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Crítica

Uma parceria incomum de saberes circense e caipira

14.10.2019  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Paulo Amaral

Não há saída para a humanidade fora da solidariedade. É dessa perspectiva que o espetáculo Circo da Cuesta traz uma contribuição singular às artes da cena ao fundir as linguagens circense e teatral à cultura caipira paulista sem nivelá-las por baixo. Ao contrário, a Cia. Beira Serra de Circo e Teatro, de Botucatu, promove bons achados nessa triangulação formalmente incomum.

O ato ou o efeito da espera funcionam como motores da dramaturgia. A entrega incondicional de trabalhadores e organizadores para entreter o público de uma quermesse no lugar da trupe contratada para tal, mas que não chega por causa da queda de uma ponte, é digna da capacidade de dar-se as mãos para remover pedras do meio do caminho. A missão vira um mutirão artístico e afetivo.

A cultura da roça, de pedir a bênção, de dançar a catira e de tocar a viola são outras das veredas perceptíveis em ‘Circo da Cuesta’, da Cia. Beira Serra de Circo e Teatro, que não abre mão da contemporaneidade e tampouco das raízes

Essas mulheres e homens de um lugar imaginário, mas com pinta de que estão enraizados no interior paulista, súbito, exibem domínio da técnica e muita inspiração e sentimento ao executar números de improviso que em nada devem à performance de profissionais da lona e do palco. Revelam-se, assim, seres universais pela capacidade de engajar-se numa causa comum.

Ao destacar o saber e a capacidade de invenção popular, o rústico mote do roteiro ecoa o livro Os parceiros do rio Bonito: estudo sobre o caipira e a transformação dos seus meios de vida (1964), clássico da sociologia nascido da pesquisa de campo Antonio Candido. Entre as décadas de 1940 e 1950, o crítico literário entrevistou e conviveu esporadicamente com moradores da região centro-sul do Estado, Botucatu incluída. Ao se debruçar sobre a poesia do “cururu”, dança cantada do caipira e versada em rimas, fez com que a teoria literária e o folclore derivassem para os meios de vida e as transformações provocadas pelo impacto do capitalismo, bem como as formas de resistência a elas.

No prefácio, Candido (1918-2017) atentou para aqueles que foram a base de sua pesquisa. “Homens da mais perfeita cortesia, capazes de se esquecerem de si mesmos em benefício do próximo, encarando com tolerância e simpatia as evoluções de um estranho, cuja honestidade de propósito aceitaram, ou ao menos não discutiram, por polidez. Eram todos analfabetos, sendo alguns admiráveis pela acuidade da inteligência”.

Paulo Amaral A atriz e pesquisadora MiMi Tortorella é uma das lideranças da quermesse, Sá Marica, e cofundadora da Cia. Beira Serra de Circo e Teatro com sede em Botucatu (SP) desde 2014

Circo da Cuesta sintoniza essa irradiação no modo como se acerca com intimidade e dignidade da gente de seu quintal, de suas ancestralidades. A montagem proporciona uma complexa acepção do que é simples e um despojamento, não menos raro, do que se supõe virtuosístico – para não falar da demarcação de gênero a ser pontuada mais adiante.

E essa conversa se dá sem cerimônia ou inclinação ao politicamente correto. Rir de si mesmo, saudar o gesto e a língua consagrados pela comicidade do genial Mazzaropi, parodiar o “caipirês” fundindo-o ao jeito americano de exportar cultura, friccionar o cancioneiro de raiz com o “folk”, flertar com a estilização ou artificialização do “camp” e com a arte “näif”, enfim, são múltiplas as entradas para ler essa obra despida da ansiedade de se ser genuína – e, no entanto, tem sua cota de originalidade em muitos aspectos – ao saudar tradições caras a Botucatu, onde a trupe atua há cinco anos.

