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Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 05 de setembro de 2007

TEATRO 

Possi Neto monta musical filmado por Ettore Scola
 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

“Antes, dançávamos juntos; hoje as pessoas dançam sozinhas”, diz o ator Aziz Arbia, por e-mail, à Folha. Ele é um dos protagonistas da montagem francesa da peça “O Baile” (“Le Bal”, 1981), criação do grupo Théâtre du Campagnol, dirigido por Jean-Claude Penchenat (co-fundador do Théâtre du Soleil). A obra ficou mais famosa ao ser filmada pelo italiano Ettore Scola, em 1983. 

Mais de duas décadas depois, o Brasil mostra sua versão de “O Baile”, musical que estreou em junho no Rio e estréia hoje no Cultura Artística, em SP. 

O roteiro original traz canções e alusões a passagens históricas -sem uso de palavra- para criar um panorama da França dos anos 30 aos 80. “Falávamos de pessoas comuns, de como sobreviveram à guerra. Não há heróis”, diz Arbia. 

Penchenat faz questão de que as versões estrangeiras partam da memória do próprio país, como nas recentes montagens tcheca e brasileira. Esta, sob roteiro de Valderez Cardoso Gomes, percorre as décadas de 50 a 80, costurando episódios modernos, arcaicos ou traumáticos: o suicídio de Getúlio Vargas, a Copa de 58 na Suécia, a inauguração de Brasília, o golpe militar de 64, o AI-5, a Copa de 70 e as Diretas. 

Com direção geral de José Possi Neto, direção musical de Liliane Secco e coreografia de Carlinhos de Jesus, o musical retrata as diferentes épocas por meio da moda e do comportamento, influenciados pelas culturas européia e americana. 

No toca-discos das épocas revisitadas, rodam canções como “Isto Aqui o que É” (1942), de Ary Barroso; “Pafunça” (1958), de Adoniran Barbosa e Oswaldo Molles; “O Bom” (1967), de Eduardo Araújo; “Opinião” (1965), de Zé Ketti e “Começaria Tudo Outra Vez” (1977), de Gonzaguinha. Músicos embalam as performances de 20 atores, entre eles Claudio Tovar, Édi Botelho, Luciano Quirino, Maria Salvadora, Najla Raja, Patricia Carvalho-Oliveira, Sandra Pêra e Tássia Camargo, também produtora.



O Baile
Onde: teatro Cultura Artística -sala Esther Mesquita (r. Nestor Pestana, 196, tel. 3258-3616) 
Quando: hoje, às 21h; amanhã, às 21h (só nesta semana); temporada de sex. e sáb., às 21h; dom., às 18h. Até 25/11 
Quanto: R$ 40 a R$ 80

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 01 de setembro de 2007

TEATRO 
Versão carioca de “Augusto Matraga” chega a SP 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem local 

A musicalidade das palavras de João Guimarães Rosa (1908-67) em “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, um dos contos de “Sagarana”, é sublinhada na montagem carioca que estréia hoje em São Paulo. 

Idealizador do projeto que estreou em março, no Rio, o diretor musical Alexandre Elias criou composições originais e convidou o encenador André Paes Leme para o espetáculo. 

Leme, 41, que também adapta o conto, é conhecido por criações voltadas à pesquisa do musical popular e valorização do gênero épico, como em “Alcassino e Nicoleta” (1994), paródia portuguesa do século 15. 

Essa conjunção, segundo ele, é das mais propícias em “Matraga”, obra de apelo dramático que também mobilizou Antunes Filho e o grupo Macunaíma há 21 anos, tendo Raul Cortez (1932-2006) como protagonista, no mesmo palco onde a nova montagem cumpre temporada. 

A queda e a ascensão espiritual de Nhô Augusto é cantada, contada e tocada por oito atores, entre eles o baiano Jackyson Costa, no papel-título. A travessia do conto -cerca de dez anos de saltos no tempo e no espaço- é iniciada com a separação de mulher e filha que deixam para trás um homem boêmio e violento. 

Matraga purga pecados em penitências e provações. Isola-se em trabalhos austeros, torna-se devoto a Cristo e antagoniza com um chefe de jagunços que lhe cruza o caminho, Joãozinho Bem-Bem (Fábio Lago). “O espetáculo desenvolve a temática universal e eterna da superação das maldades internas, o redescobrir de homens mais bondosos”, diz Leme. 

