Reportagem
Um ato cultural também é feito das circunstâncias de seu tempo, especialmente quando cruza fronteiras geográficas, políticas e artísticas. No 8º Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, realizado pelo Sesc São Paulo de 3 a 13 de setembro, em Santos e cidades vizinhas, as tensões políticas, sociais e territoriais da América Latina atravessam parte significativa da programação. Elas ecoam os ruídos militares e diplomáticos de uma região submetida à disputa por poder, tecnologia e recursos estratégicos entre potências como Estados Unidos e China.
O evento reúne 41 espetáculos, performances e shows de 15 países, além de 16 ações formativas e reflexivas, inclusive a abertura de processo de um espetáculo. O Equador, país homenageado desta vez, ocupa lugar central nessa cartografia, mas as questões de migração, violência, desigualdade, meio ambiente, identidade e disputa territorial também aparecem nas mostras internacional e nacional.
A tônica politizante apareceu já no lançamento da programação, na noite de 12 de agosto, no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, em São Paulo. A despeito do caráter institucional, o Encontro com Comunicadores transcendeu formalidades. Foi impregnado de intervenções, ideias e musicalidades em sintonia com os 11 dias de ocupação de ruas, praças, espaços históricos e teatros santistas, além das apresentações em Cubatão, Guarujá, Praia Grande e São Vicente.
Tentar ao menos criar uma nova ficção, sedimento por sedimento, chegando numa geologia daquilo que pretendemos ser e de todo o continente entrelaçado por linhas, mas não dividido por elas. Tentar como um deserto e a sua permanente teimosia geográfica que tem a força de se espalhar e queimar os pés alheios quando preciso. Portanto, eis aqui uma mistura das portas que batem em nossas casas com o calor de nossos troncos retorcidos. Imaginaram os mapas. Agora, pode-se imaginar as borrachas que os apagarão, abrindo espaço para o nada, capaz de fazer esquecer o que eram as fronteiras e, sobretudo, abrindo espaço para o teatro de um continente
Trecho da peça ‘¡Cerrado!’, de Caio Silviano, Grupo Pano (SP)
Presente na programação do Mirada desde a primeira edição, em 2010, com o Grupo de Teatro Malayerba, sendo a última presença em 2022, com o Grupo de Teatro La Trinchera, o Equador ganha uma mostra na Baixada Santista com sete espetáculos que procuram retratar a pluralidade nos modos de criar e produzir de seus artistas nos dias de hoje.
A exemplo de Me·de·as, do Colectivo Mitómana, direção de Gabriela Ponce, que abriu o festival, releitura do mito grego a partir do clássico de Eurípides. Papakuna – Agroteatro cómico musical, da Colectiva Yama, que celebra as tradições milenares andinas e o cultivo de batatas nativas como ato de resistência cultural e comunitária. La trocha, da Runga Arte Experimental, uma investigação sobre a travessia de migrantes na fronteira entre Colômbia e Equador. E Esperando al Coyot – Tragicrónica de la farándula criolla, da Faquir Creaciones, que coloca três mulheres marginalizadas diante da promessa de um “primeiro mundo” ao qual esperam chegar com a ajuda de um coiote que nunca conheceram.
Para prospectar criações cênicas no país que não faz fronteira com o Brasil, a equipe de curadoria do Sesc esteve em mostras e festivais na capital, Quito, e nas cidades de Cuenca, Manta e Loja, no sul dos Andes.
Essas incursões ajudaram a perceber a relevância da festa e da comicidade enquanto linguagens, assim como da cosmovisão na experiência andina, principalmente na lida com o tempo — nada de linha reta que avança rumo ao futuro, mas sim uma dinâmica cíclica, viva e tridimensional.
Ao abrir espaço para o Equador, o Mirada também se aproxima do conceito de Estado plurinacional inscrito na Constituição do país, que reconhece a coexistência de diferentes povos, culturas, línguas e formas de organização social.
O próprio nome do país remete ao círculo imaginário que divide a Terra entre os hemisférios Norte e Sul — uma linha de separação que, sob a ótica curatorial, se transforma em ponto de partida para imaginar outras fronteiras.
De volta ao Anchieta, nos bastidores, antes de principiar o anúncio, a atriz, diretora e cantora Naruna Costa, do Grupo Clariô de Teatro (Taboão da Serra – SP), comentou com Tommy Pietra, uma das cinco pessoas da curadoria do Sesc, a propósito dos seguintes versos iniciais de Béradêro, primeira faixa do antológico álbum Aos vivos (1995), do cantor e compositor paraibano Chico César:
Os olhos tristes da fita
Rodando no gravador
Uma moça cosendo roupa
Com a linha do Equador
(…)
Pietra lembrou que a perspectiva andina já tinha sido sinalizada no Mirada de 2024, quando o Peru foi homenageado. “A gente percebeu que havia um caminho importante a trilhar. Uma costura a partir do país que tomou emprestado o nome da linha do equador. O que ela significa em termos de ficção geográfica? Como reimaginá-la?”, disse.
