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Crítica

A sublevação pelo riso

11.12.2019  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Paulo Barbuto

O palhaço e bufão argentino Chacovachi, nome artístico de Fernando Cavarozzi, costuma sugerir aos pares: “O público deve escutar não apenas o que você diz, mas o que pensa”. Essa proposição é levada a sério nos espetáculos Ordinários e O circo bélico. O Grupo LaMínima e a Trupe Lona Preta, respectivamente, consagram o riso crítico nos limites de quem está pisando em campo minado e, mesmo assim, não se dobra aos tempos de brucutus.

Nas referidas peças produzidas em São Paulo, soldados encontram-se no front. Ambas as dramaturgias, concebidas em múltiplas mãos, escolhem a linha de frente e aguçam os conflitos multilaterais. Situações tecidas no manto da ficção avançam perturbadoramente para a luz da realidade. Salientam, a partir do efeito cômico, o grau de espanto de uma nação em suspense, como se prestes a dar um passo em mina terrestre.

Em ‘Ordinários’, do Grupo LaMínima, condutas e atitudes demarcam uma territorialidade outra. Nas condições mais adversas, o culto à morte dá lugar à vida insuflada pela arte mambembe. A música e os bonecos colocam a experiência em marcha avessa aos desígnios implacáveis de uma batalha campal

Movendo-se no território do delírio, Ordinários estiliza alguns clichês dos filmes de guerra para opor arma e poesia. Sem referência direta ao atual estado de coisas – ainda que relampeje uma iminente facada ou ainda uma notícia falsa –, texto e atuações são estruturados como um jogo de erros e revelações pessoais. O conteúdo carrega algo do cotidiano da série Mash, exibida nos EUA entre as décadas de 1970 e 1980. O programa fazia um retrato corrosivo dos bastidores do Hospital Cirúrgico Móvel do Exército (Mash, na sigla em inglês) durante a Guerra da Coreia (1950-1953).

Assim como aquele fenômeno televisivo que também teve boa repercussão junto ao público brasileiro na época, o espetáculo dirigido por Alvaro Assad expõe situações dramáticas e sombrias sempre sob o respaldo da linguagem do circo. Os palhaços-soldados atuados por Fernando Paz, Fernando Sampaio e Filipe Bregantim são desprovidos do instinto de extermínio. A fome, sim, soa mais dissonante; matar não. Suas máscaras cômicas desmascaram a irracionalidade dos senhores da guerra. Ao fazer troça dos códigos de combate expõem a humanidade à qual, afinal, pertencem. Aliás, a dubiedade do título é outra sacada: Ordinários fica entre o comando de marchar e a má índole. A despeito do aparato militar e do discurso idem, as presepadas do trio magnificam o contraditório, ampliando a leitura do público.

Por falar em redimensionar, a encenação ultrapassa os limites da coxia e segura a atenção nos instantes em que não há ninguém à vista no palco. O avanço para além das fronteiras físicas do espaço cênico é um dos achados dessa obra que não abre mão dos recursos ilusionistas ou radicalmente líricos, como na cena de soldadinhos de brinquedo caindo do céu de paraquedas.

A missão de resgatar um major no lado inimigo é infiltrada pela alegria. Por dias e noites a fio os oficiais caminham e sondam o desconhecido. Vigilantes, temem cair numa cilada. Adentram espaços e tempos que aos poucos perdem razão de ser em tamanho ou duração. O que de fato os orientam nessa trilha de deslocamentos são os sentidos e a imaginação, não as linhas do mapa que trazem a tiracolo.

Condutas e atitudes demarcam uma territorialidade outra. Nas condições mais adversas, o culto à morte dá lugar à vida insuflada pela arte mambembe. A música e os bonecos colocam a experiência em marcha avessa aos desígnios implacáveis de uma batalha campal.

Paulo Barbuto Fernando Sampaio em ‘Ordinários’: a imagem de mina terrestre corrobora a sensação de um país em suspense

As leis da guerra são do arbítrio e do abuso, escreveu a atriz Lélia Abramo (1911-2004) em suas memórias. Num dos capítulos de Vida e arte (1997) ela dá seu testemunho sobre os anos em que viveu na Itália (1938-1950). Ou seja, perpassou o período da Segunda Guerra Mundial em que civis foram vítimas do Holocausto e, pela primeira vez na história, de bombardeios nucleares, no caso do ataque dos Estados Unidos ao Japão, nos estertores do conflito.

