Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.
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São Paulo, segunda-feira, 19 de novembro de 2007
TEATRO
Festival que termina nesta noite colocou dramaturgias locais em perspectiva
VALMIR SANTOS
Enviado especial a Recife
Na semana passada, o grupo Clowns de Shakespeare, de Natal, saiu de São Paulo, onde atualmente mostra o seu repertório, para se apresentar no Festival Recife do Teatro Nacional, cuja décima edição termina na noite de hoje. Leia mais
16.11.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, sexta-feira, 16 de novembro de 2007
TEATRO
Samir Yazbek evoca heterônimos de Pessoa ao narrar passagem à idade adulta
Direção abusa da repetição para jogar com o tempo das cenas; peça tem cenários e figurinos com elementos cubistas e simbolistas
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O metateatro é recurso comum nas peças de Samir Yazbek, 40. A premiada “O Fingidor” (1999), por exemplo, encontrou terreno fértil ao lidar com Fernando Pessoa, o poeta dos heterônimos.
No drama “Diálogo das Sombras”, o autor paulista pretende radicalizar o que entende como contradições dos papéis que o indivíduo representa diante do outro nas relações pessoais e sociais.
A obra vem a público hoje, no Sesc Paulista, sob encenação de Maucir Campanholi.
Pai, mãe, tio, namorado e amiga, todos dão “sermões” sobre os rumos de uma jovem estudante (interpretada por Rubia Reame), em crise no rito de passagem para a vida adulta, pressionada a trabalhar e corresponder às expectativas daqueles que a cercam. Yazbek fala em “reencenação da vida” a que todos os envolvidos na história são submetidos.
Cabe ao tio (Hélio Cícero), um homem de negócios, capitanear um misterioso ritual em que as máscaras incitariam cada um a encontrar suas “pequenas verdades”, não raro em tom moralista.
“Com essa peça, talvez pela primeira vez, consegui fazer uma ponte entre o individual e o social. Tento compreender como essa jovem foi formada, que valores determinaram o seu caráter; o que fizeram dela e o que ela está fazendo consigo mesma”, diz Yazbek.
Num exercício que pretende ser polifônico, o autor rebate a crítica recorrente ao comportamento individualista na sociedade contemporânea.
O diretor Campanholi diz jogar com os tempos das cenas, pela fragmentação e pela repetição de trechos. As opções funcionam como eco dos acontecimentos ou como memória.
Recorre a projeções de imagens cubistas dos locais em que a ação transcorre, reforçando o espaço cenográfico que co-assina com Isabelle Bittencourt. São dela os figurinos com elementos realistas e simbolistas. Também atuam em “Diálogo das Sombras” Eduardo Semerjian (pai), Maristela Chelala (mãe), Duda Mattos (namorado) e Júlia Corrêa (amiga).
Com essa montagem, o trio Yazbek, Cícero e Campanholi consolida a Companhia Teatral Arnesto nos Convidou, homenagem ao universo do compositor Adoniran Barbosa.
15.11.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 15 de novembro de 2007
TEATRO
Marcado pelo sucesso de “Vau da Sarapalha”, coletivo paraibano estréia peça em SP
Montagem de conto de Guimarães Rosa marcou a dramaturgia brasileira da década passada; peça continua a ser encenada
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O Grupo de Teatro Piollin passou metade dos 30 anos, completados em 2007, ancorado em “Vau da Sarapalha” (1992). A recriação do conto de João Guimarães Rosa, encenada por Luiz Carlos Vasconcelos, marcou a história do coletivo de João Pessoa (PB) – e a cena brasileira da década passada -ao expressar a cultura popular no sumo. Forma e conteúdo regionais e universais, mas sem exotismo.
Em seu novo espetáculo, “A Gaivota (Alguns Rascunhos)”, o Piollin tenta livrar-se do estigma do sucesso que estanca. Depois de “Sarapalha”, que viaja pelo Brasil e pelo exterior, o grupo não gerou outro espetáculo – seus atores participaram de projetos pontuais.
“Debatemos sobre esse estigma que nos incomodava. Agora encaramos com mais tranqüilidade. O público não quer se livrar do passado, mas para a gente é uma coisa superada”, diz o ator Nanego Lira, 43.
“Continuamos a fazer [“Sarapalha’] porque o espetáculo é bom e o público quer ver, e não porque não conseguimos fazer outra coisa.”
