Jornalista e crítico fundador do site Teatrojornal – Leituras de Cena, que edita desde 2010. Escreveu em publicações como Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Bravo! e O Diário, de Mogi das Cruzes. Autor de livros ou capítulos afeitos ao campo, além de colaborador em curadorias ou consultorias para mostras, festivais ou enciclopédias. Doutor em artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde fez mestrado pelo mesmo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.
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22.2.1998 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 22 de fevereiro de 1998. Caderno A – 4
VALMIR SANTOS
São Paulo – Ele era do tipo que tinha um nó na garganta quando via um cenário sendo desmanchado, ao final de cada temporada. O diretor paulista Ademar Guerra (1933-1993) inscreveu seu nome na história do teatro brasileiro com paixão incomum.
Montagens como “Marat/Sade” (1967) e o musical “Hair” (1969) marcaram pela disciplina ferrenha e despretenção estética. O ator era alicerce de tudo e a ele Guerra devotava sua arte. O perfil instrospectivo, pouco chegado aos holofotes, o deixou como que à margem da geração seminal de diretores brasileiros, como Antunes, Boal, Zé Celso, Abujamra, Haddad etc. Quando o incenso é muito, o santo desconfia – bem que a máxima caberia nos 59 anos vividos por Guerra.
O livro “Ademar Guerra: O Teatro de Um Homem Só”, do jornalista Oswaldo Mendes (Editora Senac), descortina toda a trajetória do diretor – desde a atuação como assistente de Antunes Filho, nos anos 50, até o seu último espetáculo, “O Vampiro e a Polaquinha”, que estreou em 1992, um ano antes de sua morte. E vem preencher, também, uma lacuna para as novas gerações, carentes de informações sobre o passado do teatro no País.
Não se trata propriamente de uma biografia. Quando muito, toca na forte ligação com a mãe. Mendes, amigo e parceiro em muitos trabalhos de Guerra, resgata a memória do diretor através de depoimentos colhidos do próprio e dos inúmeros profissionais que conviveram com ele. Mendes ousa colocar o texto na primeira pessoa, demonstrando o grau de intimidade com o encenador, resultando numa narrativa póstuma. Essa ressuscitação, por assim dizer, recupera oralidade coloquial de Guerra e o aproxima ainda mais do presente.
Entre suas montagens históricas, estão os musicais “Oh! Que Delícia de Guerra” (1966) e “Hair”, dois textos estrangeiros que lhe valeram patrulhamento à época, acusado de alienação política. Na opinião de Guerra, o bom texto era aquele que embutia um olhar universal. Capaz, por exemplo, de catalisar a atenção do público brasileiro para a guerra do Vietnã (caso de “Hair”), independente da contextualização. Ele provou essa espécie de globalização de problemas e virtudes humanas muito antes de “Angels in America”, de Tony Kushner, nestes anos 90.
O formato editorial de “O Teatro de Um Homem Só” é curioso. Nas páginas ímpares, Mendes segue contando a luta de Guerra para levar suas idéias adiante; as frustrações com alguns colegas; enfim, a projeção afetiva com a qual o diretor ficou conhecido na classe teatral. Já nas páginas pares, o livro reproduz depoimentos não menos passionais, de críticos, jornalistas e amigos de Guerra (Décio de Almeida Prado, Alberto Guzik, Jefferson del Rios, Bárbara Heliodora, Márika Gidali, Maria Bonomi, Aracy Balabanian, Renata Pallotini etc).
É importante lembrar que Ademar Guerra trascendeu às fronteiras do teatro e também flertou com a dança e a música. Respondeu pelo roteiro de algumas coreografias do grupo Stagium, como “Quebradas do Mundaréu” (1975) – adaptação de “Navalha na Carne”, de Plínio Marcos – e “Paulistânias” (1994). Assinou ainda a direção de um dos shows mais importantes da carreira de Elis Regi-na, “Saudade do Brasil” (1980). Aliás, no final do livro, ele se encontra coma cantora no céu, concessão um tanto permissiva de Mendes.
Didático sem ser enfadonho, “O Teatro de Um Homem Só” é um livro de memória fresca que, não fosse por ele, o livro, estaria mofando úa cuca de muitos que compartilharam da presença cativante de Guerra. Explorando, sem medo, a veia afetiva do “biografado”, dando voz a pessoas não menos especiais, ilustrando boa parte dos espetáculos dirigidos por Guerra, enfim, Mendes deu seu recado com um belo projeto.
Ademar Guerra – O Teatro de um Homem Só – De Oswaldo Mendes. Editora Senac (rua Dr. Vila Nova, 228, 4º andar, Consolação, tel. 236-2135). Preço médio: R$ 28,00.
15.2.1998 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 15 de fevereiro de 1998. Caderno A – 4
VALMIR SANTOS
São Paulo – Além do ataque veemente ao regime nazista alemão, o dramaturgo norte-americano Arthur Miller, 82 anos, transforma “Vidros Partidos” em um divã para a psicanálise. Situando a história da peça na Nova York de 1938, um ano antes da morte de Sigmund Freud, o autor deu contornos psicológicos tão fortes aos personagens do triângulo principal da história, que é impossível sair do teatro sem compartilhar de tanta angústia.
A relação do casal Philip Gellburg (Francarlos Reis) e Sylvia (Minam Mehler) é pura neurose. Ela está acomodada numa cadeira de rodas, vítima de uma “paralisia histérica”, como diagnostica o médico e dublê de psicólogo Herry Hyman (Luiz Serra).
Num primeiro momento, Sylvia atribui seu transtorno pessoal às notícias de guerra que chegam do outro lado do oceano. Como ela e o marido são judeus, se condói pelo massacre da etnia pelos carrascos de Hitler. Aos poucos, porém, o que se descortina são as mazelas de um casamento que agoniza há mais de 20 anos, desde o nascimento do único filho, hoje capitão das forças armadas dos Estados Unidos e atuando no front.
Enfim, são personagens de perfis desafiadores. Felizmente, a montagem de “Vidros Partidos”, em cena no Teatro Cultura Inglesa desde a semana passada, conta com a presença tocante de dois grandes atores em cena.
Francarlos Reis catalisa atenção com seu Philip turrão, obsessivo com os negócios, corpo sempre tenso, arqueado, dono de um olhar que é esbugalhado, de vigília, mas também é de peixe morto. O martírio de dar expediente como judeu 24 horas por dia, a âncora da culpa, o desconcerto da impotência sexual – Francarlos transmite a essência desse personagem que carrega sobre as costas todo o peso das obrigações que o mundo ocidental impõe sobre a masculinidade
– o mito do herói faz-tudo, pronto para embarcar para a guerra.
Contundente é também a interpretação de Miriam Mehler. Sylvia é uma mulher de brio, mas que abdicou da vida e se anulou bastante em função do casamento. Ao sublimar o genocídio dos judeus, se apegando ao fio universal da história viva da humanidade, ela acaba somatizando seu inferno na paralisia.
Nas cenas em que é impingida a voltar a andar, seja no acolhimento (leia-se calor humano) do médico, seja no embate com o marido, Miriam Mehler é puro arrebatamento. Ao exteriorizar a raiva de Sylvia, ao mesmo tempo em que a personagem reencontra sua força interior, a atriz vai ao limite do drama e expõe ali, atirada ao chão ou fragilizada na cadeira de rodas, o talento que cristaliza os 40 anos de carreira.
O diretor Iacov Hillel (“Angels in America”), de descendência judia, soube equilibrar aqui as duas vertentes temáticas de Arthur Miller (anti-nazismo, pró-psicologia). Para tanto, contou com um elenco que é a substância da montagem.
Soma-se ao brilho de Francarlos Reis e Miriam Mehler a entrega de Luiz Serra em cena, como o médico e vértice do triângulo, responsável pelos lampejos que iluminam a consciência do casal – ainda que Miller não seja nenhum pouco concessivo no desfecho da peça. Miriam Lins e Tuna Dwek cumprem bem as funções de válvula de escape para o quinhão de humor num drama psicológico que pede o envolvimento do espectador a todo instante. Denis Victorazo, por fim, completa o elenco com tranquilidade.
