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Crítica

Outras portas de entrada para a dança

22.8.2014  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Association R.B.

As quebras de expectativas no encontro dos bailarinos Pichet Klunchun e Jérôme Bel são inversamente proporcionais ao livro infinito dos vocabulários asiático e europeu que eles abrem pacientemente em cena a partir de suas biografias primeiras, o corpo. A via negativa serve a outras singularidades expressivas. Não há o tratamento espetacular em luz, som, espaço e figurinos, mas transparece a presunção de coreografia desse rico material organizado na cabeça do espectador. A impregnação do pensamento pela palavra – fala-se bastante com a mesma qualidade de atenção que um observa a “dança” do outro – intercala escutas e silêncios reveladores da gênese cultural do que vem a ser movimento, ação ou gesto nas composições discursivas e expositivas.

É extraordinária a pertinência desses interlocutores ao introduzir excertos de historicidade, sociologia e antropologia com a naturalidade de um diálogo coloquial que poderia ocorrer na mesa de um café ou na coxia de um teatro. Felizmente, eles se atrevem a encarar o palco nu com o despojamento e a complexidade das práticas e pensares que mobilizaram suas trajetórias.

Contam como os poderes de um general ou de um rei foram determinantes para fixar as tradições tailandesa e francesa, respectivamente. As técnicas do balé clássico ou do “khon”, dança autóctone daquele povo do sudeste asiático, mostram-se sofisticadas, herméticas, perfeccionistas e rigorosas em suas proporções sagrada ou profana. Em geral o bailarino ocidental é caracterizado por vetores ascendentes. O oriental, pelas lateralidades e enraizamentos. Para ambos, os rigores são imperativos.

A densidade das informações e dos lampejos não atravanca a triangulação Klunchun-Bel-espectador. O dueto é bem-humorado, livre de ansiedade para se fazer entender e deveras curioso no rumo ao desconhecido.

Quando partem para a demonstração do que explanam, dá-se o encaixe das polissemias verbais e corporais. Com elas, o privilégio do público do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília ao testemunhar espelhamentos e dissonâncias retroalimentadoras em Pichet Klunchun and myself (2005), título em que Jérôme Bel, prestigiado no circuito internacional – leiam-se os domínios eurocêntricos e anglo-saxões – reconhece com afeto a contemporaneidade das origens ancestrais do colega. Este, transitando o “lado de cá” há anos, permite-se prospectar as frestas dessa troca, inclusive em caráter confessional, ao recordar a morte da mãe que sofria de paralisia.

Variantes subjetivas como emoção, energia e consciência convidam a acessar a dança por outras portas de entrada, vide a sequência em que Klunchun recria arquétipos da mulher, do homem, do demônio e do macaco. Em contraponto, Bel estanca fisicamente ao som da canção Let’s dance, de David Bowie, exemplificando a desconstrução em seu repertório contemporâneo.

A aula-espetáculo performativa produz rupturas alentadoras. Desse inventário artístico e científico detemos uma filosofia de esvaziamento para reflorescer. E longe de relativizar verdades ou borrar identidades.

Nos primeiros minutos dessa obra sobre a não representação, Jérôme Bel calça tênis, veste calça jeans e camisa listrada. O notebook com o logo da Apple sacramenta o imaginário ocidental e o lugar de quem questiona. Pichet Klunchun está mais desarmado, digamos assim: pés descalços, veste camiseta e calça propícias ao treinamento ou ensaio, postura coerente com a clareza oriental. A certa altura, eles trocam de lugar sem necessariamente mudar de cadeira (passam parte do tempo sentados).

É nesse vão permanente que circulam as tensões ficcionais e documentais dos relatos estimulados por perguntas e respostas. Cotejamento sensível para um manifesto da arte dos primórdios da humanidade perpetuada a buscar novos ritmos e reconhecimentos.

.:. O jornalista viajou a convite da organização do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília. Texto escrito no âmbito da DocumentaCena – Plataforma de Crítica, iniciativa que envolve os espaços digitais Horizonte da Cena, Satisfeita, Yolanda?, Questão de Crítica e Teatrojornal.

.:. O site do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília, que acontece de 19 a 31 de agosto, aqui.

.:. O site de Jérome Bel, aqui.

Ficha técnica:
Encomendado por: Tang Fu Kuen para o Bangkok Fringe Festival
Conceito: Jérôme Bel
Com: Jérôme Bel e Pichet Klunchun
Produção: Bangkok Fringe Festival (Bangkok), SACD Le Vif du Sujet (Paris), Festival Montpellier Danse 2005 (Montpellier), RB Jérôme Bel (Paris)
Com o apoio de: Institut Français (Paris), Aliança Francesa de Bangkok, Serviço Cultural da Embaixada da França em Banguecoque e “O Projeto Circo Voador”, em Cingapura
Agradecimento: Frie Leysen e Mark De Putter
Apoios: Direction Régionale des affaires culturelles d’Ile-de-France (Ministério francês da Cultura e Comunicação) e Institut Français (Ministério dos Negócios Estrangeiros francês) para suas turnês internacionais
Gerente de produção: Sandro Grando
Apoio no Brasil: Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília
Parceria: Sesc São Paulo
Produção Brasil: Cena Cult Produção (Julia Gomes)

Valmir Santos

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