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Folha de S.Paulo

São Paulo, domingo, 13 de abril de 2008

TEATRO 

Quatro espetáculos estão sendo realizados nas praças Roosevelt e República, no parque Villa-Lobos e no viaduto do Chá
“Línguas Discordantes” expõe o conflito entre um morador de rua e um jornalista; obra de Henfil inspira “Top! Top! Top!”

Quatro espetáculos estão sendo realizados nas praças Roosevelt e República, no parque Villa-Lobos e no viaduto do Chá

“Línguas Discordantes” expõe o conflito entre um morador de rua e um jornalista; obra de Henfil inspira “Top! Top! Top!” 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O lixeiro passa para recolher um saco plástico cheio, na praça, mas um espectador avisa que o lixo é do personagem da peça, um morador de rua. 
 
Aconteceu duas semanas atrás, durante uma apresentação de “Línguas Discordantes”, na área em frente ao Espaço dos Satyros Um, na praça Franklin Roosevelt. “Quando soube que era teatro, o lixeiro ficou mais uns 15 minutos assistindo, antes de voltar ao trabalho”, diz o ator e autor Wolff Rothstein, da Confraria da Criação. 
 
Espaços públicos como a rua, o parque e a praça acolhem cidadãos-personagens em outras montagens, como “Top! Top! Top!”, que o grupo IVO 60 leva ao parque Villa-Lobos; a intervenção “A Última Palavra É a Penúltima”, que o Teatro da Vertigem faz na passagem subterrânea do viaduto do Chá; e “Reis de Fumaça”, que a Companhia do Feijão apresenta na praça da República. “Línguas Discordantes” expõe o conflito entre um morador de rua e um jornalista. A disputa pela calçada logo arrefece diante do diálogo que derruba outros muros. 
 
A obra de Henfil inspira o espetáculo “Top! Top! Top!”, que o grupo IVO 60 encena no anfiteatro do Villa-Lobos. Para o diretor Pedro Granato, a arquitetura à la arena grega corresponde ao espírito de luta do cartunista pela democracia, quando usava o riso crítico contra a ditadura militar. 
 
“Ele foi um cara que sempre dialogou com o público, seja o intelectual, o politizado ou o torcedor da geral”, diz o diretor. Como as demais peças, “Top!…” tem sessões gratuitas. 

Danças populares
A Companhia do Feijão ocupa a praça da República com “Reis de Fumaça”, concebido a partir de pesquisa sobre as danças dramáticas populares do Brasil e de experiências pessoais do elenco. A dramaturgia e a direção são assinada por Pedro Pires e Zernesto Pessoa. 
 
O texto “O Esgotado”, de Gilles Deleuze, inspira a parceria do Teatro da Vertigem com as companhias Zikzira, de Belo Horizonte, e LOT, do Peru. Fala do ator a partir do estado de esgotamento. Em 2004, a mesma galeria sob o viaduto do Chá teve banheiros ocupados por “Evangelho para Lei-gos”, do grupo Artehúmus. 



Peça: Top! Top! Top! 
Onde: anfiteatro do pq. Villa-Lobos (av. Prof. Fonseca Rodrigues, 2.001, tel.: 3023-0316) 
Quando: sáb. e dom., às 16h30; até 22/6
 
Peça: A última palavra é a penúltima
Onde: passagem subterrânea da r. Xavier de Toledo; tel.: 3255-2713 
Quando: hoje, seg. e ter., às 19h e 21h

Peça: Línguas Discordantes
Onde: pça. Franklin Roosevelt, Espaço dos Satyros Um, tel.: 3258-6345 
Quando: sáb., às 19h; até 29/3

Peça: Reis de fumaça
Onde: pça. da República, s/ nº, tel.: 3259-9086 (sede) 
Quando: sex., às 16h; até 2/5 

Quanto: grátis (todas as peças) 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 10 de abril de 2008

TEATRO 
João Falcão dirige montagem que costura biografia a 40 canções, com cinco intérpretes no papel da cantora 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Entre os cerca de cem artistas que fizeram audição para o musical sobre Elizeth Cardoso (1920-90), poucos conheciam seu cancioneiro. Já nos testes, logo após o Carnaval, os criadores de “Divina Elizeth” se deram conta da responsabilidade pela frente: preencher um tanto dessa lacuna entre gerações.
Não é a pretensão do espetáculo que estréia amanhã, no teatro Frei Caneca, em SP. Em vez disso, o diretor João Falcão, 49, fala em fazer “apenas um musical brasileiro”, assim como a homenageada se dizia “apenas uma cantora brasileira”. Mas ninguém une perto de 40 canções a momentos da vida de Elizeth Cardoso impunemente.
“Tive um “intensivo” da música popular brasileira”, diz Falcão, há cinco meses envolvido com o roteiro e a concepção do musical. Surpreendeu-o o espectro de influências da obra de Elizeth, capaz de embolar o antes e o depois dela (Araci Cortes, Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Ary Barroso etc.).
A natureza multifacetada de tal voz surge representada por cinco intérpretes: Ana Pessoa, Beatriz Faria, Carol Bezerra, Daniela Fontan e Dhu Moraes, todas experientes no canto, às vezes de modo familiar -Faria é filha de Paulinho da Viola. “A Elizeth tem várias caras.
As cinco cantoras possuem qualidades distintas. Há quem tenha mais vibrato, seja mais dramática, mais leve, mais lépida, folgazã”, diz o diretor musical, Josimar Carneiro, 41. Ele toca violão ao lado de Marcílio Lopes (bandolim), Gabriel Geszti (teclado e acordeão), Rui Alvim (sax alto e clarinete), Jorge Oscar (baixo acústico) e Oscar Bolão (bateria e percussão). Com este, garimpou, anos atrás, partituras originais do acervo do neto de Elizeth. Entre elas, as diretrizes vocal e instrumental de “Chega de Saudade”, assinadas por Tom Jobim. O maestro fez parceria com Vinicius de Moraes no histórico “Canção do Amor de Mais” (1958), da cantora.
Nos arranjos que assina com Lopes, Carneiro pretende fundir um tanto de Zimbo Trio, na formação piano-baixo-bateria, com outro tanto do Época de Ouro, que acompanhava Jacob do Bandolim com violão de sete cordas, pandeiro e percussão.
Saudades e premonições
No roteiro, João Falcão segue a cronologia biográfica no que pode e tenta equilibrar saudades e premonições da personagem, dançando passado e futuro. Uma dupla, como que anjos da guarda, costura a narrativa pontuada pelos números. Íntimo do gênero desde os tempos de formação no Recife, nos anos 80, Falcão quer manter a experimentação, como em “As Aventuras de Zé Jack e Seu Pandeiro Solto na Buraqueira no País da Feira” (2005), celebração a Jackson do Pandeiro, e “Cambaio” (2001), letras de Edu Lobo e Chico Buarque com arranjos de Lenine.
DIVINA ELIZETH
Onde: shopping Frei Caneca – teatro (r. Frei Caneca, 569, 6º andar, tel. 0/xx/ 11/3472-2226)
Quando: estréia amanhã, sex. e sáb., às 21h; e dom., às 19h. Até 1º/6
Quanto: R$ 80