Para o diretor, é inevitável a associação de Matraga à figura de Cristo na busca pela purificação. “Matraga conhece o inferno, percebe o terror que será e tenta fugir das tentações.” 

Quanto à musicalidade, Leme diz querer evitar o padrão espetacular à la Broadway. “A música tem a função de contar a história, a favor da teatralidade da cena. Trechos do texto foram musicados, desenvolvidos em função da estrutura narrativa do conto e dos personagens.” 



A hora e a vez de Augusto Matraga 
Onde:
teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000) 
Quando: estréia hoje, às 21h; sex. e sáb., às 21h, e dom., às 19h. Até 27/9 
Quanto: R$ 7,50 a R$ 20 

Folha de S.Paulo

Palhaço pecador

30.8.2007  |  por Valmir Santos

São Paulo, quinta-feira, 30 de agosto de 2007

TEATRO 
Após sofrer tentativa de atentado em Madri, bufão Leo Bassi apresenta no Brasil o solo “La Revelación”, que critica religiões monoteístas 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

O ítalo-espanhol Leo Bassi, 55, é um palhaço político que leva o ativismo às últimas conseqüências. No ano passado, em Madri, Bassi sofreu tentativa de atentado a bomba supostamente por criticar religiões monoteístas em “La Revelación”. O bufão apresenta o mesmo espetáculo, a partir de hoje, em São Paulo, e na próxima semana no Cena Contemporânea -Festival Internacional de Teatro de Brasília. 

Bassi diz à Folha que, minutos antes de chegar ao teatro Alfil, na noite do atentado, um funcionário notou um artefato explosivo colocado a cerca de três metros do seu camarim. 

Chamada, a polícia desativou a bomba e passou a escoltar o artista na temporada. 

“Minha primeira reação foi alucinar: como era possível que um espetáculo cômico mobilizasse pessoas fundamentalistas e intransigentes, a ponto de tentarem me matar?”, diz Bassi. Nem na Itália, onde fica o Estado do Vaticano, houve reações extremadas.

O papa Bento 16 é uma das personalidades citadas pelo palhaço em seu texto que defende uma Europa laica como caminho para uma sociedade de tolerância. “O bufão não respeita nada e ninguém, seja o presidente, o imperador, a si mesmo e inclusive Deus.” 

Ateu, ele leva fé no iluminismo de três séculos atrás. “A crítica ao monoteísmo é uma maneira de homenagear aquele movimento em favor do pensamento racional, contra a idéia de um deus onipotente”, diz o palhaço-filósofo, que cita Voltaire, Kant e Auguste Comte -de quem, lembra Bassi, a bandeira brasileira toma a referência “ordem e progresso”. Em sua obra, o positivista francês (1798-1857) aborda “o amor por princípio; a ordem por base; e o progresso por fim”. 

Palhaçadas no Brasil
Aberto a improvisações, Bassi adapta “La Revelación” a cada país que visita -o espetáculo é do final de 2005. “No Brasil pesquiso sobre a forte presença dos evangélicos, principalmente entre a população mais empobrecida, diferentemente do espaço do catolicismo entre os europeus. Estou curioso para ver a reação do espectador.” Bassi tem afinidades por aqui com grupos como Teatro de Anônimo (RJ) e Parlapatões (SP) -este criou o espetáculo “O Pior de São Paulo”, um city-tour por “símbolos” da cidade, inspirado em “Bassibus”, projeto de Bassi que ironiza o turismo nas cidades espanholas. 

O bufão, que aos sete anos já se arriscava em números de malabarismo, tem ascendência da sexta geração de uma família italiana de circenses e anarquistas; ainda que tenha nascido em Nova York “por acaso”. Invariavelmente usando paletó e gravata, figurino que destoa da convenção do picadeiro, sem nariz vermelho, Bassi afirma que recorre à ação física, “como convém ao universo circense”, e à projeção de imagens para contar suas histórias. 

Em São Paulo, onde se apresenta a convite do projeto Cena Estrangeira, Bassi resistiu à tradução do texto espanhol. Ele visita o país há cerca de sete anos e crê na capacidade de se comunicar por meio do seu “portunhol”. “Para alcançar a reflexão, a narrativa vai além da palavra”, afirma o palhaço. 



