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Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 10 de setembro de 2005 

TEATRO 
Marília Pêra encerra temporada

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

“Se duvidar, é peça para 12 anos, como “Irma Vap'”, diz Marília Pêra, 62, comparando a “Mademoiselle Chanel”. A atriz fala com conhecimento de causa. Dirigiu o fenômeno “”O Mistério de Irma Vap” (1986-98), dobradinha de Marco Nanini e Ney Latorraca.

Agora, galga o segundo ano de “Chanel”, cuja atual temporada termina amanhã no teatro Faap, no Pacaembu, com sessões esgotadas. Deve voltar em 2006.

Co-produção da CIE Brasil e Faap, a montagem da peça de Maria Adelaide Amaral, por Jorge Takla, passou em junho pela prova de fogo: uma breve turnê em Paris, onde foi “bem recebida”.

A partir de 17 de novembro, é a vez dos portugueses conferirem o espetáculo (Porto e Lisboa). Para o próximo ano, está prevista turnê por outros Estados brasileiros.

Segundo Pêra, a estilista francesa Gabrielle Coco Chanel (1883-1971) foi, talvez, “a mulher mais forte” que já interpretou, papel que lhe rendeu dois prêmios de melhor atriz em São Paulo: APCA e Shell. “Falo da perseverança dela, menina abandonada pelos pais, que viveu em colégio de freiras, passou pela prostituição e transformou-se numa das mulheres mais ricas, importantes e revolucionárias do mundo”, diz. 



Mademoiselle Chanel
Quando:
 hoje, às 21h, e amanhã, às 18h; últimas sessões estão esgotadas 
Onde: teatro Faap (r. Alagoas, 903, tel. 0/xx/11/3662 7233) 
Quanto: R$ 70 e R$ 90 (sáb.)

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 08 de setembro de 2005

TEATRO

Cidades abrigam eventos com atrações de teatro, música e dança; ambas trazem o grupo alemão Volksbühne

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

As “folhas secas da utopia”, como canta o gaúcho Vitor Ramil em ode à “estética do frio”, balançam a pré-primavera de festivais de artes cênicas em Porto Alegre e Buenos Aires.

São eventos que acontecem paralelamente por duas semanas, até 25 de setembro. Ontem, teve largada o 5º Festival Internacional de Buenos Aires: Teatro, Dança, Música e Artes Visuais, o Fiba, bienal. Amanhã, abre a 12ª edição do Porto Alegre em Cena, o Poa em Cena, anual.

O intercâmbio já foi mais intenso, como na edição de 2003. Agora, pende mais para um lado da fronteira.

O festival gaúcho traz seis montagens teatrais da Argentina, enquanto Buenos Aires terá apenas um representante brasileiro na programação, o Grupo de Rua de Niterói.

Segundo a diretora do festival argentino, Graciela Casabé, 46, o Brasil é o único convidado sul-americano neste ano.

“Não poderia faltar, faço questão”, diz. Alega que reduziu o número de projetos internacionais em busca de garantir mais sessões na grade. (O orçamento argentino é cerca de R$ 1,3 milhão; o gaúcho, R$ 2 milhões).

Já em Porto Alegre, o esforço é pela conexão com o Cone Sul. Luciano Alabarse volta à direção-geral do Poa em Cena após três anos (afastou-se em 2001 sob alegação de desentendimento com a administração do PT, na qual atuou por oito anos; a cidade agora é administrada pelo PPS). E quer reforçar os laços.

São seis produções do Uruguai, cinco da Argentina, duas do Chile e uma da Colômbia, entre as 55 atrações de teatro, dança e música.

“A idéia é resgatar a força do diálogo com a língua espanhola, que afinal é o que torna singular o nosso festival no Brasil”, diz Alabarse, 52.

Destaca “La Señorita de Tacna”, estrelada pela veterana dos palcos argentinos, Norma Aleandro, numa adaptação da obra homônima do peruano Mario Vargas Llosa, em que a atriz se desdobra com os dois tempos da personagem: a juventude e a velhice.

