Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.
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24.3.2008 | por Valmir Santos
São Paulo, segunda-feira, 24 de março de 2008
TEATRO
VALMIR SANTOS
Do enviado especial a Curitiba
Um mal-entendido entre um suposto policial e atores de uma peça de Plínio Marcos quase terminou em tragédia no Festival de Curitiba.
O incidente ocorreu ontem, às 12h, no centro da cidade. Os atores Paulo Américo e Thiago Barros, da Cia. Independente de Teatro (SP), interpretavam “laçadores” que atraem homens para o bordel na adaptação de “Abajur Lilás”, peça de 1969.
Um homem que se identificou como policial reagiu aos palavrões e ao assédio dos personagens, que interagiam com o público de 60 pessoas. O homem sacou uma arma, dizendo que “em Curitiba não se diz palavrão”. Os artistas registraram queixa.
24.3.2008 | por Valmir Santos
São Paulo, segunda-feira, 24 de março de 2008
TEATRO
Evento reúne profissionais do Brasil e do exterior
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Pela primeira vez, o Encontro Nacional das Artes Cênicas (Ecum), de Belo Horizonte, estende sua programação a São Paulo. O evento bienal chega à primeira década, na sexta edição, expondo questões significativas do teatro e da dança contemporâneos.
Durante seis dias, de hoje a sábado, criadores e pesquisadores do Brasil e do exterior realizam um fórum, no teatro Cosipa, na zona sul, e dão cursos na oficina cultural Amácio Mazzaropi, no Brás, zona leste.
As atividades tratam do tema “Cena emergente: diálogos com o futuro”. “O eixo é uma espécie de síntese, de cartografia dos movimentos recentes no campo da criação cênica no país e em várias partes do mundo”, afirma o diretor-artístico do Ecum, Fernando Mencarelli, 45.
Ele e o coordenador-geral, Guilherme Marques, estão entre os idealizadores do projeto, que nasceu em 1998. Inexistiam cursos de pós-graduação em artes cênicas na capital mineira. O encontro conseguiu se firmar conjugando formação, reflexão e capacitação (não há propriamente apresentação de espetáculos, mas demonstração de processo ou aula-espetáculo).
A edição especial de dez anos traz artistas como a dançarina e coreógrafa suíço-japonesa Heidi Durning, a performer franco-haitiana Maud Robart e o dramaturgo e diretor francês Jean-François Dusigne, além de pensadores como a canadense Josette Feral, que investiga “a “performatividade” e os efeitos de presença nas artes do espetáculo”, a francesa Béatrice Picon-Vallin, especializada na relação da cena com as imagens, e, por videoconferência, o estudioso americano Richard Schechner, nome-chave na teoria da performance.
Desde a terceira edição, sua curadoria se dá em rede, com colaboradores em outros Estados ou países. Fazem parte do time as pesquisadoras Christine Greiner (PUC-SP) e Sílvia Fernandes, o ator Carlos Simioni (grupo Lume) e os diretores Ana Teixeira (cia. Amok), Maria Thais (cia. Balagan e USP) e Antônio Araújo (Teatro da Vertigem e USP).
Encontro Mundial das Artes Cênicas
Onde: teatro Cosipa Cultura (av. do Café, 277, tel. 0/xx/11/5070-7014) e oficina cultural Amácio Mazzaropi (av. Rangel Pestana, 2.401, tel. 0/xx/11/ 6292-7071); mais informações pelo tel. 0/xx/11/2129-7824 e no sitewww.ecum.com.br
Quanto: R$ 50 (fórum), R$ 100 (oficina) e R$ 120 (ambos)
19.3.2008 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 19 de março de 2008
TEATRO
Sob direção de Aderbal Freire-Filho, Drica Moraes leva monólogo sobre mulher obsessiva ao Festival de Curitiba
VALMIR SANTOS
Enviado especial ao Rio
Numa tarde de sábado, Aderbal Freire-Filho recebe a reportagem em seu apartamento, em Ipanema. Perto do computador, ao lado do sol da janela, notam-se fotografias em preto-e-branco da casa de Bertolt Brecht em Berlim, que ele conheceu há pouco. E a estante com os livros aos quais o diretor recorre, em vários momentos, para citar um possível futuro romance-em-cena, como “O Púcaro Búlgaro”, de Walter Campos de Carvalho (1916-98), levado integralmente ao palco.
