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Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 30 de março de2005

TEATRO
Depois de “Interior” (2002), Abílio Tavares dirige peça que nasceu de depoimentos dos atores do grupo da USP

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Para o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), a posse de um segredo pode equivaler a um “veneno psíquico” que afasta o indivíduo da coletividade, o atrai para a sombra.

Quem lembra disso é o diretor e terapeuta Abílio Tavares, do Teatro da Universidade de São Paulo, o grupo Tusp. Ele fala sobre “Segredo”, espetáculo que estréia hoje, para convidados, no teatro de mesmo nome, na Vila Buarque.

Como em “Interior” (2002), o depoimento pessoal sustenta a dramaturgia, também arrematada por Tavares. Dezessete atores compõem fragmentos de situações vivenciadas durante um ano e meio de ensaios. Violência contra a mulher dentro de casa, abuso sexual na infância, tentativa de suicídio, fantasias sexuais, enfim, são narrativas envoltas em sensações, imagens e desejos de amor, fé, solidão, esperança etc.

Durante a pesquisa, o elenco foi acompanhado por seis profissionais da área de psicologia. “Myriam Muniz [1931-2004] dizia que teatro é terapia, não é tratamento. A técnica terapêutica é utilizada como as demais ferramentas de apoio no processo de criação. O objetivo é o teatro. A proposta não é fazer teatro terapêutico”, diz Tavares, 42.

O diretor vislumbra a transformação dos seus atores por meio da “compreensão e expressão artística de seus sentimentos, traumas e afetividades”. Essas camadas da memória são trazidas à cena não necessariamente pelos seus verdadeiros donos. Um ator dá conta da história do outro. Curiosamente, procura-se preservar o anonimato num projeto cuja premissa é a exposição.



Segredo
Onde:
Teatro da Universidade de São Paulo (r. Maria Antônia, 294, Vila Buarque, tel. 0/xx/11/3259-8342) 
Quando: estréia hoje, às 21h; sex. e sáb., às 21h; dom., às 20h; até 26/6 
Quanto: R$ 15 

Folha de S.Paulo

Tempo da delicadeza

28.3.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, segunda-feira, 28 de março de 2005

TEATRO 

Grupos de Minas Gerais e Paraná apresentaram as melhores peças, segundo equipe da Folha 
Despojamento é característica central dos espetáculos de destaque da mostra deste ano


VALMIR SANTOS
Enviado Especial a Curitiba

A longa jornada dos dez dias do Fringe, mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba, encerrado ontem, reafirma o experimento de linguagem entre os espetáculos destacados pela cobertura da Folha. O tempo é da delicadeza, a considerar o despojamento da cena e a poética do texto.

Os melhores espetáculos foram “Por Elise”, do grupo Espanca!, de Belo Horizonte; “Suíte 1”, da Cia. Brasileira de Teatro; e “Cosmogonia”, do grupo Os Satyros, ambos de Curitiba -o último tem outro núcleo em São Paulo.

Merecem destaque ainda a dramaturgia de “Só as Gordas São Felizes”, de Celso Cruz (SP), e a pesquisa de “Chão de Dentro”, do grupo Cangalho (BA).

Depois de ter apresentado “Licurgo” no festival do ano passado, Cruz -que já participou de intercâmbio no Royal Court Theatre, de Londres- voltou com a tragicomédia “Só as Gordas São Felizes”, que se passa numa cela. Dois “médicos-criminosos” (por Guilherme Freitas e Dill Magno, da Cia. da Obesidade) discutem seus casos, falam sobre amor, anabolizantes e rotweillers.

O Cangalho é formado pelos atores Leonardo França e Maurício Assunção. Surgiu em Salvador há um ano para borrar as fronteiras entre a dança e o teatro. “Chão de Dentro” revisita o universo do boi sem enveredar por regionalismo, ainda que incorpore manifestações como o samba de roda.

Repórter, crítico e repórter fotográfica assistiram a 33 dos 187 espetáculos participantes: quase um sexto do bolo. Como qualquer espectador, é impossível assistir a tudo. A equipe guiou-se pelo histórico do grupo, autoria da peça ou direção, descontadas as montagens que já tinham feito temporada paulistana.

A 14ª edição do FTC seguiu o modelo das anteriores: a mostra oficial (com 12 peças) e o carrossel paralelo do Fringe, evento que acontece desde 1998.

Permanecem queixas quanto à organização: a arquibancada prometida que não veio; a defasagem técnica de alguns teatros; o inchaço ano a ano (foram 45 peças a mais do que em 2004; houve 28 cancelamentos).

O diretor-geral do FTC, Victor Aronis, reconhece a necessidade de ajustes e contrapõe com tendência consolidada neste ano: espaços segmentados, como as “casas provisórias” da USP (Casa Hoffmann), Unicamp (Espaço Cultural Falec) e a Coletiva (teatro Paiol), com peças locais. A divulgação ganhou reforço com o “Diário do Fringe”, publicação gratuita (5.000 exemplares por dia) que trouxe críticas.