E “Canibales”, espetáculo da Comedia Nacional, uma cia. estável do Uruguai, dirigida por Alberto Rivero. A peça cruza descendentes de vítimas de Auschwitz sobreviventes. No elenco, Jorge Bolani, visto há pouco no cinema com o filme “Whisky”.

Peter Brook
A edição também reafirma o diálogo do Poa em Cena com países da Europa. Há, por exemplo, mais uma montagem do diretor inglês Peter Brook, desta vez um Beckett: “Dias Felizes”.
Da Alemanha, vem o lendário “teatro do povo”, o Volksbühne am Rosa Luxemburg Platz, da praça Rosa Luxemburgo, em Berlim. Traz uma montagem do seu principal diretor, Frank Castorf: “Endstation Amerika”, uma adaptação para “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams.
O público de São Paulo também poderá assistir à peça nos dias 23 e 24/9, às 21h, no Sesc Pinheiros (R$ 20 a R$ 40; tel. 0/xx/11/3095-9400).

Alemanha
Aliás, o teatro alemão desponta com presença marcante na cena brasileira neste 2005. Em junho, o mesmo Volksbühne passou pelo Festival de Londrina (Filo) com “Luta de Negros e de Cães”, de Bernard-Marie Koltès. A partir do próximo dia 14, o coletivo Oficina Uzyna Uzona mostra as quatro partes de “Os Sertões” no próprio Volksbühne.

São Paulo viu “A Vida na Praça Roosevelt”, pela cia. Thalia Theater, de Hamburgo, e agora confere a encenação do grupo Os Satyros na sua sede, com texto da mesma autora, a alemã Dea Loher.

De volta a Buenos Aires, a curadoria elegeu espetáculos que incorporem novas tecnologias em suas linguagens. O festival também inclui “Endstation Amerika”, no qual Castorf trabalha com vídeo, por exemplo.

Também foram incluídas montagens de clássicos nessa linha: um “Tio Vania” (Tchecov) da Bélgica, dirigido por Luk Perceval, e um “Noites de Reis” (Shakespeare) da Rússia, pelo britânico Declan Donnellan.

As duas cidades abrem espaço para a música: Porto Alegre ouve e dança Tom Zé, Buenos Aires baila com Frédéric Galliano e The African Divas (França e África Ocidental).

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 25 de agosto de 2005

TEATRO

Newton Moreno dirige em São Paulo espetáculo que adaptou da obra do sociólogo, com a Cia. Os Fofos Encenam

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Apesar da voga populista no país, o dramaturgo Newton Moreno, 35, não se acanha com o povo. Essa gente que fala a mesma língua é fonte de histórias e tradições que se cruzam e firmam ascendência no corpo de suas peças.

Depois de “Agreste” (2004), o premiado texto no qual já evidenciava o movimento de volta às origens, a Zona da Mata de Pernambuco, o autor radicado há 14 anos em São Paulo evoca a cidade natal em “Assombrações do Recife Velho”, adaptação do livro homônimo do sociólogo e antropólogo Gilberto Freyre (1900-1987).

É o próprio Moreno quem dirige o espetáculo que estréia amanhã em São Paulo, com seu grupo Os Fofos Encenam. Ocupam um espaço não-convencional coerente com o obra de Freyre: o Casarão Belvedere, construído em 1927 no atual bairro da Bela Vista.

Não era por acaso que o Recife Antigo tinha uma rua chamada Encantamento. Em sua passagem pelo jornal “Província”, no final dos anos 1920, Freyre se interessou pela história de um homem que pedia ajuda para expulsar os fantasmas de sua casa. Eram comuns as queixas mal-assombradas na polícia, herança do Império que grassava na voz dos contadores. Daí a inspiração do sociólogo para ir a campo e escrever sobre as almas sebosas que atazanavam a vida dos moradores (o livro é de 1955). A montagem de Moreno transpõe a rua do Encantamento para o casarão e abre passagem para os causos curtidos na fricção com o sobrenatural. O espetáculo descarta a itinerância e põe dez atores diante de 25 espectadores por sessão.