Com “Vidros Partidos”, sua peça mais recente, Arthur Miller estilhaça as histórias universal e pessoal, refletindo até que ponto este cruzamento afeta a todos. Para o bem e para o mal.
Vidros Partidos – De Arthur Miller. Direção: Iacov Hillel. Quinta e sexta, 29h30; sábado, 19h30; domingo, 19h. Teatro Cultural Inglesa (rua Deputado Lacerda Franco, 333, Pinheiros, tel. 814-0100). R$ 10,00. Até dia 28 de fevereiro.
“Entrevista” tem síntese de texto e interpretação
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São Paulo – Foram apenas sete sessões no Sesc Pompéia, no período de 4 a 8 deste mês. Mas “Entrevista” merece uma longa temporada. O texto de Fernando Moreira Salles é uma instigante discussão sobre dois aspectos antigos e, ao mesmo tempo, extremamente atuais da humanidade: o amor e a criação. |
Contextualizando para a nossa época, a peça enfoca o encontro de um homem e uma mulher separados dois anos atrás, sabe-se lá porquê. É a chance de Paulo, dramaturgo, e Marta, jornalista e crítica teatral, colocarem os pontos nos “is”.
A formalidade de uma entrevista, onde se extrai informações da fonte, descamba para a pessoalidade das lembranças. O passado ainda fresco no olhar, no toque, no desdém de um pelo outro.
Paulo estava pronto para o ataque. Afinal, a despedida foi tão banal. Estavam em Veneza, cobrindo o festival internacional de teatro, quando ela simplesmente escreveu um bilhete sucinto, dizendo que partiria assim, de chofre, para nunca mais dar o ar da graça.
As explicações passionais, recheadas de ironia, são intercaladas por um exercício de metalinguagem que coloca em cheque sobretudo o teatro. Crítica e dramaturgo vão desde a busca do outro em Beckett, passando por “esse teatrinho feito de anabolizantes” até a franca retaliação com a cultura da TV e seu nivelamento por baixo.
Finalmente, no seu depoimento abertamente sentimental, Marta explica as razões do coração que a levaram a deixar o companheiro. A bucólica imagem dele tomando banho de mar em Veneza serviu-lhe de mola propulsora. Todo aquele desalento demonstrou, enfim, que a incomunicabilidade do casal era inevitável. Esta consciência, ainda que subjetiva, motivou sua partida.
Dirigidos por Maria Lúcia Pereira, profunda conhecedora da arte do ator, Sérgio Mastropasqua (Paulo) e Élida Marques (Marta) têm uma atuação concisa, econômica nos gestos, movimentos. Há uma nítida valorização do verbo na montagem, como requer o texto e a curta duração do espetáculo (menos de uma hora). Warde Marx, como o amigo comum do casal (Mário), testemunha ocular e silenciosa, cumpre seu papel sem comprometimento.
“Entrevista” tem, ainda, o mérito de trazer o diretor da Companhia das Letras, em seus primeiros passos, para o circuito da dramaturgia brasileira. Salles demonstra conhecimento do ofício e não se aventura por causa pequena.
“Irmãs do Tempo” tira bruxas do estereótipo
São Paulo – Como o dramaturgo inglês Tom Stoppard, 60 anos, que pinçou os traiçoeiros de Hamlet da condição de personagens coadjuvantes para lhes dar vida em “Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos” (1966), a peça “Irmãs do Tempo” reporta às bruxas não menos shakespearianas que previram a ascensão e queda de Macbeth.
Os autores Cláudia Vasconcellos e Marco Aurélio Pais escreveram o texto mergulhando nos arquétipos das bruxas, para depois liberá-las dos estereótipos e desaguar numa pesquisa cênica de fôlego das intérpretes Raquel Ornellas e Neca Zaryos.
Tomando como base as irmãs Weird de “Macbeth”, as atrizes desenvolveram uma atuação que prioriza o trabalho corporal. Dos gestos aos movimentos, passando pela extensão da voz e suas variantes onomatopaicas, ambas reinventam as noções de tempo, espaço e ação, transformando o palco em território livre para a imersão imaginária da caixa preta.
Com recursos que se aproximam da linguagem do clown e passam necessariamente pela contato-improvisação, elemento recorrente da dança-teatro contemporânea, Raquel e Neca se entregam à atuação prestando atenção aos mínimos detalhes. Apesar da formação acadêmica inerente das duas atrizes – a montagem é fruto de pesquisa de mestrado no Departamento de Artes Cênicas da USP -, felizmente “Irmãs do Tempo” é despida de hermetismos afins.
Aqui, importa o jogo cênico entre Raquel e Neca, as nuanças que estabelecem a cada momento do espetáculo. Elas estão em cena por completo, interagem com os objetos cênicos, com os figurinos, adereços, de modo que “recriar” e o verbo que melhor define suas performances.
É engenhosa e instigante a forma como a interpretação e o texto se equilibram entre o horror sangüinárío da história de Macbeth e a dimensão lúdica das histórias infantis. Assim, Rapunzel e Lady Macbeth surgem com o assombro e o onírico que lhes cabem – fio às vezes imperceptível.
Da temporada de estréia, no ano passado, para a reestréia agora, com sessões no Teatro Brincante, “Irmãs do Tempo” avançou bastante na sua comunicação com o público. Alcança síntese até quando cruza as barbaridades da Inquisição com o episódio do índio pataxó queimado em Brasília.
O ex-secretário de Cultura em Mogi, Armando Sérgio da Silva, que dirigiu a peça na primeira fase, desta vez divide a direção com Regina Mendes, professora, dona de formação sobretudo na dança. Daí a influência na afinidade corporal.
A cenografia de Renato Cymbalista e Eduardo Canella corresponde à atmosfera sugerida pelo texto – os galhos suspensos contrastam com a modernidade high-tech. Também os figurinos assinados por Christiane Gauche emprestam atemporalidade às personagens ora capetas, ora anjos de ocasião. Bem e mal, outro diapasão para a montagem.
Nesta viagem – simbolicamente, o espetáculo abre e fecha com um belo “barco” sugerido pelos corpos e vozes de Neca e Raquel -, o espectador tem a chance de penetrar o universo da bruxaria com introspecção e entretenimento garantidos. “Irmãs do Tempo” consegue ser experimental e acessível na medida certa. Sem concessão, sem redoma. Mas com leveza e muita inventividade.
Irmãs do Tempo – De Cláudia Vasconcellos e Marco Aurélio Pais. Direção: Armando Sérgio da Silva e Regina Mendes. Com Raquel Ornellas e Neca Zarvos. Quinta a sábado, 21h; domingo, 20h. Teatro Brincante (rua Purpurina, 428, Vila Madalena, tel. 816-0575). R$ 10,00. Duração: 70 minutos. Até 1º de março.
18.1.1998 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 18 de janeiro de 1998. Caderno A – 4
“Vida e Arte” traz memórias da atriz que debutou aos 47 anos e completa 87 em fevereiro
VALMIR SANTOS
São Paulo – Você – permita-me dispensar o tratamento de senhora – descortina o passado com a maturidade que só o tempo vivido em sua plenitude pode dotar os seres humanos especiais. Embarcar na leitura de “Vida e Arte – Memórias de Lélia Abramo” é compartilhar contigo, ao pé do ouvido, o curso de urna vida pautada pela formação humanista, pela luta política e pelo ofício de atriz exercido nos palcos, na televisão no cinema.
Um casamento assim, em que a transcendência artística e a preocupação com o próximo se harmonizam, só pôde ser conquistado graças à coerência e perseverança da sua alma. Nascida no berço dos Abramos, você foi apresentada à literatura, ao teatro, às artes, enfim, por obra dos pais, dona Yole e seu Vicente, eixos de uma família de imigrantes italianos, que chegaram ao Brasil em 1892.
Quinta da fieira de sete irmãos, você também manteve com eles uma relação de ternura, de laços de cumplicidade que derrubavam distâncias continentais. Ângela Maria, a Nenê, foi a meia-irmã e, claro, não menos querida que os demais, pois filha do primeiro casamento do seu pai, que ficou viúvo e conheceu sua mãe.