Aroni estima que, como em 2004, cerca de 110 mil espectadores acompanharam o evento.



O jornalista Valmir Santos, o crítico Sergio Salvia Coelho e a repórter fotográfica Lenise Pinheiro viajaram a convite do 14º Festival de Teatro de Curitiba 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sexta-feira, 25 de março de 2005

TEATRO 

VALMIR SANTOS
Do Enviado Especial

Antes das sessões no teatro da Reitoria, atores locais sobem ao palco, sob o arco alusivo à montadora que patrocina o evento, e mandam ver um esquete, um “comercial cênico”, não bastassem suportes como o outdoor e o próprio telão que anualmente descarrega seus cinco minutos de marcas sobre a platéia.

Nada de novo para um festival de teatro que já elegeu a caixa de sabão em pó como símbolo de campanha publicitária (2001). A novidade é que, em meio ao bombardeio de brindes entregues à entrada de alguns teatros por moças e rapazes contratados, a discussão sobre formas de políticas públicas para a cultura também encontra brecha neste 14º Festival de Teatro de Curitiba.

Na terça-feira, um debate sobre a Coletiva, projeto autônomo de artistas paranaenses que ocupam o teatro Paiol com oito espetáculos no Fringe, tratou menos de estéticas, como se supunha, e enveredou pela falta de subsídios.

“A questão surgiu porque, apesar da experiência de linguagens e do sofisticado repertório apresentado, os resultados ficaram aquém do esperado justamente por falta de recursos materiais [cenários, figurinos, equipamentos de som e luz etc] e humanos [para um melhor treinamento de ator]”, diz o dramaturgo Aimar Labaki, 44, responsável por mediar o encontro.

Segundo Labaki, os artistas afirmam que a lei de incentivo fiscal de Curitiba “está atrasada quatro anos”. Ou seja, se um grupo for aprovado para captar recursos junto à iniciativa privada (patrocínio abatido de impostos, dinheiro público), o processo se arrasta por causa da burocracia.

De passagem pela Mostra Oficial, a paulistana Cia. Livre trouxe “Arena Conta Danton” e distribuiu cópias do último manifesto do movimento Arte contra a Barbárie. O documento sai em defesa da Lei de Fomento que a Prefeitura de São Paulo suspendeu sob alegação de submetê-la a revisão jurídica.

Patrocínio
Mesmo as produções convidadas pela organização do FTC (alimentação, hospedagem, transporte), e que recebem cachê (aFolha apurou que uma delas ganhou R$ 5.000 por apresentação), dependem de patrocínio.

A carioca “Baque”, por exemplo, traz o selo dos Correios, que garantiu temporada no espaço cultural da estatal no Rio, inclusive com ingressos a R$ 10. “Os cachês são simbólicos. O patrocínio foi fundamental para vir a Curitiba”, diz o ator e produtor Carlos Evelyn, de “Baque”, montagem que envolve 12 pessoas.

Das 187 peças do Fringe, pelo menos cem delas vêm de outros Estados. A maioria viajou com apoio de prefeituras, Câmaras, empresas aéreas ou de ônibus.

“Muitos espetáculos foram cancelados por conta das mudanças de comando nas prefeituras”, diz o diretor-geral do FTC, Victor Aronis, 43, um dos sócios da Calvin Entretenimento.

Sobre a ostensividade dos patrocinadores, Aronis admite problema: “Em geral, as empresas que entram pela primeira vez são muito afoitas. Temos de rever”. O orçamento é de R$ 1,8 milhão.



O jornalista Valmir Santos e a repórter fotográfica Lenise Pinheiro viajam a convite da organização do 14º Festival de Teatro de Curitiba 

Folha de S.Paulo

Arte cigana

23.3.2005  |  por Valmir Santos

São Paulo, quarta-feira, 23 de março de 2005

TEATRO 
Para participar do Fringe, companhias que vêm de outros Estados brasileiros se hospedam até em batalhão do Exército 

VALMIR SANTOS
Enviado especial a Curitiba

Em plena manhã de segunda-feira, recrutas de um batalhão de infantaria do Exército carregam móveis do cenário de “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”.

Não se trata de uma ação de despejo ou repressão aos artistas, como na ditadura militar (1964-85). Esse teatro do absurdo, mais nos bastidores do que em público, acontece no Fringe, a mostra paralela do 14º Festival de Teatro de Curitiba (FTC), que segue até domingo.

Elenco e técnicos da montagem da peça do americano Edward Albee estão hospedados no 20º Batalhão de Infantaria Blindada, no bairro Bacacheri, na zona norte curitibana. A quadra do ginásio de esportes local serve de palco para o espetáculo que estréia hoje, sob direção de Hugo Rodas.

O batalhão abriu as portas para cerca de 30 atores e técnicos do Teatro Universitário Candango, ligado à Universidade de Brasília. Vieram apresentar quatro espetáculos no festival, um deles na própria “casa” dos militares.