Em cartaz com “As Centenárias”, no teatro Poeira (Botafogo), Freire-Filho conversa com a Folha sobre “Hamlet” -previsto para junho em SP, com Wagner Moura- e “A Ordem do Mundo”, monólogo com Drica Moraes cuja pré-estréia será no Festival de Curitiba, que começa amanhã -os ingressos para a peça, dias 28/3 e 29/3, estão esgotados; a organização estuda abrir sessão extra.
A profusão tem a ver com a natureza inquieta desse pensador e praticante do teatro, um ofício de 35 anos que constrói e demole ao mesmo tempo. “O teatro se reinventa a todo momento. Pode parecer presunção quando já houve Shakespeare, mas é preciso reinventá-lo com olhos “despreconceituosos'”, diz Freire-Filho, 66.
É o que deseja ao montar “Hamlet”, peça que ensaia e co-traduz nestes dias. “Não para mostrá-la de novo, mas como se fosse pela primeira vez, passando por todos os labirintos que nos levem ao inesperado.”
A parceria com Moura o entusiasma (trabalharam juntos em “Dilúvio em Tempos de Seca”, 2004). “Ele está no momento certo para fazer Hamlet, na idade, na carreira, na relação com o teatro e a sociedade. Ele precisa ser o Hamlet”, diz. Acredita que o desafio para o ator é redobrado quando ainda se tem na retina o impacto da interpretação do capitão Nascimento em “Tropa de Elite”.
Especialista em caos
Freire-Filho vê os passos iniciais na concepção da tragédia coincidirem com o primeiro vôo cômico, mas não menos dramático, de “A Ordem do Mundo”, peça de Patrícia Melo defendida por Moraes, 38. “Ele é uma parabólica sensitiva”, diz a atriz sobre o trabalho com o diretor em seu primeiro monólogo. Co-fundadora da Cia. dos Atores, ela transita pela TV e agora experimenta interpretação das mais áridas.
“Meu negócio é conteúdo”, diz a personagem Helena, empregada de uma misteriosa central. Num espaço fechado, envolta por pilhas de jornais, seu trabalho é ler notícias, contextualizá-las e emitir parecer técnico que dê conta dos mecanismos da realidade lá fora.
“Ela é especialista em caos mundial, uma missão impossível”, diz Moraes. Helena expressa opinião sobre os mais variados assuntos, como comportamento, ciência, liberdade, justiça e beleza, entre outros, certa de que age objetivamente, desconsiderando as variações da sua personalidade, o mau humor recorrente, o namorado que não lhe dá bola, o filho que está a bordo de um barco em algum lugar do planeta.
“Seu projeto de independência cai por água quando esbarra no vazio, na perplexidade da vida. Ela capota”, diz Moraes. A personagem tem como interlocutor um “senhor da central” invisível, mas a atriz sabe que sua relação será com o olhar da platéia, que não será desviado em meio ao fluxo narrativo.
Para Freire-Filho, que já havia dirigido outro texto de Melo, “Duas Mulheres e um Cadáver” (2000), Helena encerra vetores do futuro e reminiscências do passado, o que a torna próxima e, depois, distante.
“Ela é a mulher livre de hoje, que encontrou seu espaço, independência, que pôs sabedoria e talento contra todos os preconceitos nossos, masculinos. Mas que também enfrenta angústias, a solidão, a dificuldade em conciliar os compromissos, inclusive a relação com o filho, no caso da peça”, diz o diretor. Ele, sim, faz do equilíbrio nos compromissos palavra de ordem numa arte em que conflito é matéria-prima.
19.3.2008 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 19 de março de 2008
TEATRO
Com 21 espetáculos na mostra oficial e 251 atrações na alternativa, 17ª edição do festival começa amanhã
Festival relembra sua primeira edição há 17 anos com presença dos diretores Gerald Thomas e Gabriel Villela, que dirige “Salmo 91”
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
A partir deste ano, sem a palavra “teatro” em sua razão publicitária, o 17º Festival de Curitiba quer ampliar o guarda-chuva sobre as artes cênicas, como se verá na mostra oficial, de amanhã a 30 de março.
Há hibridismos como dança-teatro ou circo-teatro entre os 21 espetáculos. Casos da Cia. Débora Colker, que pré-estréia “Cruel”, movimentos em torno de narrativas cômica e trágica, e a Intrépida Trupe, com o seu “Metegol” (2006), metáfora do jogo de pebolim como metáfora da paixão pelo futebol.