Pela primeira vez, o grupo trabalha com um diretor convidado. O carioca Haroldo Rêgo, 38, também assina a adaptação do clássico do russo Anton Tchecov (1860-1904). Segundo Rêgo, o subtítulo “alguns rascunhos” indica que se trata mais de um processo do que de tentativa de chegar a um resultado. “Nesse sentido, a idéia do esboço complementa a estrutura narrativa que criamos.”
Sua releitura preserva cerca de 30% do original, circulando em dois triângulos amorosos para corresponder ao elenco formado por quatro atores e uma atriz (além de Nanego, Ana Luisa Camino, Buda Lira, Everaldo Pontes e Paulo Soares).
“Alguns personagens de Tchecov são artistas falando sobre arte o tempo inteiro.
Trocamos nossa experiência de criação com as que o autor propõe em seu texto, lidando com a linha tênue que divide ficção e realidade”, diz Rêgo.
A montagem enfatiza a relação entre os atores e destes com o espectador. Não há propriamente uma representação, diz o diretor, que investe no sentido de presença, no olho no olho com a platéia mantida próxima da cena. Nos ensaios, quando perguntado sobre como montar um clássico com sotaque nordestino, Nanego Lira respondia com outra pergunta: “E clássico tem sotaque sudestino?”
8.11.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 08 de novembro de 2007
TEATRO
Grupo dirigido por André Garolli estréia em SP “Longa Viagem de Volta pra Casa”, terceira parte do projeto “Homens ao Mar”
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Eugene Gladstone O’Neill (1888-1953) viveu parte da adolescência no condado de New London, no Estado americano de Connecticut, onde o cais do porto e o convés dos navios eram territórios propícios à conversa -mais à escuta- das aventuras de marinheiros. Isso antes de se tornar, ele também, um dos homens ao mar na fase seminal dos esboços de dramas e tragédias que pôs no papel.
“Longa Viagem de Volta pra Casa”, que a Cia. Triptal de Teatro estréia hoje, para convidados, no Sesc Pompéia, alude à biografia do Nobel de Literatura e autor de “Longa Jornada de um Dia Noite Adentro”.
Ao contrário das duas peças anteriores da Triptal, dentro do projeto de repertório “Homens ao Mar”, dedicado a O’Neill (“Rumo a Cardiff”, de 2003, e “Zona de Guerra”, 2006), essa terceira não se passa em alto-mar, mas em terra firme. Ou nem tanto. “Os personagens não deixam de ser náufragos ou encalhados [como metáfora]. Ou seja, com O’Neill não tem saída”, diz o diretor André Garolli, 40. Quatro marujos de um navio desembarcam em Londres e vão a um bar para a despedida de um deles, álibi para encher a cara e dormir com prostitutas.
A ovelha a desgarrar é o sueco Olson, que, desta vez, promete fazer diferente. Quer ficar sóbrio para não se perder na noite e conseguir voltar para casa. Faz pelo menos dez anos que não vê a mãe e o irmão. Mas, com o destino, são outros quinhentos.
Ausente em “Cardiff” e “Zona de Guerra”, o elemento feminino surge com força e mobilizará o universo masculino dominante. Entre barris e velas, o bar é o ambiente de sedução e de exploração, quase um purgatório, na visão de Garolli.
Para o diretor, estão em xeque as identidades individual e coletiva e as ilusões que impedem o sujeito de estabelecer contato direto com a realidade. Entre os 12 atores estão Daniel Ribeiro (como Olson), Kalil Jabour, Wagner Menegare, Juliana Liegel e Beth Rizzo.
Ainda na unidade, reestréia, no próximo dia 14, “Zona de Guerra”, com sessões às quartas e quintas, às 21h30, até 6/12. A companhia fechará a tetralogia “Homens ao Mar” com “Luar Sobre o Caribe”, no ano que vem.
Zona de guerra
Onde: Sesc Pompéia – galpão
Quando: reestréia dia 14/11; qua. e qui., às 21h30; até 6/12
Quanto: R$ 4 a R$ 16
3.11.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 03 de novembro de 2007
TEATRO
“Argumas de Assaré” discute temas da obra do compositor, como má distribuição de renda, fome e seca
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Patativa do Assaré perdeu o olho direito aos quatro anos, “dor d’olhos” com a qual viu o mundo até a casa dos 70, sem perder o humor pela vida. Sua obra, entrelaçamento do homem, do poeta e do cantador, é adaptada para o teatro em “Argumas de Assaré”, que estreou ontem no teatro Alfredo Mesquita e tem entrada franca neste primeiro final de semana.