É um exemplo do jogo de cintura necessário a conjuntos de outros Estados participantes do Fringe, um caldeirão com cerca de 180 peças. Em suma, uma batalha por visibilidade. No caso do batalhão, civis contracenam o tempo todo com soldados fardados e armados.

“Pensava encontrar um ambiente repressivo, por causa da relação de censura dos militares com o teatro brasileiro. Mas fomos tratados com atenção e educação”, diz o ator João Leal, 23, de “Quem Tem Medo…”.

Até a marcenaria do Exército foi colocada à disposição para construir os tablados usados no espetáculo. Mas a convivência implica regras. O café da manhã (incluído na diária de R$ 8) é servido entre 5h30 e 7h40, e há áreas restritas à circulação dos atores. Nada que comprometa o direito de ir-e-vir. Não há toque de recolher.

Já a dupla de atores do grupo baiano Cangalho (“Chão de Dentro”) conseguiu pousar em casa de amigos de Curitiba que conheceram em Recife, durante um encontro teatral. Leonardo França e Maurício Assunção foram convencidos a participar do Fringe e para cá desceram. “Colocamos o cenário num carrinho de encaixe e viajamos por quatro dias, de Salvador até aqui”, diz Assunção, 25.

A Cia. de Teatro Lua, de Fortaleza, ergueu produção cara para os padrões do Fringe. Para apresentar uma sessão diária da comédia “As Bondosas”, durante os dez dias do evento, gastou cerca de R$ 6.000. Vale a pena? Não, afirma o ator e diretor Ueliton Roncon, 40. “Visto de Fortaleza, o Fringe tem uma imagem fantasiosa. A mídia vende como o melhor festival de teatro do país, e a gente é atraído pelo canto da sereia.”

Ele representa uma parcela de grupos que volta frustrada. Um erro estratégico, diz Roncon, é que o teatro escolhido fica fora do circuito, é pouco conhecido.

Na mostra paralela, cada companhia paga à organização R$ 50 por apresentação em teatro convencional ou R$ 30 em espaço alternativo. Para a maioria, a bilheteria é a única salvaguarda.

Espetáculos de rua não pagam taxa. A equipe de “Exceção ou Regra”, projeto de formação UFMG, dormiu num albergue da juventude. Como emplacaram sessão extra, amanhã, ficam por mais alguns dias à própria custa.



O jornalista Valmir Santos, o crítico Sergio Salvia Coelho e a repórter fotográfica Lenise Pinheiro viajam a convite do 14º Festival de Teatro de Curitiba 

Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 19 de março de 2005

TEATRO 
“A Caminho de Casa” tem direção de Paulo Moraes

VALMIR SANTOS
Enviado especial ao Rio

Nos tempos que correm, mira-se mais às alturas do que ao outro. Um homem ou uma mulher-bomba que se explodem no Oriente Médio, em nome de seu Deus, abalam a crença e a capacidade de amar neste planeta. O Rio de Janeiro parou no dia do seqüestro do ônibus 174, 12 de junho de 2000, com o mesmo espanto com que viu as torres gêmeas caírem em Nova York, em 11 de setembro de 2001.

São ilações que vão pela conversa com o diretor Paulo de Moraes, sob quase 40 C de uma tarde carioca na Fundição Progresso, na Lapa, onde fica a sede da Armazém Cia. de Teatro.

O espetáculo “A Caminho de Casa” (2004), que entra amanhã na Mostra Oficial do Festival de Teatro de Curitiba, pretende dar conta dessas questões tão distantes quanto próximas. A explosão de um ônibus e o conseqüente engarrafamento numa auto-estrada, motes dignos do cinema de ação, são como que transportados para o espaço cênico para discutir como a fé age sobre o homem atual.

A subversão de tempo e espaço é uma constante na dramaturgia da Armazém. Vide montagens anteriores, como “A Ratoeira É o Rato”, “Alice Através do Espelho”, “Da Arte de Subir em Telhados” e “Pessoas Invisíveis”, que convocam outros pontos de vista do espectador, quer incorporado à cena, quer na platéia.

“A Caminho de Casa” abre com animação gráfica de um ônibus na estrada e seus passageiros (atores interagem com a projeção em cima de pernas-de-pau, dando a idéia de que estão nas janelas). Há um estrondo e, na seqüência, três histórias entrelaçadas.

Impedidas pelo engarrafamento, pessoas até então desconhecidas, em seis automóveis, são submetidas à convivência por dois dias, em meio à fome, sede, brigas, amores etc. São eles uma lutadora de telecatch, um legista, uma noiva atrasada, um professor de filosofia, um motorista de táxi e uma manicure.

Os atores contracenam entre os vãos ou em cima dos veículos (carcaças cortadas à metade, preservando-se os bancos do motorista e passageiro).

A segunda história é sobre a amizade entre um velho árabe e um menino judeu. Eles viajam dentro de um carro e encontram caminho alternativo (a tolerância) ao engarrafamento.

Na terceira, há dois planos simultâneos: futuro e passado. Uma mãe questiona a Deus a fé que levou o filho à morte. Quatro adolescentes tentam decidir qual deles irá se explodir num atentado terrorista pela construção de uma nova pátria. Mártir.