Em texto institucional, a equipe do Sesc salientou: “O Equador tomou seu nome emprestado da linha imaginária que divide o planeta em duas partes supostamente iguais, e nos oferece, por isso, uma imagem-síntese de uma das mais importantes contradições de nosso tempo: a promessa abstrata da igualdade convive com desigualdades históricas, econômicas, sociais e ambientais que se aprofundam em uma era de máxima tensão entre Norte e Sul globais.” Assinado coletivamente por Fernanda Dorazio, Natalia Martins, Rodrigo Eloi, Rose Silveira e Pietra.

Convidada ao palco como mestre de cerimônia, Naruna, por sua vez, conhece de cor aquela letra de Chico César. Afinal, foi também a partir de um verso dela que o escritor pernambucano Marcelino Freire pinçou o título de sua dramaturgia para Hospital da gente (2008), montagem dirigida por Mario Pazini Jr., um marco na trajetória do Clariô.
Por falar em música, a atriz mal saudou ancestralidades e emendou ao microfone, à capela, Boi – É disso que eles têm medo, uma das composições do espetáculo musical Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto (2023), que dirigiu junto ao grupo com Cleydson Catarina:
É de fé, de malandragem e ousadia
que é feita a nossa festa
Beleza, simplicidade e alegria
É a força que o boi carrega
É disso que eles têm medo!
É disso que eles têm medo!
(…)
O Clariô participa do Mirada com a estreia de Casa do Norte, sob dramaturgia de Jhonny Salaberg, cujo título é inspirado em comércios típicos nas paisagens periféricas da região metropolitana de São Paulo, geralmente idealizados e mantidos por migrantes nordestinos. A gênese dessa criação remonta às pesquisas do grupo para Hospital da gente e ora desdobra de residência artística-pedagógica abraçada junto ao Centro de Pesquisa Teatral (CPT), no sétimo andar do Sesc Consolação — o Anchieta fica no subsolo, onde Casa do Norte cumprirá temporada a partir de 25/9.
A direção da atriz reivindica a folia como lugar de luta e resistência em 20 anos de trabalho continuado em Taboão, cidade que faz divisa com a zona sul da capital, onde o espaço-sede independente do Clariô está ameaçado pela especulação imobiliária.
Por sinal, a primeira intervenção naquela noite de quarta-feira aconteceu na calçada e no saguão do Teatro Anchieta, sob a percussão esfuziante do Grupo Pano (São Paulo – SP). Nela, atuantes carregam instrumentos enquanto cantam e ocupam diferentes níveis do espaço em figurinos laranjas e vermelhos, brandindo seu estandarte e uma bandeira igualmente roja. Como na cena do espetáculo ¡Cerrado! (2024), um artista mascarado carrega uma bandeira vermelha na qual é possível ler, de um lado, a palavra “Passado”, grafada em branco e, de outro, “Futuro”, de mesma cor, “simbolizando que as artes cênicas cruzam eras e conectam raízes coloniais e resistências atuais”, como deseja o agrupamento. O mote performativo é uma legislação chilena que proíbe a dança de rua sem licença, ou seja, o controle sobre a festa e os corpos — 4 e 5, 20h, Mercado Municipal, sessões esgotadas.
A atmosfera construída foi arrematada do lado de dentro com o breve monólogo da atriz Amanda Quintero, agora com toda a trupe a seu lado, no palco. Da plateia, o público convidado avistou, atrás dela, as cores vivas, curvas e formas abstratas do pano de boca de cena do artista plástico e paisagista Roberto Burle Marx. O trecho adaptado da dramaturgia de Caio Silviano para o espetáculo do Grupo Pano reverberou estética e conceitualmente de forma cirúrgica:
(…)
Teatro, esse lugar que, de tão antigo, chega a ser arqueológico. Isso aqui é, talvez, um ato encenado tentado. Talvez isso, frente ao mundo e as suas estruturazinhas já bem definidas e erguidas rumo a horizontes que não nos dizem respeito. Talvez. Tentar. E como ato tentado, ele não objetiva conseguir, mas, sim, chegar próximo daquilo que nos remeta a um pouco de paz em relação a lugares mal-esboçados que habitamos em nossos mapas. Muito da nossa falta de sono está em não estar tentando, logo, parece mais amena essa opção. Ainda que ela nos faça perceber o tamanho dos nossos próprios tropeças, mas temos que tentar. Tentar ao menos criar uma nova ficção, sedimento por sedimento, chegando numa geologia daquilo que pretendemos ser e de todo o continente entrelaçado por linhas, mas não dividido por elas. Tentar como um deserto e a sua permanente teimosia geográfica que tem a força de se espalhar e queimar os pés alheios quando preciso. Portanto, eis aqui uma mistura das portas que batem em nossas casas com o calor de nossos troncos retorcidos. Imaginaram os mapas. Agora, pode-se imaginar as borrachas que os apagarão, abrindo espaço para o nada, capaz de fazer esquecer o que eram as fronteiras e, sobretudo, abrindo espaço para o teatro de um continente.