Entre os cerca de cem artistas que fizeram audição para o musical sobre Elizeth Cardoso (1920-90), poucos conheciam seu cancioneiro. Já nos testes, logo após o Carnaval, os criadores de “Divina Elizeth” se deram conta da responsabilidade pela frente: preencher um tanto dessa lacuna entre gerações. 

Não é a pretensão do espetáculo que estréia amanhã, no teatro Frei Caneca, em SP. Em vez disso, o diretor João Falcão, 49, fala em fazer “apenas um musical brasileiro”, assim como a homenageada se dizia “apenas uma cantora brasileira”. Mas ninguém une perto de 40 canções a momentos da vida de Elizeth Cardoso impunemente. 

“Tive um “intensivo” da música popular brasileira”, diz Falcão, há cinco meses envolvido com o roteiro e a concepção do musical. Surpreendeu-o o espectro de influências da obra de Elizeth, capaz de embolar o antes e o depois dela (Araci Cortes, Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Ary Barroso etc.). 

A natureza multifacetada de tal voz surge representada por cinco intérpretes: Ana Pessoa, Beatriz Faria, Carol Bezerra, Daniela Fontan e Dhu Moraes, todas experientes no canto, às vezes de modo familiar -Faria é filha de Paulinho da Viola. “A Elizeth tem várias caras. 

As cinco cantoras possuem qualidades distintas. Há quem tenha mais vibrato, seja mais dramática, mais leve, mais lépida, folgazã”, diz o diretor musical, Josimar Carneiro, 41. Ele toca violão ao lado de Marcílio Lopes (bandolim), Gabriel Geszti (teclado e acordeão), Rui Alvim (sax alto e clarinete), Jorge Oscar (baixo acústico) e Oscar Bolão (bateria e percussão).

Com este, garimpou, anos atrás, partituras originais do acervo do neto de Elizeth. Entre elas, as diretrizes vocal e instrumental de “Chega de Saudade”, assinadas por Tom Jobim. O maestro fez parceria com Vinicius de Moraes no histórico “Canção do Amor de Mais” (1958), da cantora. 

Nos arranjos que assina com Lopes, Carneiro pretende fundir um tanto de Zimbo Trio, na formação piano-baixo-bateria, com outro tanto do Época de Ouro, que acompanhava Jacob do Bandolim com violão de sete cordas, pandeiro e percussão. 

Saudades e premonições
No roteiro, João Falcão segue a cronologia biográfica no que pode e tenta equilibrar saudades e premonições da personagem, dançando passado e futuro. Uma dupla, como que anjos da guarda, costura a narrativa pontuada pelos números. Íntimo do gênero desde os tempos de formação no Recife, nos anos 80, Falcão quer manter a experimentação, como em “As Aventuras de Zé Jack e Seu Pandeiro Solto na Buraqueira no País da Feira” (2005), celebração a Jackson do Pandeiro, e “Cambaio” (2001), letras de Edu Lobo e Chico Buarque com arranjos de Lenine. 


Peça: Divina Elizeth
Onde: shopping Frei Caneca – teatro (r. Frei Caneca, 569, 6º andar, tel. 0/xx/ 11/3472-2226) 
Quando: estréia amanhã, sex. e sáb., às 21h; e dom., às 19h. Até 1º/6 
Quanto: R$ 80 

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 08 de abril de 2008

TEATRO 

Cacá Carvalho reestréia “Homem com a Flor na Boca” e “A Poltrona Escura’; cias. Linhas Aéreas e Atelier de Manufactura exibem inéditas
Teatro Sérgio Cardoso recebe os dois grupos, com a recém-estreada “Como Você Me Quer” e com “Cada um a Seu Modo”, prevista para 17/4

Cacá Carvalho reestréia “Homem com a Flor na Boca” e “A Poltrona Escura’; cias. Linhas Aéreas e Atelier de Manufactura exibem inéditas

Teatro Sérgio Cardoso recebe os dois grupos, com a recém-estreada “Como Você Me Quer” e com “Cada um a Seu Modo”, prevista para 17/4 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Os palcos de São Paulo experimentam noites pirandellianas. São montagens que jogam luz sobre as novelas de Luigi Pirandello (1867-1936) e traduzem em cena o quanto essas narrativas curtas retroalimentavam a dramaturgia do criador do clássico “Seis Personagens em Busca de um Autor”.
 
Um dos artistas que ampliou o horizonte literário de Pirandello, o ator paraense Cacá Carvalho, 54, reapresenta “O Homem com a Flor na Boca” (1993), de hoje a quinta, e “A Poltrona Escura” (2003), dias 15/4 e 16/4, sempre no teatro Sesc Anchieta.
São solos integrados ao projeto “3xPirandello/ 3xCacá Carvalho”, a ser concluído com a leitura dramática de “A Destruição do Homem”, em 17/4. Tratam de personagens que espelham a condição humana de forma cruel ou lírica: a iminência da morte, a solidão progressiva, o prazer inconfessável, o instinto assassino.
 
“Em suas novelas, Pirandello parece dizer: “Eu te amo, olha o que você está fazendo com a sua vida”. Ama docemente e, ao mesmo tempo, quase agride, sacudindo o leitor ou o espectador sem passar a mão na cabeça”, diz Carvalho, sempre dirigido pelo italiano Roberto Bacci. É a primeira vez que o ator pisa o palco do Sesc Anchieta.
 
