988 pelo ex-integrante de banda de rock Anton Adassinski. Já conhecido de apresentações na própria Londrina e em São Paulo (por onde passa antes do Filo, de 14 a 17/6, no teatro Sérgio Cardoso), desta vez o coletivo traz “Ketzal” (mítica entidade voadora presente na tradição indígena mexicana), com a promessa de repetir impacto na expressão corporal. 

A nova montagem do Grupo Galpão, “Pequenos Milagres”, também participa do Filo. E com a deferência de duas “pratas da casa” na criação, o diretor Paulo de Moraes (que fundou na cidade a Armazém Companhia de Teatro, em 1987, hoje radicada no Rio) e o poeta e dramaturgo Maurício Arruda Mendonça. 

Ao todo, foram selecionados espetáculos de sete Estados. O diretor do festival, Luiz Bertipaglia, estima que as 102 atrações da grade, entre palco e rua, devam atrair cerca de 100 mil espectadores. O orçamento é estimado em R$ 1,8 milhão.



Festival internacional de Londrina 
Quando: de hoje a 23/6 
Quanto: R$ 10. Ingressos à venda no Royal Plaza Shopping (r. Mato Grosso, 310, tel. 0/xx/43/3322-7437) 
Mais informações: pelo site 
www.filo.art.br 

Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 04 de junho de 2007

TEATRO 

O Teatro Negro de Praga reúne seus melhores e mais divertidos números em espetáculo comemorativo dos 45 anos
 

Companhia do diretor e fundador Jirí Srnec faz três apresentações em São Paulo, fundindo música, mímica e artes visuais

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Aos 45 anos, a companhia tcheca Teatro Negro de Praga é referência internacional na criação de formas animadas para o palco. O seu diretor artístico e fundador Jirí Srnec, 75, está de volta ao país com uma espécie de “pot-pourri” de sua trupe. 

Em “O Melhor do Teatro Negro”, de hoje a quarta-feira no Citibank Hall, em São Paulo, estão reunidos nove esquetes fundamentais da trajetória do grupo. 

Segundo Srnec, que é formado em música, artes gráficas e teatro, os quadros sintetizam a linguagem que não faz uso da palavra. São baseados na mímica e na releitura do milenar teatro de sombras chinês. 

No fundo preto do palco, com atores/bailarinos/mímicos visíveis ou ocultos, também eles vestidos de preto, estão em jogo silhuetas, luzes fluorescentes e objetos. A meta é compor narrativas com ênfase na plasticidade e no ritmo musical, cuja concepção também está a cargo de Srnec. 

“O efeito do truque não é o elemento principal, mas o meio para alcançar a metáfora dramática”, diz o diretor. O desafio é organizar essa “brincadeira” diante dos olhos do espectador. Para ilustrar, diz que os atores são como cartunistas a desenhar e depois desmanchar imagens em cena. 

Os quadros
“O primeiro esquete é “A Lavadeira”, nossa obra mestra em 46 anos de história. O enredo é muito simples: duas calças lutam para conquistar o estranho amor da mulher [que as pendura no varal]”, diz Srnec. 

Ele diz que não imaginava que aquele quadro, esboçado em 1959 e estreado oficialmente em 1961, cujo mote é a situação de uma mulher estendendo roupas numa manhã de verão, marcaria o início de toda a viagem artística do Teatro Negro de Praga. 

Em “O Fotógrafo”, um soldado e seu criado se enamoram da mesma moça, triângulo inspirado na linguagem do cinema mudo de Charlie Chaplin e Buster Keaton. 

“As Malas”, que estreou no Festival Internacional de Edimburgo, na Escócia, em 1962, trata de dois homens que se julgam felizes justamente por não terem posses. Até um deles surgir com uma mala pequena e o outro, com uma bem maior, instaurando uma competição. 

“O Violinista” é uma performance sobre um músico que tem problemas para começar a tocar seu instrumento. Tudo parece conspirar contra ele. 

Em “Os Faróis”, o protagonista é um inventor que cria uma poção com a qual pensa que poderá voar. Mas ele a toma em excesso e o efeito reverte para a embriaguez. 