São narrativas populares de personagens como o lobisomem, o papa-figo e o boca-de-ouro; ou situações como os gritos noturnos dos negros açoitados até a morte no Sítio da Capela; o tesouro escondido pela judia Branca Dias nos tempos da Inquisição e as súplicas dirigidas à cruz do patrão, onde foram fuzilados revolucionários e negros em fuga.

“Um morto que procura um vivo, um vivo que procura um morto: é assim que se passa o espetáculo nesse lugar encantado”, diz Moreno, que deseja o equilíbrio entre humor e mistério.

Nas entrelinhas das crendices recolhidas por Freyre, o dramaturgo se apropria de pelo menos duas veredas possíveis: as intermitentes consciências da morte e a cicatriz da escravidão.

Moreno adaptou “Assombrações…” em 2003, como projeto da Bolsa Vitae. Além do livro-fonte, foi a campo durante três meses para ver se encontrava resquícios dessas superstições. Afinal, a cidade não é só dos homens. Viu que Recife não é mais a mesma. Restam-lhe alguns casarões antigos, sim, mas mudou a luz. Não há mais “o silêncio morno da meia-noite”, como diz um personagem.

Contudo, resiste a oralidade que faz das assombrações um modo de ser do Recife. Moreno agregou novas histórias, por exemplo, conversando com uma nora de Freyre. O intelectual não está representado em cena. Ele surge fragmentado em muitos personagens, entre eles um entrevistador. É como se um espectro a mais rondasse o casarão.

Parte dos integrantes da Cia. Os Fofos Encenam é embrionária da Unicamp. O grupo atua profissionalmente desde 2000. “Assombrações…” é sua terceira peça e foi contemplada em 2004 pelo Programa de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.

A ocupação do Casarão Belvedere, até outubro, prevê temporada das outras duas peças do repertório: “Deus Sabia de Tudo e Não Fez Nada” (2000) e “A Mulher do Trem” (2003).



Assombrações do Recife Velho
Quando: estréia amanhã, às 21h; qui. a sáb., às 21h; dom., às 19h; até 13/11 
Onde: Casarão do Belvedere (r. Pedroso, 267, Bela Vista, SP, tel. 0/xx/11/3842-5522) 
Quanto: R$ 10

Folha de S.Paulo

São Paulo, quinta-feira, 01 de setembro de 2005

TEATRO

Hugo Possolo, dos Parlapatões, atua em texto corrosivo do norte-americano Eri Bogosian encenado por Aimar Labaki

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Logo no início, o “piloto do vagão”, um dos idiotas que desfilarão pelo palco, manda a platéia apertar os cintos. Não será fácil agüentar o tranco do passeio pelo desencantado mundo da mesquinhez demasiado humana.

“Prego na Testa” vasculha certo inconsciente coletivo, porão também da alma brasileira. O monólogo com o ator e palhaço Hugo Possolo, dos Parlapatões, estréia amanhã no Sesc Belenzinho.

É um texto de meados dos anos 90 do americano Eric Bogosian (o mesmo de “SubUrbia”, encenado em SP por Francisco Medeiros), em tradução do dramaturgo Aimar Labaki (“A Boa”), que também assina a direção.

São nove cenas com personagens que não escondem perturbação, parafuso solto. Martelam suas mentes -e a do espectador- com ilações sobre desejos, alguns escatológicos, e medos do outro e das próprias sombras.

O fundo social é recorrente. Há o sujeito que, quando deprimido, dá um “rolê” com o carrinho do supermercado. Há o que liga muito para a dor alheia, porque “importo, logo existo”. Há o desagradável. Ou aquele que anda incomodado com uma “doença de pobre”, uma pereba que atribui ao mendigo que roçou sua pele.

“O mais importante é a relação de identidade que cada espectador pode estabelecer com esses tipos, ou mesmo com o Brasil atual”, diz Possolo, 43.

