Menu

Assine nossa newsletter

Biocritica - Uma questão de conta...

BiocríticaRevista Barril conta...

Papaya power

9.2.2021  |  por Daniel Guerra e Igor de Albuquerque

Foto de capa: Aldren Lincoln

A energia que move o povo de teatro, esse fenômeno grandioso, esse acontecimento noturno. Porque já tínhamos morrido na praia mais de uma vez quando quisemos fazer uma revista: em geral as pessoas parecem muito ocupadas e costumam desaparecer quando um projeto coletivo independente e delirado nas mesas de bar se transforma, repentinamente, em trabalho duro.

Poderíamos dizer, assim, que a Barril começou com um acarajé na Cira – umas das baianas mais insignes do século XXI.

Éramos cinco ao redor da mesa; dedos melados de gordura e vatapá nos cantos das bocas. Era uma mesa do povo da arte, e no meio desse povo da arte tinha o povo do teatro. E o povo de teatro faz.

Afinal, a preocupação é sempre não complicar muito a vida do leitor: mesmo que isso signifique complicar sempre mais as nossas próprias vidas. Geralmente é assim. E se a complicação for inevitável — como quase sempre é num pensamento que se queira complexo —, por que não se divertir em meio aos piores labirintos? Redrum. Não era o militante Brecht que dizia que os espectadores deviam ter prazer para conseguir pensar minimamente bem? A qualidade do pensamento deveria, portanto, ter a força de um jogo. Isso foi e ainda será, enquanto este barco não naufragar, o nosso lema, silencioso e tácito

Não vamos desfiar nossos nomes ainda para não cansar o leitor.
Basta saber que tinha uma que era atriz, dramaturga e sabia manufaturar websites; outro era um cineasta heideggeriano que aglomerava hordas de samurais pós-modernos; um dançarino todo trabalhado nas artes performativas; um tradutor e cantor de samba; um operista maquinando melodias e enredos em iorubá. É claro que todos escreviam e tinham aspirações editoriais. Alta voltagem.

O que aquelas bocas diziam? Além das trivialidades e da vontade absolutamente justificável e nada pragmática de ganhar o mundo, falavam sobre progresso e desordem. E duas metas foram se revelando durante o simpósio informal: 1ª) alimentar a cidade com uma revista dedicada à crítica, pois a semirreflexão jornalesca daqui estava caducando em ritmo desenfreado; 2ª) que a revista fosse veloz, sagaz, danada, mas principalmente que soasse como nós: proferindo discursos sérios enquanto brincávamos de proferir discursos sérios.

Quando colocamos as mãos nos bolsos, percebemos que conseguiríamos amealhar um total de zero reais para começar o projeto. Perfeito, estamos prontos para começar.

Quanto ao primeiro ponto, é lógico que um nome para aquilo era importante. Mas essa escolha ainda não aconteceria ali. O nome Barril só viria depois de umas três ou quatro reuniões. O que veio, quando alguém intimou pelo nome da revista, foi justamente a implicação imediata da segunda tópica: um nome que falasse, portanto, sobre o estilo. E como se vê até hoje, a nossa questão era mesmo a busca de um estilo. Talvez isso tenha sido a única coisa que não mudou.

Barril, além do sentido já conhecido, também significa algo que gera espanto e admiração pela sua força de acontecimento; quando alguém fala que uma coisa “É barril”, ela pode tanto estar ressaltando um lado positivo, quanto evocando um traço ruim – ela pode, inclusive, estar querendo fugir dessa coisa e a justificativa “porque ali é barril”, soa perfeitamente razoável. Nós, amantes inveterados das contradições, nos curvamos diante dessa palavra tão exuberante. Batismo.