O espetáculo do Teatro do Pé, de Santos, estreou há três anos e percorreu o interior paulista. Segundo o diretor, Mateus Faconti, 31, o desafio é transpor para a forma dramática a estrutura lírica da obra de Patativa do Assaré (1909-2002), o agricultor cearense Antônio Gonçalves da Silva.
O espetáculo, que inaugura o trabalho da companhia, recorre ao teatro de bonecos, inclusive o mamulengo típico da cultura popular nordestina, e à música tocada e cantada ao vivo pelos quatro intérpretes: Danilo Nunes, Iris La Cava, Juliana Bordallo e Mateus Lopes.
“O roteiro abre com um lugar mais escuro da obra dele, como em “A Morte de Nanã”, com palavras de lamento, e fecha com uma imagem do Nordeste que “zomba de sofrer”, como em “Cabra da Peste”. A gente quer retratar em cena essa dinâmica da superação do sofrimento”, diz Faconti, que co-assina o tratamento dramatúrgico com Olavo Dada O’Garon.
Para Faconti, a peça é “resultado de um painel de temas recorrentes na obra dele, como a questão da má distribuição de renda, da fome, da seca”. Uma realidade que contrasta dor e alegria. Como Patativa afirma por meio de seus versos, “Digo a verdade completa/ Pois tenho rima de saldo”.
3.11.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 03 de novembro de 2007
TEATRO
Coletânea reúne textos publicados em jornais cariocas entre 1944 e 1994, com destaque para ensaios teóricos da crítica de teatro
VALMIR SANTOS
Da Reportagem local
Noite dessas, Barbara Heliodora reuniu-se no Rio com artistas como Fernanda Montenegro, Tonia Carrero, Ítalo Rossi e Sérgio Britto. A conversa girou em torno do lançamento da coletânea de textos da crítica de teatro, um painel da segunda metade do século 20.
“O livro cobre a época em que esses monstros sagrados de hoje estavam começando a carreira”, diz a carioca Heliodora, 84. Um dos destaques de “Barbara Heliodora – Escritos de Teatro”, que sai pela editora Perspectiva, é agrupar em sua primeira parte ensaios teóricos da autora, entre 1944-1971, face menos conhecida pelas novas gerações. Organizadora do volume, a pesquisadora Claudia Braga estabelece como ponto de partida o primeiro artigo que Heliodora publica na imprensa, um estudo sobre o escritor inglês Geoffrey Chaucer em “O Jornal”, 23/4/ 1944.
Seguem-se como que os anos de formação da crítica, que na análise de autores fundamentais, como na triangulação Sófocles-Eurípides-Eugene O’Neill, para falar da evolução da tragédia, quer na percepção de que o então incipiente moderno teatro brasileiro só alçaria vôos se atores e autores assumissem o lugar de onde falam, ou seja, o Brasil. “A maneira brasileira de interpretar ainda não foi encontrada, mas só será encontrada quando houver meios de treinar atores, e, sem dúvida, será com o trabalho com textos nacionais, em que são retratados brasileiros de todos os tipos, que eventualmente os atores poderão encontrar a melhor maneira de vivê-los”, escreve em 1959, entusiasmada na recepção de textos de Ariano Suassuna e Gianfrancesco Guarnieri. Em 2007, o panorama é outro. “Uma das mudanças mais importantes é que hoje, a grande maioria dos espetáculos é de autor brasileiro. Antigamente, a maioria era importada”, diz à Folha.
A “pancada da ditadura”, diz, teria diluído uma produção ativa. “Prejudicou por dois lados: quem já estava escrevendo e tinha um certo corpo de obra, abandonou o teatro, porque viram que não podiam fazer nada; e impediu que novos vivessem de palco para dizer coisas mais significativas.”
Após a abertura política, Heliodora tomou gosto pelo besteirol e muita gente não entendeu o motivo. “Foi uma maneira muito fácil e acessível de chamar o público de volta para o teatro. O besteirol vem de uma grande tradição no teatro brasileiro que é a da comédia de costumes, um esteio um pouco mais caricato.”
Como não poderia deixar de ser, as críticas representam o maior filão na coletânea, que avança até 1994. Ao atrair desafetos pelo estilo incisivo, Heliodora diz que prefere não entrar em bate-boca. “Se alguém fica furioso, é melhor deixar se acalmar. Enfrento o trabalho com toda a equanimidade.”