Lívio, o primogênito, acentuou a vocação de desenhista e artista plástico. Athos caminhou para o jornalismo e se especializou na crítica teatral. Beatriz foi a irmã com quem esteve mais próxima, compartilhando inclusive os difíceis 12 anos de residência na Itália, em pleno espocar da Segunda Guerra Mundial, experiência que lhe deixaria sequelas para todo o sempre.
Fúlvio, o quinto mano, engajou-se na luta política, especificamente comunista, num Brasil dos anos 30 que passava pelo crivo ditatorial de Vargas. Mário, que preenchia a casa com sua bondade e delicadeza, “desapareceu” aos 41 anos – sim, porque na sua família ninguém morre ou falece, mas desaparece. Ele estava fazendo um piquenique à margem de um então límpido Rio Tietê, quando foi passear de barco, este virou e o levou, afogado.
Cláudio, o caçula, tornou-se um dos principais nomes da história do jornalismo brasileiro, chegando a dirigir a redação da Folha de S. Paulo e sedimentar uma “escola” que faz eco em todos os jornais do País. O livro “A Regra do Jogo” (1988), escrito pelo filho, Cláudio Weber Abramo, conta sua trajetória e serve de parâmetro para os jovens que sonham merguhar na profissão.
No meio dos sete, você, Lélia, era o “abajurzinho” da farnília, como a defendeu carinhosamente o irmão Athos. Você dividiu tristezas e alegrias com todos; aprendeu, ensinou. Hoje, prestes a completar 87 anos, mês que vem, você se vê sozinha no mundo. Foram-se os pais, os seis irmãos, sozinha, entre aspas, porque o destino lhe reservou um afeto de amizade, em várias frentes, que sedimentou seu caminho até aqui.
Lélia, são tocantes os relatos sobre a busca amorosa. Você, trotskista, namorou um militante leninista. Deixou-se levar pelo coração, escanteando um pouco a razão ideológica daqueles verdes anos de vida. Apaixonou-se pelo rapaz de inúmeras virtudes e um vício frenético: mulherengo à beça. Você, tão aguerrida, quem diria, fez vistas grossas, humana que é, porque as razões do coração pertencem a outra instância, sabe lá Deus qual. “Não sei se foi orgulho ou amor demais”, pondera em suas memórias.
Conviver com a solidão foi como que um estigma em todos esses anos. Por conta da incompetência assombrosa de um médico italiano, você deitou numa mesa de operação, em Roma, para extrair o ovário esquerdo, mas o desastroso cirurgião extirpou-lhe justamente o ovário sadio. “Além disso, ‘alguém’ esqueceu de suturar um vaso, provocando um choque hemorrágico pós-operatório, percebido tardiamente quando meu estado já era desesperador”, relembra. Foi um episódio, como muitos outros, que a marcaram para sempre. Este, em particular, tirou-lhe o direito de gerar um filho.
Ninguém passa incólume aos anos de guerra. Sua estadia na Itália, entre 1938 e 1950, veio confirmar ainda mais sua veia humanista. Testemunhar, in toco, os desvarios de Hitler na Segunda Guerra fez de você uma mulher antenada com as causas sociais – nem que isso lhe demandasse duas pátrias. Não foi à toa que você levou a bandeira da profissionalização do ator brasileiro à frente do Sindicato dos Artistas, em São Paulo.
Seu envolvimento com o movimento sindical chegou ao poto de testemunhar o lançamento do Partido dos Trabalhadores, no início da década de 80, consequência das greves que mobilizaram os operários do ABC em 1979. Você serviu como interlocutora para convencer o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula, a tomar a dianteira naquela semente do PT. Poucos anos depois, você viria a trabalhar na gestão de outra mulher de força incomum, a ex-prefeita Luiza Erundina, canalizando sua energia teatral para projetos comunitários.
Ah, sim, a atriz. A maturidade, mais uma vez, se fez presente no início da carreira. Você só foi subir ao palco profissionalmente aos 47 anos, interpretando, sintomaticamente, a operária Romana de “Eles Não Usam Black-Tie” (1958), peça que Gianfrancesco Guarnieri escreveu em sua juventude. Cinco anos depois, você tremia no palco em “Os Ossos do Barão”, de Jorde Andrade, quando notou que o grande ator italiano Vittorio Gassmann estava sentado na platéia.
No dia do golpe de 64, lº de abril, você ensaiava “Vereda da Salvação”, também de Andrade. Antunes Filho, em seus primeiros passos de diretor, decidiu suspender os ensaios, A montagem chegou a cumpnr uma curta temporada no TBC. Você interpretava Durvalina no palco, mas na versão da peça para o cinema, naquele mesmo ano, sob direção de Anselmo Duarte, você foi escalada para fazer Dolores, uma mãe arrebatadora.
Sua experiência com a televisão nunca foi uma maravilha. Dona de uma consciência social contumaz, era difícil se eximir de crítica ao veículo. Sobretudo à toda poderosa Rede Globo, surgida na esteira do regime militar. Sua saída da emissora, como descreve, é a melhor prova desse confronto intelectual em que os interesses humanos e os capitais se chocam. Participavas da novela “Pai Herói” (1979), dirigida por Gonzaga Blota, quando sua personagem, Dona Januária, “morreu” subtamente e você foi parar no olho da rua, ficando desempregada.
Perseguida pelas armadilhas do destino ou pelas injustiças, você nunca se esquivou de enfrentá-las. Foram tantos os obstáculos, de toda ordem, que é de admirar a força com que você chega até nós para rememorar as lembranças, força-motriz de qualquer história pessoal. “Mas a vida sempre nos prepara situações inesperadas e às vezes dolorosas que não podemos alterar ou impedir – só nos resta ter paciência, suportar e sofrer”, ensi na você, escolada na arte do bom senso.
Lançamento conjunto da Editora Fundação Perseu Abramo e Editora da Unicamp, com um alentado material ilustrativo, “Vida e Arte” é calcado nas reminiscências, com precisão de detalhes como o pôr-do-sol e a tonalidade dos céus. Você faz questão de costurar os fatos históricos – realidade que tanto sublimou para compensar as perdas e danos pessoais. Lélia, deambular é teu verbo vitorioso, porque fizestes da solidão um instrumento para se agarrar aos gestos essenciais da vida como ela lhe é. Muitas vezes gestos pequenos e, por isso, gigantes.
Vida e Arte – Memória de Lélia Abramo – De Lélia Abramo. Editora Fundação Perseu Abramo tel. 259-8024 e Editora da Unicamp tel. 19-788-2015. 272 páginas. R$ 27,00.
23.11.1997 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 23 de novembro de 1997. Caderno A – 4
Peça de José Vicente mantém atualidade dos enfoques social e religioso
VALMIR SANTOS
São Paulo – Num primeiro que plano, como quer José Vicente, “Santidade” expõe a vida de michê com a devida mácula cristã. A prostituição masculina está aquém da retidão divina. Mas o autor transcende o tema. A peça também expia a noção de pecado segundo o peso da crença católica. Mais: avança para dentro mas de uma juventude vivida das relações humanas no que elas têm de superfície e essência.
Há 30 anos, quando o então presidente Costa e Silva censurou “Santidade”, em seu ataque de moralidade cívica, ele provavelmente se ateve a algumas frases de impacto que, não necessariamente, refletem o âmago da história. Por exemplo: “O Cristo morreu sufocado; a Igreja matou Cristo!” – é uma das sentenças espulmantes que saem da boca de Arthur, o personagem-vértice da peça. “Eu não acredito em santo sem esperma!”, continua. Mais: “O Deus da juventude está morto!”.
O que José Vicente “pregou” em sua primeira peça, escrita aos 22 anos, era muito mais do que uma pichação à Igreja Católica. Os diálogos entre Arthur, ex-seminarista, e seu irmão Nicolau, na iminência de se tornar padre, constituem o eixo do texto. Arthur e Nicolau, uma corruptela do autor para homenagear o poeta francês Arthur Rimbaud.
Num pequeno apartamento barato do centro de São Paulo, os três personagens despem seus medos, angústias, desejos, iras, virtudes. Arthur vai ao inferno. Como michê, morando com Ivo, ele exorciza os fantasmas de uma juventude vivida em nome de Deus. Quando seu irmão chega, surge então a oportunidade de enfrentamento; de botar para fora o que ficou engasgado na garganta.
