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Artigo

A cena, o espectador e a perseverança do Grupo 3

3.9.2013  |  por Valmir Santos

Foto de capa: João Caldas

Artigo concebido para o programa da Mostra de Repertório Grupo 3 de Teatro, que acontece de 3/9 a 6/10 no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, apresentando A serpenteO continente negro e O amor e outros estranhos rumores – 3 histórias de Murilo Rubião.

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Assim como o drama é movido a conflitos nas ações, estados e efeitos que emenda, o seu resultado também depende da tensão vital entre cena e espectador. Pororoca de ruídos essenciais para que a obra diga a que veio, instaurando sentidos e ressignificações.

A convicção dessa interdependência transparece nos modos de pesquisar, criar e produzir do Grupo 3 de Teatro em seus oito anos de memória. O repertório que traz à luz, com três peças, permite aferir o moto contínuo das suas estratégicas quanto ao aperfeiçoamento de linguagem e ao compartilhamento de ideias, treinamentos, intercâmbios e processos inacabados, ou seja, o trabalho em progresso.

Convém lembrar que o conclusivo em artes cênicas esbarra na natureza efêmera do encontro ao vivo. Existem as especificidades do instante em que artistas e espectadores pactuam uma terceira via ficcional em suas realidades. Uma derivação do fazer e refazer no ato de ensaiar por semanas ou meses a fio. Não por acaso, na língua francesa o verbo ensaiar equivale a répétition.

O coletivo encabeçado por trio de origem mineira assimila o conceito de eterno retorno, a ciranda das práticas e pensamentos que lhe permita abrir flancos a cada nova etapa. Neste caminho de “perguntas e conjecturas”, em que “o aprendizado é constante e a busca pela integridade, eterna[1]”, os diretores-artísticos Débora Falabella (atriz), Gabriel Fontes Paiva (produtor) e Yara de Novaes (atriz e diretora) circunscrevem a cultura de grupo desde o nome que o batiza, à maneira dos mosqueteiros de Dumas.

A organização conceitual dos grupos teatrais tem respondido por alguns dos melhores momentos do teatro brasileiro desde meados da década de 1970, compreendendo os campos basilares da encenação, da dramaturgia e da atuação.

Segundo a pesquisadora Silvia Fernandes, da USP, “a permanência de um núcleo mais ou menos fixo de participantes parece o fator determinante do sucesso dessas equipes”[2]. A manutenção de um pólo criador favorece o avanço das conquistas técnicas e artísticas. Suscita uma identidade viabilizada pela experimentação conjunta. O desenvolvimento de ideias e procedimentos ensaiados em montagens anteriores “acaba favorecendo a constituição de uma linguagem particular e, nos casos mais bem-sucedidos, a invenção de um repertório original”, explica Fernandes.

Débora Falabella na peça do chileno De La Parra

O pernambucano-carioca Nelson Rodrigues (1912-1980), o chileno Marco Antonio de La Parra (1952) e o mineiro Murilo Rubião (1916-1991) são os planetas literários e dramáticos presentes até aqui na linha de tempo do Grupo 3. Ao associar a sua biografia a autores marcados pela ousadia e pelo apuro formal e temático, o coletivo pontifica também a ambição estética com idêntico rigor e clareza.

Seria difícil pinçar traços comuns nessas fontes, mas ocorrem sincronias nas respectivas transposições para a cena, tais como a fragmentação da história, a perda da individualidade do personagem ou figura em prol de um caráter mais abstracionista, a atmosfera onírica e o diálogo febril e poético. Um percurso entre a gradação expressionista em A serpente (2005) e o realismo fantástico lapidar em O amor e outros estranhos rumores – 3 histórias de Murilo Rubião (2010), passando pelo estilhaçar do amor romântico em O continente negro (2007).

Quem sabe, o prefácio do sueco August Strindberg (1849-1912) para o seu drama O sonho viria a calhar como epígrafe do projeto artístico que perscrutamos: “Tudo pode acontecer, tudo é possível e verossímil. Deixam de existir tempo e espaço. A partir de uma insignificante base real, o autor dá livre curso à imaginação, que multiplica os locais e as ações, numa mistura de lembranças, experiências vividas, livre fantasia e improvisos”[3].

Impacto pictórico

Yara de Novaes assinou as encenações de Nelson e Rubião, enquanto Aderbal Freire-Filho foi convidado a dirigir De La Parra. Em Freire-Filho, com mais de meio século de palco, encontramos a fluída captura da cumplicidade do ator para navegar na profusão dos fragmentos amorosos, distopias e outras acumulações contemporâneas. Em Novaes, percebemos a firmeza das mãos da atriz-encenadora por uma composição global e de impacto pictórico, em que o desenho de luz, a concepção cenográfica e os objetos são cruciais, assim como o atuante e o verbo, suas vigas mestras.

Neste sentido, O amor e outros estranhos rumores é o espetáculo da maturidade do grupo. A contingência evolutiva na aventura do criar comum soma-se à inteligência experimentada no espaço cênico e no como habitá-lo.

