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Crítica

Desilusão e vigília em ‘Vem buscar-me que ainda sou teu’

28.7.2019  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Gabriela Rocha

O santista Carlos Alberto Soffredini (1939-2001) parecia bastante consciente ao confrontar a matéria da desilusão na tragicomédia Vem buscar-me que ainda sou teu. Ele já antecipava: “Este trabalho é o resultado de um contato sincero com o artista ambulante. Fui lá procurando a essência da linguagem teatral brasileira. E encontrei pessoas. Procurando as ideias, encontrei a vida. Não dedico esta peça a eles porque eles jamais a lerão. E, se a lessem, não se interessariam por montá-la. E eles sabem o que fazem”.

Lá, lugar indefinido, supõe-se território concreto e simbólico do artista mambembe. Ou, por outra, do Brasil profundo, da gente do interior ou das periferias dos grandes centros que penou ao longo do século XX de misérias, migrações e modernidades intermitentes. Mulheres, homens e crianças forjados em oralidade, gestualidade e sagacidade dignas da cultura e da arte popular, calejados que foram e ainda são em pular barreiras e preconceitos.



Pois entre a realidade ficcionalizada e a quebra de ilusão cênica temos no texto de Carlos Alberto Soffredini um tabuleiro propício a criadores e espectadores abertos a jogar ativamente sob excelentes condições técnicas e poéticas de voo, o que não se cumpre na montagem de Renata Soffredini

Soffredini não faz proselitismo da sabedoria das pessoas simples, com pouca ou nenhuma instrução, elas mesmas abertas a rir de si – atitude algo libertária para tocar a vida, como subentendido no texto escrito entre 1978 e 1979. Não há postura de arrego na história da matriarca que conhece a decadência das companhias familiares ao transitar os picadeiros ou pavilhões – nestes em que o palco era mais pronunciado, de modo a receber as representações cênicas.

Obstinada, a dona da trupe de variedades abre-se ao híbrido circo-teatro como uma maneira de resistir, de não perder o público. Como era comum entre as décadas de 1930 e 1950, antes da chegada da televisão no Brasil, os números convencionais deram lugar a enredos melodramáticos, caracterizados por situações e sentimentos exagerados, invariavelmente narrados e dialogados sob acompanhamento musical ao vivo. Esse gênero popular perdeu espaço na medida em que a teledramaturgia avançou nas décadas seguintes.

Gabfriela Rocha Laura La Padula e Ian Soffredini numa das cenas do espetáculo que marca os 40 anos da peça de Carlos Alberto Soffredini que partiu da tradição do circo-teatro

Como a personagem Mãe Coragem do drama de Bertolt Brecht, Aleluia Simões, que na peça dentro da peça vive Mãezinha, também tenta sobreviver em meio a uma guerra, mas de outra natureza: o cerco da indústria cultural. Nos idos da década de 1970 o circo tinha na televisão e no cinema os seus rivais mais evidentes. Em resumo, o duplo Aleluia Simões/Mãezinha demonstra o amor incondicional à arte herdada dos antepassados e que essa mulher transformou em sua razão gregária de ser e existir.

Para quem não assistiu às montagens profissionais realizadas na cidade de São Paulo (a de Iacov Hillel, de 1979, e a de Gabriel Villela, de 1989), o espetáculo ora assinado por Renata Soffredini incumbe-se, e o cumpre, de apresentar às novas gerações a sofisticação de linguagem impressa no feitio desse texto.

Sua metateatralidade é brilhantemente concebida e balizada graças à segurança de Soffredini e equipe (como os artistas plásticos Eurico Sampaio e Irineu Chamiso) ao lidar com o material prospectado em encontros com profissionais e amadores circenses. Durante cerca de dez anos eles se aproximaram de práticas, ideários e imaginários convertidos em dispositivo dramatúrgico que se pode equiparar a Seis personagens à procura de um autor (1921), do italiano Luigi Pirandello, guardadas as proporções.

Nascida no contexto da ditadura civil-militar (1964-1985), a peça brasileira alterna planos dos bastidores e da representação. No primeiro, a proprietária interage com o filho e com os artistas que contrata. Busca contornar as dificuldades de manutenção da casa, além dos egos de quem interpreta figuras como a cínica, o vilão, a ingênua, o galã, a “sobrete” (atriz que faz “escada” para o cômico arrematar), entre outras.

Já no plano da representação transcorrem partes do melodrama Coração materno, do português Alfredo Viviani. Em suma, filho atraído e obcecado pela vedete principal é convencido por ela a matar a própria mãe e assim essa atriz passaria a liderar a companhia, trama atiçada pelo vilão gigolô. Essa história ganhou uma gravação icônica na voz de Vicente Celestino, em 1937, composição de mesmo nome adaptada em parceria com sua mulher Gilda Abreu. Um tango canção bem ao estilo do romantismo exacerbado do tenor que arrebatou multidões na primeira metade do século XX.

Gabriela Rocha Oito atores e atrizes são acompanhados por três músicos no trabalho dirigido por Renata Soffredini, uma proposição do Núcleo de Estética Teatral Popular, o ESTEP

Pois entre a realidade ficcionalizada e a quebra de ilusão cênica temos um tabuleiro propício a criadores e espectadores abertos a jogar ativamente sob excelentes condições técnicas e poéticas de voo.

No entanto, a montagem de Renata e do Núcleo de Estética Teatral Popular despotencializa a teatralidade circense que a dramaturgia escrutina com rigorosidade. Afinal, o autor foi às fontes para reinventá-las, não lhe interessava o decalque.