Arthur joga no limite da vida. É quem mobiliza os demais. Na interpretação visceral de Mário Bortolotto, o personagem atinge uma dimensão caótica da existência que é traduzida pelo ator em gestos estridentes e movimentos expansivos – como a reivindicar um território maior que o pequeno palco do Crowne Plaza, para efetivamente explodir. É no Arthur de Bertolotto/José Vicente que “Santidade” rouba fôlego do espectador – parece arrancá-lo da cômoda poltrona e jogá-lo ao centro do palco, tamanha é a emoção que pede e dá.
Na sua terna e delicada presença, o Nicolau de Nívio Diegues é o contraponto perfeito. “A tua inocência me faz mal”, chega a confidenciar Arthur, perplexo com a ingenuidade do irmão, ainda a fugir do sexo e reverberar a utopia cristã. “Ainda tenho medo de possuir meu corpo”, resigna-se Nicolau. O jovem Diegues demonstra segurança contracenando com dois atores experientes.
O Ivo de Antonio de Andrade quebra a densidade da peça com sua ligeireza. Dono de uma butique, sustentando Arthur e agora Nicolau, exerce uma forma de poder que lhe concede companhia na cama. Com Arthur nas mãos, tenta seduzir também o irmão, ainda que em vão. Andrade é afeminado sem carregar na afetação; sem camuflar a solidão da qual o personagem também padece.
Montada por Fauzi Arap, cotado no final dos anos 60 para o papel de Arthur, “Santidade” ganha nesses anos 90 uma aura stanislavikiana que o tempo ofuscou um pouco. Arap é um excelente diretor de ator. Sabe o que quer. Quando a matéria-prima humana é de bom grado, o resultado é um espetáculo vigoroso. A imagem é forte: cama e sofá puídos num cenário que se faz preencher sobretudo pela expressão dos atores, marca maior do diretor.
Trinta anos depois, a atualidade de “Santidade”, finalmente em cena, é o maior indício do poder de fogo de José Vicente com o teatro (“O Assalto”, “Hoje é Dia de Rock”, etc.). Homenageado recentemente em “Ventania”, texto de Alcides Nogueira, dirigido por Gabriel Villela, Vicente sai um pouco da reclusão manifesta para compartilhar da revisão histórica que se vê no palco com sua dramaturgia. E esperar agora por “José Vicente – Virtuose”, peça inédita que encerraria o enfoque religioso em seu repertório.
Santidade – De José Vicente. Quinta a sábado, 21h; domingo, 20h. Teatro Clowne Plaza (rua Frei Caneca, 1360, Cerqueira César, tel. 289-0985). R$ 20,00. Duração: 90 minutos.
Mário Bortolotto está em três peças
São Paulo – Mário Bortolotto é um dos fundadores do grupo paranaense Cemitério de Automóveis, criado há 15 anos em Londrina (PR).
No momento, ele está envolvido em três trabalhos na Capital: atua nos espetáculo “Santidade” e em “Medusa de Ray Ban” – nesta, com o grupo paranaense, também é autor e diretor. Já no monólogo “Jordan”, ele dirige Lucimara Martins (leia crítica das montagens “Medusa de Ray Ban” e “Jordan” nesta página),que tra o monólogo da americana Anna Reynolds.
TRABALHO
No ano passado, Bortolotto esteve em cartaz na Capital com “Leila Baby”, um dos 20 textos que assinou e montou com o Cemitério de Automóveis.
Depois de mudar de Londrina para Curitiba, o grupo está sediado em São Paulo.
“Jordan” instala um silêncio de crua poesia
São Paulo – Qual a gênese de um criminoso? Em que estágio do passado se manifesta o primeiro sinal de que tal ser humano é propenso a matar, roubar? São questões que vêm à baila depois da apresentação de “Jordan”, o monólogo cortante da americana Anna Reynolds, na interpretação su preendentemente segura de Lucimara Martins.
Na base da vida como ela é, temos a história de Shirley Jones, uma interiorana garota inglesa que na década passada se aventurou pela vida com um sujeito que transava com outras mulheres dentro de casa, lhe dava surras e se tornou pai do seu único filho, Jordan.
Quando consegue separar-se do brutamontes, ela vai morar sozinha com Jordan. Sobrevive vendendo seu corpo.
Meses depois, o camarada volta engravatado, garboso, acompanhado da sua nova mulher. Não bastasse ter desgraçado a vida de Shirley, ele agora quer retirar o que lhe é mais precioso: o filho.
Shirley se vê sozinha e incapaz de proteger Jordan do pai maldito e, de quebra, do Estado que também pede a guarda do filho.
Numa certa madrugada, sai a esmo com o bebê, compra uma garrafa de vodca e algumas aspirinas para dor de cabeça.
Volta para casa e, daí em diante, só guarda na memória o fato de ter engasgado ao ingerir comprimidos e bebida. Naquela noite, viria à tona depois, ela asfixiou seu filho com um travesseiro.
Duro, cruel, com um final arrebatador (Shirley se mata no dia em que é absolvida pela justiça), o monólogo vai transcorrendo como um labirinto. Tanta amargura e delicadeza são expressadas no corpo e na palavra da intérprete.
O texto de Anna Reynolds é uma navalha. “É preciso ser bom para ser cruel”, afirma a personagem.
A fábula da princesa que, ao contrário de Shirley, consegue fugir com seu filho, acaba estabelecendo um paralelo contundente.
A atriz preenche o palco com uma movimentação apoiada somente num banco móvel. Lucimara Martins traz à tona a criança e a mulher; a visionária e a guerreira que cabem dentro de Shirley.
CAMINHO ESTREITO
Quando deixou soprar a vida dentro de si, naquele primeiro passeio de moto com o homem que a jogou no inferno, a personagem real não tinha a mínima idéia de que o “caminho estreito de água até a lua” fosse tão difícil de ser percorrido.
O diretor Mário Bortolotto deixa Lucimara fluindo no espaço cênico com a leveza que o peso de uma existência trágica pode ter. Não há desperdício.
O silêncio e os gestos são trabalhados com coerência. Cenografia e figurino, assinados por Fábio Namatame, são acinzentados, sim, mas com um tratamento dramático que leva em conta a poesia do espaço.
A sonoplastia (baladas folk e blues), também de Bortolotto, servem como “blecautes” a cada avanço de tempo do texto e se ajustam à atmosfera algo etérea do espetáculo.
“Jordan” não comporta aplauso esfuziante ao final. Aqui, a realidade dos descaminhos chega em estado bruto. É transe, nó na garganta.
Lucimara Martins nem vem para a boca de cena revelar-se como atriz que é; prefere recolher sua Shirley na penumbra sagrada do teatro a expô-la a mais uma violência – a violência da luz da sociedade.
Jordan – De Anna Reynolds. Com Lucimara Martins. Direção: Mário Bortolotto. Quinta a sábado, 21h30; domingo, 20h30. Centro Cultural São Paulo/Sala Paulo Emílio (rua Vergueiro, 1.000, Paraíso, tel. 277-3611). Os ingressos custam R$ 12,00. Duração: 50 minutos. Até 14 de dezembro.
“Medusa de Ray Ban” vê do olho do furação
São Paulo – “Medusa de Ray Ban”, a montagem do grupo paranaense Cemitério de Automóveis, estiliza a violência banalizada sem derrapar no sensacionalismo fácil ou na caricatura idem, tão comum nos meios de comunicação. O texto de Mário Bortolotto, aqui também dirigindo e atuando, faz troça das intenções pequeno-burguesas; ri literalmente dos medos de quem é vítima mas, no fundo, conspira para sê-la.
A partir do mito de Medusa, a qual petrifica o olhar, a peça discute a violência contemporânea. Em xeque, a frieza dos assassinos de aluguel. Desde o garoto que deseja contratar um cara para matar sua mãe, até o cúmulo de uma entrevista de um assassino num talk-show a la Jô Soares, o humor negro dá o tom.
A crítica ácida deste “westem spaguetti”, como define um dos personagens, apaga qualquer rastro de esperança cega. “Excesso de amor pode ser mais violento do que um tiro na testa”, observa um rei do gatilho.