A face dramatúrgica de Pirandello surge em mais um fruto da parceria das cias. Linhas Aéreas e Atelier de Manufactura Suspeita. São duas peças inéditas: “Como Você Me Quer”, que estreou na semana passada, e “Cada um a Seu Modo”, prevista para 17/4, ambas no teatro Sérgio Cardoso.

Explorar limites 
O diretor Mauricio Paroni de Castro vê em Pirandello um aliado para explorar limites entre ficção, realidade e jogo de papéis.
Todo o elenco reveza a interpretação da mulher de vida dupla em “Como Você Me Quer”, que expõe os dilemas da identidade, as aparências e as verdades relativas que caracterizam a obra do autor.
 
“Nossa idéia para compor essa personagem foi de respeitar a característica de coletivo. Em vez de ter uma atriz protagonista que a interprete do início ao fim, dividimos a interpretação entre todo o elenco -inclusive os homens”, afirma Paroni de Castro.
 
“Cada um a Seu Modo” narra uma história supostamente baseada em fatos verídicos: o suicídio de um artista plástico que flagrou a noiva na cama com futuro cunhado.
 
É o terceiro trabalho conjunto da Linhas Aéreas com a Atelier de Manufactura. A intenção é aprofundar a pesquisa sobre dramaturgia que os dois grupos realizam desde “Aqui Ninguém É Inocente” (2006). O novo projeto foi contemplado com recursos de dois prêmios de apoio à cultura, o Myriam Muniz (federal) e o PAC (estadual).

 

Folha de S.Paulo

esthergoesCom uma carreira impregnada pelos pensamentos político e artístico de Bertolt Brecht (1898-1956), desde os tempos em que atuava no teatro Oficina, na década de 70, Esther Góes afirma ter levado “um susto” ao mergulhar na biografia de Helene Weigel (1900-1971), a atriz e companheira do poeta e dramaturgo alemão. “Helene é uma figura que desconhecemos.  

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Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 31 de março de 2008

TEATRO 
Festival termina com pré-estréias e ensaio aberto 

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Curitiba 

O último final de semana do 17º Festival de Curitiba teve duas pré-estréias nacionais e uma demonstração de trabalho em construção na grade oficial. São espetáculos que entram em cartaz neste semestre no Rio: “A Ordem do Mundo”, monólogo com Drica Moraes, e “Cruel”, balé da Cia. Deborah Colker, estréiam em abril; o embrionário “Deserto”, com Luis Melo e a Cia. Brasileira de Teatro (PR), em junho.
Além disso, em seus dez anos, a mostra Fringe (franja, em inglês) desbancou de vez a designação alternativa e anacrônica “Mostra de Teatro Contemporâneo” que o Festival de Curitiba adotou no início (1992). Nem tudo o que se vê na oficial (amparada por curadoria, com cachê) supera em qualidade a mostra paralela (produções que pagam de R$ 30 a R$ 50 e são auto-sustentadas).
Um exemplo disso foi a constrangedora e pretensa comédia “Nada Que Eu Disser Será Suficiente Até Que o Sol Se Ponha”, da Cia. de Teatro de Nós (RJ), frágil em tudo, escalada pela organização no Sesc da Esquina.
Sua antítese, para ficar nos mesmos palco e gênero, foi “Três Mulheres e Aparecida”, uma esmerada atuação solo de Rita Assemany, de Salvador, com textos de Aninha Franco e direção de Nadja Turenko. Nomes que o Brasil deveria conhecer mais.
Parto
“Foi um lugar lindo para “A Ordem do Mundo” nascer”, afirmou Drica Moraes após se apresentar no teatro da Reitoria. Ela definiu as noites de sexta e sábado como “o parto da personagem”, uma mulher obcecada por reter a “epidemia da informação”. O texto é de Patrícia Melo e a direção, de Aderbal Freire-Filho.
Segundo Deborah Colker, “Cruel” recorre ao adjetivo-título para lançar “um olhar sobre o amor, a vida, a beleza, a traição, a rejeição etc”. A série de movimentos, que seria mostrada ontem, inclui um grande baile no prólogo. Objetos como mesa e espelho imprimem tons surrealistas. “Não há nada mais cruel na vida do que olhar-se no espelho”, disse ela.
Pesquisas dramatúrgicas e experimentos de linguagem cênica não estiveram restritos ao Fringe; também ganharam espaço na mostra oficial. Ainda inacabado, “Deserto” foi exibido no casarão Novelas Curitibanas na sexta. A partir da temática da fragilidade e com um enredo apenas esboçado, a Cia. Brasileira de Teatro apresentou exercícios de improvisação.
Utilizando uma língua imaginária, Melo tentou, às vistas da platéia, traçar caminhos para seu personagem -um homem que busca no sonho e no devaneio meios para escapar da realidade e dar sentido à vida.
“As pessoas têm uma curiosidade sobre a criação teatral, sobre como se chega à obra final. Queremos diminuir essa distância que separa o público da platéia. Revelar o que há de inacabado e imperfeito, quais são os nossos dilemas”, disse o ator.

O último final de semana do 17º Festival de Curitiba teve duas pré-estréias nacionais e uma demonstração de trabalho em construção na grade oficial. São espetáculos que entram em cartaz neste semestre no Rio: “A Ordem do Mundo”, monólogo com Drica Moraes, e “Cruel”, balé da Cia. Deborah Colker, estréiam em abril; o embrionário “Deserto”, com Luis Melo e a Cia. Brasileira de Teatro (PR), em junho.

Além disso, em seus dez anos, a mostra Fringe (franja, em inglês) desbancou de vez a designação alternativa e anacrônica “Mostra de Teatro Contemporâneo” que o Festival de Curitiba adotou no início (1992). Nem tudo o que se vê na oficial (amparada por curadoria, com cachê) supera em qualidade a mostra paralela (produções que pagam de R$ 30 a R$ 50 e são auto-sustentadas).

Um exemplo disso foi a constrangedora e pretensa comédia “Nada Que Eu Disser Será Suficiente Até Que o Sol Se Ponha”, da Cia. de Teatro de Nós (RJ), frágil em tudo, escalada pela organização no Sesc da Esquina.

Sua antítese, para ficar nos mesmos palco e gênero, foi “Três Mulheres e Aparecida”, uma esmerada atuação solo de Rita Assemany, de Salvador, com textos de Aninha Franco e direção de Nadja Turenko. Nomes que o Brasil deveria conhecer mais.