Ordinários deixa subentendido o drama relatado por Lélia acerca dos métodos brutais empregados por nazistas e fascistas na aniquilação de seres inocentes e mesmo na destruição de obras de arte. Descrever essa experiência, segundo a atriz, “é tarefa de quem possua alta capacidade narrativa. A impotência das populações desarmadas diante das forças bélicas munidas com os mais terríveis instrumentos de extermínio, atiradas cegamente umas contra as outras, é um espetáculo apavorante em suas implicações éticas, morais, filosóficas, religiosas”.

LaMínima e Assad, cofundador do Centro Teatral Etc. e Tal. (RJ), repetem nesse espetáculo a premiada parceria de A noite dos palhaços mudos (2008), que partia de uma história em quadrinhos de mesmo nome de autoria da Laerte. A maturidade não garante a fluidez na interação entre eles e com o público. É preciso saber respirar na hora de correr ou abraçar riscos. Donde se infere a maleabilidade do artista circense por trás da técnica, do pensamento e da empatia nesse projeto de sublimação da vida e da arte, contrário à política de morte.

De situações-limites é possível extrair humor como dispositivo de sábia oposição a doutrinas autocráticas. Mirem-se no exemplo das charges da Laerte publicadas na Folha de S.Paulo. Seus traços fabulam, alto e bom som, o inominável nesta quadra da história. Não se poderia esperar menos em arte.

Afinal, a louvação da bala como política pública não deixa dúvidas de que o país está em guerra no interior da floresta e na periferia da cidade.

Quando Chicovachi recomenda ao artista ser ouvido pelo que pensa, e não apenas pelo que diz, ele o faz com conhecimento de causa. Notabilizado pela acidez, o palhaço portenho que dirigiu o LaMínima em Luna Parke (2012) prestou serviço militar no início dos anos 1980, tendo vivenciado o período da Guerra das Malvinas. Entre as funções que exerceu, foi atirador de metralhadora – selecionado após teste psicológico com centenas de soldados – e garçom de um general.

Nem ‘O capital’, que tem um trecho lido em cena aberta, é tabu para a graça em ‘O circo bélico’, da Trupe Lona Preta. Ao abordar a exploração do trabalhador com o auxílio da ‘gag’, o espetáculo expõe conjecturas sem caraminholas para espectadores familiarizados ou não com as ideologias polarizadoras

Em determinando momento de O circo bélico, um dos atores da Trupe Lona Preta avança para a plateia com um apetrecho em punho, simulacro de aparelho de escâner que paira sobre a cabeça de quem está sentado, de maneira a capturar o pensamento alheio por meio de trechos de músicas de duplo sentido encaixadas na sonoplastia.

A materialidade das ideias é uma das características da criação dirigida e escrita pelos irmãos, atores e palhaços Joel e Sérgio Carozzi. A peça pode ser traduzida como uma obra contracultural em resposta à pecha do marxismo cultural, expressão cunhada pela ala conservadora do espectro político brasileiro como tentativa de desqualificar as manifestações artísticas contemporâneas sob alegada ameaça do comunismo.

Para tanto, os artistas decidem problematizar a narrativa a partir da contradição basilar do capitalismo, aquela que envolve capital e trabalho. Nem O capital, que tem um trecho lido em cena aberta, é tabu para a graça. Ao abordar a exploração do trabalhador com o auxílio da gag, o espetáculo expõe conjecturas sem caraminholas para espectadores familiarizados ou não com as ideologias polarizadoras, ainda que se perceba claramente de que lado os comediantes estão.

Silvio Burue Criadores da Trupe Lona Preta vão ao ‘front’ da cena em ‘O circo bélico’ e expõem com graça as contradições do capital e do trabalho no cotidiano de qualquer cidadão

Contracenando com Alexandre Matos e Wellington Bernado, os Carozzi primam pela transparência do posicionamento político, como conviria a qualquer cidadão, livres e desimpedidos da conversão pela cartilha. Eles vislumbram o princípio da inteligência do interlocutor. Quando menos se dá conta, o público torna-se componente da história relativa a uma empresa que quer explorar um poço de petróleo num território já dominado por outra concorrente. Essa negociação ocorre numa guerra em curso e os trabalhadores instalados tentam reagir e são confrontados com a relativização da paz e com a condição de sujeitos, eles também, explorados.