A única atração internacional também é uma coreografia contemporânea de dança-teatro, “Júpiter: A Conquista da Galáxia”, da Cia. Condors, assinada por Ryohei Kondo, que satiriza a cultura pop japonesa.
No plano propriamente do teatro que lhe deu origem, em 1992, e transformou a capital paranaense em importante corredor cultural, o Festival de Curitiba volta ao início com as presenças emblemáticas de Gerald Thomas e Gabriel Villela.
Os diretores participaram da primeira edição, quando o atual diretor-geral do evento, Leandro Knopfholz, tinha 18 anos, então co-idealizador do sonho materializado, já na gênese, na estrutura arquitetônica circular da Ópera de Arame, erguida numa pedreira desativada.
Thomas e a Cia. de Ópera Seca apresentam programa com suas peças recentes, na mesma noite: “Terra em Trânsito” e “Rainha Mentira/Queen Liar”. Villela, “Salmo 91”, a adaptação de Dib Carneiro Neto para “Carandiru”, de Drauzio Varella.
Musical
O único representante do gênero musical é “Beatles – Num Céu de Diamantes”, do Rio. A dupla Charles Möeller e Claudio Botelho entrelaça as canções inglesas, não-traduzidas, em roteiro que pretende dar conta da trajetória do quarteto de Liverpool. O espetáculo é anunciado como “estréia”, mas não é; fez temporada carioca.
Também são acolhidos projetos artísticos nascidos no Paraná e que se auto-exilaram em outros Estados, como a Armazém Cia. de Teatro, de Londrina, radicada no Rio, que leva “Mãe Coragem e Seus Filhos”, de Brecht.
A Cia. Os Satyros, que também tem histórico de manutenção de espaço em Curitiba, apresenta sua versão para o clássico “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, com Norma Bengell à frente do elenco. O grupo faz ainda residência que culmina com a intervenção “A Fauna” na periferia da cidade.
“Aqueles Dois”, com a Cia. Luna Lunera, de Belo Horizonte, é exemplar de coletivos dedicados a experimentos, incomum na grade oficial. Recria conto homônimo de Caio Fernando Abreu. A mostra paralela atrai artistas de várias regiões do Brasil. São estimadas 251 atrações neste ano, entre rua, palco e espaço alternativo. O orçamento do festival é de R$ 2,8 milhões.
17º Festival de Curitiba
Quando: de amanhã a 30/3
Quanto: R$ 30 (Mostra Oficial) e de entrada franca a R$ 30 (Fringe, mostra paralela). Bilheteria central no Park Shopping Barigüi (r. Pedro Viriato Parigot de Souza, 600, tel. 0/xx/11/4003-4138). Seg. a sex., das 11h às 23h; sáb., das 10h às 22h; e dom., das 14h às 20h. Também à venda em quiosques do Barra Shopping (Rio), do shopping Morumbi (São Paulo) ou pelo site Ingresso Rápido (www.ingressorapido.com.br). Mais informações em www.festivaldecuritiba.com.br
12.3.2008 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 12 de março de 2008
TEATRO
Clarice Niskier leva à cena questões do livro “A Alma Imoral”, que defende transgressões sobre certas verdades
Com supervisão de Amir Haddad, peça adapta pensamentos do rabino Nilton Bonder e deu à atriz o Prêmio Shell RJ 2007
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Aos 16 anos, a atriz carioca Clarice Niskier, 48, escreveu um poema no qual expressava o desejo de ganhar os mares em um veleiro, mas também de construir uma casa; de amar profundamente um homem só, mas também de experimentar mil amores.
“Sempre me vi como uma natureza dividida, como se algo estivesse errado em mim. Fui guardando essa coisa estranha, como se nunca estivesse totalmente adaptada às escolhas por sempre deixar algo de lado”, diz a intérprete do monólogo “A Alma Imoral”, Prêmio Shell RJ 2007 de melhor atriz, que tem pré-estréia hoje no teatro Eva Herz, da Livraria Cultura.