Parto
“Foi um lugar lindo para “A Ordem do Mundo” nascer”, afirmou Drica Moraes após se apresentar no teatro da Reitoria. Ela definiu as noites de sexta e sábado como “o parto da personagem”, uma mulher obcecada por reter a “epidemia da informação”. O texto é de Patrícia Melo e a direção, de Aderbal Freire-Filho.

Segundo Deborah Colker, “Cruel” recorre ao adjetivo-título para lançar “um olhar sobre o amor, a vida, a beleza, a traição, a rejeição etc”. A série de movimentos, que seria mostrada ontem, inclui um grande baile no prólogo. Objetos como mesa e espelho imprimem tons surrealistas. “Não há nada mais cruel na vida do que olhar-se no espelho”, disse ela.

Pesquisas dramatúrgicas e experimentos de linguagem cênica não estiveram restritos ao Fringe; também ganharam espaço na mostra oficial. Ainda inacabado, “Deserto” foi exibido no casarão Novelas Curitibanas na sexta. A partir da temática da fragilidade e com um enredo apenas esboçado, a Cia. Brasileira de Teatro apresentou exercícios de improvisação.

Utilizando uma língua imaginária, Melo tentou, às vistas da platéia, traçar caminhos para seu personagem -um homem que busca no sonho e no devaneio meios para escapar da realidade e dar sentido à vida.

“As pessoas têm uma curiosidade sobre a criação teatral, sobre como se chega à obra final. Queremos diminuir essa distância que separa o público da platéia. Revelar o que há de inacabado e imperfeito, quais são os nossos dilemas”, disse o ator. 

Folha de S.Paulo

São Paulo, domingo, 30 de março de 2008

TEATRO 

Quatro espetáculos mostram busca por novas janelas estéticas e conceituais em dramaturgia, interpretação e encenação
 

Peças da cia. Luna Lunera, da atriz Rita Clemente e da cia. Clara, destaques do festival que termina hoje, anunciam bons ventos vindos do Estado

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Curitiba 

 

Duas peças evocam as canções do Clube da Esquina e de Flávio Venturini. Não é difícil descobrir o lugar de onde elas falam. Mas o território do teatro mineiro desenhado neste 17º Festival de Curitiba, que termina hoje, dá notícias de outros horizontes.
Os espetáculos citados no parágrafo anterior são “Alguns Leões Falam”, da cia. Clara, e “Rubros: Vestido – Bandeira -Batom”, dirigido por Rita Clemente, atriz que também protagoniza “Dias Felizes: Suíte”. Ao lado de “Aqueles Dois”, que a cia. Luna Lunera emplacou na mostra oficial, esse quarteto evidencia os bons ventos que sopram da recente produção em artes cênicas do Estado.
São exemplos de trabalhos que buscam outras janelas estéticas e conceituais em dramaturgia, interpretação e encenação. Eles não são, necessariamente, tributários da linguagem popular que o Galpão forjou em 25 anos, ainda que o coletivo seja referência ao teatro de grupo (vide o peso do centro cultural Galpão Cine Horto).
A sensação é da fome pelo experimento com o desejo pela consistência, pelo rigor. “É vontade de fazer algo com qualidade. Não a técnica em si, mas tudo que envolva sensibilidade, busca pelo autêntico, urgência em falar sobre determinadas coisas”, diz Rita Clemente, 40, nome em interconexão com gerações mais novas, como a direção recente para o grupo Espanca! em “Amores Surdos”.
Mas ela ressalva o perigo de reducionismos. “Temos que tomar cuidado em não começar a inventar um pão de queijo de Minas. Ouço muito a palavra sensibilidade para se referir aos trabalhos, mas acredito mesmo é em sofisticação”, diz a autora de uma recriação de “Dias Felizes”, na qual a senhora de Beckett, enterrada no chão, emerge por meio de partituras física, imagética e musical, com instrumentistas ao vivo.
Revelação
Um dos momentos já memoráveis desta edição foi a “revelação” de Caio Fernando Abreu pela cia. Luna Lunera. Revelação porque o autor gaúcho é freqüentemente visitado no festival sob a tecla única do homoerotismo. O mundo de Saul e Raul em “Aqueles Dois” não corresponde às convenções da chefia e da turma com quem trabalham num escritório.
No conto homônimo, extraído de “Morangos Mofados” (1982), eles são amantes de filmes, das artes plásticas, da poesia, da música, donos de uma subjetividade que contrasta com a engrenagem burocrática, a ferrugem das formalidades num ambiente opressivo.
Os procedimento para multiplicar ou comprimir tempos e espaços são expostos na arena do teatro Paiol. Como sujeitos e narradores, os intérpretes jogam com o corpo, os objetos de época, o olhar. Chamam seu interlocutor, o público, a uma cumplicidade sem ilusões, como na melhor parte de um romance que deixa vir o cheiro, o toque, os outros sentidos.
Em “Alguns Leões Falam”, a via sensorial vem da palavra, do vazio espacial. Quando as instâncias se encontram, dá música, transborda a ação corporal. Como na amizade dos personagens, uma mulher e dois homens, no sentimento inaudito que os ligam desde a infância. A cia. Clara sublinha a dramaturgia como paisagem, introspectiva e quase sem diálogos.
Destes, sorvem as duas quarentonas de “Rubros”, texto de Adelia Nicolete. Ambas à deriva, cada uma se agarra como pode à vida -a casa cenográfica moldada e suspensa por fios ilustra a fragilidade das amigas que precisam reinventar quase tudo dali por diante.

Duas peças evocam as canções do Clube da Esquina e de Flávio Venturini. Não é difícil descobrir o lugar de onde elas falam. Mas o território do teatro mineiro desenhado neste 17º Festival de Curitiba, que termina hoje, dá notícias de outros horizontes.

Os espetáculos citados no parágrafo anterior são “Alguns Leões Falam”, da cia. Clara, e “Rubros: Vestido – Bandeira -Batom”, dirigido por Rita Clemente, atriz que também protagoniza “Dias Felizes: Suíte”. Ao lado de “Aqueles Dois”, que a cia. Luna Lunera emplacou na mostra oficial, esse quarteto evidencia os bons ventos que sopram da recente produção em artes cênicas do Estado.