Segundo a pesquisadora Erminia Silva, a história polifônica e polissêmica do circo brasileiro “nos autoriza mais a falar em teatro no circo apresentando todas as modalidades possíveis de representações teatrais do que em circo-teatro com um gênero único, ou pelo menos dois como se tem definido: comédia e (melo)drama” (em artigo de 2009).

É dessa perspectiva que não se observa na atual montagem uma concepção autoral depreendida das possibilidades que a peça de Soffredini oferta em termos de linguagem. No afã de não comprometer as essencialidades lírica, poética e crítica que lhe são caras na obra, Renata escolhe caminhos reconhecíveis. Emoldura a encenação de tal forma que deixa pouco espaço para que o elenco e as coreografias, que também concebe, respirem o ar de sua época.

Apesar das limitações da encenação, os atuantes conseguem instigar numa passagem ou outra, prevalecendo uma presença conjunta em detrimento de protagonismos. Os momentos cômicos são a tábua de salvação de Bete Dorgam (Aleluia/Mãezinha), Luiza Albuquerques (Dona Virgínia, a vizinha do teatro que se faz de “sobrete”) e Yael Pecarovich (Amada Amanda, a vedete), âncoras da relação direta com o público na sessão lotada acompanhada no Itaú Cultural.

Já na apresentação vista no Teatro João Caetano, com palco idealmente mais amplo para seguir as mudanças temporais e espaciais da narrativa, a disposição dos telões móveis no cenário e a devida acomodação do trio de músicos no palco, essa energia vital se esvaiu. Os números cantados deixaram a desejar, apesar do bom acompanhamento do trio de instrumentistas para as partituras originais de Wanderley Martins, à maneira de um regional. O resultado dessa tragicomédia musical, como definiu Soffredini, tampouco corresponde ao nível dos trabalhos que têm Fernanda Maia na direção dessa matéria.

Gabriela Rocha Bete Dorgam e Luiza Albuquerques são, respectivamente, a dona do teatro e a vizinha que acaba experimentando a vida de artista popular e seus desafios permanentes

Nas cenas melodramáticas de Coração materno, os registros de atuação são ainda mais desafiadores, no sentido de envolver a plateia sem que ela intua a mera caricatura.

Ian Soffredini (Campônio, o filho siderado pelo desejo) é quem mais se aproxima dessa elaboração, no limiar da herança cultural com os recursos técnicos do presente. Sua interpretação espreita os pavilhões do circo-teatro de outrora.

De volta ao encantamento que o texto promove, os diálogos de Aleluia com Cancionina Song (por Laura La Padula), a ingênua rica e recém-integrada que logo foge da empreitada, concentram o pensamento espirituoso e vigilante de Carlos Alberto Soffredini. A anteposição das artes da cena à indústria do audiovisual, galopante no Brasil da década de 1970, é exposta com argumentos que servem para os dias que correm (a função da arte, o refluxo de público, a alienação dos conteúdos e formas, a precarização do ofício, o tecnicismo, entre outros aspectos).

Ao exame das posturas éticas e estéticas que são para toda a vida, vislumbra-se o recorte do feminismo na perseverança de Aleluia e a saudação ao ofício do artista cênico em Brilhantina (por Tito Soffredini), contrarregra e iluminador que se achega à ribalta para olhar nos olhos do público com a cumplicidade dos justos e dos sonhadores. Passados 40 anos desde que veio à luz, Vem buscar-me que ainda sou teu tem muito a dizer à cena contemporânea na linhagem da cultura e da arte popular neste país que, ao contrário da peça, tem se mostrado cada vez mais conservador.

Serviço:

Onde: Teatro João Caetano (Rua Borges Lagoa, 650, Vila Clementino, tel. 11 5573-9774)

Quando: sábado, às 21h, e domingo, às 19h. Até 4 de agosto

Quanto: entrada franca (retirar ingressos uma hora antes da sessão)

Classificação indicativa: 14 anos

Duração: 120 minutos

https://www.facebook.com/nucleoestep/videos/867216423649639/?t=2
Gabriela Rocha Bete Dorgam como Aleluia Simões/Mãezinh

Equipe de criação:

Texto: Carlos Alberto Soffredini

Direção e coreografias: Renata Soffredini

Com: Bete Dorgam, Ian Soffredini, Yael Pecarovitch, Clovys Torres, Luiza Albuquerques, Fernando Nitsch, Laura La Padula e Tito Soffredini

Músicos em cena: Betinho Sodré (percussão), Luis Aranha (violão) e Tauan Ribeiro (acordeon)

Músicas: Wanderley Martins

Direção musical: Fernanda Maia

Direção de arte (cenários, figurinos e maquiagem: Kleber Montanheiro

Cenotécnico: Evas Carretero

Assistente de cenários, figurinos e maquiagem: Marcos Valadão

Desenho de luz e operação: Diego Rocha

Desenho de som e operação: Hayeska Somerlatte

Preparação corporal: Renata Soffredini

Assessoria de imprensa: Morente Forte Comunicações

Design gráfico: Leo Gois

Conteúdo audiovisual (fotos, filmagem e mídias sociais): Gabriela Rocha

Direção de produção e administração de temporada: Sueli Gonçalves

Realização: Prêmio Zé Renato de Teatro 7ª Edição – Núcleo ESTEP da Cooperativa Paulista de Teatro

Valmir Santos

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