(…)
A fala dialogava com a própria concepção do Mirada: um festival que, faz 16 anos, procura criar um território temporário de encontro entre diferentes países, linguagens e modos de produção. Em certa medida, a pensata da curadoria também transita esse estado de coisas: “Realizar um festival é, de algum modo, inventar um território. (…) E é estimulante pensar que, talvez, este ‘país festival’ seja a organização que mais se aproxime de uma genuína multinacionalidade, em que as trocas, além das mercadológicas, são de diversas ordens: econômicas, culturais, afetivas e políticas.”

Cruzamentos
Dizendo-se privilegiada em acompanhar a história do Mirada desde a primeira edição, a superintendente técnico-social do Sesc, Rosana Paulo Cunha, observou: “Mantemos o pensamento global sobre a formação do indivíduo, as questões da cidadania e do mundo contemporâneo que perpassam tudo aquilo que a gente vive todo dia e nos impactam. Como no caso das guerras, conflitos e ausências de humanidade que temos visto.”
Rosana recordou que um dos impulsos iniciais do então diretor do departamento regional, Danilo Santos de Miranda, era pela correlação da cidade portuária de Santos com a sua congênere espanhola Cádiz, na comunidade autônoma de Andaluzia, que abriga o Festival Iberoamericano de Teatro de Cádiz, desde 1986, e vai para a 41ª edição anual em outubro. Tanto que o seu diretor-artístico, Pepe Bablé, fez parte do conselho diretivo nas primeiras edições, ao lado da diretora teatral e educadora brasileira Isabel Ortega, radicada na Espanha, do diretor teatral e gestor cultural colombiano Ramiro Osorio e do próprio Miranda.
Já a curadoria artística propriamente dita passa a integrar a estrutura do festival a partir de 2014 e hoje se apresenta de maneira mais diversa.
O quinteto foi realimentado por um fórum de curadoria com participação de 26 pessoas tanto do Sesc SP como de regionais de outros estados, durante quatro semanas de mergulho na história e na cultura do Equador. “Nesse fórum, convidamos um pesquisador e uma atriz que destacaram com muita força a presença das mulheres no Equador, os rituais de cuidados de si, a preocupação com o meio ambiente e a resistência por meio do corpo e da coralidade”, afirmou Fernanda Dorazio.
“Metade das obras deste ano têm direção ou dramaturgia assinada por mulheres, falando sobre os desejos, sobre o corpo, sobre o trabalho. Questões de feminicídio e impunidade são tratadas em Las delicadas lágrimas de la luna menguante, do grupo venezuelano Water People Theatre, e La casa sin Bernarda, com artistas da Costa Rica. Além disso, há um recorte muito forte sobre migração ou trânsito por outro território, a exemplo de Ayoub – El amor me enseña a no amar, da Argentina, e Frágil, da Colômbia.”
Ainda sobre disputas de território, extrativismo e meio ambiente, Fernanda citou a produção VAMPYR, do Chile, um falso documentário sobre criaturas que resistem à divisão entre natureza e cultura, e a criação em dança Occupation 2, com artistas de Cuba e Colombia, em torno de uma comunidade inteira que é retirada de seu chão.
As dezenas de manifestações perpassam teatro, dança, circo e ópera, com veredas para as artes da performance e da música.
Rodrigo Eloi sublinhou a importância dos coletivos como espaços de perpetuação da linguagem, no sentido de germiná-la e mantê-la ativa, como pode ser evidenciado no trabalho continuado do Grupo Galpão (Belo Horizonte – MG), desde 1982, e da Lia Rodrigues Companhia de Danças (Rio de Janeiro – RJ), desde 1990. “Isso foi algo que passou muito pelo nosso posicionamento político na mostra nacional, mas não somente.”
Destacou ainda que pela primeira vez o Mirada lançou uma obra comissionada e a endereça a dois grupos, um do Sudeste e outro do Nordeste: o Lume Teatro (Campinas – SP) e o Grupo de Teatro Clows de Shakespeare (Natal – RN), incumbidos de criar uma obra cênica em pleno ciclo dos 80 anos de existência do Sesc — o festival se encerra na data oficial de aniversário da entidade, 13/9, fundada em 1946.
“Entendo curadoria como fantasmas, presenças e ausências também. Afinal, tudo passa por esse processo de risco. E muitas palavras estiveram no nosso dicionário afetivo, político e de linguagem. ‘Festa’ foi uma delas, de fato: esse lugar de como festejar por meio do corpo e a fusão de discussões sociais, políticas e de linguagem que implica”, disse Eloi.
O eixo das ações formativas e reflexivas abarca a residência artística e consequente abertura de processo de criação de mesmo nome, Voo Livre – Festa, parceria da companhia brasileira de teatro (Curitiba – PR), grupo Teatro Experimental do Porto (Portugal) e “artistas convidades”, com estreia prevista para novembro de 2026. O título pretende ativar “um campo comum de perguntas, desejos e miragens de como pensar e habitar os sentidos da vida num mundo em estilhaços”.
Há ainda bate-papo, oficina, vivência e um laboratório de crítica teatral. “O festival expressa também a intenção de trazer para esse jogo cênico pessoas muitas vezes sem nenhuma iniciação artística. As atividades repercutem, ampliam conceitos que já estão nos espetáculos e vão costurando a outros pensamentos a respeito, por exemplo, da cultura e da arte DEF [pessoas com deficiência], da política de fomento às artes, da formação, enfim, muitos assuntos imbricados”, afirmou Rose Silveira.

