Daqui a cinco anos, quem sabe, a 25ª edição do Festival de Teatro de Curitiba poderá ser lida como aquela em que os abalos político-econômicos do momento brasileiro lhe fizeram algum bem. As sacudidas que quase cancelaram o evento por falta de recursos, a cinco meses da abertura, também empurraram os organizadores da presumida zona de conforto.

O mais bem-sucedido encontro anual do gênero no Brasil, em se tratando de natureza privada e de impressionante número de cerca de 300 espetáculos na paleta – negócio respaldado por isenção fiscal e recursos estaduais ou municipais diretos –, também deixa entrever uma aproximação aos artistas de Curitiba, cuja produção e pensamento evoluíram a olhos vistos em duas décadas e meia. Assim como verificado em outras regiões do país.

O festival deve servir efetivamente ao encontro, à cidade, e tornar-se nacional a partir do que lhe é específico, como o velho Tolstói dizia.

Segundo o diretor-geral e um dos idealizadores, Leandro Knopfholz, as limitações de tempo e de recursos o levaram a repensar o festival. Ele afirma querer reaproximá-lo da cidade, tornar o público menos contemplativo, mais interativo. Para “chacoalhar”, como diz, buscou interlocutores de sua geração, com 40 e poucos anos, criadores que viu crescer profissionalmente – e eles ao empresário.

O diretor e dramaturgo Márcio Abreu e o ator e diretor Guilherme Weber foram convidados a ressignificar o projeto artístico em pleno andar da carruagem. Noção já perceptível neste ano, mas a ser sustentada com mais veemência nas próximas duas edições. Afinal, ambos falam em “carta branca” do diretor-geral.

“As curadorias sempre tiveram carta branca. Eu me reservo o direito de sugerir, mas nunca de dizer o que é ou não é, cada um com sua experiência e capacidade”, afirma Knopfholz. As escolhas e diretrizes dos últimos anos foram influenciadas pelo trio de curadores formado pela jornalista e gestora Lúcia Camargo (PR/SP), pela crítica Tânia Brandão (RJ) e pelo produtor e administrador cultural Celso Curi (SP).

Enquanto jovens criadores forjados na cultura de teatro local, testemunhos e cúmplices do festival desde os primeiros anos, Abreu e Weber toparam o desafio assumindo o caráter afetivo e, sobretudo, a potência do encontro em estimular outras chaves de convívio artístico-cultural.

Grace Passô em 'Grão da imagem: vaga carne' Kelly Knevels

Grace Passô em ‘Grão da imagem: vaga carne’

“O festival passou os últimos anos focando a formação de plateia e a ideia de vitrine de tudo aquilo que o Brasil [leia-se eixo São Paulo-Rio] veria ao longo do ano. Chegou a hora de mudar”, diz Weber, cofundador da curitibana Sutil Companhia de Teatro (1993-2012), com Felipe Hisrch. Na sua concepção, a arte estaria livre da expectativa do novo. Restaria algum sentido ou interesse primevo no âmbito da astronomia, da arquitetura ou da moda, “mas o teatro não precisa mais da novidade”.

Weber entende a mudança de paradigma como um fenômeno mundial, não apenas circunscrito. “O festival deve servir efetivamente ao encontro, à cidade, e tornar-se nacional a partir do que lhe é específico, como o velho Tolstói dizia. Olhar para o quintal do mundo é um bom recorte do pensamento que nos move.”

Deixar resíduos na cidade é outra imagem/sentido que Márcio Abreu emprega e espera que o festival cumpra no período 2016-2018, os três anos previstos para a prática da curadoria continuada. Como fundador do Grupo Resistência de Teatro (1990-1996) e da companhia brasileira de teatro (1999, atualmente das mais ativas na cena curitibana-brasileira), o diretor afirma preocupar-se com o “comprometimento” da organização. Segundo ele, isso tem a ver com “tirar o caráter eventual” e abrir-se ao espírito processual. “Passa pelo cuidado para com os técnicos e os artistas”, diz Abreu, que reivindica a “delicadeza” em todos os níveis de relação. “É como compreendo mais amplamente o papel da curadoria, dos movimentos que se articulam em permanente diálogo”. Daí a ênfase na mediação crítica junto ao público, em debate seguido à apresentação, em determinadas sessões, ou por meio da produção de textos vindouros. Por um espectador, também ele, crítico.