São exemplos de trabalhos que buscam outras janelas estéticas e conceituais em dramaturgia, interpretação e encenação. Eles não são, necessariamente, tributários da linguagem popular que o Galpão forjou em 25 anos, ainda que o coletivo seja referência ao teatro de grupo (vide o peso do centro cultural Galpão Cine Horto).

A sensação é da fome pelo experimento com o desejo pela consistência, pelo rigor. “É vontade de fazer algo com qualidade. Não a técnica em si, mas tudo que envolva sensibilidade, busca pelo autêntico, urgência em falar sobre determinadas coisas”, diz Rita Clemente, 40, nome em interconexão com gerações mais novas, como a direção recente para o grupo Espanca! em “Amores Surdos”.Mas ela ressalva o perigo de reducionismos. “Temos que tomar cuidado em não começar a inventar um pão de queijo de Minas.

Ouço muito a palavra sensibilidade para se referir aos trabalhos, mas acredito mesmo é em sofisticação”, diz a autora de uma recriação de “Dias Felizes”, na qual a senhora de Beckett, enterrada no chão, emerge por meio de partituras física, imagética e musical, com instrumentistas ao vivo.

Revelação
Um dos momentos já memoráveis desta edição foi a “revelação” de Caio Fernando Abreu pela cia. Luna Lunera. Revelação porque o autor gaúcho é freqüentemente visitado no festival sob a tecla única do homoerotismo. O mundo de Saul e Raul em “Aqueles Dois” não corresponde às convenções da chefia e da turma com quem trabalham num escritório.

No conto homônimo, extraído de “Morangos Mofados” (1982), eles são amantes de filmes, das artes plásticas, da poesia, da música, donos de uma subjetividade que contrasta com a engrenagem burocrática, a ferrugem das formalidades num ambiente opressivo.

Os procedimento para multiplicar ou comprimir tempos e espaços são expostos na arena do teatro Paiol. Como sujeitos e narradores, os intérpretes jogam com o corpo, os objetos de época, o olhar.

Chamam seu interlocutor, o público, a uma cumplicidade sem ilusões, como na melhor parte de um romance que deixa vir o cheiro, o toque, os outros sentidos.

Em “Alguns Leões Falam”, a via sensorial vem da palavra, do vazio espacial. Quando as instâncias se encontram, dá música, transborda a ação corporal. Como na amizade dos personagens, uma mulher e dois homens, no sentimento inaudito que os ligam desde a infância. A cia. Clara sublinha a dramaturgia como paisagem, introspectiva e quase sem diálogos.

Destes, sorvem as duas quarentonas de “Rubros”, texto de Adelia Nicolete. Ambas à deriva, cada uma se agarra como pode à vida -a casa cenográfica moldada e suspensa por fios ilustra a fragilidade das amigas que precisam reinventar quase tudo dali por diante. 

Folha de S.Paulo

Reencontro com Nelson

27.3.2008  |  por Valmir Santos

São Paulo, quinta-feira, 27 de março de 2008

TEATRO 
Antunes Filho volta ao dramaturgo com “Senhora dos Afogados”, peça que considera uma “tragédia da esterilidade” 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Nos anos 90 ou nesta década, era comum deparar com Antunes Filho ensaiando ou dirigindo tragédias gregas. Fincou pé na possibilidade de um ator brasileiro capaz de trazer à luz Eurípides ou Sófocles sem os estereótipos da representação do gênero, a começar pela voz.
Ao retornar agora a Nelson Rodrigues (1912-1980), quase 20 anos depois, ele monta um dos mais potencialmente trágicos textos da dramaturgia nacional, “Senhora dos Afogados”, lançada em 1947.
“Aqui, a tragédia grega pode até ser um antimodelo para mim: acho que encontrei o equilíbrio entre um drama que às vezes beira o trágico, mas se permite as estocadas de humor.
O Nelson Rodrigues tem um pouco o espírito de porco, ele vai e cutuca, mas, se bobear, vira dramalhão”, diz o diretor do Centro de Pesquisa Teatral, que fica no Sesc Consolação, em São Paulo. É no teatro anexo àquele prédio, o Sesc Anchieta, que o CPT e o grupo Macunaíma estréiam amanhã um dos espetáculos mais aguardados do ano. Antunes, 78, está entre os criadores que ajudaram a desconstruir as convenções pornográficas ou melodramáticas em torno da obra do autor, principalmente no período dos anos 80. Já assinou cinco espetáculos, de 1965 a 1989, incluindo adaptações.
Apesar da bagagem, diz que encontrou mais dificuldades para “navegar” no seu novo Nelson -metáfora pertinente à sedução das águas na peça, “mar que não devolve os corpos e onde os mortos não bóiam”, como diz uma das personagens.
Pai e filha
Dificuldades não só estéticas, mas conceituais. Fica entusiasmado ao partilhar lampejo que experimentou no processo com a equipe de “Senhora dos Afogados”. “É a tragédia da esterilidade”, afirma.
Ou seja, o percurso da mulher que assassina as irmãs pela ambição de ser a filha única -e mulher de seu pai, já que empurra o próprio noivo para a mãe, que também morre- tem como desfecho a impotência.
Misael, o pai, morre no colo de Moema, a filha. Ela evita acariciar o corpo. “As mãos dela não têm mais utilidade. Matou tudo e todos para ter e não teve, não conseguiu, falhou”, diz Antunes.
Segundo ele, essa atmosfera lembra o espanhol Federico García Lorca em “Yerma”, que dirigiu em 1962, no TBC. “Ao contrários das personagens gregas, em “Senhora dos Afogados” não há a dimensão do sofrimento perpétuo. Morreu, acabou. É mixo, é brasileiro. É a tragédia brasileira.”
Essa dimensão também alcança o coro de vizinhos que testemunha e, às vezes, interage com os sofrimentos da família Drummond no casarão à beira-mar. Do cais, ouvem-se o lamento e a reza das prostitutas. Ao inconsciente coletivo (Jung) com o qual lida há tempos, o diretor conjuga o inconsciente estruturalista (Lacan) em busca do que acredita síntese tupiniquim dessas “figuras espectrais”.
“Viração”
“Os personagens do coro são capachos, o brasileiro sufocado pela sociedade patriarcal, hipócrita. O coro não tem a nobreza, ele está se virando, não teve vez. É o pessoal da “viração”, que desabafa contando piadas, tirando um sarro do sapato do outro ou quebrando um telefone público quando ninguém está vendo”, ilustra o diretor.
“Os vizinhos e as mulheres do cais são versões modernas das Erínias, deusas da vingança e do castigo, que nas tragédias gregas atormentavam os protagonistas. Mas são versões degradadas, que nada têm de sobrenatural”, diz a pesquisadora Leyla Perrone-Moisés no programa da peça.
O projeto artístico de Antunes quer falar de civilização brasileira. “Não adianta melhorarmos o nível econômico se não tivermos um nível cultural bom. Vira pão e circo”, afirma.
“Estou com o saco cheio de ter Pelés. Não pode ter um ali, outro lá, tem que ser todos, tem que dar uma assistência social e uma assistência cultural a todos”, diz.
Como artista, ele se diz “sufocado, desesperado com a sociedade de consumo”. E a ação social que Antunes diz almejar, a partir do que constata, é por meio da arte. Ainda neste ano, gostaria de ministrar o curso “O Olho do Espectador”, dois dias de encontro, com três horas cada um, no qual falaria aos participantes sobre o trabalho do ator e do encenador, para início de conversa. “O diretor massacra a platéia.
Eu já massacrei, com imagens, com sons, os atores gritando. Isso anestesia o público. Queria mostrar o que é um ator bom, o que é um ator estereotipado.”
SENHORA DOS AFOGADOS
Quando: estréia amanhã; sex. e sáb., às 21h, e dom., às 19h; até 27/7
Onde: teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 0/xx/11/3234-3000)
Quanto: R$ 5 a R$ 20