Ela realçou o fluxo de existência e identidade na “Vivência na Tekoa Kalipety” (Terra Indígena Tenondé Porã), em Parelheiros, zona sul da capital, que inclui diálogo com Jerá Guarani, liderança Guarani Mbya, e apresentação do espetáculo Papakuna – Agroteatro cômico musical, da equatoriana Colectiva Yama. “Além de conhecer todo o trabalho de agrofloresta dessa comunidade indígena, participantes vão ver como foi se deu uma ação de muita resistência para conseguir restaurar as culturas do plantio do milho e da batata. E por meio delas, digamos assim, uma memória do próprio corpo e uma economia também de pertencimento ao território. A vivência permitirá constatar como tudo isso mobiliza enquanto história, ancestralidade e espiritualidade.”
Sobre o potencial politizante de algumas peças, Eloi lembrou de Si me ves ir con todo, es porque a la noche lloro (Guatemala e Suíça), La trocha e Esperando al coyot (ambas Equador) como exemplos que enfatizam a comicidade e, em segundo plano, problematizam aspectos da atual quadra histórica: o novo velho sonho americano redivivo na obsessão de “Tornar a América Grande Novamente”, síntese de nacionalismo popular. “A partir do momento que os Estados Unidos impõem uma ideia de nação, de império, que é predominante em relação ao restante das Américas, acredito que algumas obras artísticas respondem com o traço do humor, da recusa. Humor como elemento quase de antídoto a essa perversidade.”
Após a fala da curadoria, Naruna Costa diagnosticou “o momento de hipertrofia informacional e cada vez mais caro e desesperador”. Em seguida, convidou Georgette e Coletta para compartilharem suas perspectivas de tempo.
Tudo é política
A política, entretanto, não aparece apenas nas obras que explicitamente tematizam governos, fronteiras ou conflitos. Ela também está nas formas de produção, nos corpos que ocupam a cena, nas relações de poder e nas maneiras de narrar uma experiência.
Tampouco falta voltagem à Mostra Internacional ou à Mostra Nacional, que cravam 17 obras cada uma.
Vide AYOUB – El amor me enseña a no amar, texto e direção da argentina Marina Otero, que contracena com o espanhol Ibrahim Ibnou Goush. Segundo o material de divulgação, a obra ironiza a ideia de salvação europeia, que dissimula proteger o outro, enquanto exerce o colonialismo e os abusos presentes nesses mecanismos dentro da arte e da política.
Do Peru, o grupo Ministerio de la Belleza investe em um melodrama queer em Cariño malo, que mistura teatro, radioteatro e música crioula do país para explorar o obsceno – aquilo que não deveria ser visto, mas insiste em se mostrar. Na sinopse, a obra acompanha Silvio, um homem de 40 anos que, decidido a perder a virgindade, entra como ator em uma radionovela e acaba envolvido em uma história delirante de desejo, culpa e libertação.
Em Mi madre y el dinero, com grupo Pornotráfico (México), o dramaturgo e diretor Anacarsis Ramos contracena com sua mãe, Josefina Orlaineta, que manteve mais de 40 negócios em seis décadas. Gancho para discutir a crise econômica, o apagamento das fronteiras entre casa e trabalho e a vulnerabilidade social lançando mão de teatro e cinema documental para recriar ambientes da casa-oficina.
Uma segunda produção do México é Centroamérica, com o coletivo mexicano Lagartijas Tiradas al Sol, conhecido do circuito brasileiro de festivais internacionais, notabilizado pelo grau de politização de seus trabalhos cênicos. No roteiro, a dupla cofundadora, Luisa Pardo e Lázaro G. Rodríguez, faz uma viagem de campo à América Central para levantar informações e depoimentos com vistas a uma futura criação. A jornada toma um rumo totalmente inesperado quando a equipe conhece uma mulher identificada apenas como “M——”: “Ela pediu que fizéssemos um favor dentro do país que a viu nascer, no qual viveu a vida inteira e para onde não pode voltar”, segundo o catálogo.
Vale a pena avançar um pouco mais sobre a autointitulada comunidade de artistas mexicana segundo a qual as coisas são o que são, mas também podem ser de outra forma. Desde o princípio, 23 anos atrás, Lagartijas afirma desenvolver projetos que vinculem o trabalho e a vida, borrando fronteiras a partir das noções de biografia, documento e História. Intenta dotar de sentido, articular, deslocar e desentranhar o que a vida cotidiana funde, ignora e nos apresenta como dado. Um espaço que pretende ultrapassar os limites do entretenimento e fazer pensar.
Rota de milhões de migrantes que tentam chegar aos Estados Unidos, países centro-americanos raramente são convidados para o circuito das artes cênicas internacionais no Brasil.
A Guatemala aporta pela primeira vez, por meio de Baby Volcano, alcunha artística de Lorena Stadelmann, suíço-guatemalteca que transita entre a performance e a música. Em Si me ves ir con todo, es porque a la noche lloro, a filha de pai suíço e mãe guatemalteca funde rap industrial e dança contemporânea ao investigar conflitos globais e íntimos a partir de uma urgência: a decisão de parar de ter medo e transformar a angústia em manifesto coletivo, diz o material de apoio.