La Revelación
Onde:
teatro Sérgio Cardoso (r. Rui Barbosa, 153, SP, tel. 0/xx/11/3288-0136)
Quando: de hoje a sáb., às 21h; dom., às 18h. Até 2/9 
Quanto: R$ 10

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 27 de agosto de 2007

TEATRO 

Criado há 43 anos, o destacado grupo francês dirigido por Ariane Mnouchkine traz seu novo espetáculo ao Brasil
 

A cia. mostra em São Paulo e Porto Alegre a obra “Les Éphémères” (os efêmeros), na qual os atores surgem em plataformas móveis
 

VALMIR SANTOS
Especial enviado a Avignon (França)

A década atual vai permitindo ao Brasil encurtar distância em relação à obra de alguns encenadores fundamentais da Europa -afinal, é o continente provedor da formação moderna do teatro no país, a partir dos anos 40. Depois dos espetáculos e da presença do inglês Peter Brook e equipe, é vez da francesa Ariane Mnouchkine e o grupo Théâtre du Soleil.

Em 43 anos de atividade, é a primeira vez que o Soleil se apresenta por aqui. Tentava-se trazer o grupo ao país há mais de 20 anos. Mas sempre se esbarrava na falta de dinheiro.

O Théâtre du Soleil encontrará platéias brasileiras e argentinas que sabem mais da máquina de entretenimento do canadense Cirque du Soleil do que sobre as experiências estéticas e o pensamento humanista de Mnouchkine.

Em entrevista à Folha durante o Festival de Avignon, na França, em julho, Mnouchkine, 68, minimiza esse tipo de comparação ou confusão com a trupe de circo. “Isso não se dá só no Brasil, mas em muitos países que visitamos.”

Buenos Aires (4 a 15/9), Porto Alegre (27 a 30/9) e São Paulo (12 a 23/10) receberão a obra mais recente, “Les Éphémères” (os efêmeros), de 2006.

Ao contrário de peças anteriores, que valorizam plasticidade da cena e conteúdo épico para lidar com a realidade (caso da saga de refugiados em “Le Dernier Caravanserail”; 2003), “Les Éphémères” recua no impacto espetacular e se fixa nas emoções particulares que movimentam a roda da história.

O espaço cênico é uma pista ladeada por arquibancadas erguidas uma de frente à outra. Sucedem quadros que vão e vêm no tempo e no espaço das narrativas, momentos de perdas e afetividades vividas por pessoas comuns, anônimos despidos de grandes gestos heróicos (a criação nasce do depoimento pessoal e improvisação do elenco).

Na pista de platéia bifrontal, os atores surgem em pequenas plataformas móveis, circulares ou retangulares. Elas são nichos cenográficos (quarto, sala, jardim, escritório etc.) que giram através das mãos dos próprios atores contra-regras. Mnouchkine evoca a imagem de um planetário, força de gravitação entre pessoas e sentimentos comuns.

O espetáculo legendado poderá ser visto em duas partes, uma por dia, ou em sessões integrais que duram em média oito horas e meia.

Todas incluem o ambiente de um restaurante rústico, um bar. Nele, antes do início e nos intervalos, o público pode comprar e comer pratos com carne e legumes elaborados por alguns dos próprios artistas.

O espírito agregador da comida faz parte da identidade do Soleil. É assim na sede, a Cartoucherie, em Paris. Nas viagens, o grupo procura partilhar essa cultura de teatro. A montagem envolve 61 pessoas, entre atores, técnicos e crianças. 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 27 de agosto de 2007

TEATRO

VALMIR SANTOS
Do Enviado a Avignon (França)

Ariane Mnouchkine é nome catalisador no teatro francês. Basta acompanhar sua presença no Festival de Avignon, há anos um espaço cativo para seus espetáculos e falas públicas. Os espectadores, os artistas e a crítica jamais lhe são indiferentes. Nem ela. 