“A questão do mártir hoje em dia é muito relacionada à causa palestina, mas é histórica. Jesus era um mártir. É uma figura relacionada a todas as religiões. Tanto o mártir quanto a mãe são arquétipos. Só que ele é um adolescente, um menino. Isso acontece na África muçulmana, onde há as crianças-soldados de alá”, diz Moraes.

A montagem varia do espaço macro, uma auto-estrada, até o vazio. Na cena em que questiona a autoridade de Deus, a mãe molda um boneco em barro, até que a imagem se espatifa no chão. “O que acontece atualmente com o fundamentalismo é ancestral. O homem tem a necessidade de conflito. Esses agrupamentos [em nome de uma causa, um deus] faz com que o indivíduo perca a fé no outro. É disso que eu quero falar”, diz Moraes.

Ele escreveu a peça com o dramaturgo Maurício Arruda Mendonça, que trabalha com a Armazém desde sua criação em Londrina (1987). A companhia está radicada no Rio desde 1998 e acaba de colocar no ar o seu site,www.armazemciadeteatro.com.br, dentro do projeto de memória que já lançou três peças em DVD.

Como nas demais montagens da companhia, os atores foram decisivos na pesquisa de “A Caminho de Casa”. Elaboraram propostas de cena a partir de entrevistas com seguidores e representantes de religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo, islamismo etc). Estão no elenco Patrícia Selonk, Simone Mazzer, Sérgio Medeiros, Thales Coutinho, Ricardo Martins, Simone Vianna e Stella Rabello e outros.

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 16 de março de 2005

TEATRO 
Ator volta pela segunda vez à dramaturgia em “Um Homem Indignado”, monólogo em que critica a invasão dos “reality shows”

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

É uma peça semibiográfica, tanto que o gaúcho Walmor Chagas, 74, oscila entre o “ele” e o “eu” em vários momentos da entrevista. Fala sobre “Um Homem Indignado”, sua segunda experiência com dramaturgia -a outra foi “Isso Devia Ser Proibido”.

No monólogo que estréia amanhã no CCBB-SP, um ator veterano ruma para a morte anunciada, mas, antes, brada a morte da palavra em detrimento da imagem.

Dirigida pelo cineasta Djalma Limongi Batista, a encenação se apropria de recursos audiovisuais para criticar o poder da imagem na voga do “reality show”. Chagas “contracena” com Zé Celso e Ítalo Rossi por meio de vídeo.

Com 55 anos de palco, também homem de TV, Chagas critica o “Big Brother” e analisa o governo Lula. Para a gestão petista, o ator desarma o ceticismo.


Folha – Numa passagem, o Velho fala que aprendeu a fazer teatro por meio da literatura. Hoje, seria por meio da TV. Esse é o conflito?

Walmor Chagas
 Exatamente. Ele foi educado por meio da palavra. Hoje, quem educa é a imagem. Acredita que a imagem se tornou tão importante que arma um estúdio para filmar, como se fosse um “reality show”, no qual as pessoas morrem em cena. Esses programas são de uma morbidez danada, as pessoas ficam confinadas. Mesmo que tenha fantasia, bebida, comida e até um prêmio de R$ 1 milhão, é uma prisão. Ninguém diz, ninguém está a fim de ser contra a Globo, contra o público do mundo inteiro que acha o “reality show” genial, porque no “Big Brother” as pessoas dançam, trepam em cena, se casam… Essa é a destruição que o império americano faz contra a gente. Há uma correlação na peça quanto à destruição dos incas pelos espanhóis, que acabaram com aquela civilização. O [conquistador Francisco] Pizarro de agora, o Bush, quer cortar a cabeça das pessoas para tomar a terra delas.

Folha – A indignação converge para uma morte anunciada. Sinal de que não há saída?

Chagas
 Não tenho esperança alguma. Nós estamos indo para o abismo. Quem se atirou do décimo andar, por mais que vá passar pelo oitavo, acha que está tudo bem. O Velho sabe que está tudo mal e que irá se esborrachar.

Folha – O protagonista não vê saída nesta era da imagem, mas o próprio espetáculo se apropria dela. Um cineasta assina a direção, você atua na TV. Não é contraditório?

Chagas –
 É, claro que é. O público vai ver a contradição. Eu uso a imagem porque falo mal dela. A imagem já é a linguagem atual. Se não tiver, não interessa muito. Os espetáculos atuais fazem sucesso porque são os atores ao vivo da televisão em peças matrimoniais ou porque são espetáculos que também buscam uma imagem no palco, não estão na palavra.

Folha – Qual sua opinião sobre a Lei de Fomento ao teatro em SP?

Chagas
 Ainda é muito fraca a política cultural que existe, e, quando existe um pouco, acaba. É um desinteresse criminoso dos governos federal, estadual e municipal não darem ao teatro o suporte financeiro que ele precisa. Detalhe importante: todos os governos têm medo do teatro, porque é ao vivo. O ator pode cair na asneira de dizer verdades, fazendo tremer as bases políticas.