O roteiro supera maniqueísmos na tomada de partido dos operários palhaços. Há uma capacidade solar de rir de si e de parodiar ícones da produção musical de massa. Tanto a ostensividade cintilante da indústria cultural como a vaidade das potências militares na disputa de quem pode mais na geopolítica são objetos de possíveis comparações nos quadros que compõem o espetáculo.

A capacidade de manter o elemento surpresa condiz com a invenção circense. Fomenta-se a chacrinha, palavra que, por um lado, saúda o irreverente apresentador de TV capaz de pulsar a atenção do auditório, por outro, quer dizer não apenas confusão, mas a manutenção da informalidade no trato da conversa. O circo bélico dialoga com os diferentes perfis da audiência. Pessoas de origens sociais, raciais e religiosas as mais distintas hão de sair dessa jornada de riso com alguma pitada de questionamento acerca de quem é o inimigo na peleja da propriedade com a fraternidade no país vice-campeão do mundo em concentração de renda.

Com suas pitadas de anglicismo tanto na forma como no assunto, Ordinários e O circo bélico puxam da memória WWW para Freedom (2004), solo em que o ator e palhaço Esio Magalhães, do Barracão Teatro, vive um soldado na pele de Zabobrim. O militar faz parte de uma operação empenhada em libertar um povo de um ditador. Na hora de abater seu alvo, porém, ele recua, questiona-se e subverte as hierarquias. “De que liberdade estamos falando? Livrar-se de quem? Livrar-se de que? É preciso a guerra para estar em paz?”. Dúvidas na ordem do dia.

Serviço:

Ordinários

Onde: Teatro Vivo (Avenida Doutor Chucri Zaidan, 2.460, Vila Cordeiro, tel. 11 3279-1520)

Quando: quarta e quinta, às 20h. Até 12/12

Quanto: R$ 40 e R$ 20 (meia-entrada)

Duração: 70 minutos

Classificação indicativa: 14 anos

Paulo Barbuto O trio de ‘Ordinários’

Equipe de criação:

Concepção: Alvaro Assad, Fernando Paz, Fernando Sampaio e Filipe Bregantim

Com: Fernando Paz, Fernando Sampaio e Filipe Bregantim

Roteiro: Newton Moreno, Alvaro Assad e LaMínima

Assistência de dramaturgia: Almir Martines

Direção e preparação mímica: Alvaro Assad

Direção musical e música original: Marcelo Pellegrini

Iluminação: Marcel Alani

Figurino e visagismo: Carol Badra

Cenografia: LaMínima

Adereços: Dario França, Juciê Batista e Reticências

Assessoria técnica de magia: Ricardo Malerbi

Preparação de coreografia de rockabilly: Keila Bueno

Direção de produção: Luciana Lima

Produção executiva: Priscila Cha

Assistência de produção e de administração: Chai Rodrigues

Supervisão geral: Fernando Sampaio

Henrique Alonso A materialidade das ideias move ‘O circo bélico’

Serviço:

O circo bélico

Onde: Sesc Santana – teatro (Avenida Luiz Dumont Villares, 579, Jardim São Paulo, tel. 11 2971-8700)

Quando: Sábado, às 21h, e domingo, às 18h. Até 15/12

Quanto: R$ 6 a R$ 20

Classificação indicativa: livre

Duração: cerca de 60 minutos

Capacidade: 330 lugares

Acesso para pessoas com deficiência

Possui estacionamento

Iraci Tomiato A Trupe Lona Preta desconfia do futuro que o capitalismo vende

Equipe de criação:

Com: Alexandre Matos, Joel Carozzi, Sérgio Carozzi e Wellington Bernado

Direção e dramaturgia: Joel Carozzi e Sérgio Carozzi

Músicas: Joel Carozzi, Luciano Carvalho e Wellington Bernado

Cenário: Joel Carozzi, Sérgio Carozzi e Sérgio Marçal

Figurino: Christiane Galvan

Iluminação: GiulianaCerchiari

Produção: Henrique Alonso, Dona Meris e Márcia Carozzi

Valmir Santos

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