Nos anos 90 ou nesta década, era comum deparar com Antunes Filho ensaiando ou dirigindo tragédias gregas. Fincou pé na possibilidade de um ator brasileiro capaz de trazer à luz Eurípides ou Sófocles sem os estereótipos da representação do gênero, a começar pela voz. 

Ao retornar agora a Nelson Rodrigues (1912-1980), quase 20 anos depois, ele monta um dos mais potencialmente trágicos textos da dramaturgia nacional, “Senhora dos Afogados”, lançada em 1947. 

“Aqui, a tragédia grega pode até ser um antimodelo para mim: acho que encontrei o equilíbrio entre um drama que às vezes beira o trágico, mas se permite as estocadas de humor. 

O Nelson Rodrigues tem um pouco o espírito de porco, ele vai e cutuca, mas, se bobear, vira dramalhão”, diz o diretor do Centro de Pesquisa Teatral, que fica no Sesc Consolação, em São Paulo. É no teatro anexo àquele prédio, o Sesc Anchieta, que o CPT e o grupo Macunaíma estréiam amanhã um dos espetáculos mais aguardados do ano. Antunes, 78, está entre os criadores que ajudaram a desconstruir as convenções pornográficas ou melodramáticas em torno da obra do autor, principalmente no período dos anos 80. Já assinou cinco espetáculos, de 1965 a 1989, incluindo adaptações. 

Apesar da bagagem, diz que encontrou mais dificuldades para “navegar” no seu novo Nelson -metáfora pertinente à sedução das águas na peça, “mar que não devolve os corpos e onde os mortos não bóiam”, como diz uma das personagens. 

Pai e filha
Dificuldades não só estéticas, mas conceituais. Fica entusiasmado ao partilhar lampejo que experimentou no processo com a equipe de “Senhora dos Afogados”. “É a tragédia da esterilidade”, afirma.Ou seja, o percurso da mulher que assassina as irmãs pela ambição de ser a filha única -e mulher de seu pai, já que empurra o próprio noivo para a mãe, que também morre- tem como desfecho a impotência. 

Misael, o pai, morre no colo de Moema, a filha. Ela evita acariciar o corpo. “As mãos dela não têm mais utilidade. Matou tudo e todos para ter e não teve, não conseguiu, falhou”, diz Antunes. Segundo ele, essa atmosfera lembra o espanhol Federico García Lorca em “Yerma”, que dirigiu em 1962, no TBC. “Ao contrários das personagens gregas, em “Senhora dos Afogados” não há a dimensão do sofrimento perpétuo. Morreu, acabou. É mixo, é brasileiro. É a tragédia brasileira.” 

Essa dimensão também alcança o coro de vizinhos que testemunha e, às vezes, interage com os sofrimentos da família Drummond no casarão à beira-mar. Do cais, ouvem-se o lamento e a reza das prostitutas. Ao inconsciente coletivo (Jung) com o qual lida há tempos, o diretor conjuga o inconsciente estruturalista (Lacan) em busca do que acredita síntese tupiniquim dessas “figuras espectrais”. 

“Viração”
Os personagens do coro são capachos, o brasileiro sufocado pela sociedade patriarcal, hipócrita. O coro não tem a nobreza, ele está se virando, não teve vez. É o pessoal da “viração”, que desabafa contando piadas, tirando um sarro do sapato do outro ou quebrando um telefone público quando ninguém está vendo”, ilustra o diretor. 

“Os vizinhos e as mulheres do cais são versões modernas das Erínias, deusas da vingança e do castigo, que nas tragédias gregas atormentavam os protagonistas. Mas são versões degradadas, que nada têm de sobrenatural”, diz a pesquisadora Leyla Perrone-Moisés no programa da peça. 

O projeto artístico de Antunes quer falar de civilização brasileira. “Não adianta melhorarmos o nível econômico se não tivermos um nível cultural bom. Vira pão e circo”, afirma. “Estou com o saco cheio de ter Pelés. Não pode ter um ali, outro lá, tem que ser todos, tem que dar uma assistência social e uma assistência cultural a todos”, diz. 

Como artista, ele se diz “sufocado, desesperado com a sociedade de consumo”. E a ação social que Antunes diz almejar, a partir do que constata, é por meio da arte. Ainda neste ano, gostaria de ministrar o curso “O Olho do Espectador”, dois dias de encontro, com três horas cada um, no qual falaria aos participantes sobre o trabalho do ator e do encenador, para início de conversa. “O diretor massacra a platéia. 

Eu já massacrei, com imagens, com sons, os atores gritando. Isso anestesia o público. Queria mostrar o que é um ator bom, o que é um ator estereotipado.”