O quarto espetáculo da companhia é lapidar do hibridismo que os fundadores Fernando Vasques e MiMi Tortorella, também atores e dramaturgos, praticam desde as próprias formações e pesquisas focadas em manifestações populares. Inclusive na pós-graduação, como compartilharam ao final da apresentação no 34º Festivale, ocorrida no Teatro Sesi São José dos Campos – instituição por meio da qual a Beira Serra foi contemplada neste ano no programa Viagem Teatral/Produções Inéditas.

Paulo Amaral Compadre Agostino (Guilherme Gasperine) e a patrona da festa e fazendeira Tia Celeste (por Marina Lino) no trabalho que estreou em agosto de 2019 e passou pelo 34º Festivale

Ao todo, são sete os artistas que dão vida a personagens arquetípicos, facilmente reconhecíveis, cujos intérpretes aos poucos agregam evoluções circenses específicas. Os trânsitos da representação aos números implicam eficiência técnica, o que se dá sem truques, apesar de a prestidigitação integrar o menu picadeiro de ações individuais ou coletivas, entre elas tecido acrobático, malabares, corda bamba e ocultação em baú (a chamada “mala moscovita”).

Essa diversidade é embalada pela música ao vivo levada pela dupla Rio Pardo e Mississípi (por Fernando Augusto e Dael Vasques). Ela dá o tom nos diálogos e nas interações do elenco com a plateia. A proposição empática acaba sendo mais arriscada do que a execução dos números de risco, de certa maneira esperados na troca com o público, esse elo em suspenso, ao sabor das exibições no ventre das narrativas. É preciso mais do que distribuir pé de moleque e cachaça para convencer adultos, adolescentes ou crianças a tomarem parte na proposta de coreografia em massa e baterem palmas cadenciadas para compor uma revoada de pássaros desde seus assentos.

O carisma, pode-se intuir, vem do bom humor desses jovens criadores. Curiosamente, inexiste a figura do palhaço, mas todos levam jeito para provocar riso a seu modo. Habilidade que também pode ser atribuída à rarefação do tempo estimulada pela encenação. Não se trata de duração, pois são pouco mais de sessenta minutos, mas de qualidade das presenças nos lados de lá e de cá. O diretor convidado, Ronaldo Aguiar, despressuriza a convenção frenética do entretenimento fast-food e oferece uma qualidade de fruição aparentada do ritmo da vida interiorana. Uma preciosa cadência que causa desconfiança no início, sob o ângulo de quem mora na capital e também viu a estreia no Teatro Sesi São Bernardo do Campo, em agosto, mas não demora a fundamentar-se plenamente na construção de perenidade no terreiro da alteridade.

Enquanto os responsáveis pela quermesse Sá Marica (MiMi Tortorella) e Januário (Fernando Vasques) empenham-se em ciceronear a audiência e contornar o desfalque da trupe que seria a cereja no bolo da fogueira e dos comes e bebes, a patrona da festa, a fazendeira Tia Celeste (por Marina Lino), rouba a cena em intervenções etílicas terrestres e aéreas. Viúva, ela banca a brincadeira pública na vila e acaba protagonizando show à parte. Em vez de julgá-la moralmente, pela dependência química, mal que acomete milhões de brasileiros, o espetáculo faz contraponto ao recordar de seu marido, Cosme, fazendeiro de quem ela herdou a boiada e o café. Contudo, a riqueza de que sente falta seria a do “amor que um tinha pelo outro”.

Paulo Amaral Willian Novak na figura do Pescador, que bebe da obra de João Guimarães Rosa; espírito solidário do espetáculo também pode remeter a clássico da sociologia de Antonio Candido

Na condição de defunto, esse proprietário rural é edulcorado pela dramaturgia que perde a chance de problematizar as injustiças sociais, a concentração de renda que, historicamente, está na base das desigualdades brasileiras, notadamente longe dos centros urbanos. A sobreposição de Cosme à figura do Pescador, numa sequência de vigor corpóreo-poético na corda bamba (por Willian Novak), bebe da terceira margem do contista João Guimarães Rosa e aplaina questões que são caras ao próprio escritor mineiro e inexoráveis ao pensamento de Candido. No referido estudo – objeto de sua tese – o crítico já discutia a necessidade de se implementar a Reforma Agrária que nunca se cumpriu a contento nos governos que vieram.