Da Costa Rica, as diretoras, atrizes e pesquisadoras Grettel Méndez Ramírez e Luisa Pérez Wolter trazem La casa sin Bernarda, ressignificação de aspectos da peça A casa de Bernarda Alba, do espanhol Federico García Lorca, partindo da pergunta: “O que aconteceria se Bernarda não estivesse ali?”. Para isso, as artistas se juntam a mais três criadoras em cena para abordar a violência de gênero e a impunidade. Daí surgem a figura de Adela e demais elementos simbólicos que se conectam ao contexto latino-americano de feminicídio.
A ilha de Cuba está presente no Mirada com Occupation 2, sob dramaturgia e conceito de Lázaro Benítez, coreógrafo radicado em Marselha, na França, onde criou o Colectivo La Frontera. A partir do desalojamento de famílias afrodescendentes por uma mineradora, em uma cidade colombiana, no início deste século, cinco artistas locais investigam como a dança pode testemunhar e acompanhar lutas que emergem de cenários de invisibilidade, violência e silêncio.
A rigor, públicos brasileiros pouco ou quase nada viram, por exemplo, acerca da produção cênica de El Salvador, Honduras, Nicarágua ou Haiti.
Brecha para rememorar uma exceção. Em 2012, o Festival Internacional de Teatro, Palco & Rua de Belo Horizonte, o FIT BH, acolheu um ritual musical guatemalteco em um parque da região central da cidade. Oxlajuj b’aqtun (As profecias maias), com a Asociación Sotz’il Jay, versou sobre os elementos energéticos que se atraem e se contraem no cosmos para criar o fogo essencial da vida. Mas existem forças que provocam fortes desequilíbrios entre a luz e a escuridão. A dramaturgia encarnava esses embates evocando a cultura maia.
Retomando a agenda na Baixada Santista, a partir do ângulo da América do Sul, a Bolívia comparece com La Paz – Performática, do Teatro Feroz, com ideia original e dramaturgia de Samadi Valcarcel. A narrativa entrelaça memória, música e corpo para criar um retrato vivo de uma das capitais do território atravessado pela Cordilheira dos Andes, exibindo suas contradições, montanhas, passagens secretas, as personagens que vivem em suas ruas, a cultura do futebol e as lutas sociais. Com elenco numeroso, a performance culmina em dança latino-americana, diz a sinopse, como a lembrar que, em La Paz, a vida nem sempre é compreendida intelectualmente; ela é sentida, dançada e respirada.
O espetáculo Las delicadas lágrimas de la luna menguante, com a organização latina Water People Theater, surgida na Venezuela em 2001 e desde 2017 radicada nos Estados Unidos, tem dramaturgia de Rebeca Alemán e direção de Iraida Tapias para tratar da violação dos direitos humanos de jornalistas na América Latina. A trama segue a ativista Paulina, que acorda de um coma após um brutal atentado e precisa recuperar a memória para alcançar justiça.
Em VAMPYR, a diretora e dramaturga chilena Manuela Infante se apropria da clássica criatura mítica que teria origem no Leste Europeu — segundo a lenda, sobrevive se alimentando do sangue de pessoas vivas — e se propõe a reinventar um vampiro sul-americano. Com essa finalidade, estabelece uma relação crítica e irônica entre a lenda europeia e a realidade do morcego hematófago chileno, espécie que morre em grandes quantidades, vítima das turbinas dos aerogeradores eólicos. A trama elabora um falso documentário sobre criaturas teimosas, ao mesmo tempo mortos-vivos, animais, terra e humanos, que resistem a obedecer ao mandato da divisão entre natureza e cultura.
Também do Chile, a Compañía Fuego Rojo arma um ringue e junta estilos de cholitas voadoras da Bolívia, pelejas mexicanas e capoeira brasileira em uma montagem circense contemporânea que remete às cerimônias de luta nas quais há entrega física e emocional a serviço do coletivo. Luisa de América não é uma personagem, mas um conceito e um símbolo, numa referência a “Lucha”, apelido comum para Luisa no Chile. Criação inspirada na trilogia Memória do fogo (2022, L&PM), do escritor uruguaio Eduardo Galeano, que reconta a história da América Latina desde a criação do mundo segundo a mitologia indígena até o final do século 20.
E desde a Península Ibérica, no sudoeste da Europa, Portugal e Espanha desembarcam, respectivamente, com Morrer pelos passarinhos, segunda obra portuguesa no festival, cocriação e performance de Henrique Furtado Vieira e Lígia Soares, uma sequência de ações que investigam a conexão histórica entre crises e vanguardas artísticas, como o dadaísmo, a dança expressionista e o teatro do absurdo, explorando relações entre espaço, corpo, linguagem e contexto social, e Seppuku – El funeral de Mishima o El placer de morir, com a companhia Atra Bilis Teatro, da dramaturga, diretora e atuante Angélica Liddell, que parte da forma ritual de suicídio por estripação, no título, também conhecido por harakiri, método escolhido pelo escritor Yukio Mishima para finalizar sua história de vida, sendo o centenário de nascimento celebrado em 2025.