Uma das fundadoras do Théâtre du Soleil, em 1964, ao lado de amigos estudantes, a encenadora é identificada com as causas socialistas, traduzidas no plano artístico em criações coletivas. Ela já visitou o Brasil em várias ocasiões, participando de conferências. Em “Les Éphémères” (os efêmeros), assume a emoção como vetor para a reflexão. “A emoção não bloqueia o pensamento, faz parte da vida. E o teatro não pode passar ao largo dela.” 

A seguir, trechos do breve encontro com a Folha durante sessão de “Les Éphémères” num parque expositivo de Avignon, no mês passado. (VALMIR SANTOS) 
 

FOLHA – Há uma certa reserva mitificadora em torno de seu nome e do Théâtre du Soleil. O motivo disso seria a manutenção das utopias dos anos 60? 

ARIANE MNOUCHKINE – Existe essa mitificação, mas não é minha culpa. As utopias do grupo são as mesmas, não acabaram. É um sonho de 43 anos, e não significa um sonho nas nuvens. 

Você o vê aqui, feito de muito barulho de panela [olha para a cozinha onde está sentada, nos bastidores, na qual artistas preparam comida], muito trabalho e dificuldade; muita alegria e às vezes um pouco de sofrimento.
 

FOLHA – E a evolução do ponto de vista estético? 

MNOUCHKINE
– Houve mudanças, é claro. Mas penso que o caminho de um grupo de 43 anos é procurar a vida, a verdade. E para isso existem momentos, épocas. É como um pintor que tem um período azul, outro rosa, cada um a seu tempo. Os grupos também têm sua época.
 

FOLHA – Qual o potencial da prática da criação coletiva hoje? 

MNOUCHKINE – Ela se transformou e ficou ainda mais coletiva. Isso é curioso. Antes, quando a encenação não era coletiva, o cenário é que era coletivo. Era coletivo o trabalho de improvisação, os figurinos, mas a encenação não. Agora, mesmo o cenário e a encenação são coletivos.
 

FOLHA – Qual a expectativa em finalmente se apresentar na América Latina, onde a criação coletiva é bem disseminada? 

MNOUCHKINE
– Nem sempre a possibilidade do trabalho coletivo é recíproca. Mas a expectativa é gigante, sim. Foi preciso passar 43 anos para a gente pôr o pé na América Latina.
 

FOLHA – “Les Éphémères” parece valorizar a menor grandeza, os pequenos milagres do cotidiano das pessoas comuns. 

MNOUCHKINE
– Sim. No trabalho de criação a gente procura justamente o pequeno para achar o grande. 

Você tem razão, são pequenos milagres, pequenas gavetas trancadas com as grandes tragédias. Trata dessa coisa enorme que é a vida humana. Mostra o quanto somos semelhantes em muitos momentos.
 

FOLHA – Mesmo abandonando o tom espetacular das montagens anteriores, a sra. acha possível alcançar essa dimensão épica por meio do universo íntimo dos personagens? 

MNOUCHKINE
– Apesar de tudo, tem algo de épico nesse não épico. O épico não é sempre [emite sonoridade onomatopaica para dar noção de grandiosidade]. Mas estou de acordo em ser questionada sobre isso, sobre o sentido real da palavra épico.



O jornalista VALMIR SANTOS viajou a convite do Consulado Geral da França em São Paulo

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 25 de agosto de 2007

TEATRO 

Escola, ONG e Os Satyros unem-se para ocupar novo espaço da Vila Madalena com peça inspirada em livro de Dimenstein
 

Sérgio Roveri e o grupo adaptaram de obra cenas de violências cotidianas, que mostram falta de ética no espaço público

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

A Escola Estadual Carlos Maximiliano Pereira dos Santos, na Vila Madalena, superou recentemente uma crise de evasão. Teria fechado, não fosse a mobilização dos professores. Agora, inaugura seu teatro de 99 lugares, braço do que pretende ser centro cultural, com a peça “Cidadão de Papel”. 

A criação da Companhia Os Satyros é inspirada no livro homônimo, de 1994, do jornalista Gilberto Dimenstein, colunista da Folha, e ocupa o palco do Teatro da Vila, outrora anexo subtilizado da tal escola. 

O dramaturgo Sérgio Roveri adaptou com o grupo variações de violências cotidianas descritas por Dimenstein em sua obra. São temas relativos à falta de ética no espaço público. 