E por aí vão os nove atos. “O espetáculo é cheio de humor. Pode-se assistir a nove exemplos de nosso trabalho nesses 46 anos. São performances ideais para a família inteira. Trazemos esse roteiro aos países latino-americanos porque vocês adoram se entreter com humor”, diz Srnec.

A companhia faz turnês pela região desde a década de 1970. A primeira vez no Brasil foi em 1980, em São Paulo. 

A última foi há três anos, com “Peter Pan”, criação motivada pelo centenário do personagem, um menino que se recusa a crescer, da obra do dramaturgo e novelista escocês James M. Barrie.



O Melhor do Teatro Negro
Quando: de hoje a qua., às 21h30 (únicas apresentações) 
Onde: Citibank Hall (av. dos Jamaris, 213, tel. 6846-6000)
Quanto: R$ 120 a R$ 180
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 31 de maio de 2007

TEATRO
“Álbum de Família”, que tem pré-estréia hoje, ficou proibida entre 1946 e 1965 

Denise Weinberg, Cacá Amaral e Ângela Barros encabeçam o elenco do espetáculo, que abre temporada amanhã em SP  

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

“Se Nelson estivesse vivo, acho que ele cometeria haraquiri.” Às vésperas da estréia de “Álbum de Família”, sua quarta interpretação de Nelson Rodrigues (1912-1980) no teatro brasileiro, Denise Weinberg, 51, fala das “distorções” de época. Em 1945, a tragédia que desnuda o tabu do incesto escandaliza “a sociedade de valores”. “Álbum…” permaneceu interditada pela censura entre 1946 e 1965. Acusações: “incesto demais”, “incapacidade literária”, “morbidez”, “sacrilégio” etc. 

Paradoxalmente, a atriz reclama da falta de valores. “Hoje, não somos imorais, mas amorais no desejo, na utopia.” “O barato agora é não ter desejo. Ficar significa não ficar. Compromisso não existe. O desejo foi retirado da sociedade porque se pode comprar uma lancha, uma casa, uma mulher, um pau. Virtualmente faz-se de tudo. Não é questão de moralismo, mas de valores”, afirma. 

Ela, Cacá Amaral e Ângela Barros encabeçam o elenco de dez atores no espetáculo que estréia hoje para convidados e abre temporada amanhã no Sesc Anchieta (SP). A direção é de Alexandre Reinecke. Desejo e fé são duas molas mestras em “Álbum de Família”, das peças menos montadas do autor. O grupo Galpão (MG) passou por ela em 1990, numa encenação de Eid Ribeiro. 

Os mitos gregos de Édipo e Electra se dão as mãos aqui. Mãos duplas nas obsessões amorosas de mãe-filho e pai-filha. Numa fazenda de interior, Jonas (Amaral) é o patriarca que abusa de adolescentes com a desculpa de não chegar aos finalmentes com a filha Glória, que também deita olhos de paixão nele e ainda vive um namoro lésbico na escola. Tudo sob o consentimento de Dona Senhorinha (Weinberg), dublê de mulher e mãe, como diz o Speaker, debochada voz da espécie de “opinião pública” que pontua os diálogos. 

Senhorinha, por sua vez, é atraída por um dos filhos, que enlouquece e vai viver nu no mato, feito bicho. Um segundo filho deixa a mulher por causa do seio da mãe. Um terceiro canaliza tudo para Glorinha, o “anjo de estampa”, a ponto de castrar-se para não ameaçar a virgindade dela. O desfecho virá com suicídio e assassinatos. “O “Álbum” é uma tragédia atual, brasileira e universal. Vivemos abusos em todos os sentidos, do incesto ao canibalismo. Pioramos sensivelmente. É um [estágio de] animalismo colossal”, diz Weinberg. Não por acaso, Jonas, santificado e odiado entre aquelas paredes, associa as mulheres a porcas. “A história também trata do poder dessa espécie de coronel do interior que faz o que quer”, diz Reinecke, 37. 

