Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.
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28.6.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 28 de junho de 2007
TEATRO
Atriz volta a SP com peça de Flavio de Souza que marcou sua estréia no palco, há 18 anos
Montagem tem direção de Walter Lima Jr. e Murilo Benício como o morto que passa a limpo relação com viúva durante velório
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
A atriz Marisa Orth tinha 25 anos quando estreou profissionalmente no palco, num teatro que se chamava Igreja, no Bexiga, em São Paulo. Fazia o papel de uma viúva na noite do velório do marido -estirado na cama, e não no caixão, encostado no corredor da casa. Afinal, era e é uma comédia mais sobre a alcova do que sobre o além. Orth, 43, volta a “Fica Comigo Esta Noite”, de Flavio de Souza, que a dirigiu em 1988. A nova montagem é assinada por Walter Lima Jr., cineasta recém-chegado ao teatro.
Estreou no Rio em 2006, girou por vários Estados e cumpre temporada em São Paulo a partir de amanhã, no Teatro Folha.
A intérprete da viúva diz que amadureceu com as experiências desses 18 anos; ela, que se tornou uma celebridade de novelas, programas humorísticos e capas de revista masculina. “Hoje, minha idade é mais próxima à da viúva. Antes, era difícil imaginar uma mulher que tivesse vivido um casamento de mais de dez anos, sofrido desgastes. Eu era muito nova, não tinha subsídios para falar de amor e de morte”, diz Orth.
No final dos anos 80, ela freqüentava o underground com a banda Luni, ao lado de Théo Werneck, Natália Barros e outros. Emendou depois com a banda Vexame. A carreira logo virou revezamento entre música, teatro, TV e cinema. De volta ao cartaz em um palco da cidade onde nasceu, Orth atribuiu sua revelação, na época, à qualidade do texto de Souza. Aquela versão era praticamente um monólogo. O defunto, interpretado por Carlos Moreno, tinha menos peso nas falas e ações. Agora, a atriz contracena com Murilo Benício.
Foi com a produção carioca de 1990, dirigida por Jorge Fernando e interpretada por Débora Bloch e Luiz Fernando Guimarães, que Souza consolidou a dramaturgia. “Uma comédia de velório”, como brinca Orth. Ou uma “comédia dramática”, como prefere o autor. Ela é uma dona de casa que nunca saiu do bairro onde nasceu. O clímax de sua vida foi o casamento. Ele, funcionário de uma firma medíocre, teve o ápice da existência na morte. Na peça, os personagens atravessam presente e passado.
A viúva é a interlocutora das pessoas invisíveis que dão as caras na noite: o chefe dele, as moças do escritório, o padre, a vizinhança, os parentes etc.
O espectador é cúmplice das falas-pensamentos do morto, que levanta da cama e circula para lá e para cá. “Faz tempo que morri. Olha, estou com o terno novo. De gravata. É a mesma do casamento. O quarto está cheio de gente. Não me puseram na sala. Ela não quis”, diz ele, em tom confessional.
No princípio, ela não ouve as intervenções do “espírito”. Até que, na segunda parte do espetáculo, numa atmosfera de sonho, eles ficam sozinhos (todos são expulsos da casa). Finalmente, entabulam uma conversa e acertam as contas na cerimônia particular de adeus. “Apesar de certas passagens patéticas, a comédia emociona, faz o público sair do teatro e pensar sobre relações, despedidas, tempo perdido”, diz Orth.
São Paulo, quarta-feira, 27 de junho de 2007
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Artistas e produtores, de um lado, e Secretaria Municipal da Cultura, de outro, enfrentam-se por conta do 11ª edital do Programa de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. A Cooperativa Paulista, que representa mais de 90% dos grupos, pede alterações na lei assinadas em maio pelo secretário Carlos Augusto Calil, sobretudo quanto à obrigatoriedade de prestação de contas dos selecionados.
“Qual o problema em prestar contas? Tenho certeza de que a cooperativa é idônea”, diz Calil. Ele afirma que é determinação da Constituição Federal e da Lei Orgânica do Município. Até então a Lei de Fomento pedia a justificação de despesas por meio de relatório de atividades e de processo de espetáculo. Segundo a cooperativa, as novas exigências tornarão o processo mais burocrático.