Cena brasileira
Na Mostra Nacional, chama a atenção sondar como o teatro brasileiro dialoga com os mesmos problemas, a seu modo, como nas três estreias programadas.
…Ao mesmo tempo… é a criação forjada na linguagem do teatro de rua por dois grupos que a conhecem bem: o Lume Teatro (Campinas – SP), 42 anos de bagagem, e o Clowns de Shakespeare (Natal – RN), 33 anos. Um diálogo intergeracional a ser mediado por duas criadoras também entranhadas ao fazer teatro de pesquisa em coletivos, a atriz e diretora Georgette Fadel (Cia. São Jorge de Variedades, Ultralíricos) e a dramaturga Dione Carlos (Companhia de Teatro Heliópolis, Coletivo Legítima Defesa), ambas vivendo em São Paulo.
Ainda na mesma noite de lançamento, alentada pelas camadas de conteúdos e ideias reveladas aos poucos, Georgette participou de um bate-papo com o ator e dramaturgo Marcos Coletta, cofundador do coletivo Quatroloscinco – Teatro do Comum (Belo Horizonte – MG), a fim de compartilhar as diferentes relações com o tempo em suas lidas para pesquisar, criar e produzir. Nem sempre, necessariamente, nessa ordem.
Foi quando a atriz e diretora abriu uma janela para tratar do não-espetáculo que havia de ser gestado em cerca de um mês. Ao ar livre, atuantes e pedestres ou aderentes na plateia gravitariam mesas destinadas a uma celebração misteriosa, plataformas para “um banquete singular, espécie de santa ceia nonsense”, no dizer da sinopse.
“Estamos produzindo um espetáculo que não sei se podemos chamar de espetáculo. É um momento com o Lume e o Clowns de Shakespeare, portanto está sendo um deleite. Vocês imaginam, aqueles atores maravilhosos, aquelas atrizes maravilhosas… A gente está arrancando essa alegria do pouco tempo que temos. Queremos proporcionar momentos de vidas. Flashes de vidas ao redor de mesas. Será um acontecimento despretensioso, mas com a pretensão da sensibilidade que a gente defende. Vai ter a sua profundidade. Eu chamo de espetáculo-funil. Você pega uma vida inteira e bota ali, junto com todo um repertório também de sensibilidade. O espetáculo não vai ter o que a gente gostaria que tivesse, mais tempo, mas ele vai ter o suco da nossa alma nesse um mês. Cada vez mais o suco da alma, extratora, extrator, para tirar esse suco e fazer sempre o melhor”, declarou Georgette, sinalizando a precarização do ofício de artista cênico que aprofundará mais adiante.
A segunda estreia é a fricção de Macbeth pela Cia. Extemporânea (São Paulo – SP), justamente a segunda criação do projeto “Shakespeare in Drag”, iniciado em 2023 com a bem-sucedida montagem de Rei Lear. Lançando mão de elenco formado exclusivamente por drag queens, as mesmas nove pessoas em cena, a direção geral e a direção cênica da dupla Ines Bushatsky (idealização) e João Mostazo (texto) revisitam as peças do autor inglês com a premissa de suscitar uma poética própria em torno da ideia de extemporaneidade, pensada como uma maneira de habitar o tempo presente, segundo a companhia.
Já no terreno das criações para a infância de todas as idades, coube à Cia. de Feitos (São Paulo – SP) estrear Vovó Surrealista, espetáculo em que Carlos Canhameiro, em projeto paralelo ao da Cia. Les Commediens Tropicales, concilia dramaturgia e direção a partir de seu livro infantojuvenil de mesmo nome (2022, Editora Mireveja). “Uma vovó que nunca aprendeu a ler finge decifrar os livros que carrega debaixo do braço e inventa, para netos, vizinhos e desconhecidos, histórias que não existem em suas páginas: era uma vez tanta coisa, sem limite de forma, tamanho, gênero ou identidade”, convida o resumo da companhia que trabalha há 17 anos.

As demais obras brasileiras também ampliam esse campo de discussão por meio de diferentes linguagens e perspectivas sobre corpo, território, memória, desigualdade e crise ambiental.
Urgem flagrantes de um mundo em ebulição, literal e figurativamente, em Borda, da Lia Rodrigues Cia. de Dança (Rio de Janeiro – RJ). Em Favela de barro – instáveis moradias em queda, da Esquadrilha Marginália (Cubatão – SP). Em {FÉ}STA , do Coletivo Prot{agô}nistas (São Paulo – SP). Em Ideias para adiar o fim do mundo, solo de Yumo Apurinã (Cacoal – RO), inspirado em vivências com seu povo indígena e no livro homônimo de Airton Krenak (2019, Companhia das Letras), sob direção de João Bernardo Caldeira (Rio de Janeiro – RJ), com texto consolidado por ele e Apurinã. Em Vermelho melodrama, Vermelho Melodrama, com a plataforma Dimenti (Salvador – BA), que reposiciona sob uma ótica feminista e LGBTQIAPN+ os papéis clássicos do gênero: aqui, é o homem quem desmaia de emoção, e é a mulher quem decide a quem quer amar.