Niskier diz ter visto no livro homônimo do rabino Nilton Bonder a compreensão para esses aparentes antagonismos, mais conexos do que supunha. O espetáculo é como que endereçado à “dona Léa”, a telespectadora que certa vez puxou a orelha de Niskier no ar, numa roda de entrevistados, por meio de um fax: “Minha filha, não existe “judia budista”. Ou você é bem judia ou você é bem budista”. Bonder também participava do programa, por ocasião do lançamento de seu livro, e esse encontro gerou a peça.
A atriz diz buscar ser o mais fiel possível ao texto estruturado em passagens bíblicas (Velho Testamento, as filhas de Lot, Sodoma e Gomorra), parábolas da sabedoria judaica e incursões pela contemporaneidade, como o genoma humano.
“Tenho uma visão cabalística do casamento, dos significados de honestidade, ética, traição, do certo e do errado; o quanto transgredir é preservar a tradição e, ao contrário, o quanto preservar a tradição resulta em infidelidade”, diz Niskier.
A atriz não acha que a receptividade do espetáculo espelhe os tempos de culto à auto-ajuda. “Auto-ajuda significa um pouco seguir regras. “A Alma Imoral” não é uma fórmula. É um jeito racional de tentar compreender nossa natureza.
Uma frase-chave da peça é: “Não há nudez na natureza”. Ou seja, estamos entre vestir a civilização e a nossa essência.” Com 26 anos de carreira (representou Eurípides, Shakespeare, Brecht, Dostoiévski, Nelson, Clarice Lispector etc.), Niskier diz que assumiu os riscos do processo de criação ao desnudar-se por completo, inclusive do corpo moral, para revelar o que chama de sentimentos profundos sobre si e a humanidade. Quem agarrou firme em suas mãos para seguir adiante foi o diretor Amir Haddad, que assina a supervisão. E o viés religioso? “É um texto que tem sua religiosidade.
Mas não é um cara do mundo da religião que vem dizer que a desobediência é sagrada, que muitas vezes você tem de abandonar sua casa e partir, como Abraão, ou mesmo questionar Deus, não no sentido do desrespeito, mas da esperança de que ele também compreenda o seu amor por um filho e não peça que o sacrifique”, diz Niskier.
Peça: A Alma imoral
Onde: teatro Eva Herz – Livraria Cultura (av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, tel. 0/xx/11/3170-4059)
Quando: estréia hoje, para convidados; temporada a partir de 14/3; sex. e sáb., às 21h, e dom., às 19h. Até 15/6
Quanto: R$ 50
11.3.2008 | por Valmir Santos
São Paulo, terça-feira, 11 de março de 2008
TEATRO
Em cartaz no Sesc Vila Mariana, “Retratos”, de Alan Bennet, reúne monólogos concebidos para série da BBC nos anos 80
Com recursos cenográficos mínimos, Chris Couto e Clara Carvalho encenam texto do roteirista do filme “As Loucuras do Rei Jorge”
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O dito humor inglês é complexo e sofisticado como se imagina. Da língua de Shakespeare, Oscar Wilde ou Bernard Shaw, para falar de três autores que já montou, o grupo Tapa agora visita um contemporâneo, Alan Bennett (1934), de quem não há notícias em palcos brasileiros, mas sim nas telas: ele é o roteirista de “As Loucuras do Rei Jorge” (1995).
O britânico Bennett que entra em cartaz hoje em São Paulo, no Sesc Vila Mariana, é o das seis histórias curtas da série televisiva “Talking Heads”, que levou à BBC nos anos 1980 e depois ao teatro, na forma de monólogos. O Tapa apresenta quatro deles no projeto “Retratos Falantes”, dividido em dois programas.
“É um humor sutil, sarcástico e, ao mesmo tempo, delicado. Acho um pouco parecido com as peças do [russo Anton] Tchecov”, afirma a atriz e tradutora Clara Carvalho, 48. O primeiro programa, em cartaz até 8 de abril, traz “A Sua Grande Chance”, com Chris Couto, e “Uma Cama entre Lentilhas”, com Carvalho.
Lesley é aspirante a atriz em “A Sua Grande Chance”. Falante, tenta a todo custo migrar da condição de figurante para a de protagonista. Crê poder encontrar o papel de sua vida indo a festas de artistas e famosos. Susan é sua antípoda em “Uma Cama entre Lentilhas”.
Mulher de um reverendo anglicano, participa de atividades comunitárias (coral, quermesse) das quais não gosta. Alcoólatra, logo vira bode expiatório da paróquia.