Peças míticas
Não há vestígios de lei, de realidade. Afinal, é a peça com a qual Nelson Rodrigues pisa o território mítico, como classificou o crítico Sábato Magaldi. Ou “teatro desagradável”, como pontificou o autor, sempre direto, “porque são obras pestilentas, fétidas, capazes, por si sós, de produzir o tifo e a malária na platéia” -escreveu em 1949 na revista “Dionysos”. 

Curiosamente, São Paulo é revisitada recentemente pelas outras peças míticas do dramaturgo, como a releitura do alemão Frank Castorf para “O Anjo Negro”, a encenação de Brian Penido Ross para “Dorotéia” e o retorno de Antunes Filhos a Nelson com “Senhora dos Afogados”, prometida para breve. “A ironia é que “Álbum…” se passa numa elite latifundiária, com valores dela. Não atinge o operário, mas o status quo, sob o domínio do qual ainda vivemos”, diz Ângela Barros, 51, que faz a tia solteira Rute. 



Álbum de família
Quando:
pré-estréia hoje, às 21h, para convidados; temporada a partir de amanhã; de qui. a sáb., às 21h; e dom., às 19h. Até 17/6 
Onde: teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, SP, tel. 0/xx/11/ 3234-3000) 
Quanto: R$ 20 

Folha de S.Paulo

São Paulo, domingo, 27 de maio de 2007

TEATRO

Cia. levanta questões atuais ao levar à cena julgamento da trilogia de Ésquilo
 

Companhia completa dez anos e, sob direção de Marco Antonio Rodrigues, retoma idéia antiga de encenar texto grego do século 5 a.C.

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O Folias d”Arte chega aos dez anos como no início: em crise. E isso é bom. Empurra o grupo para um antigo projeto: levar à cena uma obra-prima da tragédia grega, a trilogia “Orestéia”, de Ésquilo, que estreou nesta semana no galpão de Santa Cecília (região central). 

Escritas e apresentadas conjuntamente pela primeira vez no século 5 a.C., as peças “Agamêmnon”, “Coéforas” e “Eumênides” foram encenadas no século 20 pelo alemão Peter Stein e pela francesa Ariane Mnouchkine, para citar dois nomes. No Brasil, a iniciativa é rara. Conta-se uma releitura por Cristiane Paoli-Quito e sua Troupe de Atmosfera Nômade, em 1993, mas nada equivale à aventura na qual o Folias embarca, de quinta a domingo, durante três horas e meia. 

A “Orestéia” narra a saga dos Atridas, desde a partida do rei Agamêmnon para a conquista de Tróia até o julgamento de Orestes em Atenas, pela morte de sua mãe, Clitemnestra. 

Compreende o período de constituição do Estado grego e sua passagem do matriarcado ao patriarcado. O julgamento de Orestes por um tribunal formado por cidadãos estabelece a justiça dos homens em substituição à dos deuses. 

O Folias toma o fórum arquetípico do Ocidente, acusação-defesa, para questionar a si próprio, a arte do teatro na sua cidade e a história recente do país. Para o diretor Marco Antonio Rodrigues, o mesmo da bem-sucedida tragédia “Otelo” (2003), de Shakespeare, um dos desafios em Esquilo é dar conta da questão dialética. 

“A gente está acostumado a uma moralidade epicurista, positivista, cristã, de sim e não, de preto e branco. A leitura do simbólico está desmontada em todos os níveis. É isso que permite colocar Racionais MC’s no meio da madrugada na praça da Sé e depois dizer que [a violência] é coisa de crioulo, de pobre. É isso que permite trocar Fernando Henrique por Lula e tudo continuar na mesma”, diz Rodrigues, 51. 

Na adaptação do dramaturgo Reinaldo Maia, há correlações com a memória brasileira, pistas para situar o espectador. 

“Agamêmnon”, de estrutura trágica pura, travessia mais difícil, evoca os anos 50 e 60, quando se instala a ditadura em nome da democracia. 

“Coéforas”, um “drama trágico”, segundo Rodrigues, é o momento da luta pela restauração da democracia e volta dos exilados. Após o intervalo, “Eumênides”, uma “comédia trágica”, corresponde ao processo político que promete a liberdade, a restauração do poder ao povo, mas consagra “esperteza” das elites, no dizer do diretor. 