Há quadros como o da madame que pára o carro em fila dupla ao buscar o filho no colégio, o do abuso de autoridade numa batida policial, o da importância do voto consciente, o do aborto na adolescência e o do motorista que fecha os vidros histericamente no semáforo ao menor sinal da aproximação de alguém (para em seguida jogar um toco de cigarro pela mesma janela, sujando a cidade). 

Às vezes, as cenas soam como notícias de jornal, diz Ivam Cabral, que dirige sete atores. Segundo ele, há um mote recorrente na peça: “O que você faz com isso?”, aplicado tanto para exemplos negativos como positivos. O espetáculo circulará por outras escolas ou instituições sociais da região oeste. “Existem coisas ruins na cidade, mas há também gente fazendo coisas bacanas. Como as professoras que batalharam para jogar luz nessa história, junto com a ONG Aprendiz e outros apoiadores. O Satyros foi chamado apenas para somar forças”, diz Cabral, 42. 

O grupo é curador e programador do espaço. As companhias Linhas Aéreas e Atelier de Manufactura Suspeita reestréiam hoje “Aqui Ninguém É Inocente”, com sessões sáb., às 22h, e dom., às 21h (R$ 20). Em paralelo, o Satyros toca suas duas salas da pça. Franlkin Roosevelt, região central, e outra no Jardim Pantanal, São Miguel, zona leste. 



Cidadão de papel
Onde: Teatro da Vila (r. Jericó, 256, tel. 3258-6345) 
Quando: estréia hoje, às 20h; sex. e sáb., às 20h, e dom., às 18h. Até 16/12 
Quanto: R$ 20 

 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 23 de agosto de 2007

TEATRO 

VALMIR SANTOS 
Da Reportagem Local 

Nestes dias de múltiplas opções de espetáculos circenses em São Paulo, há espaço inclusive para a velha-guarda, representada pelo Circo Nacional da China. 

Naquele país, a arte é documentada pelo menos desde a dinastia Qin (221-206 a.C.). 

Em “Natureza” (2005), que tem quatro sessões de hoje a sábado, no Via Funchal, 35 bailarinos, acrobatas ou contorcionistas protagonizam 13 números de exaltação a elementos ambientais e seres vivos. Daí a sugestão imaginária de sapos, libélulas, papagaios e macacos, para citar alguns “personagens” que se movimentam no cenário. 

O diretor artístico Fei Guangsheng, 53, conta que a criação não recorre a imagens projetadas ou ilusionismos. 

A plasticidade da cena nasceria do casamento da ação física dos intérpretes com o desenho de luz. 

“Somos uma companhia considerada jovem e moderna, apesar da forte tradição circense”, diz Guangsheng, que encabeça a segunda turnê no Brasil -a primeira foi em 2004. 

Os artistas do Circo Nacional da China têm entre 18 e 30 anos. São ginastas que treinam desde a infância. Em média, leva-se dez anos para ingressar em um circo estatal -há dezenas deles. O que traz “Natureza” é sediado em Nanquim, cidade do leste do país. 

Para ter idéia do rigor técnico, os 13 atos do espetáculo foram premiados recentemente numa olimpíada chinesa que distingue os melhores da tradição circense nacional. Os artistas conquistaram 11 medalhas de ouro e duas de prata. 

Belo Horizonte

Após a capital paulista, os chineses se apresentam no 4º Festival Mundial de Circo do Brasil, que começa amanhã e dura dez dias, com atrações nacionais e estrangeiras em 19 espaços de Belo Horizonte. 

Também são destaques da programação a companhia belga de circo-teatro Feria Musica e o palhaço norte-americano Avner. O festival faz ainda um seminário internacional com escolas de circo. Mais informações no site www.fmcircodobrasil.com.br



Natureza
Quando: estréia hoje, às 21h; amanhã, às 21h; e sáb., às 16h e 21h; até sábado 
Onde: Via Funchal (r. Funchal, 65, Vila Olímpia, tel. 3188-4148) 
Quanto: de R$ 40 a R$ 150 

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 07 de agosto de 2007

TEATRO 

Peça, que estreou no Rio em março, conjuga dor e solidão sem perder o humor
 

Diretor evoca mãe morta recentemente na peça que estréia hoje em São Paulo; montagem faz dobradinha com “Terra em Trânsito”
 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

 

Um Gerald Thomas com paciência de pedagogo conversava com cerca de 30 pessoas na sexta passada, em São Paulo, no curso onde fala sobre sua concepção do trabalho de ator. “Em vez de perder tempo tomando chope, vá ler Schopenhauer”, diz Thomas, 53, aos que costumam afogar crise existencial em mesa de bar. 