Peça: Senhora dos afogados
Quando: estréia amanhã; sex. e sáb., às 21h, e dom., às 19h; até 27/7
Onde: teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 0/xx/11/3234-3000) 
Quanto: R$ 5 a R$ 20

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 25 de março de 2008

TEATRO 

Criação colaborativa entre companhias de São Paulo, de Minas Gerais e do Peru estréia em 12 de abril
 

Reunidos em São Paulo para a concepção do espetáculo, grupos planejam peça que saia da “dramaturgia convencional”

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Os artistas do Teatro da Vertigem, da cia. Zikzira Teatro Físico (MG) e da Asociación para la Investigación Teatral La Otra Orilla – LOT (Peru) estão reunidos em SP desde ontem.
Definido o local da intervenção, na semana passada, surge a etapa da criação colaborativa. A 19 dias da estréia, que acontecerá dentro da Virada Cultural, os grupos ainda têm muitos pontos a definir sobre a intervenção na passagem subterrânea. Não sabem, por exemplo, se a ação pode ser estendida à superfície da praça Ramos de Azevedo, de alta concentração de pedestres e carros.
O túnel estava fechado há cerca de dez anos e foi liberado pela subprefeitura da Sé, com apoio da secretaria da Cultura. Por enquanto, a única certeza repousa no título: “A Última Palavra É a Penúltima”, inspirado na janela de possibilidades reafirmada por Gilles Deleuze em “O Esgotado”.
A direção é assinada por Eliana Monteiro (assistente de Antonio Araújo nas últimas peças do grupo paulista), pela dupla André Semenza e Fernanda Lippi, de Belo Horizonte, e pelo peruano Carlos Cueva. Araújo se relacionará com o novo projeto como consultor.
“A gente sabe que não será um espetáculo como os outros, não terá dramaturgia convencional, não será uma leitura cênica ou simplesmente uma performance em fusão com as artes plásticas. Resultará do “modus operandi” do mundo teatral, dos experimentos cênicos derivados de “BR-3″ e de uma interpretação performática que é mais assinada pelo artista do que pelo personagem”, afirma o ator Sergio Siviero, 39. Em quase 16 anos de Vertigem, foram quatro peças em espaços não convencionais e uma leitura cênica em palco, “História de Amor – Últimos Capítulos”, em 2006. A intervenção faz parte do projeto “Plataforma”, que prevê a manutenção da companhia em 2008, sob patrocínio da Petrobras.
André Semenza, da Zikzira, afirma que o intercâmbio das três companhias, vindas de caminhos distintos, resultará num “quarto” corpo. Hibridismo de linguagens com o qual a companhia mineira está acostumada a lidar entre atores e bailarinos, além do trânsito por artes plásticas e cinema.
A LOT, que completa dez anos, está acostumada a realizar intervenções no espaço urbano. Caso do projeto “Las Zonas Fronterizas”, do qual o Vertigem participou recentemente: a ocupação de um prédio abandonado em Lima.
“Estamos curiosos para intervir com os brasileiros numa cidade em que os traços de modernidade são fortes. Tudo vai depender do enfrentamento concreto que vamos ter”, diz Carlos Cueva. (VALMIR SANTOS)
A ÚLTIMA PALAVRA É A PENÚLTIMA
Onde: passagem sob a r. Xavier de Toledo, pça. Ramos de Azevedo, em SP
Quando: estréia dia 12/4; 13 a 15/4 e 26/4, na “Virada Cultural”

Os artistas do Teatro da Vertigem, da cia. Zikzira Teatro Físico (MG) e da Asociación para la Investigación Teatral La Otra Orilla – LOT (Peru) estão reunidos em SP desde ontem. 

Definido o local da intervenção, na semana passada, surge a etapa da criação colaborativa. A 19 dias da estréia, que acontecerá dentro da Virada Cultural, os grupos ainda têm muitos pontos a definir sobre a intervenção na passagem subterrânea. Não sabem, por exemplo, se a ação pode ser estendida à superfície da praça Ramos de Azevedo, de alta concentração de pedestres e carros. 

O túnel estava fechado há cerca de dez anos e foi liberado pela subprefeitura da Sé, com apoio da secretaria da Cultura. Por enquanto, a única certeza repousa no título: “A Última Palavra É a Penúltima”, inspirado na janela de possibilidades reafirmada por Gilles Deleuze em “O Esgotado”. 

A direção é assinada por Eliana Monteiro (assistente de Antonio Araújo nas últimas peças do grupo paulista), pela dupla André Semenza e Fernanda Lippi, de Belo Horizonte, e pelo peruano Carlos Cueva. Araújo se relacionará com o novo projeto como consultor. 

“A gente sabe que não será um espetáculo como os outros, não terá dramaturgia convencional, não será uma leitura cênica ou simplesmente uma performance em fusão com as artes plásticas.

Resultará do “modus operandi” do mundo teatral, dos experimentos cênicos derivados de “BR-3″ e de uma interpretação performática que é mais assinada pelo artista do que pelo personagem”, afirma o ator Sergio Siviero, 39. Em quase 16 anos de Vertigem, foram quatro peças em espaços não convencionais e uma leitura cênica em palco, “História de Amor – Últimos Capítulos”, em 2006. A intervenção faz parte do projeto “Plataforma”, que prevê a manutenção da companhia em 2008, sob patrocínio da Petrobras. 

André Semenza, da Zikzira, afirma que o intercâmbio das três companhias, vindas de caminhos distintos, resultará num “quarto” corpo. Hibridismo de linguagens com o qual a companhia mineira está acostumada a lidar entre atores e bailarinos, além do trânsito por artes plásticas e cinema. 

A LOT, que completa dez anos, está acostumada a realizar intervenções no espaço urbano. Caso do projeto “Las Zonas Fronterizas”, do qual o Vertigem participou recentemente: a ocupação de um prédio abandonado em Lima. 

“Estamos curiosos para intervir com os brasileiros numa cidade em que os traços de modernidade são fortes. Tudo vai depender do enfrentamento concreto que vamos ter”, diz Carlos Cueva.