Atílio Beline Vaz, Carlos Francisco, Dagoberto Feliz, Nani de Oliveira, Patrícia Barros e mais sete intérpretes mergulham em teatralidade radical, como a Folha viu no ensaio, até para expor armadilhas do ilusionismo dramático. 

“E para que serve o teatro, senão para afundar o pé em algumas coisas? Do ponto de vista das outras técnicas reprodutivas, essa possibilidade fica mais contida, por causa das exigências industriais. Se a gente detém os meios de produção, o mínimo a fazer é falar daquilo que sofremos.” Sofrer e aprender, como riscou Ésquilo. 



Orestéia – O Canto do Bode
Quando: de qui. a sáb., às 20h, e dom., às 19h; até 28/10 
Onde: teatro Galpão do Folias (r. Ana Cintra, 213, tel. 3361-2223) 
Quanto: R$ 30 

 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sexta-feira, 25 de maio de 2007

TEATRO 

Disputa por poder guia peça do inglês Jez Butterworth com o Núcleo Experimental do Teatro Augusta
 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

A escatologia não está no primeiro plano de “Mojo” (1995), texto do inglês Jez Butterworth, 38, que ganha montagem inédita no Brasil pelo Núcleo Experimental do Teatro Augusta, em São Paulo. Mas o diretor Zé Henrique de Paula, 36, recorre aos fluidos corporais para ilustrar o modo violento como seis rapazes disputam feito cães a demarcação de território. “Não é uma peça sobre sêmen, mas sobre urina”, sintetiza ele, a despeito da concentração de testosterona. O que está em xeque é a pulsão aniquiladora do grupo que freqüenta um bar londrino no final dos anos 1950. Entre eles, há um cantor de rock que faz sucesso no Clube Atlântico. A popularidade dos shows atrai um empresário.

O sujeito alicia o astro e manda matar o proprietário. O crime assusta os dois caras que trabalham na casa. O filho do assassinado também entra na ciranda. Tanto o suspense policial como o ambiente underground, embalado por “bolinhas” e músicas de juke-box, surgem de forma lateral no enredo. O eixo é a disputa pelo poder nesse estranho círculo de amizades, a tensão provocada pelas ameaças subliminares ou viscerais, com faca ou revólver. “A maneira como esses homens lutam é mais importante do que o objeto da disputa, o negócio do bar, dos shows”, diz o diretor. Ele deixa claro o desejo de concentrar a encenação nos atores. O espaço intimista da sala experimental, no subsolo do teatro, exige ainda mais do sexteto Fabrício Pietro, Alexandre Cruz, Thiago Carreira, Thiago Ledier, Marcelo Góes e André Montilha. Metade do elenco vem do espetáculo anterior (que firmou o núcleo), “R&J” (2006), releitura do americano Joe Calarco para “Romeu e Julieta”. “A gente encara “Mojo” como o reverso de “R&J’: esta trata da construção da identidade masculina, com adolescentes descobrindo o amor; aquela, agora, lida com esses rapazes adultos que associam virilidade a poder”, diz o diretor. Em tempo: a expressão africana “mojo” designa amuleto com poderes mágicos.



Mojo
Onde: teatro Augusta – sala experimental (r. Augusta, 943, tel. 0/xx/11/ 3151-4141) 
Quando: estréia hoje, às 21h30; sex., às 21h30; sáb., às 21h; e dom., às 19h; até 1º/7 
Quanto: R$ 20 (sex.) e R$ 30

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 17 de maio de 2007

TEATRO

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Há 15 anos adepta do que define como teatro físico com humor, a Companhia Le Plat du Jour chega ao fundo do poço. E feliz. A dupla Alexandra Golik e Carla Candiotto bebe do drama pela primeira vez em “O Poço”. 

No espetáculo, que estréia hoje no CCBB, elas passam o tempo todo imersas na água, em um buraco de ferro de três metros de diâmetro. Tudo, inclusive a platéia de 20 pessoas por sessão, abrigado no antigo cofre do subsolo da agência aberta em 1927. 