Folha – E o governo Lula?

Chagas
 Eu acho bom, ótimo, esperançoso para todos nós. Não acredito que [José] Dirceu e todas essas pessoas que viveram e sofreram a revolução, que tinham uma idéia socialista para o mundo, vão deixar passar em branco. Nem que seja na última hora, nem que dêem um golpe de Estado nas vésperas das eleições, eles vão decretar uma reforma agrária. Ou será que vão querer sair com o rabo entre as pernas daqui a dois anos? Tem muita gente com vontade de tirar o Lula. A Folha, então, parece que quer vê-lo na forca, uma postura que não tinha com Fernando Henrique Cardoso.



Um Homem Indignado
Onde:
 CCBB-SP (r. Álvares Penteado, 112, centro, tel. 0/xx/11/ 3113-3651) 
Quando: estréia amanhã (convidados); de qui. a sáb., às 20h; dom., às 19h; até 22/5 
Quanto: R$ 15
 

 

Folha de S.Paulo

São Paulo, terça-feira, 15 de março de 2005

TEATRO 
Mostra de teatro começa com evocação aos laços culturais de Brasil e Japão em “Foi Carmen Miranda”

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Publicações dedicadas ao teatro contemporâneo ganharam novas edições no fim de 2005 e neste começo de ano no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte.
Iniciativa do grupo carioca Teatro do Pequeno Gesto, a revista “Folhetim” nº 22 é dedicada ao projeto “Convite à Politika!”, organizado ao longo do ano passado. Entre os ensaios, está “Teatro e Identidade Coletiva; Teatro e Interculturalidade”, do francês Jean-Jacques Alcandre. Trata da importância dessa arte tanto no processo histórico de formação dos Estados nacionais quanto no interior de grupos sociais que põem à prova sua capacidade de convivência e mestiçagem.
Na seção de entrevista, “Folhetim” destaca o diretor baiano Marcio Meirelles, do Bando de Teatro Olodum e do Teatro Vila Velha, em Salvador.
O grupo paulistano Folias d’Arte circula o sétimo “Caderno do Folias”. Dedica cerca de 75% de suas páginas ao debate “Política Cultural & Cultura Política”, realizado em maio passado no galpão-sede em Santa Cecília.
Participaram do encontro a pesquisadora Iná Camargo Costa (USP), os diretores Luís Carlos Moreira (Engenho Teatral) e Roberto Lage (Ágora) e o ator e palhaço Hugo Possolo (Parlapatões). A mediação do dramaturgo Reinaldo Maia e da atriz Renata Zhaneta, ambos do Folias.
Em meados de dezembro, na seqüência do 2º Redemoinho (Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral), o centro cultural Galpão Cine Horto, braço do grupo Galpão em Belo Horizonte, lançou a segunda edição da sua revista de teatro, “Subtexto”.
A publicação reúne textos sobre o processo de criação de três espetáculos: “Antígona”, que o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) estreou em maio no Sesc Anchieta; “Um Homem É um Homem”, encenação de Paulo José para o próprio Galpão, que estreou em outubro na capital mineira; e “BR3”, do grupo Teatro da Vertigem, cuja previsão de estréia é em fevereiro.
Essas publicações, somadas a outras como “Sala Preta” (ECA-USP), “Camarim” (Cooperativa Paulista de Teatro”) e “O Sarrafo” (projeto coletivo de 16 grupos de São Paulo) funcionam como plataformas de reflexão e documentação sobre sua época.
Todas vêm à luz com muito custo, daí a periodicidade bamba. Custo não só material, diga-se, mas de esforço de alguns de seus fazedores em fomentar o exercício crítico, a maturação das idéias e a conseqüente conversão para o papel -uma trajetória de fôlego que chama o público para o antes e o depois do que vê em cena.
Folhetim nº 22
Quanto: R$ 10 a R$ 12 (114 págs)
Mais informações: Teatro do Pequeno Gesto (tel. 0/xx/21/2205-0671; www.pequenogesto.com.br)
Caderno do Folias
Quanto: R$ 10 (66 págs)
Mais informações: Galpão do Folias (tel. 0/xx/11/3361-2223; www.galpaodofolias.com)
Subtexto
Quanto: grátis (94 págs; pedidos por e-mail: cinehorto@grupogalpao.com.br)
Mais informações: Galpão Cine Horto (tel. 0/xx/31/3481-5580; www.grupogalpao.com.br)

Kazuo Ohno com Carmen Miranda dá samba ou dá butô? Os dois, sugere Antunes Filho. Ou de como a efusão desliza para a melancolia, e vice-versa, no curso da vida para a morte.

Antunes assina seu primeiro espetáculo francamente híbrido de teatro e dança, “Foi Carmen Miranda”, no qual celebra os 99 anos do dançarino japonês e lembra o cinqüentenário da morte da cantora luso-brasileira, ambos em 2005.