Divulgação O soteropolitano Daniel Guerra é crítico de arte, diretor de teatro e editor cofundador da Revista Barril, que desde 2016 publicou cerca de 200 textos abarcando múltiplas áreas de expressão

Num brainstorm digestivo, desenhamos então uma estrutura básica: a revista seria formada por colunas temáticas, com títulos que demonstrassem a proposta do gênero em exercício. Por exemplo, a coluna “selfie” era um texto onde o crítico tinha que se autocriticar para escrever sobre a obra em questão. A coluna “treta” tinha que ser uma crítica necessariamente combativa ressaltando algum aspecto político na cena. Na “crítica da crítica”, a metalinguagem – por vezes ácida – devia entrar em jogo forçando um pensamento sobre o próprio labor, em tempo real. E assim por diante. A melhor coisa que a gente pôde inventar, ainda naquele umbral, foi esse impulso de produzir uma proposta crítica experimental, introjetando-o na própria concepção do funcionamento da revista. As possibilidades eram muitas, continuam sendo, mas com o passar do tempo tivemos que renegociar esse caráter experimental para desviar do hermetismo. Afinal, a preocupação é sempre não complicar muito a vida do leitor: mesmo que isso signifique complicar sempre mais as nossas próprias vidas. Geralmente é assim. E se a complicação for inevitável — como quase sempre é num pensamento que se queira complexo —, por que não se divertir em meio aos piores labirintos? Redrum. Não era o militante Brecht que dizia que os espectadores deviam ter prazer para conseguir pensar minimamente bem? A qualidade do pensamento deveria, portanto, ter a força de um jogo. Isso foi e ainda será, enquanto este barco não naufragar, o nosso lema, silencioso e tácito.

E até hoje nos encontramos docemente encalacrados na seguinte busca, no fio de um facãozão bem afiado: por um lado devemos sempre nos distanciar do academicismo, esse problema que surge sempre que um artista quer se meter a explicar as coisas. Com ele, consequentemente, nos distanciamos, ou procuramos nos distanciar, de outros vícios que povoam esse imaginário escolar: o historicismo e a erudição dura. Por outro lado, procuramos nos livrar — com certa ginga — dessa geleia cada vez mais pegajosa que é o jargão jornalístico. Nada de resenhas louvatórias; nada de palmas e mexericos; nada de sicrano ou beltrano fez isso e aquilo fabulosamente bem; nada de talento inegável etc. Certo. Talvez um parágrafo como esse deixe a sensação de que só estamos aqui para negar. Apesar de não ser de todo errado, é necessário dizer que a positividade está justamente naquele fio da navalha. Simplesmente não há como escrever uma crítica sem recorrer a um ou outro elemento referencial roubado do academicismo ou do periodismo, mas certamente haverá formas criativas e ainda inexploradas de não se render nem à profundidade artificial-enfezada nem à superficialidade das resenhas com óculos de acetato colorido e cafés em bistrôs durante festivais internacionais hiperbadalados.

Mas já falamos muito sobre esse demônio charmoso e essencial chamado estilo (e esse assunto nunca se esgota, ó, tragédia!). Passemos sem tardar, portanto, aos inúmeros imbróglios da nossa vidinha de cinco anos de idade.

Em nosso primeiro ano, e com os ânimos à flor da pele, publicávamos uma edição por mês. É que tinha sempre muita coisa acontecendo em Salvador. Não esqueçamos que o despresidente babão e seu Goebbles do supremacismo branco bacurau ainda não tinham dado as caras e ainda pegávamos a rebarba dos gloriosos anos culturais do Partido dos Trabalhadores, Gil e Juca etc., de modo que quando soltávamos nossos cavalos, depois das longas reuniões de pauta, havia furor, risos, palmas e muito ranger de dentes nas ruas, nos bares e nos palcos. E ainda cobríamos festivais. Fora que naquele distante 2016, as pessoas ainda interagiam através de textos num site muito popular que se chamava Facebook. O Instagram, nesse momento, não era ainda o império da imagem que se tornou hoje – frente ao qual devemos baixar todos os dias as nossas crinas em prol de umas curtidas e quiçá uns comentários. Então imaginem: era pau, pedra, dedos ao ar e gritaria.