“Não terei sempre o tempo do riso da platéia, mas também jogarei com a angústia”, diz o ator, que vê parentesco com “Não Escreve Isto” (1998), do repertório dos Parlapatões, sobre os delírios do mendigo Maneco Vira-Prego.

Para quem está acostumado à interação que os Parlapatões estabelecem com o público, aqui ela se dá de forma indireta, mas munida da violência do texto.



Prego na Testa
Quando: estréia amanhã, às 21h; sex., às 21h; sáb. e dom., às 20h. Até 2/10. 
Onde: Sesc Belenzinho – teatro (av. Álvaro Ramos, 915, tel.: 6602-3700). 
Quanto: R$ 15

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 31 de agosto de 2005

TEATRO 
Peça inclui texto sobre o Tietê

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

À semelhança física com Mário de Andrade (1893-1945), vide a minissérie da TV Globo “Um Só Coração” (2004), Pascoal da Conceição acresce boa dose de desvairada antropofagia ao papel do escritor que agora interpreta no teatro -ambos nasceram num 19 de outubro.

É o solo “Mário de Andrade Desce aos Infernos”, título do poema que o mineiro Carlos Drummond de Andrade escreveu em memória do colega paulista, morto em 25 de fevereiro de 1945, 60 anos atrás, vítima de infarto do miocárdio.

“Tem humor, poesia. É um Mário que rebola”, diz Conceição, 51, fazendo uso de metáfora sobre a peça que estréia hoje no Sesc Ipiranga, com uma sessão por semana até o final de setembro. O ator, que integrou o grupo Oficina nos últimos anos, também assina roteiro e direção.

Dizem os versos de Drummond: “É preciso tirar da boca urgente/ o canto rápido, ziquezagueante, rouco,/ feito da impureza do minuto/ e de vozes em febre, que golpeiam/ esta viola desatinada/ no chão, no chão”.

A primeira parte do espetáculo evoca trecho inicial da conferência-balanço de duas décadas da Semana de Arte Moderna de 1922, que Andrade apresentou no Rio de Janeiro, num salão do Ministério das Relações Exteriores, em 1942.

Na seqüência, Conceição recita e interpreta o poema “A Meditação sobre o Tietê”, no qual Andrade colocou o ponto final 13 dias antes de sua morte.

Percursos
Conceição foi ao rio, debaixo da ponte das Bandeiras. “Peguei a água preta com uma canequinha de plástico. Não tinha me dado conta de que na nossa cidade passa um rio morto, mas não de todo: tem movimento e é tão modernista quanto”, diz, navegando em outras águas.

“O Mário viaja como se fosse mensageiro de um território escondido, ao qual ninguém dá atenção.”

“Eu imaginei que da nascente do Tietê, em Salesópolis, até a sua foz, lá no Paraná, poderiam ser colocados outdoors ao longo do percurso com os 300 e poucos versos do poema sobre o rio. Nem os poetas franceses fizeram isso com o Sena nem os ingleses com o Tâmisa”, diz o ator, que mergulha na obra e na vida do escritor desde os anos 80.

A atriz e “conselheira” Maria Alice Vergueiro assistiu a um ensaio e disse que o solo “antropofagiza” o homenageado, no melhor estilo dos modernistas.

Somam-se à equipe Georgette Fadel (colaborou na direção), Mariana Lima (preparação de corpo), Beth Amin (preparação de voz) e Wagner Freire (desenho de luz). 



Mário de Andrade Desce aos Infernos

Quando: estréia hoje, às 21h; qua. às 21h (exceto 8/9, qui., às 21h). Até 28/9
Onde: Sesc Ipiranga (r. Bom Pastor, 822, tel. 3340-2000) 
Quanto: R$ 4
 

Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 29 de agosto de 2005

TEATRO 
Eventos são ligados pelo trabalho de Luís Alberto de Abreu

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Nesta semana, dois eventos em São Paulo colocam em pauta a dramaturgia sob o ponto de vista da cultura popular. Eles estão umbilicados pela escrita e pela pesquisa de Luís Alberto de Abreu.