Em (Um) Ensaio sobre a cegueira, do Grupo Galpão (Belo Horizonte – MG), com o diretor convidado Rodrigo Portella, transcriação para o palco da prosa ensaística de José Saramago (1995, Companhia das Letras). A história sobre a “cegueira branca” que se espalha em diversas partes do mundo não é apenas uma meditação sobre a perda e a fragilidade humanas, mas, também, uma potente alegoria acerca dos frágeis limites éticos que nos separam da barbárie, como entendem as pessoas criadoras. Em Veias abertas 60 30 15 seg, da Aquela Cia (Rio de Janeiro – RJ), com direção de Marco André Nunes e texto de Pedro Kosovski e Carolina Lavigne, uma inspiração performativa a propósito de As veias abertas da América Latina (1971), de Eduardo Galeano (2021, L&PM, edição mais recente), livro icônico sobre a exploração e o subdesenvolvimento da região. Por fim, em Velocidade, em que o Grupo Quatroloscinco convida as pessoas do público a repensar o ritmo da vida e, para tanto, coloca para si a seguinte questão: “Como subverter o tempo e a duração das coisas a partir da arte?”. Um dos insights foi estruturar a peça como as partes de um livro: capa, prefácio, dedicatória, sete capítulos e verso da capa, daí uma peça-livro-sonho desejante de afirmar o teatro como espaço de desaceleração.
E em outra frente, de 8 a 12/9, Santos e Baixada Santista recebem o Mirada Pro, plataforma de intercâmbio e articulação profissional que reúne programadores brasileiros e internacionais, artistas, grupos e agentes culturais para acompanhar espetáculos, participar de encontros e ampliar redes de colaboração. Entre as atividades estão Toró de Cenas, mostra-relâmpago que apresenta dez coletivos em criações de até dez minutos, e Café com os Grupos, dedicado à troca de experiências entre artistas e programadores. A iniciativa busca estimular novas parcerias, oportunidades de circulação e conexões em torno da produção cênica contemporânea.
Os tempos de ser artista
Para desfecho da reportagem, segue a transcrição editada da fala da atriz e diretora Georgette Fadel no lançamento do Mirada no Anchieta, palco onde ela pisou, entre maio e março passado, para interpretar Joana/Medeia em Gota d’água – no tempo, com a Cia. Coisas Nossas de Teatro. Uma revisita 20 anos depois da estreia da montagem em que protagonizou a peça de Paulo Pontes e Chico Buarque.
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“Tem um texto chamado Biedermann e os incendiários [do suíço Max Frisch, que ela dirigiu junto à Companhia São Jorge de Variedades em 2001] em que uma personagem fala assim: ‘A melhor maneira de enganar alguém é dizer a verdade, porque ninguém nunca acredita nela’.
Então, palavras como ‘desenvolvimento’, por exemplo, são palavras dadas de presente. Talvez, positivando a palavra, para se desenvolver, no bom sentido, é necessário ter se envolvido.
Diante dessa pressão do capitalismo, que está chegando a um sufocamento muito grande, a gente brinca como fazer [espetáculos] sem tempo. Temos dois dias? Dois dias. Eu tenho um minuto para me expressar? Me expresso em um minuto.
É um momento de transformação da espécie em relação à nossa percepção, à nossa sensibilidade, portanto ao nosso corpo.
Parece que a nossa sensibilidade está diminuindo. Existem pesquisas que mostram isso. O que há um tempo se achava suficiente, agora não é mais. Como já diria o mito de Fausto, a insatisfação é infinita dentro do sistema capitalista.
Enquanto esse for o sistema, a gente vai se encaminhar para esse bueiro, e esse bueiro tem a ver com o tempo.
Os nossos processos estão escangalhados. Eu, com 18 anos, dirigia espetáculos muito mais complexos do que dirijo hoje. Isso é uma tristeza para uma pessoa de 52 anos.
A minha companhia não tem mais sede. A gente ainda existe, produz muito mais espaçadamente. Porque até conseguir cinco, seis, oito meses para a elaboração de um espetáculo que seja digno de ser chamado de espetáculo da Companhia São Jorge, a gente precisa de tempo. Demora. Os nossos espetáculos estão vindo de três em três anos. Antes, eram de ano em ano, pesquisas de ano.
É um massacre. Massacre de uma das coisas que nos caracterizam, que é o pensamento, fotossíntese humana. A beleza de pensar e achar junções entre as coisas para produzir luz. Ou produzir escuridão, citando a querida Castiel [Castiel Vitorino Brasileiro, artista plástica, escritora e psicóloga clínica]. Esse universo escuro do universo.
O preço da mudança em nossa sensibilidade: a aceleração de informações e fragmentos mata a capacidade de meditação e de pensamento profundo.
Eu não sei no que isso vai dar. A gente só precisa ficar atento para não morrer aí.
É uma tristeza essa história de a gente realmente não ter tempo para elaborações mais profundas, como os nossos grupos eram capazes de fazer.