“Uma é muito reprimida e a outra, exuberante. Mas ambas são solitárias”, diz Carvalho, sobre os espetáculos dirigidos por Eduardo Tolentino.
Fusão
São mínimos os objetos cenográficos: uma mesa, duas cadeiras. “É um teatro de câmara. O que está em cena é o texto”, diz Carvalho. Não existe blecaute entre uma peça e outra; busca-se uma fusão. Quando, passados cerca de 40 minutos, Couto deixa o palco por uma escada, Carvalho sobe por outra para a segunda peça.
Um dos fundadores do Tapa, há 29 anos, Tolentino, 53, foi quem descobriu o autor ao assistir a uma montagem da obra na Europa.
Também dirige “Retratos Falantes 2”, com estréia prevista para 9 de abril: virão os monólogos “Fritas no Açúcar”, com Brian Penido Ross (Graham vive relação de mútua dependência com a mãe esclerosada e é surpreendido pela visita de um ex-namorado); e “A Senhora das Cartas”, com Beatriz Segall (Irene vai às últimas conseqüências ao protestar em jornais e em público como se fosse porta-voz de um coletivo).
Peça:Retratos falantes I
Onde: Sesc Vila Mariana – auditório (r. Pelotas, 141, tel. 0/xx/11 5080-3000)
Quando: estréia hoje; ter. e qua., às 20h30; até 8/4
Quanto: R$ 5 a R$ 20
7.3.2008 | por Valmir Santos
São Paulo, sexta-feira, 07 de março de 2008
TEATRO
Reestréia do espetáculo biográfico do diretor comemora 50 anos do Oficina
Para celebrar seu jubileu, o Oficina lança DVDs com montagens de “Boca de Ouro”, “Bacantes” e as 5 peças do ciclo “Os Sertões”
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
José Celso Martinez Corrêa, 70, considera “Vento Forte Para um Papagaio Subir” seu segundo nascimento como artista, em 1958, porta de entrada para o teatro. O primeiro foi em 1937, quando dona Lina, Angelina Martinez Corrêa, deu à luz.
A peça de fundo biográfico, que estréia hoje no Oficina, acessa as raízes que o ator, diretor e dramaturgo Zé Celso fincou no teatro brasileiro. Foi com “Vento Forte…”, levada em conjunto com “A Ponte”, de Carlos Queiroz Telles, que o grupo Oficina iniciou sua história em 1958. A peça do jovem poeta Zé Celso, que o decano abraça com as novas gerações de artistas do coletivo no Bexiga, abre as celebrações do 50º ano do Oficina, o jubileu.
Entre memórias pessoais e públicas, relativas à cidade de Araraquara (SP), onde o autor nasceu, o texto narra aventuras de João Ignácio, o alter ego de Zé Celso, vivido por Lucas Weglinsk. Na fictícia Bandeirantes, enfrenta atrasos de toda ordem, e até tempestade, para tornar sonhos em realidade.
Os amigos Ricardo (Guilherme Calzavara), Lucinha (Ana Guilhermina), a atriz-enfermeira Maria das Dores (Sylvia Prado) e a presença simbólica da Mãe (Vera Barreto Leite) são figuras com as quais o jovem contracena em sua utopia, em meio a um Zé Celso que ora toca ao piano, ora interage como testemunha viva e ativa da própria obra coletiva.
Entre as atividades previstas ao longo de um 2008 de “eterno retorno”, estão uma homenagem ao “Manifesto Antropofágico”, de Oswald de Andrade, e lançamentos de DVDs das montagens das peças como “Boca de Ouro” e as cinco encenações do ciclo “Os Sertões”.
Peça: Vento forte para um papagaio subir
Onde: teatro Oficina (r. Jaceguai, 520, tel. 0/xx/11/3106-2818)
Quando: estréia hoje, às 22h; temporada sáb. e dom., às 19h; até 27/4
Quanto: R$ 20
28.2.2008 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Em meados do século 19, o norte-americano Herman Melville (1819-91) escreveu um conto sobre um homem que preferia não… Não fazer, ir, dizer, comer ou qualquer um desses verbos razoáveis da vida. Aliás, não queria ser razoável.
A narrativa de “Bartleby, o Escriturário” é pertinente ao vazio do homem contemporâneo, que às vezes se vê paralisado diante dos tempos ditos acelerados, na perspectiva da atriz Cácia Goulart.