Na sua desventura com seres desconectados do meio social, perambulando ao léu pelas ruas da urbe, o dramaturgo Mário Bortolotto atira para todos os lados (a família, a televisão, o ideal romântico etc).
Curiosamente, porém, não dá um tiro em cena, apesar das armas que aparecem aqui e ali.
À vontade no palco nu e decadente da sala do Teatro Brasileiro de Comédia, o lendário TBC, Everton Bortotti, Fernanda D’Umbra, José Pimentel, Pedro Roberto Fiori (impagável o seu Jô) e Bortolotto atuam com desprezo total à convenção.
Vão sempre além, na gestualidade e na fala, reinventando tipos que se aproximam da comicidade dos quadrinhos ou do cinema.
“Quando você for visitar a Medusa, não vá de óculos de ray ban; vá de óculos espelhados”. A sentença final é a perspectiva de quem vê do olho do furação, e não de fora. Perseu se aproximou de Medusa e atingiu seu objetivo: decaptou-a. Quem está disposto a tirar os óculos escuros ao invés de perder as asas para a violência, como a que sofreu a corujá na parábola final do texto?
Medusa de Ray Ban – De Mário Bortolotto. Com a Cia. Cemitério de Automóveis. Terça e quarta, 21h. Teatro Brasileiro de Comédia (rua Major Diogo, 165, Bela Vista, tel 606-4408). R$ 10,00. Duração: 70 minutos. Até 17 de dezembro.
26.10.1997 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 26 de outubro de 1997. Caderno A – 6
VALMIR SANTOS
São Paulo – Passaram-se quase 30, anos, e 1968 continua dando o que falar. “Prova de Fogo”, a primeira peça de Cansuelo de Castro, foi escrita naquele ano. O texto, agora encenado pelo grupo Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp), soa datado em boa parte do seu conteúdo ideológicó. Bill Clinton visitou o Brasil há poucos dias e não se viu grandes mobilizações anti-imperialismo ianque, como se rotulava o bicho-papão capitalista em tempos idos.
Descontado o blablablá infinitesimal sobre os papéis hístóricos da esquerda e da pequena burguesia, o que realmente continua chamando atenção em “Prova de Fogo” é a inconformação pungente dos seus personagens. Três décadas atrás, os estudantes não precisavam de minissérie televisiva para sair às ruas.
A força da união, com perdão do clichê, é a essência da peça de Consuelo de Castro. Seu olhar é coletivo. Quando cria atalhos para os relacionamentos amorosos, os diálogos perdem o brilho. Os paralelos pessoais, mesmo resvalando no comportamento da geração 68 (virgindade, aborto e fidelidade, remas recorrentes), são ofuscados pelo eixo político-social.
Nesta seara, Consuelo revela domínio pleno. Ela tinha 22 arios quando deu à luz sua primeira peça. Engajada no movimento estudantil à época, a autora escreveu do olho do furacão. A montagem do Tusp, sob direção de Abílio Tavares, privilegia esta tensão e centra fogo no coletivo.
São 28 atores, boa parte deles universitários sequer nascidos em 1968. No geral, demonstram pouca intimidade com a arte da representação. As marcações de cena são visíveis; toda a movimentação é rígida, “dura”, inclusive nas poucas coreografias.
A “moldura”, que esconde muito da espontaneidade, é compensada pela energia bruta do “coro”. É ali que Tavares explora toda a potencialidade desses jovens aguerridos. A rebeldia juvenil como conteúdo humanista está na intenção dos gestos; nos gritos de guerra; na disparada pelo palco-corredor do prédio da rua Maria Antonia, mesmo local onde se deu o conflito em 1968.
Um grupo de estudantes ocupa a Faculdade de Filosofia e Letras da USP (hoje endereço do Centro Universitário Maria Antonia). Protestam contra a reforma educacional do governo e endossam o descontentamento dos operários no País. A polícia dá ultimato de três dias para o prédio ser abandonado. “Prova de Fogo” se passa nesses eternos três dias, cruzando ficção e realidade.
Os universitários não cedem. A polícia, truculenta ao dobro naquela época, porque balizada pelo regime totalitário dos militares, invade o prédio e prende pelo menos 80 estudantes. Antes do cerco, a repressão havia matado um estudante que participava de uma passeata.
Abílio Tavares foi muito feliz na abertura e fechamento do espetáculo, com Luis (Milton Gruppo Jr.), o estudante assassinado. Primeiro, ele surge ingressando na escola. Depois, se despede para, em seguida, morrer estirado no chão. Nas duas ocasiões, sempre com o “testemunho ocular” da bandeira do Brasil. Passado e presente se encontram com recursos cênicos simples e eficientes.
A história de Consuelo de Castro parece um roteiro de filme, tanto impõe-se a ação, do início ao fim. Na montagem, destacam-se o cortejo das mães e a cena da invasão, com o corre-corre, gritos, tiros e bombas de gás simulados pela coreografia e pelo espocar de bombinhas.
Não há grandes intepretações. Álvaro Franco (Zé Freitas) tem o melhor desempenho, colocando bem a palavra, fazendo conciliar os lados Don Juan e revolucionário do líder dos estudantes. Dar peso e cadência às falas é o que falta a Cléuma Nunes Argolo (Júlia). O papel de amante e opositora em causa comum constitui, em si, um desafio que não é vencido em sua plenitude, por causa do desperdício das pausas. Boa surpresa Marília de Santis (Vilma) cantando ao violão. Idem para o bêbado de Regis Salvarani (Alberto), bambeando com segurança, sem fazer uso da caricatura. Quando atira sua arma imaginária contra as mazelas, apontando para a piatéia, esta engasga o sorriso com um silêncio pertubador.
Em 1993, Aimar Labaki montou a mesma peça, no mesmo local. O público seguia os atores em algumas salas do prédio. Com elenco maduro, por assim dizer, o espetáculo investia mais na interpretação. Havia densidade nas cenas.
Aqui, na “Prova de Fogo” do Tusp e Abílio Tavares, importa mais o trânsito, a “ponte” de uma geração reprimida, mas inquieta, para uma geração Coca-Cola, “livre” mas amorfa. Caíram os muros, os “ismos”. E os 28 atores que picham a parede, urram e aplaudem-se ao som de Legião Urbana estão a reivindicar todo o tempo do mundo. Infelizmente, a urgência dos tempos está aí. Por um instante, movido pelo impulso daqueles estudantes, a utopia parece se instalar. Contudo, é sair do teatro e lá vêm as imagens da exposição, no próprio saguão, das fotos terríveis de corpos de judeus mortos pelo regime nazista… Ontem, hoje e sempre?
Prova de Fogo – De Consuelo de Castro. Direção: Abílio Tavares. Com Tusp (Mariana Voos, Pedro Luis Sanches, Alexandre Lima, Anderson Silva Lins, Andréa Reis etc). Segunda a sábado, 21h; domingo, 20h. Centro Universitário Maria Antonia (rua Maria Antonia, 294, Santa Cecília, tel. 255-5538) R$ 10,00 e R$ 8,00 (sexta) 100 minutos.
“Peep Show” diverte sem compromisso
São Paulo – O descompromisso é a própria razão de ser de “Peep Show”. Um musical? Uma revista? Um show? Todos. O espetáculo parece o tempo todo em cena aberta. As 17 moças e os três rapazes dão conta de entreter com pouco samba no pé e muitas gags em torno do universo dos peep shows – cabines onde as garotas fazem striptease mediante depósito de ficha no caça-níquel (“Paris Texas”, 1976, o filme de Win Wenders, propagou este ícone voyeur).
Os diretores Maurício Morais e Marcos Botassi instalam um clima de boate no palco. Melhor, estendem o agito até às poltronas. Entra-se no Teatro Hilton e lá estão as peeps, as dançarinas voluptuosas em suas plumas e peças diminutas.
A história trata das tentativas ingratas de um cliente, Joel Jubileu (Antonune Nakhle), na escolha da moça que se encaixe no seu objeto do desejo: aquela que saiba sambar com molejo original.