Calil admite erros apontados no edital lançado, como o do valor máximo que poderá ser concedido a cada projeto (até R$ 577 mil, e não R$ 543 mil). Para corrigi-los, prorrogou o prazo de inscrições por um mês, até 23/7, mas resiste em voltar atrás quanto à prestação de contas.
Na manhã de anteontem, cerca de 200 artistas se manifestaram em frente à sede da secretaria, na Galeria Olido. Ney Piacentini, presidente da cooperativa, entregou a Calil carta em que relata insatisfação com “equívocos” e “abusos”.
Piacentini afirma que a lei, implantada há cinco anos, é auto-regulamentada e que nem os artistas, nem o Legislativo, teriam sido chamados para discutir as mudanças.
Nova reunião do secretário com artistas e produtores está prevista para hoje à tarde na SMC. O programa de fomento apóia a manutenção e criação de trabalho continuado de pesquisa e produção teatral. São dois editais por ano, uma composição de verba de cerca de R$ 9 milhões.
São Paulo, quinta-feira, 21 de junho de 2007
TEATRO
VALMIR SANTOS
Enviado especial a Praga
Entre 55 países, Brasil e Rússia coincidiram ao escolher dramaturgos de peso como eixo de suas exibições na 11ª Quadrienal de Praga (República Tcheca), que termina domingo. Na confluência da palavra para o desenho de cena, porém, Anton Tchecov se saiu melhor que Nelson Rodrigues, conforme o júri.
No início da semana, artistas da Rússia conquistaram o troféu mais importante do encontro, pelo tratamento dado ao tema. Triunfaram sobre o uso duvidoso de tecnologias e o pendor institucional de boa parte das representações nacionais. Por 11 dias, estandes que exibem a produção contemporânea em palcos e espaços alternativos ocupam o salão central do Palácio Industrial.
A PQ (sigla da Quadrienal) nasceu há 40 anos sob influência da Bienal de Artes de SP, que dedicava espaço ao teatro. O encontro se propõe a incentivar a formação e acolher tendências da criação e pesquisa em cenografia, figurinos e arquitetura e tecnologia para teatro.
O estande brasileiro não decepciona dentro do que se propõe. A estrutura de ferro em espiral, co-criação de Daniela Thomas, permite ao visitante experimentar ascensão e queda ao percorrer imagens em vídeo e fotos de montagens, pontuadas por frases de Nelson Rodrigues.
O problema talvez seja esse: a palavra rouba a cena. Não por acaso, o curador da exibição brasileira, o ator Antônio Grassi, distribuiu no local 900 livros da edição inglesa do autor publicada pela Funarte em 1998. O órgão do MinC, que Grassi presidia até 2006, investiu cerca de R$ 800 mil. Foi a verba mais robusta em participação brasileira. Desde 1967, nunca tantos profissionais ou estudantes brasileiros foram a Praga (cerca de 30), a maioria às próprias custas, em busca de aperfeiçoamento.
Na seção de arquitetura e tecnologia, tampouco a mostra com maquetes e desenhos de obras de Niemeyer, “escondida” na ponta do espaço expositivo, convenceu o júri. Aliás, não houve premiação em arquitetura. Ao evocar Tchecov, a Rússia dá sentido orgânico à dramaturgia e ao espaço. Observada nos estandes da PQ, a cenografia até pressupõe certa autonomia, mas incorre em armadilha, posto que só ganha “corpo” quando encontra o ator, a luz, o som etc.
O atual espírito pantanoso da Rússia é esculpido em maquetes sobre pratos, cadeiras, gaiola; enfim, suportes frágeis diante do peso da existência. Goteiras, piso encharcado e botas de borracha sugerem, quem sabe, o drama de um país em xeque.
O jornalista VALMIR SANTOS viajou a convite da Funarte/ MinC.
14.6.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 14 de junho de 2007
TEATRO
Beatriz Azevedo assina a peça “Matamoros [da Fantasia]”, adaptação do texto da poeta que começa temporada em SP
Elenco tem Sabrina Greve como protagonista e Maria Alice Vergueiro como mãe; peça se baseia no livro “Tu Não Te Moves de Ti”
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Ainda adolescente, “descabelada”, a poeta Beatriz Azevedo ganhou o livro “Tu Não Te Moves de Ti” das mãos da própria Hilda Hilst (1930-2004). “Ali estava “Matamoros, da Fantasia”. Este vertiginoso texto em prosa poética foi meu ponto de partida no universo literário de HH”, escreve ela no programa da sua adaptação teatral que pré-estréia hoje para convidados no Centro Cultural Banco do Brasil. A temporada começa amanhã.
