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Crítica

Tempo esgotado

27.3.2019  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Carola Monteiro9/Foco in Cena

Uma das premissas dos produtos da indústria cultural é a reviravolta na narrativa. O chamado plot twist equivale a uma mudança radical na direção esperada ou prevista de um romance, filme, série televisiva, história em quadrinhos, jogo eletrônico e outros suportes. No espetáculo Mágica de verdade, o grupo inglês Forced Entertainment enterra essa proposição e ilustra a perversa interdependência das acumulações de capital e de imagem na vida social cada vez mais reduzida a mercadoria.

Trata-se de uma apropriação do mundo do entretenimento exposta com crítica e humor afiados. A leitura expandida vem da fixação com que uma cena curta inicial reincide por mais de 30 vezes, com mínimas mas significativas variações de si mesma, levando o público a experimentar o efeito looping sem sair do assento. As expectativas são deslocadas para outros lugares do pensar e da condição humana dado o nível de absurdo.

Em ‘Mágica de verdade’, o grupo inglês Forced Entertainment concebe uma dramaturgia circular do fracasso. Não há vencedores em terra de vencidos pelo excesso ou pela falta no trato com as culturas do carro, da tecnologia, da comida, do tempo, do dinheiro e do pensamento

O misto de atração e repulsa a que a plateia do Teatro do Sesi foi submetida durante a sessão na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo se articula à qualidade de mobilização a que uma obra de arte é capaz. A impotência configurada como dramaturgia incomoda e esse sentimento teve seus limites efetivamente testados.

Afinal, quando Hamlet disse há mais de quatro séculos que “Estar preparado é tudo”, Shakespeare não imaginava que a disposição para encarar um duelo de espadas seria usada como mensagem de autoajuda ou slogan publicitário.

Num desses concursos de televisão, ou game show, o apresentador desafia um candidato de olhos vendados a adivinhar qual a palavra estampada na placa que uma terceira pessoa segura e exibe diante do “auditório” e das “câmeras”.

Jerry Killick, Richard Lowdon e Claire Marshall revezam-se nas três figuras em moto-contínuo. A precisão técnica e a forma atípica como combinam improviso e autonomia ao longo da encenação indicam comediantes escolados na arte da performance em 34 anos de grupo junto ao diretor Tim Etchells e demais pares.

Carola Monteiro/Foco in Cena

Em ‘Mágica de verdade’ (2016), a impotência configurada como dramaturgia incomoda e esse sentimento teve seus limites efetivamente testados em cena

Figurinos lúdicos na abertura, replicando aves amarelas, parecem encaminhar o roteiro para a mera representação. Em vez disso, o incipiente esquete cômico ganha volume em nuances e vira o próprio dispositivo da noite.

A engenhosidade como cada sequência é repetida põe em evidência o simulacro do set de filmagem cenográfico, com direito ao sobe e desce do aplauso pré-gravado da claque. No ambiente fajuto, de tapete que imita grama sintética, envolto por lâmpadas tubulares feito totens, o trio quebra o gesto, faz de adereços e objetos a extensão alongada do corpo, veste perucas, fica seminu, põe óculos espelhados e assim sucessivamente, promovendo transformações grotescas.

A máscara do palhaço implícita nos atuantes lembra as entradas ou reprises circenses que parodiam os números de atrações e habilidades dos artistas da lona.

Influenciado pela linguagem do clown, o irlandês Samuel Beckett (1906-1989) dizia que o assunto por excelência de sua obra é o fracasso, eco entreouvido em Mágica de verdade. “Não é preciso continuar, é preciso continuar” – são as divisas que o orientam, afirma o professor e pesquisador Fábio de Souza Andrade em Samuel Beckett e o silêncio possível (Ateliê Editorial, 2001).

Carola Monteiro/Foco in Cena

A partir da esquerda, os atuantes ingleses Jerry Killick, Claire Marshall e Richard Lowdon: apropriação do mundo do entretenimento com crítica e humor afiados

Uma dramaturgia circular do fracasso, o espetáculo desmonta o automatismo de pergunta e resposta, erro e acerto. Vê mais mistérios entre os polos. Não há vencedores em terra de vencidos pelo excesso ou pela falta no trato com as culturas do carro, da tecnologia, da comida, do tempo, do dinheiro e do pensamento. O furo na camada de ozônio e uma das esculturas mais conhecidas de Rodin, O pensador, são algumas das imagens verbais que saltam desse jogo frenético de faz e desfaz.

Em que pese o mal-estar pela abordagem da realidade fora dos trilhos, frases de religação como “Vamos trocar”, “Vamos dançar” e “Mais uma chance” insuflam a busca por alternativas. A vitalidade da criação responde a esse desejo. O alheamento da candidata ou candidato a cada rodada – mais siderados que focados em prêmio – infere o esgotamento dos modelos de sustentabilidade do ser humano e do planeta.

Na sua primeira visita a São Paulo (o grupo participou do festival Riocenacontemporânea em 2006, com Bloddy mess e Exquisit pain), o Forced Entertainment trouxe um trabalho de 2016 lapidar na percepção de que menos é mais. Prova, assim, que seu sistema de alimentação da usina de desilusões segue a pleno vapor.

.:. Leia mais sobre Mágica de verdade no site da MITsp

.:. Visite o site do grupo Forced Entertainment

Equipe de criação:

Direção: Tim Etchells
Criação e elenco: Jerry Killick, Richard Lowdon e Claire Marshall
Colaboração à criação: Robin Arthur e Cathy Naden
Iluminação: Jim Harrison
Design: Richard Lowdon
Gerência de produção: Jim Harrisona
Assistência ao projeto: Anna Krauss
Técnicos de som: Greg Akenhurst e Doug Currie
Música eletrônica e edição de som: John Avery
Loops: Tim Etchells
Grave, a partir de Telemann fantasia number 1 em Be-flat major: Aisha Orazbayeva
Produção: Forced Entertainment
Este espetáculo é apoiado pelo British Council

Valmir Santos

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