Quem comanda a casa é Tânia Tubarão (Eliete Cigarini). Sob suas ordens, as garotas encarnam fantasias para atender ao menu de homens exigentes. Assim, Rose Rímel (Adriana Mattos), Pamela Power (Cibele Cavalli), Priscila Pistache (Cláudia Cavalheiro), Tina Thinner (Heloísa Nur), entre outras, vão desfilando suas “qualidades” para um insaciável Joel Jubileu.
Em meio ao périplo do cliente, desenrola-se a disputa pelo “ponto” das garotas, a chegada de “carne nova”, Fifi Frontal (Christina Guimarães) e o galentaio do soldado Rigobelo; (Tico D’Godoy).
Peep Show – De Maurício Morais e Marcos Botassi. Com Andréa Duque, Paula Miroe, Paulo Mendes, Veridiana Toledo e outros. Sexta e sábado, meia-noite. Teatro Hilton (rua Ipiranga, 165, Centro) R$ 20,00.
12.10.1997 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 12 de outubro de 1997. Caderno A – 3
VALMIR SANTOS
Maisuma Mostra Escolar de Teatro. A quarta edição do evento representa o esforço do diretor de Cultura, Denerjanio Tavares de Lyra, no exercício da manutenção da cena mogiana. Infelizmente, a realidade conspira sem muito alento para este que é mais um dos eventos temporões aos quais a cidade se acostumou nos últimos anos.
O projeto Oficinas de Inverno, sempreem julho, o carro-chefe da Cultura, é o melhor exemplo desta concentração que não aponta nenhum caminho, a não ser o da fragmentação, do estilhaçamento de qualquer processo criativo.
Ou alguém ainda acredita que um oficina de iniciação teatral de um mês torna qualquer pessoa capacitada para subir ao palco e dizer a que veio? Falta, e sempre este crítico insistiu na tecla, um trabalho efetivo que fundamente o ofício de ator. Na cidade, temos um esboço do TEM e do Tumc. Cada um a seu modo, Clarice Jorge e Adamilton Andreucci Torres disseminam suas utopias possíveis – ou não.
Para a consolidação de um grupo teatral, de escritores, de artistas plásticos, de músicos, enfim, qualquer que seja o chão de estrelas, o tempo é precioso. O amadurecimento criativo por vezes dura uma geração. Nada surge do acaso.
Teatro escolar raramente dá em bom teatro. O que se espera de uma mostra como a que começa quarta-feira é justamente o mínimo da aventura do palco, do mergulho artístico para trazer à baila a magia da comunicação ator-público. Um pouco desta aventura foi proporcionado em mostras anteriores, com destaque para os trabalhos ancorados por Robson Santos e de Eliene Rodrigues.
12.10.1997 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 12 de outubro de 1997. Caderno A – 4
VALMIR SANTOS
São Paulo – Problemas, problemas, problemas… Quer na boca do primeiro-ator do grupo, Martin Wuttke, 35 anos, quer na boca do assistente de direção, Stephan Suschke, 36, trata-se da palavra mais repetida quando o assunto diz respeito ao Berliner Ensemble. Da “sombra” do seu fundador e ideólogo, Bertolt Brecht (1897-1956), passando pela marcação cerrada dos herdeiros, pelo patrulhamento político-ideológico após a queda do Muro de Berlim (1989), até o recorrente aperto financeiro, enfim, vários são os obstáculos enfrentados pela lendária trupe alemã criada há 48 anos.
São notas destoantes tocadas sem constrangimento, aliás com muita transparência, por Wuttke e Suschke, na conversa com os jornalistas brasileiros na quarta-feira passada, véspera da estréia de “A Resistível Ascensão de Arturo Ui”. A montagem foi encenada quinta e sexta, no Teatro Sesc Anchieta, e marcou a primeira turnê do Berlilner Ensemble pelo País, com apoio do Instituto Goethe.
Wuttke fala dos problemas com conhecimento de causa. Ele foi diretor artístico da companhia durante nove meses, logo depois da morte de Heiner Müller, no final de 1995, que inclusive assina a direção do espetáculo apresentado em São Paulo. Wuttke abdicou do cargo justamente por causa da “canonização” que ainda cerca a obra do dramaturgo alemão.
“Os herdeiros da família de Brecht e muitos políticos ainda vêem a obra como se fosse um museu. Quem tem idéias novas encontra muita resistência”, argumenta o ator.
No contexto ideológico, o entrave é a revisão histórica pela qual o mundo geo-político vem passando nos anos 90. Para Wuttke, o teatro político como instrumento revolucionário não se sustenta mais com o panorama atual. Uma alternativa, destaca o ator, seria encontrar uma terceira via, fiem à esquerda, nem à direita, que permita um novo ponto de vista.
Por trás dos seus óculos escuros, com pinta de ator cinematográfico, Wuttke aprofunda sua análise. Na cena alemã, o Berliner Ensenble constitui uma das últimas resistências ao chamado “teatrão”, aquele que reza segundo o lucro comercial. “Hoje, nossos palcos correm atrás dos sucessos da TV e do cinema”, critica.
Conseqüentemente, mudou também a percepção do público. Antes do Muro cair, predominavam os espectadores do lado oriental da cidade. Hoje, a platéia é formada basicamente por gente que tem o olhar ocidental como parâmetro de espetáculo. “Antes, comprava-se cinco ingressos com o valor de uma camiseta. Hoje, o custo de cinco camisetas equivale a um ingresso”, compara o assistente de direção, Stephan Suschke. Ao que parece, o périplo para se levar uma montagem ao palco, nos tempos que correm, é tão comum aqui quanto lá fora.
E por falar em dinheiro, os representantes do BE não revelam o valor, mas garantem que o subsídio do governo alemão reduziu consideravelmente nas últimas temporadas. Para manter uma equipe média de 30 pessoas, incluindo o elenco de 22 atores, é preciso muito fôlego administrativo. O que Wuttke provavelmente percebeu, decidindo canalizar toda sua energia para o palco – o empreendimento, no caso, é de grande montagem, mas condizente com sua condição de artista maior, corno os críticos do seu país reconheceram quando da estréia de “Arturo Ui”, em 1995, outogando-lhe o prêmio de melhor ator daquele ano.
Wuttke, é claro, não chegou a conhecer Brecht. Ele não mitifica tanto as teorias do homem que catalisou a revolução teatral na Alemanha pós-guerra. Na sua opinião, a técnica do distanciamento se tornou lugar comum em qualquer montagem nos quatro cantos do planeta, como uma incorporação elementar. “Um personagem mau tem que ter algo de bom também, e vice-versa. Se for uma, coisa só, fica muito chato”, explica. Ele faz bagle das milhares de toneladas de papéis gastos em livros que mais teorizam sobre o distanciamento do que realmente o levaram à sua prática.
Peça adapta gângster para o regime nazista
São Paulo – “A Resistível Ascensão de Arturo Ui” foi escrita por Brecht em 1941, durante o exílio na Finlândia. Ele se inspirou na Chicago de Al Capone e suas guerras de gansters para reproduzir sua época e o período nazista. Goebbels, o homem que ascendeu Hitler, por exemplo, é um dos personagens mais explícitos.
A crítica de Brecht, porém, transcende o nazismo. O dramaturgo quer desacreditar também a sociedade sem escrúpulos, dominada por egoístas e arrivistas, o mundo sem solidariedade do capitalismo.
“Arturo Ui é um papel fascinante. Ele é um bom entretainer”, observa o intérprete Martin Wuttke. A turnê brasileira do Berliner Ensenble foi desfalcada pelo ator veterano Bernhard Minetti, 90 anos,com problemas de saúde. Sua performance no papel de Ator (dentro da peça) é uma das mais elogiadas pela crítica teatral alemã.
O BE foi fundadopor Helena Weigel e Brecht em 1949. Após a morte do autor, em 1956, Helene continuou seu trabalho. Como sucessores dela, passaram pelo grupo Ruth Berghaus e Manfred Wekwerth – até que no início da temporada 1992/93 o BE foi transformado de teatro municipal em companhia limitada.
Wuttke comanda espetáculo
São Paulo – Não foi por acaso que Charies Chaplin associou o seu célebro personagem Carlitos à figura de Adolf Hitler. Há muito de cômico na expressão gestual do ditador. A começar pelo bigodinho indefectível. Pois o ator Martin Wuttke e a encarnação dos dois no papel de “A Resistível Ascensão e de Arturo Ui”.