A partir de amanhã (dia 30), a Fraternal Cia. de Artes e Malas-Artes, à qual Abreu é ligado, mostra três peças no Centro Cultural São Paulo (CCSP).

Na quarta, é a vez do ciclo de leituras Dramaturgias no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), que dedica este segundo semestre ao projeto Cultura Popular Como Matriz, conforme sugestão de Abreu, consultor do evento.

“O raciocínio que contrapõe uma pretensa cultura de elite a uma cultura popular e, principalmente, estabelece juízos de valor comparativos entre elas, tem muito de artificial”, afirma Abreu. “Tanto os poetas gregos quanto Shakespeare, Rabelais e Molière, Bocaccio ou Dante produziram suas grandes obras a partir do manancial da cultura popular.”

No momento, Antunes Filho ensaia sua versão para “Romance da Pedra do Reino e o Príncipe de Sangue do Vai-e-Volta” (1971), de Ariano Suassuna, mantida em banho-maria há anos.

Recém-chegada de temporada no Rio, a Fraternal, 12 anos, leva ao CCSP os espetáculos “Borandá – Auto do Migrante” (2003, Prêmio Shell de melhor autor), “Eh, Turtuvia!” (2004) e “Auto da Paixão e da Alegria” (2002). As três comédias são de Abreu, encenadas por Ednaldo Freire, sempre com o mesmo elenco: Mirtes Nogueira, Aiman Hammoud, Edgar Campos e Luti Angelelli (leia quadro nesta página).

No CCBB, o ciclo de leituras é retomado com “Acordei Que Sonhava”, da dramaturga e diretora Cláudia Schapira, com o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos.

Em registro de teatro-hip hop, colado à cultura das ruas, a peça é baseada no texto barroco “A Vida É Sonho”, do espanhol Pedro Calderón de La Barca (1600-81). A peça expõe o conflito entre destino e livre-arbítrio.

“Apontamos uma metáfora sobre a realidade brasileira. O que se pretende é desmistificar a relação entre uma obra que foi posta à prova pelo tempo e a licenciosidade, inerente ao teatro, de dialogar com seu tempo”, diz a autora.

Após a leitura, há um debate com a professora Neyde Veneziano (Unicamp), especialista em teatro popular. 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 27 de agosto de 2005

TEATRO

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

No seu primeiro encontro com o coro dos Meninos de Araçuaí, cidade do Vale do Jequitinhonha (MG), cerca de quatro anos atrás, o cantor e compositor Milton Nascimento ganhou alguns brinquedos, entre eles bola de gude, pipa e boneco de pano branco que o representaria, segundo perspectiva de quem nunca o viu -são raros os televisores por aquelas zonas de pobreza do norte de Minas Gerais.

“As crianças ficaram surpresas quando viram que eu era negro”, diz Nascimento.

Não por acaso, o espetáculo musical “Ser Minas Tão Gerais” deixa evidente a negritude desse artista popular, repercutida especialmente nos tambores, como afirma a diretora Regina Bertola, do grupo Ponto de Partida, de Barbacena (MG), a terceira ponta desse projeto de triangulação mineira que finalmente chega a São Paulo em única apresentação hoje, no teatro Alfa.

A fusão é tamanha que, em certos momentos, não se sabe se se trata de arranjo de canção cantada por Nascimento ou extraída do cancioneiro popular do Jequitinhonha. Direção musical e arranjos são de Gilvan de Oliveira.

“Aquelas coisas que a gente ouvia falar [da música percussiva] do Rio e da Bahia, têm lá em Minas e vêm sendo redescobertas”, diz Nascimento, nascido no Rio e criado em Minas.

A visão mineira
Identidade, teu nome é “Ser Minas Tão Gerais”. Na pesquisa do Ponto de Partida, 25 anos, o musical brasileiro é lapidado desde o início dos anos 90, com “Beco, a Ópera do Lixo”.