O ponto alto desse período foi o lançamento da nossa primeira e até agora única revista impressa (e nos perdoem se utilizamos essa expressão tão cara às futricas textuais de redação, o tal do “ponto alto”). O trabalho que mais cansava era a labuta digital, eletrônica, mas agora tínhamos uma resposta para uma pergunta que até hoje não cansamos de ouvir: “A revista é só virtual?”.

Aldren Lincoln A primeira e até agora única edição impressa foi lançada na esteira do primeiro ano, em agosto de 2017, compilação de textos veiculados no endereço na internet

Dissemos que não tínhamos um mísero real, e esta continuou sendo uma realidade. Mas eis que surge, em 2017, o edital Setorial das Artes e olha a gente lá, a estampar a lista de convocados e sentando, horas depois, mais uma vez na bendita mesa do bar para a esperada comemoração. Finalmente iríamos pagar as pessoas que deram o suor e o sangue para isso caminhar. Esse é o momento para a citação de algumas delas, que até hoje insistem em nadar conosco neste mar revolto e quase sempre sem qualquer traço de  sensatez: Alana Falcão, Ana Carolina Oliveira, Bárbara Pessoa, Pérola Mathias, Alex Simões… Grandes escritores todos. Geramos empregos. Fizemos uma boquinha. O país está em desenvolvimento. Só nos resta o progresso, irmãos e irmãs. É claro.

Os rabinhos abanando como qualquer vira-latas, como qualquer artista, como qualquer agente cultural. Afinal era a democracia, essa musa geniosa, que vinha nos estender seus braços maternais.

Pagamos um programador e uma designer! Patrocinamos posts no Facebook e no Instagram! Demos uns trocados aos nossos escritores! Cada um pôde comprar um ou dois utensílios domésticos de extrema necessidade! Estávamos radiantes.

No fim de tudo, a festa, a festa. Evento de lançamento da revista impressa. Comes e bebes. Exemplares para distribuir de graça. DJs. Gente descolada. Camisas legais. Vestidos sublimes. Política. Arte. Cultura. Social. Goethe-Institut. Lugar cool. Sturm und Drang, sem o Sturm. Mangueiras centenárias. Plantinhas simpáticas. Amarelo-gema, glorioso, espalhado por toda parte (nossa cor é laranja, então tá perto). Energia da arte no ar. Dança, muita dança. Embriaguez. Felicitações. Os amigos nos abraçavam, os inimigos nos beijavam. Nos agradeciam. Nos louvavam. Pelos afagos. Pelos tapas. Quem não gosta de uma dorzinha que beire a insensatez? Amor. Comunhão. Coletividade. Potência. Etc. Etc. 2017. 2017…

E 2018. A ressaca. Muito Sturm sem Drang, sem Goethe. Onde raios foram parar os editais? Cadê o dinheiro do feijão? Nos perguntávamos arrancando os cabelos. Sofremos duas baixas severas, o operista Diego Araúja e a alarinjó Laís Machado, membros fundadores. Foram resolver coisas, projetos. Tocar outros barcos. E nos chega, nesse cenário de desespero, uma melodia apoteótica desde Cuba. Uma artista, um quasar com uma paixão. Vamos lá. Entra. E ficamos nós dois, que escrevemos este texto, e essa artista, Amine Barbuda.

Vamos fazer uma grande transformação? Vamos lá, claro. No meio da pendenga geral, o melhor mesmo é fazer grandes transformações. É o mais sensato, claro, claro. E mais uma vez nada nos bolsos, é claro, vamos fazer mais uma revolução! Pra fazer dinheiro tem que gastar dinheiro, claro. Mudar o site. Dar um grau na logo. Tô com vocês, vocês tão comigo? Claro, todos estamos com todos nós. Coletividade. Arte. Cultura. 2018. Nos transformamos num mamão. E se você não sabe o que isso significa, nós também não temos a mínima ideia.    

