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Biocritica - Uma questão de conta...

BiocríticaAntro Positivo conta...

Um convite afetuoso à insurgência

22.1.2021  |  por Ruy Filho e Pat Cividanes

Foto de capa: Divulgação

O ano era 2011. Em retrospectiva, um ano marcado por ampla multiplicidade de acontecimentos. Fim do governo Lula e início do Dilma, por exemplo; hoje sabemos onde isso nos trouxe. Início da Primavera Árabe, expandida de maneira diversa por muitos cantos, até chegar ao Occupay Wall Street. Morrem de Bin Laden a Amy Winehouse, tornando impossível qualquer coerência sobre o assunto. Massacres, atentados e o crescimento de refugiados nas costas europeias se misturam a terremotos e o acidente nuclear em Fukushima, como se tudo pudesse ser naturalizado e definido como tragédias incontornáveis. Enquanto, entre nós, feito acontecimento comum, um menino de dez ano atira em sua professora, antes de se matar. Destrinchar 2011 é um movimento quase impossível, imagine, então, o que fora vivê-lo. Mas isso não era novo. Nos anos anteriores, crises econômicas e políticas redesenhavam a lógica geopolítica e biopolítica do globo. Seguíamos, então, o fluxo desse outro século, em que a aceleração de fatos e escolhas redesenham as lógicas praticamente em todos os aspectos.

É diante desse fundo histórico que a revista Antro Positivo surge. Criada pelo crítico de cultura Ruy Filho e pela artista gráfica e designer Pat Cividanes, dada a vontade de provocar momentos de encontros, conversas e reflexões junto a artistas e intelectuais, a publicação, desde sempre, foi imaginada como espaço de intersecção aos pensamentos mais inesperados e pessoais. Por isso digital, com acesso livre e gratuito. Se o universo da web já potencializava a criação de blogs pessoais e coletivos, superando as estruturas formais de sites mais sofisticados – trazendo o aparecimento de uma geração de críticos e estudiosos das artes cênicas –, fora preciso imaginar o que nos daria singularidade. A escolha foi por apresentar a revista naquilo que de mais simples teríamos como lembrança: o formato digital, então, replicaria o físico: páginas sequenciais possíveis de serem manipuladas pelo leitor/usuário como se folheassem uma experiência real.

Se faz sentido tentar qualquer resumo a essa história, a Antro Positivo, em seus quase dez anos de atividade, tem trabalhado para desenvolver aproximações entre diversos setores das artes e da cultura com intelectuais e ensaístas para, a partir delas, oferecer ao público e interessado nas artes cênicas e performativas uma perspectiva de acesso ao contemporâneo cada dia mais espetacular. E esta também é a nossa expectativa sobre o fazer futuro, ao desenvolvimento de outra qualidade à crítica. O que significa compreender a reflexão não como espaço estável afirmativo, e sim de expansão maleável ao encontro das transformações da realidade, a cada novo movimento que lhe é dado

Dar ao leitor esse momento de encontro entre o tradicional e o contemporâneo possibilitou evidenciar a qualidade estética na maneira de apresentar o conteúdo. A partir do projeto gráfico desenvolvido por Pat Cividanes, a revista logo se tornou referência enquanto objeto virtual, ou seja, tanto reflexivo quanto estético. O lançamento da edição número zero, no dia 15 de outubro de 2011, revelava a curiosidade e interesse por uma publicação nesse formato, em que incluía resenhas mais densas sobre artistas e grupos, a partir de entrevistas em forma de visitas, artigos diversos, exercícios ficcionais, apresentação de compositores e fotógrafos do universo próprio do teatro e dança, campanhas públicas e estudos sobre as linguagens cênicas e economia criativa, em formato livre, não acadêmico. Ao final do segundo dia, a revista atingiu a meta de acesso projetada ao trimestre de uma publicação do setor.