E ele, Wuttke, o dono do espetáculo. Nas apresentações do Berliner Ensemble no Teatro Sesc Anchieta, quinta e sexta-feira passadas, o que se viu foi um trabalho esmerado de ator.
Wuttke traduz em trejeitos, cacoetes e andar manco a personalidade esquizofrênica do mafioso criado por Bertold Brechet. Um texto interpretado em alemão, com tradução simultânea, e ainda assim o ator vence a barreira da língua para ter o público em suas mãos. Não foram poucas as gargalhadas em quase três horas de encenação.
A montagem de “Arturo Ui” por Heiner Müller é estupenda pela matéria-prima humana. Em cena, 22 atores tarimbados, de técnica apurada, com destaque para Hermann Beyer (Roma), Stefan Lisews ki (Dogsborough) e Michael Altmann (ator).
Espetáculo abençoa a imagem como ela é
São Paulo – “Uma contradição dialética, sem síntese”.
A frase que o Papa/Zé Celso diz no canto 2 dos seus “soluços” capta muito bem a alma deste artista seminal e controverso da cena teatral brasileira. Seu espetáculo mais recente, “Ela”, expõe um ator e encenador em plena forma, a sustentar sua arte no corpo quebradiço pelos 60 anos, humano que é, mas alicerce do Teatro Oficina.
Expõe não, escancara. É na porralouquice, na quebra de qualquer resquício de organização, de ordem, num alheamento ímpar, que a companhia Uzyna Uzona conspira para fazer valer a energia bruta da atuação. A marca dionisíaca, como em “Ham-let” ou “Bacantes”, está lá no “corredor” arquitetado por Lina Bo Bardi. Qual espetáculo deixaria o público esperando do lado de fora, cerca de 50 minutos, enquanto atores e cenógrafos estão a pendurar no teto do teatro os retratos gigantes de Cacilda Becker e João Paulo 20, ambos decorados com bexigas douradas, reluzentes? Claro, não há nada de vanguarda nisso. Ao contrário. Na estréia houve gente que até reclamou. Assim que abriram-se as portas, porém, o que importava então era a festa.
“Ela” começa, enfim. A sensação de faxina que a cenografia imprime condiz com a “limpeza”, o “enxugamento” do elenco. Não está em cena o jogo coletivo, a ocupação desesperada do espaço, mas a fluência requerida de cada um dos intérpretes. A exigência é maior.
José Celso Martinez Corrêa, Zé Celso, serviu de epicentro no mesmo dia em que seu personagem real beijava o solo do Rio de Janeiro. Sob o signo de Jean Genet, ou São Genet, dramaturgo francês morto em 1986 (“O Balcão”, “As Criadas”, “Pombas Fúnebres”), o ator surge vitalizado, senhor absoluto do espetáculo.
Em suas vestes papais, alvas; em sua máscara facial que equilibra a expansão de um Marcel Marceau (Bip) ou a introspecção de um Kazuo Ohno, Zé Celso canta, dança e domina o verbo com envolvimento. De onde quer que se sente, mesmo quando a visão é prejudicada pela estrutura da arquibancada, é impossível não prestar atenção nele.
O Mestre de Cerimônias (Marcelo Drummond) recepcina o Fotógrafo (Fransérgio Araújo) para tomar imagens do Papa (Zé Celso). Um Cardeal (Vadim Nikitin), um doidivanas, chega a ser confundido com Sua Excelência. Os quatros, sobretudo os três primeiros, estabelecem diálogos em que predomina o tom filosófico, existencial.
“Se são meus olhos, não será Ela. Se é Ela, não serão meus olhos”, divaga o Mestre de Cerimônias, numa performance segura de Drummond, um cecerone diante da platéia. “Só porque sou Papa não passo de pose?”, dispara Zé Papa, preocupado em encontrar um ângulo que o aproxime mais de Deus – de olho nos 15 milhões de “selvagens” que esperam pela graça dos santinhos. A imagem, Ela, só é atingida quando Zé Papa senta no penico. Mas “papa não tem c…”, desconsola-se.
As melhores passagens acontecem nos “soluços” divididos em cinco cantos. Os três declamados por Zé Papa destacam-se pela presença cativa do ator – movimentos leves, inclusive tocando ao piano, como num musical da Broadway nos anos 50.
Bastante oportuna a montagem. “Ela” destoa do coro hipócrita da Imprensa em torno do poder do Vaticano. “Ela” celebra Genet em seu corte mais uma vez profundo de um modelo hegemônico de sociedade que tanto desprezou em vida, sob a perspectiva do porão, do subsolo. “Ela” faz as pazes de Zé Celso com a cena aberta em grande estilo, com o público nas mãos, sem necessariamente tangenciá-lo.
“Ela” é o risco equilibrado de quem perscruta os assim chamados deuses do teatro. Atirando-se contra a falta de dinheiro, o desamparo do Estado. Aventurando-se na maravilhosa contribuição dos erros e acertos que fazem de cada apresentação uma experiência única. Nesse terreno, Zé Celso é a benção em pessoa.
Ela – De Jean Genet. Direção: José Celso Martinez Corrêa. Com Cia. Uzina Uzona. Quinta a sábado, 21h; domingo, 20h. Teatro Oficina (rua Jaceguai, 520, Bela Vista, tel. 604-0678). R$ 20,00. Às quintas, todos pagam meia. No próximo, excepcionalmente, não haverá sessão. 90 minutos.
5.10.1997 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 05 de outubro de 1997. Caderno A – 4
Atriz é destaque da montagem dirigida por Jorge Takla e centrada no mito datragédia grega
VALMIR SANTOS
São Paulo – Começa o espetáculo e Medéia respira fundo, arranhando o silêncio que é quebrado logo em seguida, com uma sequência verborrágica de tirar fôlego, literalmente. O prólogo de Walderez de Barros, no papel-título, escancara para o público, de chofre, que estamos diante de uma avalanche de emoção de estado bruto – e lapidar.
Uma verdadeira dama do teatro brasileiro, a fazer páreo com uma Fernanda Montenegro, uma Marília Pêra, Walderez é o álibi mais convincente do diretor Jorge Takla para a abordagem do mito na adaptação que fez para a tragédia grega. Takla visita os textos de Eurípedes e Sêneca para singrar o homem moderno e iluminar suas vicissitudes.
A Medéia que Walderez mostra é menos a mãe assassina, capaz de pôr fim à vida de seus filhos em nome do amor. Expõe, sim, a permissividade da alma em sua queda. Mata para punir Jasão, o marido que a troca por uma princesa. “Quero que eles sejam filhos de rei”, justifica um Jasão calculista, frio até à medula no seu invólucro de sábio. No trânsito entre os limites da loucura e da razão, Medéia é movida pelo coração que bate em seu peito.
Sabe-se que clássicos não são para qualquer um. Paulo Autran esperou anos a fio para chegar aos pés de Rei Lear, levado à cena em temporada recente. Claro, Walderez não abraçou Medéia por acaso. No palco do Sesc Anchieta, cada gesto, cada olhar, cada palavra a propagar pelo ar, tudo reverte em esplendor, em arrebatamento. Walderez é vibrante. Com seu corpo entranhado na personagem, resta o desequilíbrio atordoante, o transe diante do horizonte finito. Nada é desperdiçado.
Na “Medéia” de Takla, ela é epicentro. O determinismo masculino da tragédia é como que dissimulado pela presença da atriz. Jasão (Francarlos Reis), Creonte (Oswaldo Mendes) e o Coro (seis rapazes) giram em torno da mãe-esposa-abandonada, depois expatriada, desolada. E tamanha a presença e a força de Walderez em cena, que a memória pesca a “Des-Medéia” de Denise Stoklos, aquela que dá a volta por cima e vira o jogo. Mas os mitos são mitos…
Como diretor de óperas, também, Jorge Takla dá um tratamento etéreo à montagem que confere com uma perspectiva contemporânea da tragédia. A luz que assina ao lado de Davi de Brito, imprime um visual difuso no tempo e no espaço. O cenário de Charles Moeller, com suas portinholas e paredes de reboco, também acentuam essa distensão. O deslocamento do Coro e sua interação com os personagens centrais tangencia a ação com fluência.