Como saímos da crítica teatral para sermos uma publicação sobre todos os campos artísticos, foi preciso traçar novos planos de ataque. Formação tartaruga, catapultas e agentes duplos à la Sun Tzu. Como finalmente tínhamos uma seção de literatura, fizemos a peregrinação para encontrar e recrutar nos sertões o demiurgo de Irecê, o hoje nosso editor Paulo Raviere. Vem daí também a consolidação de uma verve difusa em todos os experimentos textuais de nossa empreitada: o ensaísmo. Pouco a pouco estamos assumindo que somos uma revista de ensaios. Nossos pais da geração tropicalista & woodstock & beat ainda não aceitam muito bem a ideia, porém. Não que tenhamos jogado fora os chinelos e as camisas de botão abertas para nos empacotarmos na alfaiataria de Tom Wolfe e Gay Talese, mas quando olhamos para os olhos das pessoas deste país, para as criancinhas, no próximo decênio vemos semblantes sedentos por ensaios. E se é verdade que a criação literária-ficcional e dramatúrgica ainda é o fetiche que orienta nosso hipocampo artístico, estamos tentando melhorar. O que importa é o ensaio.

Divulgação Nascido em Salvador, Igor de Albuquerque também é editor da Barril, além de atuar como ensaísta, escritor de ficção, roteirista de HQ e doutorando pela USP: revista transcendeu a crítica teatral e se espraiou para outros campos artísticos

Sobre o futuro (em poucas e rápidas palavras, para não espantar o dito cujo): sonhos de podcast e grana. Exercitar nossas vozes em outras paragens. Ter grana para chamar cada vez mais gente competente em seu ofício. Ter grana para pagar alguém que nos pegue na mão e nos leve com leveza planejada pelo campo minado das redes sociais. Desregionalizar a Barril, que significa: poder mandar às favas o “típico” que nos impõem a torto e a direito – às vezes com um belo sorriso no rosto – assim como ampliar mundo afora nosso horizonte de observação e influência. Continuar alterando geneticamente a linguagem, esse vírus. Devemos aprofundar a nossa política maior: nem que seja dentro dos nossos parcos limites, aumentar um grau ou dois no nível do debate. Ter forças para continuar podendo não abaixar a cabeça para quaisquer tendências mercadológicas tacitamente legitimadas pelo fluxo da informação. Para continuar preferindo a não repetição de jargões e hashtags. Para continuar resistindo à barbárie estética que reduz qualquer relevo a pó, cujo ápice simbólico parece ser a poética do autoritarismo distópico em 5G. Para continuar, enfim, não sendo obrigados a louvar os louvados e apedrejar os apedrejados.

E como outro dos nossos preceitos político-edificantes consiste em tentar de todas as maneiras não sermos chatos, paremos nesse instante. Só pelo prazer de parar.

:. Leia mais sobre o dossiê Biocrítica e a Revista Barril.

Daniel Guerra Símbolo da publicação: “Nos transformamos num mamão. E se você não sabe o que isso significa, nós também não temos a mínima ideia”

Daniel Guerra (Salvador, 1987) é crítico de arte, editor da Revista Barril e diretor de teatro. Em 2008 fundou o grupo Alvenaria de Teatro (2008-2012) Atualmente investiga o conceito de acontecimento cênico, sobre o qual desenvolve uma pesquisa de mestrado em artes cênicas no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia. Trabalha também com vídeo e cinema, escrevendo roteiros e realizando produtos audiovisuais. Em 2016 fundou a Revista Barril junto com outros parceiros, publicação virtual que hoje já possui cerca de 200 textos críticos abarcando todas as áreas da arte.

Igor de Alburquerque (Salvador, 1989) é editor, tradutor, escreve ensaios e ficção. Publicou em 2019 a HQ -13, -38: amanhã de novo, com Amine Barbuda. Doutorando pela USP – Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Italianas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas –, prepara uma tese sobre o filósofo Carlo Michelstaedter (1887-1910).

Quer receber mais artigos como este? Então deixe seu e-mail:

Relacionados