E nos é cobrada essa resposta inteligente e sofisticada em relação ao que estamos vivendo. E, aí, vão assistir aos nossos trabalhos e eles soam um pouco mal acabados, um pouco ruins…
Tenho saudade da ritualística do teatro que vivi nos anos 1990, começo dos anos 2000. Na sala de ensaio, era uma emoção pisar… Havia o silêncio, o tempo alongado que permitia que a gente pudesse fazer as três primeiras horas de massagem… no quadril! Depois vinha a qualidade daquele atuador, daquela atuadora, com a consciência daquele osso…
Para o resto da humanidade, isso pode ser uma bobagem, mas para a gente é tudo. O conhecimento geométrico do nosso esqueleto, do espaço, o conhecimento do outro, o entendimento do humor do outro, o corpo do outro… Saber se dá para pular em cima, se não dá… Esse desenvolvimento é o nosso ouro.
Portanto, vivemos um momento dificílimo. A gente tem que lutar muito, como nunca lutamos. Ainda mais aqui em São Paulo… Estou falando em nível nacional, é claro, mas a gente vê que um governo mais à esquerda, como o governo Lula, não consegue furar os poderes estadual e municipal. E a gente está assistindo a calamidades.

Enfim, é só para falar dessa tristeza e, ao mesmo tempo, dessa imensa felicidade de a gente sempre contar um com o outro, uma com a outra. Eu sinto que as coisas mais importantes são encontros como este. A gente conhece a nossa família planetária, aqui, e sabe que vai se segurar, vai estar sempre no coletivo. E vamos sobreviver…
Mas está havendo um ataque feroz em relação aos espaços. O Teatro Ventoforte veio abaixo, botaram o Teatro de Contêiner Mungunzá abaixo, símbolos da cidade. É seríssimo. E isso ocorre aqui na capital. Eu não quero nem imaginar o que está acontecendo nos interiores, que é o que nos interessa mais, inclusive, porque é onde acontece o teatro de base.
O tempo é uma coisa que a gente cria, mas, ao mesmo tempo… O tempo cronológico da atuação, para a produção, por exemplo, de um espetáculo, isso está condicionado ao tempo da cidade. A gente, em cena, ainda consegue realizar trabalhos decentes, mas a pressão é muito grande.
Afinal, a qualidade está sendo afetada. Eu sinto isso, vendo os espetáculos de companheiros. A gente sabe que aquele espetáculo foi feito em dois meses, todo mundo suando a camisa, estressado e doente, tomando remédios para conseguir se manter.
Em resumo, a gente está cansado. E, ao mesmo tempo, talvez a gente nunca tenha estado com tanta gana de continuar vivos. Porque agora é uma questão de sobrevivência. Eu tenho metade dos meus amigos fazendo Uber. Uma profissão digna, mas não é a profissão daquele flautista, daquele ator.
É um quadro que exige nossa atenção máxima.”
Serviço
8º Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas. 3 a 13 de setembro de 2026.
Sesc Santos (Rua Conselheiro Ribas, 136, Aparecida). Mais espaços públicos e equipamentos culturais em Santos, Cubatão, Guarujá, Praia Grande e São Vicente.
Ingressos gratuitos ou R$ 10 (credencial plena), R$ 20 (meia-entrada) e R$ 40; espetáculos para a infância, gratuitos ou R$ 10, R$ 15 e R$ 30.
Venda on-line pelo aplicativo Credencial Sesc SP e pelo site Central de Relacionamento Digital, ou presencialmente nas unidades do Sesc São Paulo.
Programação e informações: sescsp.org.br/mirada e aplicativo Mirada Festival Sesc SP
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Común vacío, Colectivo Invitro Danza Contemporánea (Equador), dias 10 e 11, no Sesc Taubaté.
Vampyr, direção Manuela Infante (Chile), 10, Sesc Vila Mariana.
Mi madre y el dinero, com Anacarsis Ramos/Pornotráfico (México), 11 e 12, Sesc 14 Bis.
Cariño malo, com Ministerio de la Belleza (Peru), 12 e 13, Sesc Consolação.
Seppuku – El funeral de Mishima o El placer de morir, criação Angélica Liddell (Espanha), 17 e 18, Sesc Pinheiros.
Vovó surrealista, com Cia. de Feitos, 19/9 a 12/10, Sesc Belenzinho.
Casa do Norte, com Grupo Clariô de Teatro, 25/9 a 1º/11, Sesc Consolação.
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O Sesc Digital disponibiliza acesso gratuito a conteúdos referentes à edição atual e às anteriores do Mirada. Requer cadastro e login.
Crítico e repórter no site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Publicou em periódicos como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes (SP). Autor de livros ou capítulos afeitos à memória e à história do campo teatral. Formado em Comunicação Social, habilitação jornalismo. Cursou doutorado e mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da USP, com pesquisas em crítica e teatro de grupo, e especialização em jornalismo cultural pela PUC-SP. Colabora em curadorias, consultorias ou comissões para mostras e festivais em iniciativas públicas e privadas, bem como elabora textos para enciclopédias e catálogos. Fez parte da fase amadora do Grupo Pombas Urbanas, no bairro de São Miguel Paulista.