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Crítica

Estalidos da língua-mãe

6.4.2019  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Dalton Valerio

Curitiba – Apontar e falar, ou shisa kanko, é a técnica japonesa para melhorar o desempenho em atividades que exigem atenção. Ela surgiu no início do século XX para disciplinar funcionários de estações de trem. Com o passar dos anos, acabou adotada na área de segurança e saúde ocupacional. Gesticular, apontar e falar sozinho serviria para checar se tudo está em ordem com a sinalização. Ana Kfouri nos faz lembrar desse procedimento rudimentar no solo Uma frase para minha mãe (Une phrase pour ma mère, 1996). Em vez de concentrar-se na direção do dedo, porém, ela prioriza a elocução. O pensamento vem do ato da fala que a orienta no caminhar compassado por entre a plateia sentada em estrados da sala multiuso.

Mas como executar essa operação quando um princípio tácito do espetáculo é violentado do início ao fim? O estilo sertanejo romântico entoado em voz e violão no bar em frente à Casa Hoffmann, no centro histórico, maculou em parte a execução da performance colocada à prova pela perversa impossibilidade do silêncio no espaço cênico.

A aplicação da atriz foi, também, a de quem assistiu e conseguiu abstrair os ruídos externos para embarcar em outros, semânticos, e penetrar a massa textual.

Em ‘Uma frase para minha mãe’, o corpo de Ana Kfouri surge atravessado pela materialidade dos sons, ritmos e lampejos do que é dito. Os gestos são mínimos, sem nós de emocionalidade. Seu fechar de olhos, uma partitura recorrente, interioriza a atenção do observador participante

Sem a preocupação em demarcar personagens ou enredo, o discurso direto é sustentado pelos estalidos da série de enunciados que enlaça e desata mãe e filho. Assim como ela o sustentou no organismo, ele, o narrador, na condição de escritor, de inventor de mundos, faz do processo criativo uma regressão ao estágio uterino, quando era “exasperante jamais falar com as próprias palavras”. O esforço agora é para ser dono do próprio nariz em sua casca de noz.

Aquela sensação inicial de monolítico, advinda da essência verbal da proposta, soa como uma pedra no meio do caminho devidamente problematizada. Logo é assimilada pela musicalidade oral modulada sob infinitas qualidades. Há margens para o parentesco com a poesia concreta, veredas para a maleabilidade da escrita do mato-grossense Manoel de Barros e até miniestruturas fonéticas feito haicai.

A prosa do francês Christian Prigent foi transcriada pelo professor e pesquisador Marcelo Jacques de Moraes. A tradução aguça a escuta com seus achados em português. A linguagem crepita com e a partir da atuante. “Eu era bola úmida de sufocação”, diz a voz masculina, tal um embrião, “opaca atonia da anatomia”. Na apresentação adentro ela, a voz, corre com o pensamento e encaixa os tempos que vão dando corpo ao que era rasura.

Dalton Valerio

Diretora de si pela primeira vez, em 40 anos de ofício, Ana Kfouri encontra no novo trabalho as condições pragmáticas para avançar na pesquisa da criação de solos da qual se ocupa há mais de década

Escritor, poeta, crítico e ex-aluno do semiólogo Roland Barthes (1915-1980), para Prigent a poesia não vem da facilidade, conforme disse em entrevista a O Globo, em 2015. Seu texto de fato racionaliza a prática da linguagem. É nas entranhas dessa estrutura rígida que Ana e Moraes garimpam a fonte da oralidade e expandem o encontro presencial.

O corpo da atriz surge atravessado pela materialidade dos sons, ritmos e lampejos do que é dito. Os gestos são mínimos, sem nós de emocionalidade. Seu fechar de olhos, uma partitura recorrente, interioriza a atenção do observador participante.

Diretora de si pela primeira vez, em 40 anos de ofício (sob colaboração artística de Marcio Abreu, cocurador do Festival de Curitiba), Ana encontra no trabalho estreado em 2018 e exibido nesta 28ª edição as circunstâncias pragmáticas para avançar na pesquisa da criação de solos da qual se ocupa há mais de década.

Após a trajetória profissional que gravitou o corpo, inclusive como preparadora de elenco e professora, no Rio de Janeiro, ela conjuga cada vez mais a tríplice aliança palavra, corpo e pensamento, instigando-a em companhia de dramaturgos inovadores como o irlandês Samuel Beckett (1906-1989) e o francês Valère Novarina.

Em Uma frase para minha mãe as visões de vida e de arte criam um movimento pautado pela proximidade e pelo distanciamento do olhar com cada pessoa da audiência. A mulher vestida de preto caminha pelo chão de corredores forrados de folhas estampadas com trechos dos textos original e traduzido. Um percurso de retas que convida à razão e à capacidade de se afetar.

Afinal de contas, a memória filial é condição humana. “O grande mistério não é termos sido lançados aqui ao acaso, entre a profusão da matéria e das estrelas: é que, da nossa própria prisão, de dentro de nós mesmos, conseguimos extrair imagens suficientemente poderosas para negar a nossa insignificância”, anota o francês André Malraux (1901-1976) no romance A condição humana.

O viés francófono não diminui a esfera universal da peça, ao contrário. Indexada à linguística e mediada pelas artes cênicas e literárias (o verbo se faz carne), temos o contraponto da liberdade absoluta à novilíngua, idioma fictício criado pelos excessos delirantes de um governo nefasto sobre o qual o inglês George Orwell (1903-1950) medita assustadoramente no livro 1984, sublinhando as formas do poder autoritário.

Dalton Valerio

A atriz e pesquisadora está à frente do Centro de Estudos Ana Kfouri (2017) e é fundadora da Companhia Teatral do Movimento (1991)

.:. O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Curitiba

Equipe de criação:

Texto: Christian Prigent

Tradução: Marcelo Jacques de Moraes

Direção e atuação: Ana Kfouri

Colaboração artística: Marcio Abreu

Cenografia: André Sanches

Iluminação: Paulo César Medeiros

Assessoria de comunicação: Rachel Almeida

Fotografia: Dalton Valerio

Programação visual: Taiane Brito

Direção de produção: Ana Paula Abreu e Renata Blasi

Assistência de direção: Tainah Longras

Operação de luz: Julia Requião

Redes sociais: Natalia Balbino

Idealização: Ana Kfouri

Produção: Diálogo da Arte Produções Culturais

Realização: Companhia Teatral do Movimento

Valmir Santos

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