“O espetáculo parte dessa visão: como eu, mineiro, vejo o mundo”, diz Bertola, 50. Não bastasse harmonizar esse som brasileiro com elementos cênicos, emendou Carlos Drummond de Andrade ao fio que passa por compositores como Fernando Brant e Ronaldo Bastos.

“Notei que a música do Milton também é drummondiana: os dois escondem surpresas em suas criações, quietudes que, descobertas, viram turbilhão.”

A apresentação marca o lançamento de DVD. São cerca de 40 crianças, dez atores e cinco músicos, além da equipe técnica. Todos atrás da perfeição de maneira prazerosa, como diz Bertola.

“A gente está no palco porque é bom, bom demais da conta.”



Ser Minas Tão Gerais
Direção: Regina Bertola Direção musical: Gilvan de Oliveira 
Quando: somente hoje, às 21h 
Onde: teatro Alfa – sala A (r. Bento Branco de Andrade Filho, 722, Jardim Dom Bosco, tel. 5693-4000) 
Quanto: R$ 30 e R$ 70

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 24 de agosto de 2005

TEATRO 
Anne Ubersfeld deu palestras na ECA-USP

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Um dos nomes pioneiros na abertura das portas do teatro para a semiologia, sem descuidar da análise acurada da dramaturgia no século 19 ou na contemporaneidade, a pesquisadora francesa Anne Ubersfeld, 87, narra um divisor de águas em sua carreira.

Foi em 1952, quando lhe roubaram uma pasta com material de tese praticamente concluída sobre George Sand (1804-1876).

Diz que foi sua “sorte”. Meses depois, ganhariam corpo na academia as noções do estruturalismo (abordagem que define os fatos lingüísticos segundo sua estrutura e sistema).

Então, a pesquisadora teve mais convicção e mudou o eixo dos estudos para a escrita de mais um compatriota, Victor Hugo (1802-1885), autor de “Os Miseráveis”. Assentou jornada pessoal que atualmente conta seis décadas de dedicação à arte da representação e dos seus signos.

Na semana passada, em sua segunda visita ao país (a primeira aconteceu em 1994), Ubersfeld deu palestras na USP (Universidade de São Paulo).

Em três dias, falou da solidão e do trágico nas peças de Bernard-Marie Koltès (1948-1989); da cena contemporânea e a comunicação; e do teatro do final do século 19.

Em meio à prospecção dos temas, esbanjou simpatia para uma platéia sempre lotada de uma das salas do teatro-laboratório da ECA (Escola de Comunicações e Artes).

Quando citava versos ou lia trechos de peças, o fazia com invejável enunciação de voz para quem nunca atuou.

Ubersfeld veio ao Brasil a convite do Departamento de Artes Cênicas da ECA, com apoio do Consulado Geral da França. Foi ciceroneada pela professora Maria Lúcia Pupo, que a conheceu nos anos 80.

A editora Perspectiva lança, ainda em 2005, o primeiro livro da especialista no Brasil, “Para Ler o Teatro”. Publicado em 1966, o volume 1 de “Lire le Théâtre” foi traduzido pela equipe de José Simões de Almeida Junior.

A seguir, trechos da conversa de Ubersfeld com a Folha, na qual funde suas pesquisas com a vida, sempre com o texto no miolo do olhar.


O SÉCULO 20 “Os problemas colocados pelo teatro no século 20 ainda não estão resolvidos. As tendências atuais não são muito promissoras. O teatro pressupõe um texto no qual cada fala estabelece relação com algo ou alguém. Não tenho nada contra a mímica, por exemplo, mas ela por si não é teatro. A pura performance também não.”

A POÉTICA “Não existem autores dramáticos, mas poetas. Aqueles que não são poetas funcionam apenas para os seus contemporâneos. Depois, caem no mar. É o exemplo do teatro de Alexandre Dumas [1802-1870]. Quando digo poeta, falo de uma certa relação com o movimento de frase, aquilo que o tradutor pode levar em conta. Se um dia o teatro universal desaparecer e restar somente Shakespeare, o teatro não terá morrido.”