Ela protagoniza a terceira versão para teatro do texto de Melville a que São Paulo assiste nesta década, em curta temporada a partir de amanhã no Sesc Paulista. As montagens anteriores foram de Antônio Abujamra (2006) e do Núcleo Bartolomeu (2000).
Goulart, 40, diz que sua concepção para Bartleby relativiza o tom sociológico da relação do escrevente com o perplexo advogado que o contrata (Rodrigo Gaion), mas para quem se recusa a trabalhar.
São complexas as forças na obra do também autor de “Moby Dick”. A montagem é intimista, 50 espectadores. “O conto e a peça falam ao vazio da nossa época, à angustiante falta de sentido em certos momentos da existência, sem esquecer o bom humor. Vemos o esgotamento e a necessidade de renovação das relações cotidianas”, diz Goulart.
Dez anos atrás, ela leu a tradução feita pelo dramaturgo espanhol José Sanchis Sinisterra, que centra o conflito nos dois personagens quando originalmente são cinco. Vadim Nikitin traduziu o texto co-dirigido por Joaquim Goulart e Daniela Carmona.
À frente do Núcleo Caixa Preta, Cácia Goulart foi indicada ao Prêmio Shell São Paulo pela atuação em “Navalha na Carne” (2003) e integrou o elenco de “BR-3” (2006), do Teatro da Vertigem.
Peça: Bartleby
Onde: Sesc Paulista (av. Paulista, 119, tel. 0/xx/11/3179-3700)
Quando: estréia amanhã; sex. a dom., às 20h; até 23/3
Quanto: R$ 20
26.2.2008 | por Valmir Santos
São Paulo, terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
TEATRO
Produção independente tem lançamento hoje
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O diretor Amir Haddad, do grupo Tá na Rua, faz teatro há meio século e diz ainda ter dificuldade em definir o que é esta arte. Prefere relacioná-la à vida, duas metáforas alimentadas de “utopia”.
Para a pesquisadora Iná Camargo Costa, a arte do teatro sobrevive desde tempos medievais, contracena com os meios tecnológicos como “atividade completamente artesanal”, mas resulta “socialmente irrelevante” na ordem do mundo capitalista.
A provocação e o idílio estão entre os depoimentos colhidos no documentário “O que É Teatro?”, dirigido pelo dramaturgo Reinaldo Maia. O vídeo independente é exibido hoje, às 20h, no Galpão do Folias, sede do grupo paulistano Folias d’Arte, ao qual Maia pertence. A exibição é gratuita e seguida por um bate-papo.
Encontro, jogo, diversão, deslocamento, representação, liturgia, vida, desvelamento de verdades: são definições suscitadas entre os depoimentos, um misto de gerações ao longo de 34 minutos.
Falam artistas como os diretores José Renato (fundador do Arena, nos anos 50), João das Neves (ligado ao Opinião, nos 60), César Vieira (Teatro União e Olho Vivo), Roberto Lage (Ágora), Sérgio de Carvalho (Cia. do Latão), Carlos Gaúcho (Caixa de Imagens), Tiche Vianna (Barracão, de Campinas), a performer Dudude Hermann (Benvinda Cia. de Dança, de MG), a atriz Tânia Farias (Ói Nóis Aqui Traveiz, do RS) e os criadores portugueses Francisco Beja e Jorge Louraço.
Mesmo sob o domínio de artistas ligados a grupos, Maia, 56, afirma que as respostas refletem pluralidade. “O vídeo é polifônico. Desconstrói a redução preconceituosa de que teatro de grupo significa ativismo de esquerda, experimentalismos. A questão é mais ampla.”
Em contraponto, diz, há unidade no compromisso dos artistas de coletivos com o ofício, vinculando-o de forma estreita à existência de cada um. O vídeo entremeia imagens de espetáculos, sobretudo “Orestéia – O Canto do Bode”, o mais recente do Folias, movido por autoquestionamentos.
Em tempo: a última cena do vídeo é a de uma vaca no pasto. “O que o camarada Brecht [dramaturgo alemão que atravessou duas guerras mundiais no século 20, morto em 1956] gostaria que existisse depois dele?”, questiona-se Maia.