“Matamoros [da Fantasia]” é um espetáculo que reaproxima Beatriz do teatro. Nos anos 90, ela levou Oswald de Andrade, Maiakovski e outros para a cena, sempre em interseção com outras expressões artísticas, como agora: a música, as artes plásticas e o vídeo.
“O teatro é lugar privilegiado para a palavra da Hilda. Ela é eloqüente, não é para ler em casa, aquela literatura intimista, não”, afirma Beatriz. Para protagonizar a trajetória de Matamoros, menina nascida numa aldeia longínqua, que cresce vigiada pela mãe por travar experiências sensoriais com a natureza (dialogando com o “corpo da água”, bebendo o vinho das frutas carnudas, embriagando-se com o vermelho dos morangos), a diretora usa o mesmo ímã de Hilst e traz de volta ao palco Sabrina Greve, atriz formada com Antunes Filho e há quatro anos dedicada ao cinema e à televisão.
“A Matamoros tem um percurso a cumprir e se deixa levar pela fantasia, não discerne a realidade, parece criança”, diz Sabrina. “Começa a alimentar uma desconfiança com a mãe e dá vazão a pensamentos livres.
Age e sofre muito por isso.” A personagem é movida pela curiosidade e atiça os meninos da aldeia. Ela contracena com a mãe Haiága (Maria Alice Vergueiro), com quem trava duelos verbais, ameaçando matá-la ou matar-se. Junto desse diálogo de gerações, Maria Alice se diz estimulada. “Como eu tenho filha e mãe, estou dando uma mergulhada nessa minha relação também. E começo a perceber que tem algum denominador comum, essa história de passar o bastão, por exemplo.”
13.6.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 13 de junho de 2007
TEATRO
Principal evento mundial de cenografia, Quadrienal começa amanhã na República Tcheca
Por três vezes curador do Brasil na mostra, J.C. Serroni agora faz parte do júri; Daniela Thomas co-desenha estande brasileiro
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) e o arquiteto Oscar Niemeyer, 99, são homenageados na representação brasileira da 11ª Quadrienal de Praga (PQ, na sigla original). A exposição abre amanhã no Palácio Industrial, complexo em estilo art noveau construído em 1891 na capital da República Tcheca. A cada quatro anos, e há quatro décadas, o encontro internacional projeta tendências na criação e pesquisa em cenografia, figurinos e arquitetura para teatro.
O universo das peças e crônicas de Nelson inspira trabalhos exibidos nas seções nacional (destinada à cenografia e a figurinos de espetáculos) e escolas de cenografia (projetos de estudantes). Niemeyer comparece no terceiro módulo do evento, o de arquitetura teatral. Leva quatro concepções de palcos italianos (Niterói, Duque de Caxias, parque Ibirapuera e Avilés, na Espanha) caracterizados por uma segunda boca de cena ao fundo, que se abre para uma praça ou um parque.
O Brasil mantém forte vínculo com o evento. As representações da antiga Tchecoslováquia na Bienal Internacional de São Paulo (1957, 1959 e 1965), encabeçadas por artistas como Frantisek Troster e Josef Svoboda, foram determinantes para a Quadrienal de Praga vir à luz em 1967. A PQ atravessou a cortina de ferro e a dissolução da URSS e alcança os 40 anos como única plataforma do gênero na contemporaneidade.
O arco de participações históricas vai da vanguarda do polonês Tadeusz Kantor ao surrealismo do espanhol Salvador Dalí. Entre os brasileiros, erguem-se duas pilastras: o carioca Helio Eichbauer, que estudou nos anos 60 em Praga com Svoboda (1920-2002), de quem tornou-se discípulo, e o paulista J.C. Serroni, por três vezes curador do país e, agora, integrante do júri internacional. A mostra é competitiva e já premiou, além do próprio Serroni, trabalhos de Gianni Ratto, Fábio Penteado, Daniela Thomas (que co-desenha o estande brasileiro), José de Anchieta, Edson Elito e outros.