Iniciamos com novas edições a cada trimestre e seguimos assim nos primeiros anos. Com o interesse de artistas, festivais e instituições, nomes consagrados se aproximaram oferecendo a oportunidade de expandirmos também internacionalmente a presença da revista. Romeo Castellucci, Thomas Ostermeier e Wim Vanderkeybus, por exemplo, dividiram a capa comemorativa do segundo ano da revista. A do primeiro ano coube à genial Marilia Pêra. Personalidades conhecidas foram encontradas com exclusividade, tais como Robert Lepage, Rodrigo García, Rolf Abderhalden, Ivo van Hove, Mikhail Baryshnikov, The Wooster Group, Willem Dafoe, entre tantas outras, e isso era ótimo, mas nos parecia pouco. Seguimos em busca de outras desconhecidas no Brasil, apresentando suas pesquisas e ideias ao público e até a curadores brasileiros, com destaques a Dimitris Papaioannou, Arkadi Zaides, JaRam Lee, Euripides Laskaridis, Odyssey Works e, agora, pela edição recente, a transartivista ganesa Va-Bene Elikem Fiatsi. Alguns desses artistas, anos depois, apresentaram seus espetáculos em festivais brasileiros dos quais somos parceiros.  

Nas centenas de conversas e resenhas, muitas com artistas brasileiros, estão alguns dos nossos principais criadores atuais, como Christiane Jatahy, Enrique Diaz, Antonio Araújo, Felipe Hirsch, Yara de Novaes, Marcelo Evelin, por exemplo, em certos casos desdobrados em estudos mais amplos e no desenvolvimento de projetos artísticos conjuntos. Mas não só. Nomes que começam a ser mais conhecidos, com os quais dialogamos em seus primeiros momentos, tais como Ex-Companhia de Teatro, Performatron, Cia. Hiato, Cia. Perversos Polimorfos, CiaSenhas de Teatro; além de outros inesperados, como Jô Soares, há tantos anos, naquele instante, distante do papel de entrevistado.

Cada uma dessas conversas ou visitas, como chamamos, fogem da troca entre perguntas e respostas. As resenhas publicadas buscam ter no encontro um espaço dinâmico de reflexão, pela qual se oferece ao artista um diálogo conceitual àquilo que lhe interessa pesquisar e dizer. Dessa maneira, desde o início, a revista sustenta outra proposição ao papel do crítico, entendendo-o como interface ao encontro do artista com outras proposições, em uma espécie de epicentro, onde se entrecruzam artistas e intelectuais. E vice-versa, como quando visitado o filósofo Peter Pál Pelbart, cuja resenha aproximou-lhe a arte às suas inquietações intelectuais.

Reprodução Captura de tela de um dos episódios do seminário Adiante: Cultura em Futuros, com a atriz Camila Pitanga e a médica Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, realizado no âmbito da pandemia em 2020

A cidade de São Paulo se tornou pequena, ainda que inesgotável.  A possibilidade de presenciar as produções em diversas regiões do Brasil e uma dezena de países para quais seguimos convidados, na América Latina e Europa, após os primeiros anos, vimo-nos inquietados com o desconhecimento sobre a produção mais próxima de nós. Como era possível não sabermos o que acontece há cem quilômetro, mas sim a milhares? Criamos, então, o projeto Mapeando SP. Durante um ano encontramos e conversamos com companhias do interior e litoral do Estado de São Paulo, para a criação de um material especial que apresentasse cerca de 20 delas com igual profundidade e espaço qual damos aos artistas na revista, incluindo ensaios fotográficos.

Ao tempo, o acesso às linguagens foi gradativamente ampliado pelo interesse dos próprios artistas que nos provocavam a responder e acompanhar suas produções. Dessa maneira, a Antro Positivo, não apenas como revista e sim como estrutura de criação, foi convidada a integrar, cada vez mais, outros circuitos que, mesmo que próximos, permanecem como se em setores distintos, tais como a dança contemporânea, performance arte, circo contemporâneo e mesmo a chamada música nova, música experimental. Hoje, com a pandemia, isolados, um novo instante se abriu de troca entre os artistas, desta vez com os cineastas experimentais e videoartistas mais próprios das artes visuais.

Também a relação com o leitor foi expandida. A cada instante, a cada momento, olhamos às urgências imediatas no universo cultural brasileiro e conclamamos artistas e amigos a participarem de campanhas públicas de mobilização. Alguns exemplos especiais, dadas as repetições frequentes e replicações ainda maciças, são Liberdade na Arte/Liberdade na Vida (em que personalidades participaram de ensaios fotográficos à construção de um beijo em alguém do mesmo gênero); Artista não Vive de Vento (sobre a diminuição acelerada de investimentos e recursos às produções artísticas, tanto governamentais quanto institucionais); Deixem o Espaço do Teatro em Paz (sobre a especulação imobiliária que atingia as sedes das companhias estáveis, hoje ressignificada como recusa às perseguições aos artistas), Saia já do Foco (sobre o uso excessivo do celular durante espetáculos). Exemplos de campanhas realizadas em diversas ocasiões e Estados brasileiros, com ampla absorção da grande mídia, inclusive televisiva.