Este flertou com o audiovisual nos ano 80, atuou em “A Próxima Vítima”, de João Batista de Andrade. E levou um ano e meio para fazer “O que É Teatro?”, câmera digital em punho e finalização do ator Flavio Tolezani.
21.2.2008 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
TEATRO
Grupo de Eduardo Tolentino monta terceira peça do dramaturgo, reflexão sobre o poder paulista
Trajetória de fazendeiro e sua família que perdeu terras por causa da crise econômica de 1929 ajuda a entender Brasil de hoje
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
“Os que plantaram… Vão começar a colher!”. São as palavras finais de “A Moratória”, murmuradas pela mulher do fazendeiro que perde as terras herdadas do pai e do avô.
A peça de Jorge Andrade (1922-84) toca em raízes históricas da formação do Brasil entre as décadas de 20 e 30. Retrata a passagem do espaço rural para o urbano, profetiza as concentrações política e econômica do Estado paulista e constata os sentimentos de felicidade e família ditados pela noção de propriedade. O ontem roça o hoje o tempo todo, como se verá no espetáculo do grupo Tapa que entra em cartaz amanhã no Sesc Anchieta, em São Paulo.
Os chamados “barões do café” foram sacudidos pela crise de 1929 provocada pela quebra da Bolsa de Nova York. Afundaram em dívidas. Seguiram-se a Revolução de 30 e a Revolução Constitucionalista de 32, fechando a era da monocultura e abrindo o ciclo industrial.
Escrita em 1954, “A Moratória” desenvolve-se em dois planos, passado (1929) e presente (1932), a vida na fazenda e a casa na cidade. Muitas vezes em cenas simultâneas, a dramaturgia desenha em fragmentos a trajetória do patriarca Joaquim, o Quin, e de sua família.
A decadência abala profundamente os valores aristocratas do fazendeiro interpretado por Zécarlos Machado. Ele tenta manter as rédeas, mas a realidade o coloca em xeque, a começar pelos filhos. Marcelo (Augusto Zacchi) vira operário e Lucília (Larissa Prado) concentra energias no pedal da máquina de costura com a qual sustenta a casa enquanto pai e mãe (Lu Carion) esperam, em vão, ganhar o processo de recuperação judicial das terras e ter as dívidas suspensas.
“É uma peça espremida entre 1929 e 1932, que talvez tenha sido o momento mais difícil dessa cultura, desse Estado que precisou de uma industrialização, de duas ditaduras, uma civil e uma militar, da transferência da capital federal para, enfim, exercer a hegemonia sobre o Brasil”, diz o diretor Eduardo Tolentino, 43.
Ele mexeu bastante no texto, o que raramente o Tapa faz; sua premissa é de respeito incondicional ao autor. Mas, aqui, houve cortes equivalentes a meia hora de texto, cenas foram remanejadas, sem prejuízo da sofisticada linguagem de Andrade, como a Folha conferiu na apresentação de domingo passado, no Sesc Santo André.
Retorno
Do mesmo autor de “Vereda da Salvação” (que Antunes Filho montou duas vezes, a última no mesmo Anchieta, em 1992) e “Ossos do Barão” (adaptada para novela no SBT, em 1997), “A Moratória” é obra que somente foi produzida em 1955, dirigida por Gianni Ratto, e em 1976, por Emílio Di Biasi.
É “quase um texto inédito”, no dizer de Tolentino, muito estudado e pouco visto.
“As grandes matrizes do teatro brasileiro tinham que, a cada década, ganhar uma revisão, uma releitura por outros diretores. Os americanos não passam uma década sem assistir a “A Morte do Caixeiro-Viajante” [de Arthur Miller], “Um Bonde Chamado Desejo” [Tennessee Williams] e “Longa Jornada Noite Adentro” [Eugene O’Neill]. São textos fundamentais para os EUA, porque é aí que se forma uma identidade”.
Daí seu entusiasmo quanto à visita que Os Satyros fazem neste ano ao mítico “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, que o próprio Tolentino dirigiu na década passada. Por falar em matrizes, o grupo Tapa, que completa 30 anos em 2009 e tem grandes dramaturgos estrangeiros em seu repertório, soma três Jorge Andrade (as outras são “Rastro Atrás” e “O Telescópio”), três Nelson Rodrigues, dois Oduvaldo Vianna Filho e dois Plínio Marcos, sempre textos pouco ou nunca encenados.