Ao contrário de edições anteriores, este ano a organização não estabeleceu tema comum. Cada país cura o seu. O ator Antonio Grassi assina a representação brasileira, que organiza desde 2004, e põe em relevo sobretudo Nelson para o mundo ver.
Grassi é ex-presidente da Funarte, órgão do Ministério da Cultura que investe cerca de R$ 800 mil no encontro.
A coordenadora da PQ, Daniela Parízková, fala em “laboratório vivo” das artes cênicas. “Esperamos ver um mosaico de culturas e diferentes temas”, afirma. Ao todo, 55 países expõem na seção cenografia e figurinos; 40 em escolas de cenografia; e 25 em arquitetura e tecnologia para teatro.
9.6.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, sábado, 09 de junho de 2007
TEATRO
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Paulista radicado no Rio, Caio de Andrade, 45, escreve para teatro desde o início da década. Suas peças apresentam pano de fundo histórico. É o caso de “Trindade”, primeiro texto em palco paulistano, sob direção do próprio, a partir de hoje no teatro Aliança Francesa.
O contexto é o da disputa entre os segmentos civil e militar no início da República. Em 1909, a sucessão presidencial é disputada pelo marechal Hermes da Fonseca e pelo escritor Rui Barbosa, derrotado.
“Era um momento de confusão política, vários poderes tentavam se estabelecer. Era a chance para falcatruas”, diz Andrade. Espetáculo carioca de 2004, remontado para a nova temporada, “Trindade” põe em relevo o drama do jovem médico Emílio (Pedro Neschling).
Criado pela família de um general (Luciano Chirolli), o rapaz se depara com o pai natural (Guilherme Leme), que dava por morto. Sabe-se depois, virou militante da causa operária. Encontros clandestinos expõem os conflitos. Para Andrade, a configuração é brechtiana, à la “O Círculo de Giz Caucasiano”, que põe em xeque os direitos da mãe que dá à luz sobre aquela que cria.
“O personagem vive o dilema entre o general que o criou e o pai que foi lutar por um mundo melhor. Estão em jogo também os limites que a história impõe a cada pessoa”, diz o autor. Chirolli, 45, ilustra o assunto com uma citação de Sartre: “Você é aquilo que você faz do que fizeram de você”.
Para Leme, 46, que vive o pai em identidade dupla, a peça constata que transformações se dão a partir do questionamento individual da ordem e das instituições. A Neschling, 25, coube estabelecer a trilha, angústia juvenil sintonizada em bandas como Muse e Radiohead.
6.6.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, quarta-feira, 06 de junho de 2007
TEATRO
De hoje a 23/6, evento paranaense recebe 42 espetáculos vindos de nove países
A companhia experimental Big Dance Theatre é uma das atrações inéditas; evento também inclui nova peça do Grupo Galpão
VALMIR SANTOS
Da Reportagem local
O espectador de Londrina, no norte paranaense, é ensinado a olhar o teatro e a dança com abertura e criticidade raramente encontradas em outras platéias do Brasil. São 39 anos de formação, desde a primeira edição do encontro universitário de grupos, no emblemático 1968, até a consolidação do Festival Internacional de Londrina, em 1988.
A edição do Filo que começa hoje e prossegue por 18 dias, até 23/6, é representativa dessa exigência na recepção. São 42 peças com os mais variados formatos: o drama clássico, o teatro de bonecos, de objetos, de sombras, de animação e de rua, passando por dança contemporânea, intervenção aérea, circo, mágica e música.
Quem abre o festival esta noite, no Teatro Ouro Verde, é a companhia colombiana de dança contemporânea L’Explose. Em “La Mirada del Avestruz”, nove personagens se desprendem de seus limites físicos e simbólicos num espaço cênico coberto de terra. A montagem dirigida por Tino Fernández quer remeter à dimensão da memória e à recuperação de uma história coletiva. A proposta é fazer uma reflexão sobre a realidade do país e seus entraves sociais e políticos.
Ao enfiar a cabeça no buraco, o avestruz foge de seus temores. É a metáfora da criação de Fernández para questionar formas de violência na atualidade -eixo efetivamente explosivo com o qual a L’Explose lida artisticamente desde sua fundação, em 1995.