O diretor que cita Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo de visão niilista, também relaciona “solidão” e “dor” ao menos quatro vezes durante o encontro no mesmo prédio do Sesc Anchieta, teatro em que apresenta a partir de hoje “Rainha Mentira/Queen Liar”. 

A peça curta, que estreou no Rio em março, faz sessões dobradas com “Terra em Trânsito”. O solo de Fabiana Gugli, da tetralogia “Asfaltaram a Terra” (2006), surge em “versão .2, como “M.O.R.T.E. 2′”, segundo o diretor, por causa de mudanças introduzidas após apresentações cariocas e nova-iorquinas. 

Thomas concorda que “Rainha Mentira” é exemplo de que solidão e dor são conjugadas em sua obra sem prejuízo do humor, desde a primeira criação, aos 19 -ele estima ter dirigido 78 peças ou óperas. 

Sua mãe morreu em agosto passado. Ele não pôde ir ao enterro. Pediu a Gugli que lesse uma carta na cerimônia. Esse depoimento é base da dramaturgia, misto de ficção e realidade em que lembra a traumática relação da mãe com a avó, por exemplo, mas também quer dar notícias do que tem sido a pulverização de tragédias como a do Holocausto. 

“Por favor, se interesse um pouco pela história da humanidade, ela não começou ontem”, diz Thomas no workshop. 

À Folha ele afirma que o estado de solidão “é absolutamente necessário”, um alerta para ser e estar no mundo. Como no fluxo de consciência das peças, ele vai a Samuel Beckett, sua bússola: “Falhar. Falhar de novo. Falhar melhor”.



Terra em trânsito e Rainha mentira/Queen Liar
Onde: teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 0/xx/11/3234-3000) 
Quando: estréia hoje, às 21h; ter. qua., às 21h. Até 29/8 
Quanto: R$ 5 a R$ 15 

Folha de S.Paulo

Tenda dos milagres

2.8.2007  |  por Valmir Santos

São Paulo, quinta-feira, 02 de agosto de 2007

TEATRO 
Grupo Galpão celebra 25 anos com “Pequenos Milagres”, peça baseada em relatos de pessoas comuns


VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

O médico homeopata João Celso dos Santos, 58, é o mais velho de nove irmãos. Em meados dos anos 60, um deles, Tarcísio, tinha 11 anos quando tomou um ônibus sozinho na rodoviária de Belo Horizonte rumo a São Paulo. Carregava uma sacola.

Dentro dela, bem embrulhada, a cabeça cortada de um cachorro que havia mordido alguém da família. Suspeitava-se de raiva. A missão do moleque era entregar a “encomenda” a um tio que trabalhava num cartório na Sé e despachá-la para a Vigilância Sanitária.

Os desdobramentos dessa aventura são contados no novo espetáculo do Grupo Galpão, o drama “Pequenos Milagres”, que estréia temporada paulistana amanhã no Sesc Anchieta, em montagem do diretor convidado Paulo de Moraes (da Armazém Cia. de Teatro).

“Cabeça de Cachorro” é a história que abre a noite e que vai costurando outras três narrativas -selecionadas entre 550 cartas enviadas à campanha “Conte Sua História”, lançada no ano passado pelo Galpão para subsidiar o texto com o qual comemoraria seus 25 anos.

“Mandei oito histórias da família. Sete falavam de mim, e a oitava era essa, do meu irmão. Na verdade, quem cortou a cabeça do cachorro foi outro irmão, mas a dramaturgia achou mais interessante atribuir a ação a meu pai, morto há 40 anos. Apesar de inusitado, aconteceu de verdade”, diz o médico Santos, morador do arraial de Macacos (MG). “Assisti ao espetáculo cinco vezes [no Cine Horto, em Belo Horizonte]. Fiquei bastante emocionado. O Galpão mostra que a arte está ao alcance de todos.”