O LIVRO “As análises que fiz em “Para Ler o Teatro” continuam úteis. É um livro de cunho didático, cujo conteúdo trata do texto, não da encenação, daí o caráter atemporal. São conceitos suficientemente simples, mas que não haviam sido reunidos.”

A BAGAGEM“Se escrevi meus livros, é porque tive a sorte de passar por uma tríplice experiência: 1) fui pesquisadora em história literária; 2) comecei a trabalhar quando surgiu a semiologia, que me deu elementos de análise textual; e 3) jamais escreveria sobre o teatro se não tivesse feito 19 encenações com meus alunos. Criei e pintei cenários, desenhei figurinos, maquiei atores, operei som, luz etc. Bem ou mal, sei como funciona.”

O TERRORISMO DO TEXTO – “A expressão “terrorismo do texto” me parece uma besteira enorme. O texto é a palavra. Preciso enunciá-la, fazer com que seja escutada. O texto no teatro é de tal ordem que ele nunca é unívoco. Há um verso de Racine [1639-1699], só com monossílabos, no qual se lê: “O dia não é mais puro do que o fundo do meu coração”. Você pode me dizer que não há nada a fazer com esse verso óbvio. Negativo. Ele pode ser dito como uma espécie de confissão [repete em tom grave, baixo]. Ou como uma reivindicação violenta [tom firme, alto]. São diferentes. O terrorismo do texto acontece quando ele é muito ruim mesmo [risos].”

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, segunda-feira, 22 de agosto de 2005

TEATRO 

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

É como diz José Joffily, que dirigiu o filme “Dois Perdidos numa Noite Suja” (2000): Plínio Marcos “está à frente das ciências sociais”. Deveria ser visitado com mais freqüência pela academia e afins. O cineasta é um dos entrevistados no programa “Retratos Brasileiros”, do Canal Brasil, que reprisa a edição de 2003 dedicada ao dramaturgo santista.

Nunca é demais colocar Plínio Marcos (1935-99) na ordem do dia. Como ele mesmo dizia, suas peças permanecem lamentavelmente atuais não por causa dele, o autor, mas porque os contrastes sociais deste país são de tal forma arraigados que só reforçam aquela parcela humilhante de excluídos -acolhidos sem comiseração em seu teatro (há duas semanas, havia três peças dele em cartaz em São Paulo).

Em “Retratos”, a escrita pliniana serve ao recorte audiovisual a partir do depoimento de artistas e especialistas. São exibidos, por exemplo, trechos de dois filmes fundamentais de Braz Chediak. Chance de conferir -ainda que por breves segundos- elogiadas atuações de Glauce Rocha como a prostituta Neusa Suely, em “Navalha na Carne” (1969), ou a dupla Emiliano Quairoz e Nelson Xavier, em “Dois Perdidos” (1970).

Em ambas as peças, os conflitos explodem para além das paredes dos quartinhos de cortiço em que os personagens oprimidos também escalam, sem dó, formas paralelas de poder e exploração. Para além dessa confrontação política, como lembra o crítico Macksen Luiz, o realismo toca em feridas da natureza humana, o que também confere universalidade.

O programa cita ainda a passagem de Plínio pela televisão. Não como autor, mas ator. A criação do personagem Vitório na novela “Beto Rockfeller” (1968, TV Tupi) trazia muito do palhaço Frajola, que viveu a juventude em Santos. O humor é contraponto essencial ao autor para reportar a dor, a crueldade e algum lirismo nas “quebradas do mundaréu”. 



Retratos Brasileiros
Quando:
 hoje, às 19h, no Canal Brasil
 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sexta-feira, 19 de agosto de 2005

TEATRO

Cia. Os Satyros estréia amanhã peça de Dea Loher inspirada em histórias de personagens reais da praça Roosevelt

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

É o encenador Rodolfo García Vázquez, 42, quem resume a ópera que tem lá seus vinténs: “Foi um processo muito louco: o olhar sobre o Brasil de uma dramaturga alemã, que ama o país, passando pelo olhar de um grupo alemão sobre o que ela trouxe e sobre o que eles imaginam que somos, e finalmente o nosso olhar sobre o Brasil a partir da praça em que vivemos e através do olhar dessa alemã e desse grupo. Tudo focado nesse cantinho de São Paulo chamado praça Roosevelt”.