Peça:A última palavra é a penúltima
Onde: passagem sob a r. Xavier de Toledo, pça. Ramos de Azevedo, em SP 
Quando: estréia dia 12/4; 13 a 15/4 e 26/4, na “Virada Cultural” 

 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 25 de março de 2008

TEATRO 

VALMIR SANTOS 
Do enviado especial a Curitiba

A Companhia de Teatro Os Satyros não conseguiu terminar a sessão de “Vestido de Noiva” que fazia anteontem, no teatro Guairinha, dentro da mostra oficial do Festival de Curitiba.
Transcorrida cerca de meia hora de apresentação, houve falha no equipamento de vídeo.
O diretor Rodolfo García Vásquez interrompeu o espetáculo, chegou a retomar a cena com os atores, mas o projetor de imagens não voltou a funcionar.
A atriz convidada do grupo, Norma Bengell, falou ao microfone, aos prantos, e disse que o problema não era dos artistas, mas “da organização” que locou o aparelho. Foi agendada sessão extra para ontem à noite, às 22h30, na seqüência daquela que seria a segunda sessão no evento.
Quem comprou ingresso e não pôde ir pode pedir reembolso ou trocar por outro espetáculo até domingo (www.festivaldecuritiba. com.br).
O 17º Festival de Curitiba será encerrado no próximo domingo, dia 30/3.

A Companhia de Teatro Os Satyros não conseguiu terminar a sessão de “Vestido de Noiva” que fazia anteontem, no teatro Guairinha, dentro da mostra oficial do Festival de Curitiba.Transcorrida cerca de meia hora de apresentação, houve falha no equipamento de vídeo.

O diretor Rodolfo García Vásquez interrompeu o espetáculo, chegou a retomar a cena com os atores, mas o projetor de imagens não voltou a funcionar.

A atriz convidada do grupo, Norma Bengell, falou ao microfone, aos prantos, e disse que o problema não era dos artistas, mas “da organização” que locou o aparelho. Foi agendada sessão extra para ontem à noite, às 22h30, na seqüência daquela que seria a segunda sessão no evento.

Quem comprou ingresso e não pôde ir pode pedir reembolso ou trocar por outro espetáculo até domingo (www.festivaldecuritiba. com.br).

O 17º Festival de Curitiba será encerrado no próximo domingo, dia 30/3. 

Folha de S.Paulo

Cidade em cena

25.3.2008  |  por Valmir Santos

São Paulo, terça-feira, 25 de março de 2008

TEATRO 
Um dos principais grupos paulistanos, o Teatro da Vertigem prepara intervenção em um túnel para pedestres no centro de São Paulo 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

O grupo de teatro que já criou peças em igreja, hospital, presídio e até sobre o leito do rio Tietê agora vai ao asfalto. Uma passagem subterrânea na agitada praça Ramos de Azevedo, em frente ao Teatro Municipal de São Paulo, é o local escolhido para o novo trabalho do Teatro da Vertigem.
A intervenção cênico-urbana “A Última Palavra É a Penúltima” estréia em 12/4 na área do túnel para pedestres sob a rua Xavier de Toledo, entre os prédios do shopping Light e das Casas Bahia (antigo Mappin).
O diálogo com a cidade ganhou novos contornos para o grupo desde “BR-3”, em 2006, espetáculo apresentado num trecho do rio Tietê. Do barco em que era conduzido, o público acompanhava cenas no leito, nas margens e nos convés. Foi a primeira experiência em espaço aberto. Agora, a idéia é levar mais ao pé da letra o que já se prenunciava intervenção.
Para isso, o Vertigem experimenta outras linguagens e busca aliados. O projeto acontecerá em parceria com as companhias Zikzira Teatro Físico, de Belo Horizonte, voltada a experimentos em dança-teatro, e a peruana La Otra Orilla (LOT), de Lima, dedicada a performances urbanas.
O ponto de partida foi o próprio desgaste que a companhia sofreu -e pelo qual quase acabou- no final abrupto da temporada de “BR-3” no Tietê -apenas dois meses e meio. Pesou a falta de recursos para manter a complexa estrutura de produção.
Soa paradoxal, mas esse quadro de exaustão passou a ser positivo com a descoberta do livro “O Esgotamento” (L’Épuisé, 1992), do filósofo francês Gilles Deleuze. Ao analisar peças de Samuel Beckett para a TV, ele acredita, em suma, que é possível criar nesse estado de cansaço, de vazio.
“O encontro das três companhias e o espaço é que vai gerar esse campo de experimentação. Não temos nada pré-definido, a não ser o texto como estímulo teórico. Partimos agora para uma reflexão mais artística, mais intuitiva”, afirma o desenhista de luz Guilherme Bonfanti, 51

O grupo de teatro que já criou peças em igreja, hospital, presídio e até sobre o leito do rio Tietê agora vai ao asfalto. Uma passagem subterrânea na agitada praça Ramos de Azevedo, em frente ao Teatro Municipal de São Paulo, é o local escolhido para o novo trabalho do Teatro da Vertigem.

A intervenção cênico-urbana “A Última Palavra É a Penúltima” estréia em 12/4 na área do túnel para pedestres sob a rua Xavier de Toledo, entre os prédios do shopping Light e das Casas Bahia (antigo Mappin).

O diálogo com a cidade ganhou novos contornos para o grupo desde “BR-3”, em 2006, espetáculo apresentado num trecho do rio Tietê. Do barco em que era conduzido, o público acompanhava cenas no leito, nas margens e nos convés. Foi a primeira experiência em espaço aberto. Agora, a idéia é levar mais ao pé da letra o que já se prenunciava intervenção.

Para isso, o Vertigem experimenta outras linguagens e busca aliados. O projeto acontecerá em parceria com as companhias Zikzira Teatro Físico, de Belo Horizonte, voltada a experimentos em dança-teatro, e a peruana La Otra Orilla (LOT), de Lima, dedicada a performances urbanas.

O ponto de partida foi o próprio desgaste que a companhia sofreu -e pelo qual quase acabou- no final abrupto da temporada de “BR-3” no Tietê -apenas dois meses e meio. Pesou a falta de recursos para manter a complexa estrutura de produção.

Soa paradoxal, mas esse quadro de exaustão passou a ser positivo com a descoberta do livro “O Esgotamento” (L’Épuisé, 1992), do filósofo francês Gilles Deleuze. Ao analisar peças de Samuel Beckett para a TV, ele acredita, em suma, que é possível criar nesse estado de cansaço, de vazio.

“O encontro das três companhias e o espaço é que vai gerar esse campo de experimentação. Não temos nada pré-definido, a não ser o texto como estímulo teórico. Partimos agora para uma reflexão mais artística, mais intuitiva”, afirma o desenhista de luz Guilherme Bonfanti, 51