Ou melhor, cohabitá-lo. Em se tratando de Yara de Novaes, a promiscuidade de signos é um deleite à parte. Pelo menos desde quando vinculada à Odeon Companhia Teatral, de Belo Horizonte (testemunhamos seu Ricardo 3º, de 1999, de Shakespeare, e Noites brancas, de 2003, incursão dostoievskiana com Débora Falabella no elenco e o patenteamento da sina literária). E inclusive nas realizações paralelas ao coletivo atual, como Tio Vânia, de 2011, Tchékhov com o Grupo Galpão, e Maria Miss, de 2012, Guimarães Rosa com Tania Castello, Cacá Amaral e Daniel Alvim.

Priscila Jorge e Maurício de Barros, rubianos.

A despeito do poder visual, a montagem de O amor e outros estranhos rumores não subestima a dimensão da palavra esculpida com a argúcia muriliana, prosa convertida em dramaturgia com igual cuidado por Silvia Gomez. Os deslimites do absurdo e do surrealismo seguem irretocáveis na adaptação dos contos Memórias do contabilista Pedro Inácio, Os três nomes de Godofredo e Bárbara. As narrativas apresentam seres desolados por amor, desejo e solidão, exigindo dos atores uma desafiadora disponibilidade de trânsito.

O arquiteto e artista plástico André Cortez assina todas as cenografias. Na última peça, por exemplo, ele valoriza o miolo vazio do palco ao formular uma circularidade mágica e mutante de paredes, portas e frestas alegóricas de uma ascensão celestial ou uma queda infernal. O compositor das trilhas sonoras, Morris Picciotto, é outro colaborador contumaz, mais um reflexo de que solidez, em artes cênicas, é qualidade proporcional ao trabalho continuado.

A capacidade de fazer com que um espetáculo transcenda a si é verificada por meio da pertinência do grupo em colaborar com a difusão da obra do autor mineiro estudado com entusiasmo nas universidades e ainda pouco reconhecido pelo país. A temporada de estreia incorporou uma exposição interativa em saudação ao universo do escritor, Murilo Rubião – O reescritor fantástico (de fato, ele era um ser obsessivo com as revisões e revisitações dos textos).

Esse braço pedagógico e atento à recepção e formação de público é tributário, sobretudo, da lida de Gabriel Fontes Paiva. O produtor desdobra-se como esgrimidor cultural na sondagem do quê ou como abordar. Faro investigativo que o levou a lançar o selo editorial do coletivo e publicar a tradução de Gomez para O continente negro, em 2009, ou a realizar a Mostra Contemporânea de Arte Mineira, em 2008, no Sesc Pompeia paulistano. Sua dedicação é ininterrupta, por dentro e por fora da cena.

Outra virtude inequívoca na trajetória do Grupo 3 é contar com uma atriz da teledramaturgia de ponta como codiretora-artística. Trata-se de contraponto à convenção do rosto televisivo associado a produtos ditos culturais e medidos com a régua da mediocridade.

Débora Falabella foi uma das protagonistas do fenômeno Avenida Brasil, no ano passado, e logo em seguida mergulhou na pesquisa, nos ensaios e na turnê pelo interior paulista com uma ação que o núcleo chamou de “exposição de trabalho”, dividindo com o público o estágio de feitura da sua quarta peça, Contrações, do inglês Mike Bartlett.

Nela, Novaes e Falabella contracenam sob direção de Grace Passô, atriz e dramaturga do Grupo Espanca!, de Belo Horizonte, convidada para o novo projeto a debutar ainda este ano sob a sensível influência dessa escuta pública.

Falabella e Débora Gomez em cena rodriguiana

Antes, porém, há a longa jornada da mostra de repertório com as peças distribuídas em sessões de terça-feira a domingo, por cinco semanas, emanando fôlego digno da floração modernista do teatro brasileiro entre os finais das décadas de 1940 e 1960.

Por isso, mas não só, é notável o jogo de cintura de personalidades como Débora Falabella ao dialogar com a indústria cultural em grande escala e não abrir mão da arte secular do teatro, de caráter artesanal, que não pode prescindir do espectador e jamais subestimar sua capacidade de leitura. Ao contrário, provoca-lhe o espírito para os sentimentos do mundo.

Daí a coragem de perseverar o teatro de pesquisa, a interlocução sagaz com a plateia, a perspectiva humanista da vida. Filosofia coronária que move o Grupo 3 de Teatro e muitos dos seus pares ao redor do Brasil, esperançosos da relevância cidadã da arte e da cultura.

>> Informações sobre a temporada da Mostra de Repertório no Teatro Sérgio Cardoso

[1] O continente negro. Marco Antonio de La Parra. Tradução de Silvia Gomez. Organização de Gabriel Fontes Paiva. São Paulo: Grupo 3 de Teatro, 2009, pp. 7 e 8.

[2] Silvia Fernandes em Dicionário do teatro brasileiro: temas, formas e conceitos. Coordenação de J. Guinsburg, João Roberto Faria e Mariangela Alves de Lima. São Paulo: Perspectiva e Edições Sesc SP, 2009, 2ª edição, p. 163.

[3] Citado em Nelson Rodrigues expressionista. Eudinyr Fraga. São Paulo: Ateliê Editorial, 1998, p. 198.

Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, em 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos no campo teatral. Colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutorando em artes cênicas pela Universidade de São Paulo, onde cursou mestrado na mesma área.

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