O diretor Enrique Diaz, da carioca Cia. dos Atores, discorda. Identifica na crítica de “O Globo” (desde 1990) “desrespeito, estreiteza de pensamento e leviandade”, como declarou em julho a “O Estado de S. Paulo”. “É problema dele, minha carreira não ilustra essa leviandade. Ele tem liberdade para achar isso, mas a ofensa não leva a nada”, diz Heliodora.
20.10.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 20 de outubro de 2007
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
M ais importante projeto do ano teatral em São Paulo, a temporada de “Os Efêmeros”, pela cia. francesa Théâtre du Soleil, com ingressos esgotados, estimula público e artistas a repensar seus papéis nessa arte.
O espetáculo integral dura oito horas e compreende não só a cena, mas sua órbita. Assim que chega, o espectador caminha até uma das duas platéias, leste ou oeste. Escolhe um lugar, retira o adesivo com o número do respectivo assento e o cola no ingresso. Livre-arbítrio. Antes do início, pode-se ir ao bar comprar pratos feitos pelos próprios integrantes do Soleil. No intervalo, a demanda é maior e convém paciência.
Os artistas que servem a comida não estão preocupados em ser garçons de fast-food. Muita gente vai bufar, mas eis a chance para resgatar a percepção dos tempos do outro e de si. O ato de comer agrega. A ambientação inclui mesas retangulares de madeira e bancos longos, em conformação que coloca o comensal de frente para o outro. Toalhas, velas, aroma dos pratos, fundo musical, tudo envolve a todos. O camarim é aberto.
Em sua cosmogonia peculiar, o Soleil reafirma ideais socializantes, mesmo ao tecer universos particulares. Após montagens apoiadas em narrativas épicas de conflitos vividos por outros povos, a cia. volta-se para seu corpo e memória. Expõe fragmentos pessoais dos intérpretes numa dramaturgia de embarque e desembarque por épocas e lugares.
Às vezes, parece que o trem sai dos trilhos pelo descomedimento, ausência de uma cabeça exterior que represe tantas emoções e comoções. Mas é sensação também passageira. Na subversão ao relógio, “Os Efêmeros” concilia emoção e consciência de mundo. Há uma sincera beleza em lidar com esses estados interiores, até como documento histórico da humanidade em seus dramas, tragédias e comédias. O teatro é consagrado em sua menor grandeza, como na minúcia dos objetos nas plataformas que deslizam sobre rodinhas ou no brio dos artistas que as empurram, protagonistas na coreografia e no olhar tanto quanto os colegas que atuam em cima dos tablados.
Sob a perspectiva do teatro paulistano atual, o Soleil também diz muito. O modo de produzir é tão radical quanto o do grupo Oficina, por exemplo. A escala monumental lembra a perseverança do Vertigem. O naturalismo de cena em “Os Efêmeros” deixa entrever ainda a que ponto chegaria o “Prêt-à-Porter” do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) se o projeto fosse redimensionado com mais fé e risco. Por isso, mas não só, a primeira turnê da companhia pela América do Sul em 43 anos é, desde já, memorável.
18.10.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 18 de outubro de 2007
TEATRO
Com 50 anos de carreira, atriz protagoniza adaptação inédita do autor francês
“Eu Estava em Minha Casa e Esperava Que a Chuva Chegasse” conta a história de cinco mulheres à procura de um parente perdido
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Quando olha para a cena teatral da cidade de São Paulo e se depara com a tônica de grupos, Miriam Mehler se sente à vontade. Há quase 50 anos, em fevereiro de 1958, ela estreava no Teatro de Arena com “Eles Não Usam Black-Tie”, de Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006), ator e dramaturgo daquele coletivo. A intérprete passou ainda pelo TBC e Oficina. A partir de hoje, com pré-estréia para convidados, Mehler, 72, ancora o novo espetáculo de uma companhia formada há sete anos, a Elevador de Teatro Panorâmico, dirigida por Marcelo Lazzaratto.
Trata-se da peça “Eu Estava em Minha Casa e Esperava Que a Chuva Chegasse”, de Jean-Luc Lagarce (1956-85), inédita no Brasil. Ela é a mais velha das cinco mulheres de uma família, abaladas com a volta do neto/ filho/irmão desaparecido.