Sempre nos foi importante avançar as reflexões não apenas pelos artistas, o que nos levou a personalidades fundamentais às discussões da economia criativa, a partir de diversos artigos assinados por estudiosos e especialistas; gestores públicos, como secretários de cultura; de instituições culturais, como Sesc, e representações internacionais, como Instituto Goethe – com quem sistematicamente pudermos efetuar gratificantes parcerias –, tornando a percepção sobre a prática algo mais complexo do que apenas o fazer artístico, a partir do entendimento de ser necessário modificarmos os modos produtivos e intelectuais, a fim de encontrarmos desvios e soluções inovadoras.

Com convites à elaboração de cadernos especiais e idealização de ações específicas, além de indicações de artistas e obras internacionais e locais, junto a festivais de teatro, dança e performance brasileiros e estrangeiros, a revista passou a ser uma das muitas ações realizadas pela Antro Positivo, agora plataforma de arte, cultura e pensamento contemporâneo. A maior ênfase nos projetos permanece com a criação de ações em crítica e ensaios estéticos que fujam das estruturas e mecanismos conhecidos e comumente aplicados. Isso nos levou à criação de mais de uma dezena de outros formatos de escrita, desde a crítica imediata (entregue minutos após o final do espetáculo) até a crítica performativa (escrita por horas, publicamente, com intervenção de convidados e leitor, em tempo real, no interior de uma instalação que dialogue com o espetáculo abordado).

Reprodução Exemplo de campanha articulada pela agora Plataforma Antro Positivo Arte, Cultura e Pensamento Contemporâneo; edição número zero da revista foi lançada em 15 de outubro de 2011

É nesse labirinto de como se organizar e estruturar a própria sobrevivência que a Antro Positivo fez uma escolha: permanecer tudo aquilo criado e idealizado editorialmente gratuito e com acesso livre, feito um manifesto de convite a todos ao convívio dos materiais e reflexões produzidos; diferentemente aos materiais específicos, como cadernos especiais e desenvolvimentos de atividades e práticas. O Estado de Crítica, roda em que o público faz suas colocações por cinco minutos sobre como compreende o papel e presença da crítica, por exemplo, é uma das atividades que já participaram de festivais diversos, em São Paulo, Campinas, Curitiba, Salvador e Teresina, integrando suas programações oficiais.

Tanto só foi possível graças às participações e parcerias dos mais diversos setores das artes cênicas, sejam fotógrafos, dramaturgos, atores, diretores, produtores, articulistas culturais, curadores, programadores, instituições nacionais e internacionais. E, sobretudo, daqueles interessados em desenvolver na revista uma pesquisa própria de escrita crítica. Mais frequentes nos projetos, Ana Carolina Marinho e Maria Teresa Cruz; e não menos importantes, entre os que por algum período participaram das escritas, Cláucio André, Renata Admiral, Fernando Pivotto, Leandro Nunes e Márcio Tito Pellegrini. Contudo, as páginas da revista lembrarão algumas dezenas mais de jovens críticos com quais pudermos iniciar essas experimentações. Além do cenógrafo Renato Bolelli, com artigos voltados ao estudo sobre espacialidade e cenografia, e, mais recentemente, a psicanalista e crítica de arte Bianca Dias.

Diante da complexidade da maleabilidade dos projetos, nunca fixados aos acertos anteriores, sempre abertos ao experimentar-se, o desenho editorial é constantemente atualizado, quase que sem interrupção. Todavia, o mais transformador, de fato, fora a criação de uma edição paralela, Transversal, na qual se experimentou uma construção não finalizada, atualizada muitas vezes até seu encerramento, e que segue como parâmetro às publicações dos anos mais recentes. Essa construção mutante abriu espaço ao que parecia óbvio diante de nossa época: é preciso lidar com os acontecimentos em seus próprios tempos, sejam eles políticos, culturais ou artísticos. Assim, a revista deixou de ser uma publicação objetificada para ser pensada como fluxo de uma experiência ao leitor. Um fluxo que vai além do mover-se pelas páginas, atinge a temporalidade dos instantes em que é oferecido.