A Colômbia é única representante da América do Sul, exceção óbvia do Brasil, o que contrasta com edições anteriores em que o Filo deu mais ênfase à produção vizinha. Entre os nove países da programação deste ano, prevalece o recorte europeu (Espanha, Suíça, França, Inglaterra, Bélgica e Rússia). A América do Norte é representada por México e EUA.
Pequenos milagres
É justamente americana uma das atrações inéditas em solo brasileiro: a companhia experimental Big Dance Theatre, nascida em Nova York em 1991. Assinada pela dupla Paul Lazar e Annie-B Parson, a coreografia “The Other Here” (o outro aqui) mescla dança, teatro e desenho visual com inspiração nas histórias clássicas do escritor japonês Masuji Ibuse (1898-1993).
Outro destaque é o grupo russo Derevo (árvore), fundado em 1988 pelo ex-integrante de banda de rock Anton Adassinski. Já conhecido de apresentações na própria Londrina e em São Paulo (por onde passa antes do Filo, de 14 a 17/6, no teatro Sérgio Cardoso), desta vez o coletivo traz “Ketzal” (mítica entidade voadora presente na tradição indígena mexicana), com a promessa de repetir impacto na expressão corporal.
A nova montagem do Grupo Galpão, “Pequenos Milagres”, também participa do Filo. E com a deferência de duas “pratas da casa” na criação, o diretor Paulo de Moraes (que fundou na cidade a Armazém Companhia de Teatro, em 1987, hoje radicada no Rio) e o poeta e dramaturgo Maurício Arruda Mendonça.
Ao todo, foram selecionados espetáculos de sete Estados. O diretor do festival, Luiz Bertipaglia, estima que as 102 atrações da grade, entre palco e rua, devam atrair cerca de 100 mil espectadores. O orçamento é estimado em R$ 1,8 milhão.
4.6.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, segunda-feira, 04 de junho de 2007
TEATRO
O Teatro Negro de Praga reúne seus melhores e mais divertidos números em espetáculo comemorativo dos 45 anos
Companhia do diretor e fundador Jirí Srnec faz três apresentações em São Paulo, fundindo música, mímica e artes visuais
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
Aos 45 anos, a companhia tcheca Teatro Negro de Praga é referência internacional na criação de formas animadas para o palco. O seu diretor artístico e fundador Jirí Srnec, 75, está de volta ao país com uma espécie de “pot-pourri” de sua trupe.
Em “O Melhor do Teatro Negro”, de hoje a quarta-feira no Citibank Hall, em São Paulo, estão reunidos nove esquetes fundamentais da trajetória do grupo.
Segundo Srnec, que é formado em música, artes gráficas e teatro, os quadros sintetizam a linguagem que não faz uso da palavra. São baseados na mímica e na releitura do milenar teatro de sombras chinês.
No fundo preto do palco, com atores/bailarinos/mímicos visíveis ou ocultos, também eles vestidos de preto, estão em jogo silhuetas, luzes fluorescentes e objetos. A meta é compor narrativas com ênfase na plasticidade e no ritmo musical, cuja concepção também está a cargo de Srnec.
“O efeito do truque não é o elemento principal, mas o meio para alcançar a metáfora dramática”, diz o diretor. O desafio é organizar essa “brincadeira” diante dos olhos do espectador. Para ilustrar, diz que os atores são como cartunistas a desenhar e depois desmanchar imagens em cena.
Os quadros
“O primeiro esquete é “A Lavadeira”, nossa obra mestra em 46 anos de história. O enredo é muito simples: duas calças lutam para conquistar o estranho amor da mulher [que as pendura no varal]”, diz Srnec.
Ele diz que não imaginava que aquele quadro, esboçado em 1959 e estreado oficialmente em 1961, cujo mote é a situação de uma mulher estendendo roupas numa manhã de verão, marcaria o início de toda a viagem artística do Teatro Negro de Praga.
Em “O Fotógrafo”, um soldado e seu criado se enamoram da mesma moça, triângulo inspirado na linguagem do cinema mudo de Charlie Chaplin e Buster Keaton.
“As Malas”, que estreou no Festival Internacional de Edimburgo, na Escócia, em 1962, trata de dois homens que se julgam felizes justamente por não terem posses. Até um deles surgir com uma mala pequena e o outro, com uma bem maior, instaurando uma competição.
