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Reportagem

Eva Wilma interpreta diva do teatro

2.8.2013  |  por Maria Eugênia de Menezes

Foto de capa: João Caldas

Já em cima do palco, depois que as cortinas estiverem abertas, Eva Wilma irá dizer: “Eu não era só bonita. Era uma boa atriz também. Recebi muitos convites pra trabalhar e acabei me transformando numa estrela. Logo veio a televisão e também um pouco de cinema. Fiz alguns filmes, muita televisão e grandes peças de teatro”.
O depoimento não é autobiográfico. Obra de ficção, faz parte do espetáculo Azul resplendor. Mas essas frases guardam tantas semelhanças com a realidade, que essa bem poderia ser uma súmula do percurso da própria intérprete. Prestes a completar 80 anos, Eva também comemora neste ano outra efeméride: seis décadas de carreira. Período em que colecionou uma notável galeria de personagens em peças, novelas e filmes.

Na montagem, a atriz dá vida a Blanca Estela, também uma diva do teatro. O texto aborda o contexto cultural de hoje, época na qual espetáculos não vivem de bilheteria, tornaram-se reféns do patrocínio e dependentes dos meios de comunicação. “É um mergulho nesse universo da arte, pega a essência dessas figuras: do ator, do diretor, do autor. E, usa, para isso o humor crítico, o tipo de linguagem que mais gosto”, resume Eva Wilma.

Ao flagrar o momento atual, Azul resplendor também traz uma contraposição ao passado. “A nossa profissão mudou muito, com o advento da televisão, da informática. E isso é colocado em cena. Fiz até uma contribuição ao texto por isso. Inseri um trecho em que digo que sou do tempo que se fazia teatro de terça a domingo. ”

Semelhanças à parte, existe uma definidora diferença entre atriz e personagem: Blanca Estela fez muito sucesso, mas decidiu recolher-se. Há cerca de 30 anos está distante das luzes da ribalta. Eva Wilma, ao contrário, não tem planos de parar. Ainda recuperando-se de uma cirurgia no quadril, realizada em fevereiro, precisa andar devagar. Prestar atenção para dar um passo após o outro. Mas ela pouco fala disso. Com arroubos de iniciante, faz planos de rodar o País com a nova peça. “Mas não quero ficar restrita a Rio e São Paulo. Isso não. Quero sair por aí. Existem teatros no Brasil que são verdadeiros templos. ”

Atriz comemora 60 anos de carreira 

Com seu melhor vestido e luvas nas mãos, estava sempre a postos nas escadarias do Teatro Municipal.  Olhava de um lado para o outro, como se esperasse alguém.  Era só um jeito de disfarçar até que o público todo entrasse.  Só depois que aqueles que tinham ingresso já estavam acomodados, é que o bilheteiro vinha recolher Eva Wilma e tratar de colocá-la para dentro. Foi assim que assistiu aos seus primeiros espetáculos.  Mas, bem pouco tempo depois, seria ela quem estaria em cima do palco.

No mesmo Municipal, Eva apresentou-se com as bailarinas do Balé do 4.º Centenário.  Havia sido selecionada entre candidatas do Brasil inteiro.  Puxava a fila ao som da marcha militar de Schubert.  “Foi meu primeiro emprego, o primeiro contrato de trabalho”, conta.  “Seriam 19 coreografias.  Mas eu pedi demissão depois do primeiro balé, logo no terceiro mês. “

Para explicar o porquê da radical decisão, Eva Wilma diz que precisa recuar um pouco mais no tempo.  Até o momento em que conheceu John Herbert, seu primeiro marido.  “Um dia, fui visitá-lo em um set da Vera Cruz.  Ele estava gravando Uma pulga na balança.

E eu acabei chamada para fazer uma pontinha.  Tive que dizer uma fala.  Nunca me esqueci. “Foram só algumas palavras.  Parece, porém, que tudo havia saído do lugar.  “Tudo aconteceu naquele mesmo ano: 1953”, lembra.  De pronto, foi chamada para fazer três filmes.  Na sequência, conheceu também José Renato, diretor que a carregaria para o Teatro de Arena e a faria encenar, de uma só vez, dois espetáculos: Esta noite é nossa, de Stafford Dickens, e O demorado adeus, de Tennessee Williams.  Já seria o bastante para uma estreia.  Mas a história não termina por aí.  Cassiano Gabus Mendes surgiu no caminho e Eva ganhou o papel de protagonista em Alô, Doçura – a série que permaneceu no ar por dez anos na TV Tupi.