Dadas as circunstâncias impostas pela pandemia, propusemo-nos algo ainda mais audacioso: a Invasão Crítica olha às obras criadas digitalmente, e não aos repertórios e acervos, e elabora uma resposta crítica devolutiva em forma de vídeo-arte performativa, sempre a partir das linguagens e estéticas originais das próprias obras. Também como interface de manter o pensamento contemporâneo estruturante nas ações da Antro Positivo, realizamos por dois meses o seminário Adiante: Cultura em Futuros, pelo qual diversos intelectuais de áreas distintas do conhecimento foram convidados a pensar a cultura pós-pandemia. Nomes como Nuno Ramos, José Miguel Wisnik, Eduardo Giannetti, Jurema Werneck, Christian Dunker, Lilia Schwarcz, Eugênio Bucci, Marta Porto, Juliana de Albuquerque, Sylvia Colombo, Ana Carla Fonseca Reis e muitos mais, em 30 episódios de cerca de 50 minutos de conversa, uniram-se a uma programação formada também por ativistas como Preta Ferreira, Maria Marighela, Cida Falabella, artistas trans e artistas e curadores brasileiros com atuação internacional.

Se faz sentido tentar qualquer resumo a essa história, a Antro Positivo, em seus quase dez anos de atividade, tem trabalhado para desenvolver aproximações entre diversos setores das artes e da cultura com intelectuais e ensaístas para, a partir delas, oferecer ao público e interessado nas artes cênicas e performativas uma perspectiva de acesso ao contemporâneo cada dia mais espetacular. E esta também é a nossa expectativa sobre o fazer futuro, ao desenvolvimento de outra qualidade à crítica. O que significa compreender a reflexão não como espaço estável afirmativo, e sim de expansão maleável ao encontro das transformações da realidade, a cada novo movimento que lhe é dado. São Paulo é uma ambiência precisa para isso. A maneira como se articulam na própria cidade múltiplos contextos culturais, sociais e internacionais requer, ao olharmos as práticas artísticas, que sejamos mais ousados em romper os padrões do pensamento e do escrever. Então seguimos em frente, como quem acredita, cada vez mais, na capacidade do encontro entre arte e reflexão como possibilidade de construção de um vocabulário simbólico crítico. Insistiremos sempre pelo afeto como qualidade maior de insurgência. E isso significa seguirmos juntos. Duvidosos de nós mesmos, abertos ao improvável. Porém, certos de haver no impossível o melhor estímulo para mudarmos tudo.

.:. Leia mais sobre o dossiê Biocrítica e a plataforma Antro Positivo

Divulgação Filho e Cividanes ao lado da atriz, dramaturga e roteirista Ana Carolina Marinho, integrante do Coletivo Estopô Balaio e colaboradora da revista

Pat Cividanes (Orlândia – SP, 1979) é artista gráfica e fotógrafa, formada em comunicação e pós-graduada em design gráfico. Trabalhou na O2 Filmes em 1999 e em diversas agências de publicidade entre 2000 e 2005. Entre 2006 e 2014, foi diretora de arte nas editoras Abril, Globo e Trip. Foi artista residente na Cité Internationale des Arts (Paris) e indicada ao Prêmio Sergio Motta Arte e Tecnologia. Em 2011 lançou a Antro Positivo e desde 2014 mantém um estúdio de arte voltado ao mercado cultural. É idealizadora e curadora da 3+8 Feira de Artes e Impressos, realizada em 2017, 2018 e 2019. Mantém uma pesquisa artística autoral em fotografia, colagem, videoarte e lambe-lambe, e é representada pela Lovely House Casa de Livros e A Banca Vermelha (SP) e Banca Paisagem (Portugal).

Ruy Filho (São Paulo, 1973) é formado em artes plásticas, foi diretor e fundador da Cia. de Teatro Antro Exposto (2007-2011). Trabalhou com os diretores José Celso Martinez Corrêa (2001), Gerald Thomas (1999-2007) e Felipe Hirsch (2013-2018). É crítico de artes cênicas desde 2007, idealizando e fundando a plataforma Antro Positivo em 2011. Foi curador do Encontros Improváveis, Mas Não Impossíveis, em 2013, para o Sesc SP (Feira de Frankfurt). Assinou a programação de teatro, dança e performance do Centro da Terra (2017, 2018 e 2019) e foi curador convidado da 50ª edição do FIT Rio Preto (2019). Foi curador, idealizador e mediador do seminário Adiante: Cultura em Futuros (2020). É escritor e palestrante sobre as questões da cultura e lançou em agosto de 2020 o programa em podcast Diante d.

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