“O Violinista” é uma performance sobre um músico que tem problemas para começar a tocar seu instrumento. Tudo parece conspirar contra ele.
Em “Os Faróis”, o protagonista é um inventor que cria uma poção com a qual pensa que poderá voar. Mas ele a toma em excesso e o efeito reverte para a embriaguez.
E por aí vão os nove atos. “O espetáculo é cheio de humor. Pode-se assistir a nove exemplos de nosso trabalho nesses 46 anos. São performances ideais para a família inteira. Trazemos esse roteiro aos países latino-americanos porque vocês adoram se entreter com humor”, diz Srnec.
A companhia faz turnês pela região desde a década de 1970. A primeira vez no Brasil foi em 1980, em São Paulo.
A última foi há três anos, com “Peter Pan”, criação motivada pelo centenário do personagem, um menino que se recusa a crescer, da obra do dramaturgo e novelista escocês James M. Barrie.
31.5.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, quinta-feira, 31 de maio de 2007
TEATRO
“Álbum de Família”, que tem pré-estréia hoje, ficou proibida entre 1946 e 1965
Denise Weinberg, Cacá Amaral e Ângela Barros encabeçam o elenco do espetáculo, que abre temporada amanhã em SP
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
“Se Nelson estivesse vivo, acho que ele cometeria haraquiri.” Às vésperas da estréia de “Álbum de Família”, sua quarta interpretação de Nelson Rodrigues (1912-1980) no teatro brasileiro, Denise Weinberg, 51, fala das “distorções” de época. Em 1945, a tragédia que desnuda o tabu do incesto escandaliza “a sociedade de valores”. “Álbum…” permaneceu interditada pela censura entre 1946 e 1965. Acusações: “incesto demais”, “incapacidade literária”, “morbidez”, “sacrilégio” etc.
Paradoxalmente, a atriz reclama da falta de valores. “Hoje, não somos imorais, mas amorais no desejo, na utopia.” “O barato agora é não ter desejo. Ficar significa não ficar. Compromisso não existe. O desejo foi retirado da sociedade porque se pode comprar uma lancha, uma casa, uma mulher, um pau. Virtualmente faz-se de tudo. Não é questão de moralismo, mas de valores”, afirma.
Ela, Cacá Amaral e Ângela Barros encabeçam o elenco de dez atores no espetáculo que estréia hoje para convidados e abre temporada amanhã no Sesc Anchieta (SP). A direção é de Alexandre Reinecke. Desejo e fé são duas molas mestras em “Álbum de Família”, das peças menos montadas do autor. O grupo Galpão (MG) passou por ela em 1990, numa encenação de Eid Ribeiro.
Os mitos gregos de Édipo e Electra se dão as mãos aqui. Mãos duplas nas obsessões amorosas de mãe-filho e pai-filha. Numa fazenda de interior, Jonas (Amaral) é o patriarca que abusa de adolescentes com a desculpa de não chegar aos finalmentes com a filha Glória, que também deita olhos de paixão nele e ainda vive um namoro lésbico na escola. Tudo sob o consentimento de Dona Senhorinha (Weinberg), dublê de mulher e mãe, como diz o Speaker, debochada voz da espécie de “opinião pública” que pontua os diálogos.
Senhorinha, por sua vez, é atraída por um dos filhos, que enlouquece e vai viver nu no mato, feito bicho. Um segundo filho deixa a mulher por causa do seio da mãe. Um terceiro canaliza tudo para Glorinha, o “anjo de estampa”, a ponto de castrar-se para não ameaçar a virgindade dela. O desfecho virá com suicídio e assassinatos. “O “Álbum” é uma tragédia atual, brasileira e universal. Vivemos abusos em todos os sentidos, do incesto ao canibalismo. Pioramos sensivelmente. É um [estágio de] animalismo colossal”, diz Weinberg. Não por acaso, Jonas, santificado e odiado entre aquelas paredes, associa as mulheres a porcas. “A história também trata do poder dessa espécie de coronel do interior que faz o que quer”, diz Reinecke, 37.
Peças míticas
Não há vestígios de lei, de realidade. Afinal, é a peça com a qual Nelson Rodrigues pisa o território mítico, como classificou o crítico Sábato Magaldi. Ou “teatro desagradável”, como pontificou o autor, sempre direto, “porque são obras pestilentas, fétidas, capazes, por si sós, de produzir o tifo e a malária na platéia” -escreveu em 1949 na revista “Dionysos”.
