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Crítica

Nas bordas do mundo e do sujeito

21.4.2022  |  por Valmir Santos

Foto de capa: Lina Sumizono

O mundo como palco ou moinho, posto que a vida é sonho. Shakespeare, Cartola e Calderón de La Barca são divisados em Derrota, espetáculo com artistas de Porto Alegre visto no Festival de Curitiba. No texto em prosa de Dimítris Dimitriádis (Grécia, 1944), sono e vigília perfazem a voz investida em se fazer escutar, eixo da linguagem na transposição ao monólogo teatral. A atuação de Liane Venturella, sob tradução e direção de Camila Bauer, veicula a palavra como organismo extensivo ao olhar, para além dos sentidos da escuta.

Dominante no modo entre telas da versão digital, de 2021, o olhar agora encontra-se emancipado de lado a lado, em busca de outras possibilidades de ligação. A estreia em formato presencial trouxe como introdução um resíduo análogo ao do trecho inicial do registro em vídeo, como se estabelecesse transição de suportes. Ou, quem sabe, de ensejo a uma posteridade pandêmica.

Não demora, a mirada ao vivo da atriz é convertida em espécie de farol conarrador e intermitente a focar o rosto das pessoas ao sabor do movimento sutil em seu endereçamento durante a sessão no auditório da Biblioteca Pública do Paraná.

Em ‘Derrota’, uma coprodução de Projeto Gompa e Cia. Incomoda-Te, de Porto Alegre, imagens abstratas provindas da literatura do grego Dimítris Dimitriádis não migram de barato para a escritura cênica. A essencialidade transmitida em todas os procedimentos do monólogo reforça desvios da premissa do título. Trata-se do itinerário de uma mulher que não se entende por perdedora; antes, conjuga aceitar, acatar e consentir como se fiasse por princípios budistas. O autor e a encenação não entregam um fim codificável. A relação causa e efeito ganha um campo largo para a experiência relacional de cada pessoa que acompanha

Venturella embrenha-se pela condição de vigília do ser entre o sono iminente e a consciência de mundo. A narrativa de Dimitriádis não quer a presciência de deusas e deuses que teriam o conhecimento de tudo o que virá, à maneira da civilização ocidental que teve berço em seu país e a respeito da qual não se cansa de pontuar crises. Sua ficção tem a escala terrena do humano.

Contrariando a máxima de que os fins justificam os meios, Venturella dá corpo a uma escrita não dramática em fluxo de tomada de consciência. Um paradoxo aparente quando se sabe que o “coração do sono” leva a quadro oposto, a redução fisiológica do nível de conectividade com o mundo interior. Aqui, em pleno rito para dormir no quarto, o verbo e as ideias despertam a dimensão sensorial e convidam a uma experiência por um caminho desconhecido, percorrido desde as entranhas e também feito de distanciamentos.

Na balança das funções cognitivas como memória e linguagem, essa voz age como quem olha para adiante sabendo que “o passado tem uma existência que não é fixa”, conforme disse, certa vez, o escritor mineiro Pedro Navas.

O ritmo cadenciado da fala instaura, gradativamente, sensações parelhas ao estado de epifania. A apreensão intuitiva da realidade vem por meio de uma constatação simples, inesperada e talvez tardia sobre a distância entre compreender e discursar, como revela na intervenção exemplar do raciocínio dedutivo estruturado:

“Quem não tem disfarce se disfarça de si mesmo. Quando eu havia compreendido tudo eu não tinha compreendido, eu fazia discursos. Agora eu falo. Eu não sei como, mas eu falo. Agora eu falo. Quem não compreende faz discursos, quem não compreende, fala”.

Lina Sumizono Em sua estreia em formato presencial, no Festival de Curitiba, o monólogo atuado por Liane Venturella leva à cena o texto em prosa ‘Derrota’, do grego Dimítris Dimitriádis, sob direção e tradução de Camila Bauer; uma coprodução de artistas de Porto Alegre por Projeto Gompa e Cia. Incomode-Te

A persuasão decanta o conflito crença/descrença. São sons de “sens”, de uma existência não necessariamente baseada na falta . “Antes eu queria, eu esperava, eu acredita. Agora eu não quero, não espero, não acredito em nada”. E esse nada, ressalve-se, não significa ausência. Nem pregação niilista.

Dar concreção à teia de enunciados subjetivos-oníricos é tarefa cumprida com meticulosidade por atriz, diretora e equipe na coprodução do Projeto Gompa e da Cia. Incomode-Te. Imagens abstratas provindas da literatura não migram de barato para a escritura cênica. A essencialidade transmitida em todas os procedimentos do monólogo reforça desvios da premissa do título. Trata-se do itinerário de uma mulher que não se entende por perdedora; antes, conjuga aceitar, acatar e consentir como se fiasse por princípios budistas. O autor e a encenação não entregam um fim codificável. A relação causa e efeito ganha um campo largo para a experiência relacional de cada pessoa que acompanha.

Derrota chama à noção cíclica cumprida pelos seres vivos, “para que o total seja o todo”. Trazido ao teatro após mais de duas décadas do lançamento europeu do livro de Dimítris Dimitriádis, Oblívio e mais quatro monólogos (2000), em que figura ao lado de Memória, Arrependimento, Arte e o próprio Oblívio, palavra que designa esquecimento, é um texto que desconcerta e sublima diante da atualidade apocalíptica do clima, da pandemia e, no caso brasileiro, do manto de morte que cobre o país.

Para quem enxerga nas entrelinhas um apagamento do coletivo em detrimento da supremacia do eu, a pena de Dimitriádis está longe do alheamento dos seres e das coisas. As densidades pertencem a outras categorias, se comparadas às críticas social e política processadas em montagens brasileiras derivadas da obra dele, como a peça A vertigem dos animais antes do abate (2014), dirigida por Luciano Alabarse (RS), e a igualmente levantada a partir de texto em prosa de mesmo nome, Morro como um país (2013), por Fernando Kinas, junto à antiga Kiwi Companhia de Teatro, atual Coletivo Comum (SP).

Afinal, qual a extensão do fundo do sono nesta quadra da história da humanidade? Quais forças de dentro e de fora em movimento? Não há respostas prontas. Numa meditação de cerca de 30 minutos em torno de um copo de água sobre uma mesa de apoio circular – onde a mulher permanece sentada boa parte do tempo – serenam as inquietações que a mente projeta em pensamento e arte.

.:. Derrota teve sessões dias 31 de março e 1º de abril no Festival de Curitiba de 2022, dentro da Mostra Interlocuções.

Lina Sumizono Venturella no trabalho cuja versão digital foi concebida e realizada durante a longa temporada de teatros fechados na pandemia e, em 31 de março, conjugou palco e plateia no auditório da Biblioteca Pública do Paraná

Ficha técnica:

Texto: Dimítris Dimitriádis

Com: Liane Venturella (Cia. Incomode-Te)

Direção e tradução: Camila Bauer (Projeto Gompa)

Direção sonora: Álvaro RosaCosta

Vídeo: Júlio Estevan e Nado Rossa

Fotos: Claudio Etges (in memoriam)

Orientação de figurino: Fabiane Severo

Iluminação: Ricardo Vivian

Assessoria de imprensa: Léo Sant´Anna

Social media: Pedro Bertoldi

Produção artística: Letícia Vieira

Produção: Primeira Fila Produções Realização: Projeto Gompa e Cia. Incomode-Te

Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Autor de livros ou capítulos, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Cursa doutorado em artes cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado na mesma área.

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