Em busca de homens e mulheres protagonistas ou testemunhas de passagens “milagrosas”, Galpão e Moraes conjugaram ainda as memórias de um velho expedicionário que perdeu um amigo no front em “O Pracinha da FEB”, inspirado em texto da atriz Thereza Alvarenga, 58; a mulher que acalenta por 20 anos o seu objeto do desejo em “O Vestido”, da galerista Maristela de Fátima Carneiro, 53; e o desmonte de uma relação em “Casal Náufrago”, depoimento cujo remetente preferiu o anonimato.

“Nosso desafio era como nos apropriar das histórias, mexer, criar estruturas narrativas, personagens, situações, enfim, transformar isso numa dramaturgia e contar as coisas com a linguagem do teatro”, diz Maurício Arruda Mendonça, 43, co-autor da peça com o próprio Moraes, 42. O diretor diz que evitou o ilusionismo o mais que pôde. “Não queríamos cair na cilada de pôr em cena somente os relatos positivos.” Como ele, o grupo afeito à farsa quer enfrentar as dores em bases mais realistas. 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 02 de agosto de 2007

TEATRO 

Eduardo Moreira, um dos fundadores do Galpão, lembra os desafios da companhia mineira, que chega agora à 17º peça
 

De viagens a bordo de duas Brasílias até a miniatura do ônibus de “Pequenos Milagres”, grupo percorreu 38 cidades no Brasil e 17 países

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Para o ator Eduardo Moreira, 46, um dos fundadores do Galpão em outubro de 1982, completar 25 anos de grupo não deixa de ser um “milagre”.

“É muita estrada e com grandes problemas, em especial nos primeiros anos. A tentativa de consolidar um grupo, trabalhando com alguma clareza e muita precariedade, como então trabalhavam 99% dos artistas no país; se considerar tudo o que passamos, isso [as bodas de prata] é mesmo um milagre”, diz. Moreira é dos mais ativos narradores de memórias no blog do elenco, em www.grupogalpao.com.br/blog.

Das viagens iniciais a bordo de duas Brasílias, a de Moreira e a do colega Chico Pelúcio, passando pela Veraneio transformada em palco em “Romeu e Julieta” (1992), até a miniatura do ônibus do moleque de “Cabeça de Cachorro”, em “Pequenos Milagres”, o 17º espetáculo, o Galpão já rodou por 38 cidades brasileiras e 17 países.

A vocação mambembe permanece, mas amadureceu. Sobretudo a partir de 2000, quando o coletivo conquistou patrocínio exclusivo da Petrobrás (R$ 2,7 milhões/ano), o que passou a garantir produção das peças, turnês, remuneração da equipe, manutenção da sede, comprada em 1989 etc.

Há ainda um segundo braço, o centro cultural Cine Horto, na mesma rua Pitangui da zona leste da capital mineira, aberto em 1998 e mantido por lei de incentivo (Usiminas e Cemig, cerca de R$ 1 milhão em 2006).

Uma das características do Galpão é que se trata de um núcleo de atores; não gira em torno de um diretor. Ora um deles assume a função, ora esta é delegada a um convidado, como Eid Ribeiro, Cacá Carvalho, Paulo José e Gabriel Villela -este dirigiu “Romeu e Julieta”, exibida inclusive no Globe Theatre de Londres (2000).

Curiosamente, Villela está em cartaz no Sesc Santana com “Salmo 91”, espetáculo do qual faz parte um dos 13 atores associados do Galpão, Rodolfo Vaz, que não participa da nova montagem. (Para completar as artes cênicas mineiras na cidade neste mês, o Grupo Corpo apresenta sua nova coreografia, “Breu”, no teatro Alfa.)

Moreira e Pelúcio atuam ao lado de Antonio Edson, Arildo de Barros, Beto Franco, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André e Simone Ordones. Com eles, o diretor Paulo de Moraes, convidado da vez, incorpora bagagem dos 20 anos da Armazém Cia. de Teatro, nascida em Londrina e radicada no Rio.

“O teatro no Brasil mudou muito nos últimos 20 anos. Incluindo o gosto do público. Os grupos fizeram um trabalho de formação de platéia, mais disposta a diálogos com produções sofisticadas em relação ao pensamento, um dos princípios do teatro feito em grupo”, diz Moraes.