Vinte e cinco anos após conhecer a obra-homem Kazuo Ohno, num festival em Nancy, na França, e torná-lo referência obrigatória no seu trabalho de ator, Antunes concebe um projeto de evocação que pré-estréia amanhã na abertura para convidados da 14ª edição do Festival de Teatro de Curitiba (FTC) e voa em seguida para o Japão, onde participa de evento dedicado ao mestre Ohno.

“Eu gosto muito dessa brincadeira que fiz. É minha primeira tentativa. Vi muito balé na vida”, diz Antunes, 75, um admirador da dança contemporânea da alemã Pina Bausch. “Gosto muito do ritmo, do tempo, dos silêncios desta “Carmen”. Tem alguma coisa nova aí, só não sei ainda o quê.”

Quem assistiu a Juliana Galdino (“Medéia”) e Arieta Corrêa (“O Canto de Gregório”) em montagens recentes do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) vai deparar com as atrizes em marcações coreografadas, registros de quem convoca mais o corpo que a palavra. Às vezes, desponta o conhecido rigor de Antunes para a disposição de um coro em cena, explorando perpendicularidades.

O teatro antunesiano se retro-alimenta ainda do recurso do “fonemol”, como em “Nova Velha Estória” (1991). Trata-se de fala desconexa, inventa-língua que Galdino dispara num momento ou outro, masculinizada em terno, calça e chapéu brancos, como a figura do malandro de inspiração chapliniana, espera o encenador.

A densidade, o lirismo e as trevas do butô são expressadas sobretudo pela presença da bailarina e coreógrafa convidada Emilie Sugai, integrante da Cia. Tamanduá de Dança-Teatro, fundada em 1995 por Takao Kusuno (1945-2001), nome-chave na introdução no Brasil da dança gestada por Kazuo Ohno e Tatsumi Hijikata (1928-1986) no Japão pós-guerra, nos anos 50.

“Como tenho ascendência japonesa, questionava-me se conseguiria alcançar o universo da Carmen Miranda, artista que pouco conhecia”, diz Sugai, 39. O desafio foi vencido aos poucos.

Completa o elenco a atriz Paula Arruda, recém-ingressada no CPT. Ela surge no início do espetáculo como a Carmen criança e aparece no fechamento brandindo a bandeira brasileira, cena que não incorre em nacionalismo, diz Antunes, antes reafirma os laços culturais entre Brasil e Japão.

“Não estou discutindo o que a Carmen fez ou deixou de fazer com os americanos, com Getúlio Vargas. Discuto o arquétipo do brasileiro vencedor fora das fronteiras”, diz o diretor, de ascendência portuguesa.

Símbolos cênicos
Mas há a apropriação de signos carmenianos, como o vestido prateado, as lantejoulas, os balangandãs, os sapatos plataforma, o turbante ornado com frutas tropicais (bananas à frente), o pandeiro, uma boneca, uma rosa vermelha, enfim, o “kitsch” espetacular do sucesso internacional do mito.

Fazia quase dez anos que Antunes não ia a Curitiba. Ele está na Mostra Oficial ao lado de artistas que influenciou profundamente, casos do ator Luís Melo, que criou na capital paranaense o seu Ateliê de Criação Teatral (ACT) e atua em “Daqui a 200 Anos”, de Anton Tchecov, e do diretor Sérgio Ferrara, que leva à capital paranaense “A Última Viagem de Borges”, estréia de Ignácio Loyola Brandão na dramaturgia.

Em meio ao baile de máscaras de “Foi Carmen Miranda”, Antunes e o CPT preparam ainda sua segunda tragédia grega, “Antígona”, de Sófocles, e mais um “Prêt-à-Porter”, o sétimo, ambos com estréia neste ano.

Folha de S.Paulo

São Paulo, domingo, 13 de março de 2005

TEATRO 
Peça do Grupo XIX de Teatro ocupa conjunto arquitetônico abandonado do Belenzinho, tombado como patrimônio histórico

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

Fantasmas que habitam alguns prédios públicos abandonados há pelo menos três décadas na Vila Operária Maria Zélia (1917), no Belenzinho, zona leste, estão contracenando desde ontem com operários, imigrantes e lavadeiras -tal qual no início do século 19.

É na Escola dos Meninos, como era chamado um dos dois estabelecimentos de ensino da vila -o outro era o das Meninas-, que acontece a segunda parte do espetáculo “Hygiene”.

Na primeira parte, público e atores percorrem, sempre à luz do dia, alguns metros entre ruas e travessas, prédios semi ou totalmente destruídos e bem cuidadas casas de moradores.

O passeio por “dentro da peça” flagra a memória do conjunto arquitetônico tombado como patrimônio histórico em 1992, agora reavivado cenicamente pela montagem do Grupo XIX de Teatro.

Revelado em “Hysteria” (2001), que ocupava casarões para mostrar a vida de cinco mulheres confinadas num hospício, o grupo agora pesquisa o processo de higienização urbana do Brasil, no início do século 19, sob a perspectiva de moradores, sobretudo moradoras, de um cortiço. “Veja bem: não é a história da Vila Maria Zélia”, diz o diretor Luiz Fernando Marques, 27.