“O cofre veio a calhar, pois é local em que se guarda o que é mais precioso: aqui, não o dinheiro, mas a água”, diz Golik, 42. O projeto quer relacionar a questão ecológica do planeta ao universo particular. “A água é metáfora da emoção, do amor. As duas criaturas percebem que, se não alimentarem as lembranças, os sentimentos, o poço seca. Só que lembrar às vezes dói”, diz Golik. 

Na criação conjunta do texto e do espaço cênico com Candiotto, essas criaturas não são definidas por gênero, e o diálogo não necessariamente desenha uma história com início, meio e fim.



O Poço
Quando: estréia hoje, às 19h30; qua., às 16h; qui. a sáb., às 19h30; e dom., às 18h; até 15/7 
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil – cofre (r. Álvares Penteado, 112, tel. 0/xx/11/3113-3651) 
Quanto: R$ 15 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 12 de maio de 2007

TEATRO 
Diretor, em cartaz em São Paulo, fala em co-criação das peças pelo público e interseção entre as artes e as tecnologias

Após 18 anos na estrada, Cia Teatro Autônomo pretende, até o início de 2008, encenar um espetáculo novo e ainda retomar outro, de 2005

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

São 18 anos feito Sísifo, começando tudo de novo a cada espetáculo. É uma imagem pertinente à Cia Teatro Autônomo, que caminha na contramão do teatro carioca desde que levou à cena, em 1989, uma leitura do mito grego que empurra um rochedo montanha acima, num trabalho interminável.

“Apesar do cansaço, o retorno é genuíno”, afirma o diretor Jefferson Miranda, 45, que usa e se orgulha do termo “contramão”, acima.

As perguntas seminais permanecem: “Para onde vai o teatro hoje? Que lugar ele ocupa no mundo?”.

Sabe-se que alcançar essas respostas equivaleria a pisar no pico da montanha, mas Miranda e o núcleo de artistas da Cia Teatro Autônomo seguem no encalço delas.

A última passagem do grupo por São Paulo ocorreu dois anos atrás, com a elogiada “Deve Haver Algum Sentido em Mim Que Basta” (2004).

Miranda volta à cidade a partir de hoje, mas não com o seu coletivo: ele é o diretor convidado de “O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo”, que estréia na Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista.

Para o final deste ano ou início de 2008, é desejo da Cia Teatro Autônomo trazer o seu último espetáculo, “E Agora Nada é Mais Uma Coisa Só” (2005), bem como o inédito “Nu de Mim Mesmo”.

“E Agora Nada é Mais Uma Coisa Só” é definido como “espetáculo-evento”, uma experiência em espaço não-convencional. Lembra vídeoinstalações, com espectadores percorrendo cinco áreas. A idéia é pôr em xeque a noção de realidade.

“Partindo de situações rotineiras, quando o mundo se apresenta em sua superfície corriqueira e banal, o espetáculo foca esse caráter múltiplo por meio das silenciosas revelações que podem nos assaltar inesperadamente no meio do nosso dia mais comum”, afirma o diretor.

Uma das premissas da companhia é encarar o teatro como um fenômeno. “Em contraposição ao “drama” , entendido como representação idealizada, apartada do atributo fundamental da arte cênica: o tempo “presente”.”

Co-criadores da cena
Outra perspectiva é destinar ao espectador o papel de co-criador da cena. Fala-se em “inclusão da escuta”, ou seja, em incorporar a história pessoal do espectador. Isso é radicalizado, segundo explica Miranda, no espetáculo atualmente em criação, “Nu de Mim Mesmo”, décima produção.

“A finitude das ações humanas, heróicas ou não, é o tema central. O que resta delas? O que vem depois? Somente a memória? Ou exclusivamente o silêncio, como Hamlet certa vez afirmou?”, tateia o diretor.

Arte e tecnologia
Com este projeto amplia-se também a interseção entre as artes e as tecnologias. “Pelo cruzamento e sobreposição de linguagens -teatro, performance, artes plásticas, vídeo, espacialização sonora etc-, propomos repensar os cânones do fazer teatral, em busca de uma escritura cênica que inclua os meios pelos quais o homem de hoje se expressa -e que o expressam”, teoriza.