Não foi preciso muito esforço para que o reconhecimento viesse.  Dali em diante, a atriz apareceu em filmes marcantes do cinema brasileiro, como Cidade ameaçada (1960), de Roberto Farias e São Paulo S/A (1965), de Luis Sérgio Person.  “Com Cidade ameaçada participei da Semana de Cinema Brasileiro em Roma.  Foi quando conheci a Europa.  E também Person, Gustavo Dahl e Paulo Cesar Saraceni.  Quando os filmes terminavam, nós saíamos pela cidade de braço dado, cantando a noite inteira. “

Da intensa passagem pela televisão, na qual se revezou entre mocinhas e vilãs, ela também guarda boas lembranças.  De um tempo em que tudo era mais simples, em que as novelas eram gravadas quase ao vivo, quando figurino e maquiagem se resolviam em cinco minutos.  “Quando fazia Mulheres de Areia, a mudança de uma personagem para outra era muito simples: para Ruth, dividia o cabelo no meio e colocava uma fivela.  Para Raquel, soltava tudo, sacudia e punha um batom vermelho.  Era só isso”, conta ela, que participou de outras tramas de Ivani Ribeiro, como Barba Azul (1974) e A Viagem (1975).

Alcançar o sucesso foi fácil.  Só que ninguém o mantém por anos a fio sem certa ciência.  “Desde o início, sempre fiz questão de ser livre.  Não tinha contrato com a Tupi.  Queria estar sempre pronta para ir fazer outra coisa, para voltar ao teatro”, observa.  “Sabe o que é?  O cinema é a arte do diretor.  Na televisão, quem manda é a audiência.  Mas no teatro quem é soberano é o ator. “

Azul resplendor, espetáculo que ela encena sob a direção de Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas, marca seu retorno aos palcos após um hiato de cinco anos.  A última montagem havia sido O Manifesto(2007/2008).  Mas, aparentemente, essa distância foi apenas circunstancial.  Quando fala da profissão que escolheu, Eva lança mão de uma imagem: teria sido “infectada por um micróbio. ” Alguma doença que pode até amainar-se.  Mas não tem cura.

A veterana atriz diz que se “formou” no Teatro de Arena.  Lá, recebeu os instrumentos de que precisava.  Mas nunca teve um pouso só.  José Renato a dirigiu até o início dos anos 1960.  Depois vieram outros: Eugênio Kusnet, Ziembinski, Ademar Guerra, Antunes Filho.

Todos eles aparecem em sua fala.  Cada nome mencionado parece abrir uma gaveta, de onde saltam histórias e ensinamentos.  Não lhe fogem datas, nomes, detalhes.  Sentada no sofá de sua casa, ela viaja no tempo. Vai e volta.  E o passeio só termina quando precisa partir para mais um ensaio. “É hora de ir para o teatro”, ela se despede.  “Hora de voltar para escola.”

Com ácido humor, espetáculo revela bastidores das artes cênicas 

Caricaturas são verdades exageradas, deturpadas. Mas nem por isso deixam de ser verdades. Em Azul resplendor, o dramaturgo Eduardo Adrianzén carrega nas tintas ao retratar os bastidores de uma trupe de artistas.   Traz a diva recolhida há anos que retorna à ativa, o diretor histriônico e prepotente, os jovens atores em busca de fama e holofotes. “É uma peça diabólica.   Tenho certeza que nas coxias dos teatros gregos, as coisas já aconteciam desse jeito”, comenta Elcio Nogueira Seixas, que divide a condução do espetáculo com Renato Borghi.

É a primeira vez que os dois atores – que contracenam há 20 anos – se unem como diretores.   Para selar a parceria, a obra escolhida foi um título inédito no Brasil.   Entre 2008 e 2009, ambos percorreram a América Latina para fazer um mapeamento das artes cênicas no continente.   Depararam-se com centenas de peças e artistas desconhecidos.   Entre eles, o peruano Eduardo Adrianzén.

Azul resplendor foi escrita em 2005 e alcançou imenso sucesso ao desnudar as vaidades e frustrações que existem por trás das cortinas.   “Quando a gente pensa no Peru, imagina um teatro mítico, folclórico.   Esse, ao contrário, é um texto muito urbano, que poderia ter sido escrito em qualquer lugar.   Assim, existem vários outros textos na América Latina, que rompem com esses estereótipos”, observa Seixas.

Na trama, Eva Wilma vive Blanca Estela. Afamada atriz, ela estava afastada dos palcos havia 30 anos, mas resolve voltar à cena após receber um convite de Tito Tápia.   O personagem, interpretado por Pedro Paulo Rangel, é um ardoroso fã de Blanca.   Também é ator, mas, ao contrário dela, passou a vida fazendo papéis menores, breves participações na televisão e em espetáculos que não lhe renderam reconhecimento ou satisfação. Além de intérprete inexpressivo, Tito é um dramaturgo de qualidade duvidosa. E, ao receber uma herança da mãe, decide procurar sua paixão platônica e convidá-la a protagonizar uma obra sua.

Blanca Estela aceita o convite.   No seu retorno, quem vai conduzi-la será o “grande diretor” do momento, o incensado Antônio Balaguer (Dalton Vigh).  Ao seu redor, todos o idolatram (ainda que o desprezem secretamente) e ele acredita estar prestes a “reinventar” o teatro.   “Não quer dizer que todos sejam assim.   Mas eu já vi coisas muito parecidas por aí, diretor que tem coragem de dizer que é o melhor do teatro brasileiro, que acredita que a arte moderna passa a existir a partir da sua presença”, conta Borghi.

Maria Eugênia de Menezes

Maria Eugênia de Menezes

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