Crítica
A equipe de criação de Ossada conhece bem a distância entre nascer e tornar-se mulher, construção sociocultural examinada por Simone de Beauvoir há 90 anos. O espetáculo não cita diretamente O segundo sexo, livro central na obra da filósofa francesa, mas fomenta o pensamento feminista buscando novos modos de enunciar a violência causada pela desigualdade de gênero, tão premente ontem como hoje. A atriz e diretora Ester Laccava e as desenhistas de luz e imagem Mirella Brandi e Aline Santini elaboram outros vocabulários para a cena a partir do cruzamento de sensações e sombras.
Elas, as sensações e sombras, preponderam sobre o ambiente organizado à maneira de uma instalação em que transcorrem as cinco narrativas ou ações extraídas do livro I must collect myself (Eu preciso me recompor, de 2010), da atriz e escritora inglesa Maureen Lipman, personalidade veterana do teatro, da televisão e do cinema (ela interpretou a mãe do protagonista no filme O pianista).
Em ‘Ossada’, Ester Laccava não hesita em ocultar-se na coxia para dar lugar à varredura de luz que vai e vem pacientemente sobre espectadores e espectadoras. Efeito poético suspensivo que abarca todos os corpos presentes e parece escanear nossa percepção do mundo dessas mulheres pinçadas do cotidiano, e o quanto elas nos são mais próximas do que supomos
A amplitude do Espaço Cênico, um galpão multiuso do Sesc Pompeia, não é empecilho para Ester tourear sozinha o pé-direito alto e estreitar os vãos entre o teto, as paredes e os corredores à frente e atrás das duas plateias postadas uma de frente para a outra.
Independentemente de onde esteja posicionado, são pertinentes as chances de o público sentir-se integrado a cada um dos diferentes nichos em que as histórias acontecem. O espetáculo consegue estabelecer um campo comum em todas as situações-limite enfrentadas em contextos públicos ou na intimidade do lar.
Uma filha é castigada pelo pai porque atrasou a volta para casa em poucos minutos do combinado. Largado num sofá, ele a obriga a ficar de quatro para repousar os pés sobre suas costas. A humilhação é testemunhada pela irmã mais nova, com quem naquela noite desenvergará esse peso de suas existências.
Em plena pista de dança da festa de casamento do filho, uma mãe rouba a cena ao desabafar acerca da relação abusiva com o marido. Excede na bebida, mas é assertiva na crítica e autocrítica da união hipócrita anos a fio, consolando-se no dote culinário de fazer canapés de berinjela sem igual, tudo parodiado com uma canção reluzente de Stevie Wonder, Ribbon in the sky.
João Caldas Fº A atriz e diretora Ester Laccava na narrativa curta sobre a mãe do noivo em ‘Ossada’, parceria criativa com Mirella Brandi e Aline Santini
Em outro texto, uma mulher para na calçada para fumar. Presume-se que desceu do prédio onde trabalha. O mero ato de acender o cigarro vira um impedimento inimaginável. A luta contra a corrente de ar equivale à capacidade de resiliência. Não há verbo, nem apelo à pantomima. Há o gesto estilizado, a repetição, o humor subentendido.
Pontuamos três das cinco histórias para apoiar a análise de que a relevância do que é dito ganha interxtualidade nas paisagens visuais e sonoras e naquilo que emana do corpo da atuante. Ester comunica o lugar e seu entorno com poucos recursos. A palavra, por sua vez, é um prolongamento da luz e do desenho de som (por Muep Etmo).
Os três exemplos vão muito além do descrito em sua capacidade de operar linguagens e, por vezes, de não se levar muito a sério, a despeito da contundência (a cena de uma escritora respondendo a questões desprezíveis numa entrevista coletiva, por ocasião de um lançamento, enseja contornos psicofísicos do teatro do irlandês Samuel Beckett).
Joao Caldas Fº O terceiro espetáculo solo da atuante na década evidencia a abordagem do feminismo em perspectivas não convencionais
Com três décadas e meia de carreira, Ester surge isenta de ansiedade ao tratar da matéria-prima literária sob os códigos da performance. Esquiva-se de virtuosismo para servir aos demais elementos constitutivos da cena. Não hesita em ocultar-se na coxia para dar lugar à varredura de luz que vai e vem pacientemente sobre espectadores e espectadoras. Efeito poético suspensivo que abarca todos os corpos presentes e parece escanear nossa percepção do mundo dessas mulheres pinçadas do cotidiano, e o quanto elas nos são mais próximas do que supomos.
Ossada permeia sua consistente caminhada com citações à poeta polonesa Wislawa Szymborska (1923-2012) e à cantora, performer e artista plástica estadunidense Laurie Anderson. São por meio delas que a condição animal e o instinto humano se tocam para romper os cabrestos.
Este é o terceiro espetáculo solo de Ester Laccava na década. Tanto na empreitada de Syngué sabour – Pedra de paciência (2014), em que a protagonista afegã vela o marido em coma, por mais de três meses e sob guerra, enquanto amaldiçoa o machismo arraigado e lhe confessa segredos libertários do passado, como na de A árvore seca (2011), em que perpassa a vida de superações de uma sertaneja brasileira no convívio com o marido turrão, o filho adotivo e a loucura à espreita, o feminismo fala em alto e bom som por vias não convencionais.
Serviço:
Onde: Sesc Pompeia – Espaço Cênico (Rua Clélia, 93, Água Branca, tel. 11 3871-7700)
Quando: Quinta a sábado, às 21h30; domingo e feriado, às 18h30. Até 3/2
Quanto: R$ 6 a R$ 20
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Equipe de criação:
Criação e direção geral: Ester Laccava
Cocriação: Mirella Brandi e Aline Santini, a partir de textos de Maureen Lipman, Wislawa Szymborska e Laurie Anderson
(Obras da Wislawa Szymborska – edição da Companhia das Letras; tradutora: Regina Przybycien)
Dramaturgia: Elzemann Neves, Ester Laccava e João Wady Cury
Tradução: Gabriela Araújo
Com: Ester Laccava
Diretor de produção: Emerson Mostacco
Desenho de luz e imagem: Mirella Brandi e Aline Santini
Operação de luz: Clara Caramez
Desenho de som e trilha: Muep Etmo
Áudios: Marccelo Amalfi
Operação de som: Rodrigo Florentino
Figurinos e colaboração artística: Chris Aizner
Assistentes de direção: João Wady Cury e Elzemann Neves
Contrarregra: Clayton Guimarães
Designer gráfico: Carla Vanusa
Fotos: João Caldas
Produção: Lacava Produções e Mostacco Produções
Realização: Sesc-SP
Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.