O núcleo da Cia Teatro Autônomo é formado ainda pelo dramaturgo Flavio Graff, pelo desenhista de luz Renato Machado, pelo diretor musical Felipe Storino e pelos atores Adriano Garib, Diogo Salles, Gisele Fróes, Julia Lund, Malu Galli e Otto Jr.

“Quando a gente começou, havia a ditadura da encenação no teatro brasileiro. Hoje, estamos libertos”, conclui Miranda. 
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 10 de maio de 2007

TEATRO 
A Armadilha, companhia de Curitiba, traz a São Paulo montagem de peça espanhola que recorre a seres e lugares imaginários

Nadja Naira dirige produção elogiada no Fringe e que entra agora em temporada de quatro semanas no Sesc Avenida Paulista

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local

Há pouco em que se agarrar em “Os Leões”. A abstração sugere dois homens que poderiam ser a mesma pessoa. Ego e superego, talvez. Há pistas. 

Eles dividem o apartamento numa cidade qualquer do planeta. A época tampouco é conhecida. Em meio à rotina (ler o jornal, o livro, preparar o café, espiar a janela, raro canal com o mundo lá fora), os seres passam a investigar atitudes suspeitas na vizinhança, onde teria ocorrido um crime. 

O espetáculo d’A Armadilha Companhia de Teatro, de Curitiba, foi um dos mais elogiados pela crítica na edição de março passado do Fringe, a mostra paralela do festival nacional. E chega agora para curta temporada de quatro semanas, a partir de hoje, na Unidade Provisória do Sesc Avenida Paulista, dentro do projeto Primeiro Sinal -porta aberta a grupos emergentes dedicados à experimentação. 

Risco é o que não falta aqui. O estado de indefinição que permeia a peça do não menos enigmático autor espanhol Pablo Miguel de la Vega y Mendoza -dono de uma biografia misteriosa; ele teria vivido entre 1911 e 1955, e deixou um texto ou outro- é defendido pelos intérpretes Alexandre Nero e Diego Fortes e pela encenadora Nadja Naira. 

“A gente também foi montando as peças do nosso quebra-cabeça”, diz Naira, 34, experiente desenhista de luz vinculada à também curitibana Companhia Brasileira de Teatro, que já passou por São Paulo com as peças “Volta ao Dia” e “Suíte 1”. 

Naira assina a primeira direção na carreira. Deseja traduzir em cena a estrutura dramatúrgica de tons surrealistas e dar margem para que o espectador construa entendimentos e sensações próprias. 

Narrativas não-lineares
O texto original de De la Vega y Mendoza não confere nome ou número aos personagens. São travessões, um atrás do outro, sem que se saiba de quem é a voz ou a vez. São mínimas a indicações de cena. 

Em três meses de pesquisa e de ensaios, a companhia chegou a um resultado labiríntico identificável, segundo a diretora, na obra do argentino Jorge Luis Borges, de narrativas não-lineares. “Esse exercício com o imaginário faz falta. Por causa da correria cotidiana, ficamos sempre ligados às coisas práticas e não nos permitimos acessar essas pequenas filosofias, questões metafísicas do universo paralelo à realidade”, afirma o ator Diego Fortes, 24, que foi, em 2001, um dos fundadores d’A Armadilha. É dele a tradução e adaptação da peça que lhe foi apresentada por outro autor espanhol, Alejandro Kauderer, de quem dirigiu “Café Andaluz” (2005). 

Uma imagem cara à concepção do espetáculo é a do me- nino aninhado em uma baleia em “Moby Dick”, o clássico do escritor norte-americano Herman Melville (1819-1891). 

Em “Os Leões”, os sujeitos resistem a se aventurar fora de casa. 

O título original da peça pode advir da passagem na qual um deles diz que, para os especialistas em leões, eles são sempre isso mesmo, meros leões. As aparências enganam, mas, enfim, aparecem, conforme o poeta Paulo Leminski. E de acordo com a sensibilidade de cada um.



Os Leões
Onde:
Unidade Provisória Sesc Avenida Paulista (av. Paulista, 119, tel. 0/xx/11/3179 3700) 
Quando: estréia hoje, às 21h; qua. e qui., às 21h. Até 31/5 
Quanto: R$ 4 a R$ 8