Em verdade, ele não “reaparece”. Na peça, a figura masculina, apesar de epicentro da narrativa, é deslocada para as margens. “O autor vai fundo na alma feminina”, diz Mehler.
Para a atriz, em Lagarce importa mais o não dito. “Aquilo que um personagem pensa, o subtexto de uma fala”, afirma Mehler. Uma das inspirações do texto é a peça “As Três Irmãs”, de Anton Tchecov.
A ausência do rapaz, por anos, faz com que as cinco personagens se agarrem à imaginação. Cada uma, a seu modo, divaga, pensa, cria mundos e possibilidades de existência que tomam por reais.
Quando acham que já firmaram suas redes de segurança para a angústia da espera, eis que o homem, redivivo, chega, cai no chão e não se sabe se está vivo ou morto. Permanece o tempo todo no quarto, e é a partir daí que deslancha a história com o sujeito oculto.
Para essas mulheres, conforme Lazzaratto, a realidade passa a ser uma coisa pequena diante do universo de possibilidades que elas criam na cabeça. O diretor teatral destaca a linguagem contemporânea de Lagarce. “A forma pela qual o autor tece seu texto é muito precisa”, conclui.
13.10.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 13 de outubro de 2007
TEATRO
Artista começou como amador em 1947, integrou o período áureo do TBC e dialogou com jovens nomes a partir do fim dos anos 80
Ator de técnica apurada no uso de pausa, ritmo e dicção, Paulo Autran era dono de uma das mais bem preparadas vozes do país
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
“Bom no drama e bom na comédia” -assim prenunciou o crítico Décio de Almeida Prado em 1953 sobre Paulo Autran. Seis anos antes, o ator iniciara a carreira no teatro amador, dirigido por Madalena Nicol em “Esquina Perigosa”, do britânico J.B. Priestley, em que contracenou com a irmã do bibliófilo José Mindlin, Esther.
Mas a vontade de representar remonta mesmo à infância, quando Paulo brincava de teatro em casa com primos. Criavam cenas para os adultos adivinharem do que se tratavam.
“Minha primeira entrada em cena, o primeiro papel que fiz na vida, foi de demônio. Tinha uns oito anos, botei um chinelo vermelho da minha tia, um calção vermelho de pano, e minha tia fez uns chifrinhos de papel pintado de preto; me desenharam um bigode na cara e eu representei um demônio”, afirma, no livro de entrevistas “Um Homem no Palco” (1998), do ator e crítico Alberto Guzik.
Filho de delegado e de uma dona-de-casa autodidata que tocava piano, Paulo Paquet Autran nasceu em 7 de setembro de 1922, no Rio de Janeiro. Aos seis anos, a família se mudou para São Paulo. Como muitos artistas de sua geração, formou-se em direito. Chegou a trabalhar num escritório de advocacia, mas pouco tempo depois abandonou a profissão.
A fase amadora também foi curta, de 1947 a 1949. Logo se profissionalizou, dando início a uma trajetória que se confundiu com a evolução do moderno teatro brasileiro.
No fim de 1949, passou a integrar o Grupo de Teatro Experimental (GTE), de Abílio Pereira de Almeida. Na fase áurea do TBC, atuou em produções importantes, como “Seis Personagens à Procura de um Autor”, de Pirandello, com direção do italiano Adolfo Celi. Ao lado do próprio e de Tônia Carrero, criou em 1956 a Companhia Tônia-Celi-Autran, que estreou com “Otelo”, de Shakespeare, e durou cinco anos.
Além de Tônia, contracenou com outras grandes atrizes como Cacilda Becker (“Antígone”, 1952), Bibi Ferreira (“My Fair Lady”, 1962), Maria Della Costa (“Depois da Queda”, 1964), Cleyde Yáconis (“Édipo Rei”, 1967) e Eva Wilma (“Pato com Laranja”, 1979).
Com Fernanda Montenegro, fez parceria só na TV, veículo que ele desprezava. Mas as pequenas incursões possibilitaram ao menos a antológica seqüência cômica de “Guerra dos Sexos” (1983), em que Autran e Montenegro atiram tortas no rosto um do outro.
Nova geração
Entre os diretores com quem atuou, estão Flávio Rangel (“Liberdade, Liberdade”, 1965), Ademar Guerra (“O Burguês Fidalgo”, 1968), Silnei Siqueira (“Morte e Vida Severina”, 1969), Fauzi Arap (“Macbeth”, 1970), Antunes Filho (“Em Família”, 1972), Celso Nunes (“Equus”, 1975) e José Possi Neto (“Feliz Páscoa”, 1985).