“Se as mulheres de “Hysteria” tinham o corpo castrado, eram entendidas pela medicina como doentes, aqui elas são mais libertas, apesar de exploradas no trabalho”, diz Marques.

“Muitas lavadeiras carregavam até 70 quilos de pano na cabeça durante o dia e à noite trabalhavam como prostitutas”, diz a atriz Sara Antunes, 22.

O espetáculo “Hygiene” quer dar conta daquelas condições de habitação, retrato bem acabado dos conflitos que iam pela época e ainda hoje respingam nas páginas dos jornais.

“A história mostra que, em nome da “limpeza” urbana, já se fez muitas coisas no mínimo questionáveis”, diz Marques.

A própria criação das vilas operárias (a cidade chegou a ter cerca de 40) era indício de uma política pública de “higienização”, segundo o diretor.

Quando idealizou a construção da Vila Maria Zélia, o industrial Jorge Street (1863-1939) conjugou casas (hoje, cerca de 180) então à margem do rio Tietê, ao lado de duas fábricas de jutas, num espaço que incluía creche, escolas, salão de baile, capela, armazém, sapataria e boticário (é esse edifício, por exemplo, que o Grupo XIX faz as vezes de camarim).

Relação de troca
Em 13 meses de residência na Maria Zélia, por conta da Lei de Fomento, o grupo experimentou o pêndulo espaço público e privado. É como entrar na “casa” da vila e, porta aberta, estabelecer a troca. Alguns moradores colaboraram diretamente. Outros, resistiram (leia texto abaixo).

O diretor Luiz Fernando Marques estima que 40% dos moradores têm mais de 70 anos, mas nota que aqueles que demonstram interesse pela presença do grupo têm idade variada.

“Hygiene” narra o último dia na vida de um cortiço. Seus personagens, interpretados por quatro atrizes e três atores, são como que embriagados por um rito de passagem que não escolheram.

“A peste mais terrível é aquela que não divulga suas feições”, receita o Médico na peça, quando a medicina em tudo intervinha.

“Aqui, quando adoecemos, o médico que bate à nossa porta é a polícia”, reclama a Operária, imigrante polonesa “sem pão e, daqui a pouco, sem teto”.

Depois de circular pela vila em cima de uma carroça, a Noiva adoentada da história, calada e abatida, caminha descalça pelo piso gasto e molhado do que poderia ser o pátio da escola, cuja fachada aparenta um castelo mal-assombrado.

E assim o grupo rememorou pandeiros, batuques, sotaques, panos de renda e baldes d’água em meio a tanta roupa suja.



Hygiene
Pesquisa e criação:
Grupo XIX de Teatro (Gisela Millás, Janaína Leite, Juliana Sanches, Paulo Celestino, Rodolfo Amorim, Ronaldo Serruya e Sara Antunes) 
Direção: Luiz Fernando Marques 
Espaço cênico e figurinos: Renato Bolelli 
Onde: Vila Operária Maria Zélia (r. Cachoeira, esquina com r. dos Prazeres, Belenzinho; reservas pelo tel. 8283-6269); 60 lugares; www.grupoxixde teatro.ato.br 
Quando: sáb. e dom., às 16h; até 17 de abril (retorna no segundo semestre)
Quanto: entrada franca


Folha de S.Paulo

São Paulo, sábado, 12 de março de 2005

TEATRO 

Comédias na cidade exploram o universo feminino


VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local

Alzira. A solteirona Alzira, na casa dos 40, mora sozinha. É agressiva, insubmissa. Um dia, mal-humorada, descarrega suas broncas para cima de um vendedor machista que lhe bate à porta.

Friziléia. A “amélia” Friziléia, talvez também na casa dos 40, abriu mão de trabalhar para cuidar do filho, da casa. Onze anos depois do casamento, se dá conta da dependência emocional e econômica do homem que saiu em viagem e com o qual costuma “falar” por meio de bilhetes ou de recados na secretária eletrônica.

Essas mulheres antípodas vão à luta e à cena a partir deste final de semana nos espetáculos “Alzira Power”, peça de Antônio Bivar, de 1969, que não era encenada há 34 anos, e “Friziléia, uma Esposa à Beira de um Ataque de Nervos”, texto recente de Camilo Áttila, autor bissexto, casado há 18 anos com a atriz Elizabeth Savala, que interpreta o monólogo.

“Alzira Power”, dirigida por Jairo Mattos, estréia hoje no teatro Cultura Inglesa – Higienópolis. A produção carioca “Friziléia”, por Luiz Arthur Nunes, faz temporada desde ontem no Bibi Ferreira.

“Friziléia suporta a vida de forma espetacular, com humor, autodeboche. É isso que faz com que ela não se afogue. Existe uma saída, sempre, e cabe a cada um encontrá-la”, diz Savala, 50, sobre sua “operária do lar”.

Não está exatamente sozinha no palco. Ela contracena com personagens “virtuais”, projetados em vídeo: o marido (pelo ator Marcelo Escorel) e a sogra, alter ego de Friziléia, na pele da própria atriz.