Curiosamente, São Paulo é revisitada recentemente pelas outras peças míticas do dramaturgo, como a releitura do alemão Frank Castorf para “O Anjo Negro”, a encenação de Brian Penido Ross para “Dorotéia” e o retorno de Antunes Filhos a Nelson com “Senhora dos Afogados”, prometida para breve. “A ironia é que “Álbum…” se passa numa elite latifundiária, com valores dela. Não atinge o operário, mas o status quo, sob o domínio do qual ainda vivemos”, diz Ângela Barros, 51, que faz a tia solteira Rute.
27.5.2007 | por Valmir Santos
São Paulo, domingo, 27 de maio de 2007
TEATRO
Cia. levanta questões atuais ao levar à cena julgamento da trilogia de Ésquilo
Companhia completa dez anos e, sob direção de Marco Antonio Rodrigues, retoma idéia antiga de encenar texto grego do século 5 a.C.
VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local
O Folias d”Arte chega aos dez anos como no início: em crise. E isso é bom. Empurra o grupo para um antigo projeto: levar à cena uma obra-prima da tragédia grega, a trilogia “Orestéia”, de Ésquilo, que estreou nesta semana no galpão de Santa Cecília (região central).
Escritas e apresentadas conjuntamente pela primeira vez no século 5 a.C., as peças “Agamêmnon”, “Coéforas” e “Eumênides” foram encenadas no século 20 pelo alemão Peter Stein e pela francesa Ariane Mnouchkine, para citar dois nomes. No Brasil, a iniciativa é rara. Conta-se uma releitura por Cristiane Paoli-Quito e sua Troupe de Atmosfera Nômade, em 1993, mas nada equivale à aventura na qual o Folias embarca, de quinta a domingo, durante três horas e meia.
A “Orestéia” narra a saga dos Atridas, desde a partida do rei Agamêmnon para a conquista de Tróia até o julgamento de Orestes em Atenas, pela morte de sua mãe, Clitemnestra.
Compreende o período de constituição do Estado grego e sua passagem do matriarcado ao patriarcado. O julgamento de Orestes por um tribunal formado por cidadãos estabelece a justiça dos homens em substituição à dos deuses.
O Folias toma o fórum arquetípico do Ocidente, acusação-defesa, para questionar a si próprio, a arte do teatro na sua cidade e a história recente do país. Para o diretor Marco Antonio Rodrigues, o mesmo da bem-sucedida tragédia “Otelo” (2003), de Shakespeare, um dos desafios em Esquilo é dar conta da questão dialética.
“A gente está acostumado a uma moralidade epicurista, positivista, cristã, de sim e não, de preto e branco. A leitura do simbólico está desmontada em todos os níveis. É isso que permite colocar Racionais MC’s no meio da madrugada na praça da Sé e depois dizer que [a violência] é coisa de crioulo, de pobre. É isso que permite trocar Fernando Henrique por Lula e tudo continuar na mesma”, diz Rodrigues, 51.
Na adaptação do dramaturgo Reinaldo Maia, há correlações com a memória brasileira, pistas para situar o espectador.
“Agamêmnon”, de estrutura trágica pura, travessia mais difícil, evoca os anos 50 e 60, quando se instala a ditadura em nome da democracia.
“Coéforas”, um “drama trágico”, segundo Rodrigues, é o momento da luta pela restauração da democracia e volta dos exilados. Após o intervalo, “Eumênides”, uma “comédia trágica”, corresponde ao processo político que promete a liberdade, a restauração do poder ao povo, mas consagra “esperteza” das elites, no dizer do diretor.
Atílio Beline Vaz, Carlos Francisco, Dagoberto Feliz, Nani de Oliveira, Patrícia Barros e mais sete intérpretes mergulham em teatralidade radical, como a Folha viu no ensaio, até para expor armadilhas do ilusionismo dramático.
“E para que serve o teatro, senão para afundar o pé em algumas coisas? Do ponto de vista das outras técnicas reprodutivas, essa possibilidade fica mais contida, por causa das exigências industriais. Se a gente detém os meios de produção, o mínimo a fazer é falar daquilo que sofremos.” Sofrer e aprender, como riscou Ésquilo.