A partir do final dos anos 80, passou a dialogar com a geração mais recente de encenadores, alguns inclusive de perfil experimental ou vinculados a grupos, como Eduardo Tolentino de Araújo, do Tapa (“Solnes, o Construtor”, 1988), Paulo de Moraes, da Armazém Companhia de Teatro (“A Tempestade”, 1994), Ulysses Cruz (“Rei Lear”, 1996) e Felipe Hirsch, da Sutil Companhia de Teatro (“O Avarento”, 2006).
Mas é no solo “Quadrante” que o público se aproximou mais de Paulo Autran em carne e osso, sem propriamente a mediação de um personagem.
Desde 1988, ele entremeou as temporadas das peças que produziu com viagens pelo Brasil para apresentar seu “show”, como preferia definir “Quadrante”, ao qual o dramaturgo Plínio Marcos certa vez assistiu e o aconselhou a incorporá-lo ao repertório.
Ao consagrar poetas, cronistas e romancistas diletos em “Quadrante”, Autran expôs a condição de devoto da palavra. Homem de técnica apurada no uso de pausa, ritmo e dicção, ele era dono de uma das mais bem preparadas vozes do país. Por isso a coleção de registros em disco, prosa e verso, desde a década de 1950, em recitações para Pessoa, Drummond, Bandeira. Segundo Autran, o ator não tem direito ao próprio corpo e nem ao próprio rosto, mas sua voz é inconfundível.
Autran era um artista da palavra. Todo espetáculo em que atuou ou dirigiu principiava pela leitura de mesa. Era em volta dela, na sala de seu apartamento, que submetia autores contemporâneos ao teste. Na escuta, orientava enunciações e torcia pelo colorido de diálogos ou solilóquios.
“No dia em que, na minha casa, estudando uma cena do Creonte de Anouilh, descobri que o ator é “dono das palavras” e pode fazer com elas o que quiser, descobri ao mesmo tempo o valor da pausa, ou de sua supressão, que o sentido de uma palavra é o que o personagem quiser lhe atribuir naquele momento. Então, comecei a perceber a verdadeira função do ator, do intérprete, enfim, o que é ser ator”, escreveu na fotobiografia “Paulo Autran – Sem Comentários”, publicada em 2005.
13.10.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 13 de outubro de 2007
TEATRO
“Fala Baixo, Senão Eu Grito”, encenada em 1969, reestréia em SP “atualizada”
VALMIR SANTOS
Da Reportagem local
Marília Pêra, Myriam Muniz, Suely Franco e outras atrizes já foram Mariazinha um dia, a funcionária pública “solteirona” e sexualmente reprimida de “Fala Baixo, Senão Eu Grito”. Quase 40 anos depois de seu nascimento, em 1969, a personagem da autora paulista Leilah Assumpção reinventa fantasmas para os tempos que correm, agora na pele de Ana Beatriz Nogueira.
A atriz co-produz a montagem do Rio que estréia hoje no teatro Sérgio Cardoso. Mariazinha contracena com Eriberto Leão, o Homem, ou melhor, o ladrão que invade o quarto da protagonista e bagunça a realidade de quem se pensava “segura” na retidão do trabalho e da moral classe média.
A figura masculina incita a mulher à emancipação. É um marginal que aprendeu na escola da vida da qual Mariazinha fugiu. Para romper o invólucro frágil do mundo que ela cria para si, o diretor convidado Paulo de Moraes (da Armazém Cia. de Teatro) apoia-se num dos símbolos do isolamento urbano: a TV. Há 20 aparelhos no cenário de Carla Berri.
“Ele [Moraes] diz que foca o trabalho na solidão da mulher que vive na cidade grande, mas vai mais à frente: toca profundamente à solidão da alma humana”, diz Assumpção, 64, que conferiu a temporada carioca. A autora aponta pontos de contato entre as duas montagens. “Não é uma obra datada. A Mariazinha é menos engraçada, menos alienada em 2007, mas tão solitária quanto antes.
É desesperador”, diz.
Assumpção, a mesma de “Intimidade Indecente”, faz parte da geração de autores que surgiu no final dos anos 60, de Consuelo de Castro, Antônio Bivar, José Vicente (1945-2007) e outros. Atualmente, escreve “Ilustríssimo Filho da Mãe”, sobre um executivo de 40 anos em crise.