Premidos pelo tempo, ainda assim Márcio Abreu e Guilherme Weber delinearam o que as transformações de parâmetros conceituais poderiam gerar se aprofundadas. Na programação que vai até domingo (3), tanto a mostra principal como as mostras simultâneas espelham inquietações formais e temáticas em trabalhos vindos de outros estados ou de Curitiba.

Weber e Abreu têm suas trajetórias sincronizadas ao ímpeto de lidar com o teatro em sua infinita possibilidade de invenção no campo da pesquisa. Pois foi como jovens espectadores do Festival de Curitiba que eles nutriram o gosto pelo risco. No outono de 1992, Weber agradecia aos deuses do teatro a possibilidade de assistir a espetáculos de Antunes Filho, Gabriel Villela e Gerald Thomas, entre outros encenadores, sem ter de viajar a São Paulo para isso.

“Eu sempre insisti, batalhei pela manutenção do festival junto à imprensa, às autoridades. Sabia como ele foi importante na minha condição de artista e de espectador. Quero que as novas gerações sejam formadas com a mesma inquietude”, diz o agora curador Weber, projetado como ator em A vida é cheia de som e fúria (2000), no mesmo certame, adaptação de Hirsch para o romance Alta fidelidade, do inglês Nick Hornby, que tinha no elenco justamente Márcio Abreu.

Na mistura de memórias de Abreu, ele é um estudante na “fila da esperança” tentando conferir algumas peças quando não tinha dinheiro para comprar ingressos. Recorda-se de Sonho de uma noite de verão, encenação de Cacá Rosset com o Grupo Ornitorrinco, na noite de inauguração da Ópera de Arame no ano-zero do festival. Também daquele março de 1992, não lhe escapa The flash and crash days, criação de Gerald Thomas com Fernanda Montenegro e Fernanda Torres no elenco integrado, ainda, por artistas da Companhia de Ópera Seca. Lembra-se ainda do burburinho na calçada e no saguão do antigo hotel Araucária, outrora “QG” do evento, ao lado do Teatro Guaíra. No ano seguinte, teve o solo de Rubens Corrêa no Teatro Paiol, o antológico Artaud.

Cena de 'A cidade sem mar', com companhia brasileira de teatroVirginia Benevenuto

Cena de ‘A cidade sem mar’, com companhia brasileira de teatro

São esses afetos que orientam as disposições de Weber e Abreu em embarcar no projeto, catapultados desde o final do ano passado. Nas agendas, Abreu está às voltas com ensaios para a nova obra do Grupo Galpão, de Belo Horizonte, além da companhia brasileira ora em cartaz numa das mostras do festival com Cidade sem mar, baseado na obra do escritor paranaense Manoel Carlos Karam. Weber estreia neste sábado (2) a temporada de Os realistas em São Paulo, quinta vez em que visita a dramaturgia do americano Will Eno.

Ambos, Abreu e Weber, curadores-criadores a fio e dispostos a ousar ainda mais nas próximas duas edições, como acreditam terem pactuado com a organização.

A respeito do grau de incerteza que precedeu a edição deste ano, Leandro Knopfholz afirma ter enfrentado tais níveis de obstáculo somente nos primeiros cinco anos de consolidação no calendário nacional, a partir de 1992, dado o frio na barriga inercial a cada renovação de patrocinadores. Dessa vez as grandes marcas tardaram, mas chegaram, por meio de isenção fiscal, além dos aportes diretos da prefeitura e do Estado do Paraná. A instabilidade financeira, quem diria, reverberou na mudança de curadoria e de suas ambições.

“Até novembro não havia garantia de continuidade. Perdemos determinado patrocinador [o Banco Itaú, parceiro por 15 anos], mas felizmente tivemos confirmação de que a Cielo apresentaria o evento”, afirma Knopfholz. O orçamento é estimado em R$ 6 milhões, sob autorização para captar até R$ 10 milhões via Lei Rouanet.