Em “Alzira Power”, a protagonista interpretada por Cissa Carvalho Pinto (25 anos de ofício, ex-Macunaíma, de Antunes Filho) impõe sabatina feminista ao vendedor de carros (por César Figueiredo), que tenta “desarmá-la” com artifícios da sedução. Alzira se rebela de acordo com o espírito do final dos anos 60, ainda que não militasse em causas feministas, quando muitos sutiãs foram queimados em praça pública.



Alzira Power
Onde:
Cultura Inglesa – Higienópolis (av. Higienópolis, 449, tel. 3826-4322) 
Quando: estréia hoje, às 21h; sáb., às 21h, e dom., às 19h; até 1º/5 
Quanto: R$ 20 

Friziléia, uma Esposa à Beira de um Ataque de Nervos
Onde:
Bibi Ferreira (av. Brigadeiro Luís Antônio, 931, Bela Vista, tel. 3105-3129) 
Quando: qui. a sáb., às 21h15, e dom., às 18h30; até 29/5 
Quanto: R$ 40 e R$ 50 (sáb.) 

Folha de S.Paulo

São Paulo, quarta-feira, 09 de março de 2005

TEATRO
Novo diretor do Departamento de Teatro da capital aguarda parecer jurídico sobre a Lei de Fomento

VALMIR SANTOS
Da Reportagem Local 

Há seis dias no cargo, o novo diretor do Departamento de Teatro da Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo declarou anteontem que o sexto edital da chamada Lei do Fomento, lançado em janeiro, “está suspenso”.

A comissão para selecionar os 71 projetos inscritos chegou a ser apontada pela equipe de transição do governo anterior, do PT, mas não foi homologada. “[O Fomento] está à espera dessa homologação ou do parecer do conselho jurídico que analisa a lei com lupas como a da jurisprudência”, diz José Carlos dos Santos Andrade, 51, dramaturgo e educador que estréia em cargo público como homem de confiança de Emanoel Araújo, o secretário municipal da Cultura, na administração PSDB.

Sancionado em 2002, o Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo foi aprovado na Câmara Municipal com dotação orçamentária da prefeitura (atualmente R$ 9 milhões distribuídos em dois editais por ano). Segundo a lei, o subsídio é destinado a grupos voltados para a pesquisa continuada. Foram contemplados conjuntos como Oficina, Vertigem, Cia. do Latão, Tapa e Parlapatões, alguns deles até três vezes, como previsto. Isso gerou reclamações no cerne da própria classe. Em entrevista à Folha, no final de 2004, o diretor Antunes Filho acusou o processo de seleção de “compadrio”.

“Não há como questionar a excelência da idéia da lei, até mesmo porque cultura, na França, por exemplo, é feita assim. Peter Brook saiu da Inglaterra para se radicar em Paris porque lá encontra apoio e subsídios. Agora, dentro da nossa logística aqui, algumas coisas precisam ser entendidas. Há pontos favoráveis e outros a serem discutidos. Parte expressiva da comunidade teatral acusa insatisfação. É preciso dar ouvidos a ela”, diz Andrade.

A exoneração da coordenadora do Fomento, Sula Andreato, na sexta passada, complicou ainda mais a situação do programa que responde por boa parte dos cerca de R$ 3,5 milhões que a Secretaria da Cultura deve a artistas e grupos que prestaram serviço em 2004 (incluindo projetos de Formação de Público e Teatro Vocacional).

“Não há interesse por parte do Emanoel, que acima de tudo é um artista, em abortar nada. A preocupação é a de não criar falsas expectativas”, diz Andrade.

Sentado em sua sala, no nono andar do prédio da Galeria Olido, no Centro de São Paulo, o diretor olha de esguio para o livro-ata no qual já preencheu 14 páginas sobre pendências. Ele apela: “Isso aqui é uma avalanche, um tsunami cultural”. Há mais de 30 anos coordenador pedagógico numa escola privada e, recentemente, também coordenador do curso de artes cênicas numa faculdade, Andrade quer manter alguns projetos, “até porque são bons”.

É o caso do Vocacional (criado em 2001 e voltado para o teatro amador; ação de artistas orientadores que resultou na formação de 348 grupos até 2004) e o Formação de Público (também a partir de 2001, parceria das pastas da Educação e da Cultura focada sobretudo nos espectadores adolescentes e adultos, com ênfases nos 21 teatros dos Centros Unificados de Educação, os CEUs).

Andrade quer enfatizar o casamento do teatro com a educação, e vice-versa. “É impossível pensar educação sem cultura. A dificuldade é encontrar a forma de como realizar, de como dar prosseguimento a essa interatividade”, diz.

Quer levar espetáculos de formação de atores vindos de escolas públicas ou privadas, regulares ou livres, aos 21 teatros e respectivas salas multiuso dos CEUs, além dos sete teatros distritais (João Caetano, Paulo Eiró, Cacilda Becker, Arthur Azevedo, Martins Pena, Flávio Império e Alfredo Mesquita), todos sob o guarda-chuva de seu departamento.