Escrita pela alemã Dea Loher com base em histórias colhidas na praça paulistana e encenada em 2004 por Andréas Kriegenburg, do grupo Thalia Theater, de Hamburgo, “A Vida na Praça Roosevelt” vem à luz em seu ventre na montagem do coletivo teatral que, desde 2000, ajuda a tirar aquele espaço público da margem: a cia. Os Satyros. É a segunda parte de trilogia sobre o local (aberta com “Transex”, em 2004, e que deve ser fechada com “Há Vida na Praça Roosevelt”).

Traduzido por Christine Röhrig, o texto de Loher desenha uma geografia afetiva e trágica em calçadas, bares e apartamentos habitados por homens e mulheres; solitários dali e alhures, alienados, apaixonados, viciados, abandonados ou desempregados vítimas da violência que rebate na carne e no espírito de cada um.

São 13 artistas em cena, conforme ensaio a que Loher, 40, assistiu na semana passada. Vértice das duas montagens, ela falou à Folha da Alemanha, por e-mail.

Folha – Que especificidades vê nos dois espetáculos?

Dea Loher –
São tão diferentes quanto os desafios específicos que os diretores enfrentaram com seus grupos. Na Alemanha, Andréas sabia que a referência “real” [o lugar] estava muito longe e não sabia se o público iria rejeitar as pessoas e situações do texto ou se aceitaria a proposta de identificação que ofereceu (aceitaram!).

Os atores alemães tentaram criar uma atmosfera de alta pressão, densa e dura para a vida interior dos personagens; tentaram assim legitimar a necessidade e a urgência de contar essa peça.

A idéia era que a platéia, ao final, não saísse dizendo: “Gente, tais “freaks” existem no mundo”. Mas sim: “Olha, é uma história sobre nós”. E funcionou: a referência “real”, geográfica, tornou-se referência real social que o público alemão conheceu e entendeu.
Em São Paulo, o caminho é oposto; a preocupação é transcender ao aspecto local que o texto possa provocar, ou seja, seduzir o público a ver além do horizonte.

Rodolfo tinha que criar uma distância, um estranhamento para abrir um novo espaço e uma possibilidade fresca de reconhecimento do cotidiano. Conseguiu fazer isso com alusões aos personagens de circo e usando uma estética tipo conto de fadas do avesso.

Assim, ele usa a peça como uma alegoria, só que dentro dessa alegoria se fala de condições muito reais. É essa quebra, acho, que faz com que o público, vindo com a expectativa de ver mais uma história sobre personagens que já conhece (ou pensa que conhece), de repente se veja diante de um espelho que, através da distância e do estranhamento, se torna um meio de reconhecimento.

Folha – Como foi “reencontrar” a peça montada no local de origem?

Loher
Eu seria muito feliz se essa peça fosse capaz de mostrar que nessa cidade, São Paulo, e nesse país, Brasil, existem centenas e centenas de biografias, histórias que, sim, têm uma característica brasileira, mas que também podem ser entendidas no resto do mundo. Vale a pena falar dessas vidas loucas, trágicas, cômicas, miseráveis, absurdas; vale a pena escrever sobre isso não com vergonha ou lamento, mas com compreensão, sinceridade e até orgulho e respeito. A vida não está limpa nem em ordem. A vida é caos, sujeira, tormento. E é isso que a torna bela e rica. Citando um grande escritor: “A vida em ordem não conhece a dor”. Há reconhecimento sem conhecer dor?



A Vida na Praça Roosevelt
Quando:
estréia amanhã, às 21h; sáb., às 21h, e dom., às 20h30; até 18/12 
Onde: Espaço dos Satyros (pça. Franklin Roosevelt, 214, tel. 0/xx/11/3258-6345) 
Quanto: de R$ 5 (moradores) a R$ 20