Os compadres Agostino (Guilherme Gasperine) e Geraldino (Willian Novak) cumprem com afinco os pendores bocó ou jeca. Fazem a linha auxiliar e colideram alguns números, como no jogo de malabares com tocos de árvores a serem usados para a fogueira e manejados com destreza pelos pares, ponto alto de conhecimento e domínio técnico da equipe que não derrubou nenhuma vez os objetos à medida que aumentava o grau de dificuldade ao somar outros itens.

A ancestralidade é reafirmada no número dos avós. Marina Lino e Guilherme Gasperine são caracterizados como velhinhos brincantes e executam um duo acrobático de tirar o fôlego. Aliás, as mulheres do elenco, Marina e MiMi, são ancoradoras nas tomadas de decisões do roteiro e muitas vezes posicionam-se mais corajosas do que os rapazes. Postura anti-hegemônica ao machismo arraigado nos rincões comunitários.

A cultura da roça, de pedir a bênção, de dançar a catira e de tocar a viola são outras das veredas perceptíveis nesse projeto que não abre mão da contemporaneidade e tampouco das raízes. Aliás, a Cuesta do título é uma referência à paisagem típica que envolve parte da cidade vocacionada para o ecoturismo. O relevo da região de Botucatu mostra uma subida como que em degraus, por vezes criando paredões e culminando numa área ‘’plana’’.

Uma passagem da peça é representativa de como a companhia assume-se encantadoramente bucólica em suas práticas e pensares. Pés descalços, barbas longas e bastas, como a maioria masculina da Beira Serra, Fernando Vasques, o Januário, toma o centro do palco e deita versos com a integridade de quem também se vê representado pelo lugar literal de fala, no linguajar afim: “Por isso que eu vô prantá um pé de mim mesmo nesse lugar. Por que se eu sô raiz dessa terra aqui, sou raiz do relevo do mundo e também do relevo do tempo. (…) O circo pode não chega, mai eu sei que, pelo menos, eu sô parte do maior espetáculo da terra… que é tá aqui. Vivo. No melhor lugar do mundo. Acima dos meus pés e abaixo dos meus cabelo”.

E vem desse palco o sopro criativo da cidade dos “bons ares”, ou “Ibytu-katu”, em tupi-guarani. Um vento com personalidade artística.

.:. Escrito no contexto do 34º Festivale – Festival Nacional de Teatro do Vale do Paraíba, em São José dos Campos (28 de agosto a 8 de setembro de 2019).

.:. O jornalista viajou a convite da organização do evento.

.:. Visite o site da Cia. Beira Serra de Circo e Teatro.

Paulo Amaral A trupe de Botucatu, no interior paulista, nessa que é a sua quarta montagem a entrecruzar as linguagens circense e teatral

Equipe de criação:

Direção: Ronaldo Aguiar

Dramaturgia: Fernando Vasques e MiMi Tortorella

Com: Dael Vasques, Fernando Augusto, Fernando Vasques, Guilherme Gasperine, Marina Lino, MiMi Tortorella e Willian Novak

Direção musical: Dael Vasques e Fernando Augusto

Culinarista: Tereza Telles

Iluminador: Osvaldo Gazotti

Cenografia e figurinos: Laura Françozo

Cenotécnico: Gabriel Lino

Designer gráfico: Otávio Henrique

Fotógrafo e videomaker: Baga Defente

Assessoria de comunicação e imprensa: Sérgio Viana

Produção técnica de circo: Celso Reeks

Produção executiva: Cristiani Zonzini (La Stupenda Produções)

Realização: Cia. Beira Serra de Circo e Teatro

Valmir Santos

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