A montagem de “Medéia” conquista pela sua limpidez e concomitante visceralidade. Consegue ser funcional sem aborrecer. Emociona pelo que há de mais sagrado no teatro: o ator. A diva Walderez de Barros, esbanjando maturidade, leva nas costas a grandiosidade do papel e a responsabilidade de ter o público nas mãos, do início ao fim. Melhor: transcende, porque sua Medéia é memorável.
Medéia – De Eurípedes e Sêneca. Adaptação e direção: Jorge Takla. Tradução: Mário da Gama Kury. Com Carlos Teixeira, César de Castro, Eliézer de Souza, Kao Monteiro, Otávio Juliano, Rodrigo Lombardi e outros. Quinta a sábado, 21h; domingo, 19h. Teatro Sesc Anchieta (rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, tel. 256-2281). R$ 20,00 e R$ 10,00 (comerciários e estudantes). Até 2 de novembro.
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“Noturno” quer expurgar a modernidade |
São Paulo – Nos seis anos de intervalo da estréia do musical “Noturno”, as mudanças pessoais não foram menos aceleradas do que as globais. Em 1991, a bandeira da paz e amor a la anos 70 já se mostrava defasada com os tempos de individualização sem fim. Agora, na reestréia, a sensação é de que o roteiro assinado e dirigido por Oswaldo Montènegro continua navegando contra a corrente.
Na cruzada contra “a modernidade clara”, contra “o mundo conformado”, o cantor e compositor de “Bandolins” faz um libelo à existência poética. Ou sseja, quer através da música transmitir toda uma filosofia de vida canalizada para o prazer.
“Noturno” exorciza a velocidade com o que resta de utopia possível. Desacelera para dar espaço ao sonho, à arte por extensão.
É uma pretensão e tanta para uma platéia que beira o histerismo a cada canção, urrando e aplaudindo como se num auditório de programa de TV.
A contradição, que se dá também dentro do palco, no elenco gigante de 60 jovens bastante esforçados – e empolgados – enfim, a contradição reflete o próprio estado de coisas a que chegamos: centenas de adolescentes assistem ao que não têm condições de colocar em prática na vida real, por impotência, que seja, diante do “sistema”.
Como numa das falas do texto, os espectadores de “Noturno” são jovens que, em sua maioria, saem à noite para procurar o que nunca vão encontrar. Não é à toa que o espetáculo lembra, em algumas passagens, o similar que marcou época pelo seu conteúdo revolucionário: “Hair”, que chacoalhou o status quo norte-americano na década de 60, em oposição à Guerra do Vietnã.
Mas a “revolução” de “Noturno” não é tanto de ordem política ou estrutural; é iminentemente pessoal, interior, de dentro para fora.
Quanto à montagem, de volta ao cartaz no Teatro Dias Gomes, mantém muito da concepção original. Não há, como nos últimos musicais que vêm sendo apresentados nos palcos brasileiros, aquele virtuosismo técnico ou mesmo exarcebação estética.
Pelo despojamento das cenas e pela exploração dos espaços além-palco, “Noturno” se assemelha a um trabalho circense, onde a performance física dos atores é exigida a todo instante.
LEITURA
Os quadros não seguem, aparentemente, uma narrativa uniforme. São músicas/histórias independentes, em que a leitura se dá mais pela interpretação vocal e pela movimentação coreográfica – esta muitas vezes “poluída” e ainda presa a uma marcação mecânica.
Quando se deixa levar pela dramatização, sempre recorrendo à comédia aberta, como em “Surfistas de Cristo”, o resultado é regular.
Falta um processo mais profundo nas atuações. Sobra caricatura gratuita, porém cara à hegemonia do projeto. A Oficina dos Menestréis, comandada por Deto Montenegro (irmão) e Candé Brandão, explora nos cursos de ator o reflexo, a percepção e a intuição.
No palco, em nome do que pode ser uma valorização obsessiva do gesto e do movimento, dá a impressão de que “malhar” importa mais do que “atuar”, quando deveria ser o contrário.
“Noturno” se sustenta mesmo pela música. Maior evidência disto é o lançamento do CD com as 19 canções do espetáculo, com letras de Oswaldo Montenegro, Peter Gabriel, U2 e Prince (ops, ex), entre outros.
As interpretações de Tania Maya, Estela Cassilatti, Débora Reis, Eduardo Costa e Marcelo Palma traduzem na voz o espírito libertador proposto pelos autores. Em especial o trio feminino arrebatador – Tania Maya, ressalta-se, é a Enya brasileira, com toda a sua peculiaridade preservada, como se viu em recente participação no show do “padrinho” Oswaldo Montenegro.
Noturno – Direção: Oswaldo Montenegro. Com grupo Oficina dos Menestréis. Segunda a terça, 21h. Teatro Dias Gomes (rua Domingos de Moraes, 348, próximo ao metrô Ana Rosa, tel. 571-6177). R$ 15,00. 75 minutos.
14.9.1997 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 14 de setembro de 1997. Caderno A – 4
Nelson de Sá lança coletânea de textos sobre a cena teatral na metade dos anos 90
VALMIR SANTOS
São Paulo – Em cerca de nove anos de crítica, Nelson de Sá conseguiu imprimir um estilo bastante adverso dos seus contemporâneos e predecessores na análise jornalística do teatro. Sua atitude pouco condecendente cóm a chamada classe teatral, esquivo ao paternalismo macarrônico, é um diferencial que depõe em favor de uma ética mais do que jornalística, pessoal.
Se Frank Rich, o crítico do “New York Times”, é conhecido como “o açougueiro da Broadway, como Sá gosta de lembrar, este seria então o equivalente no jornalismo brasileiro, guardado o devido tom sensacionalista. A contundência e a sem-cerimônia com que assina suas críticas na “Folha de S. Paulo” lhe rendeu, como se praxe, muitos “inimigos”. Mas, por outro lado, o respeito também fundamentou-se.
O distanciamento do personalismo afetado de autores, diretores e atores, laureados até final dos anos 80, permitiu ao crítico se ater somente ao objeto artístico, ao espetáculo em si. A troco de muitas réplicas, de muitas cartas desaforadas, de muita bílis destilada, o jornalista da “Folha” acabou diluindo um pouco da cultura protecionista em relação aos artistas de teatro. Chega de piedade e vamos à arte, que é o que interessa, parece ter exclamado.
Quando começou a escrever sobre teatro, Sá estava na casa dos 27, 28 anos. Em função da idade, trazia um desprendimento para transmitir ao leitor, alvo confesso, o que pressupunha verdade, por mais que às vezes subjetiva. Escrever para um jornal que endeusa a objetividade também foi – e continua sendo – desafio e tanto.
Teatro é arte de uma humanidade infinita. Sintetizar a apresentação de uma peça com olhar hermético é sacrificar sua essência. Nelson de Sá surge na platéia sempre munido de bloquinho, anotando falas/falhas. Se deixa respaldar pela técnica, obviamente, mas a percepção aguda está lá, antenada com a emoção.
Não faz o gosto não gosto. Mas não tem pudor algum em concluir que uma peça é chata. Tampouco se esquiva da beleza de uma Bete Coelho, elogiando-a como bela, sim. Conceitos subjetivos, vale lembrar de novo, sobrepostos ao padrão jornalístico. Ele, crítico, também se permite um pouco espectador. Sentimento e razão, eis a dupla via.
São considerações preliminares de quem acompanhou, na primeira metade desta década, boa parte das críticas publicadas na “Folha”. Elas estão agora compiladas em “Divers/Idade – Um Guia para o Teatro dos Anos 90”, lançamento da editora Hucitec. Aqui, Nelson de Sá reúne seus principais textos e produz um instantâneo do que se está levando nos palcos do Brasil e do mundo. A “orelha” é assinada por José Celso Martinez, enquanto a fotógrafa Lenise Pinheiro responde pelo rico material ilustrativo.
De 90 a 96, o exercício da crítica representou também o amadurecimento do jornalista. Antes, Sá conheceu Miroel Silveira, trabalhou com Paulo Francis. Se angustiou pela influência “avassaladora” de Décio de Almeida Prado, 80 anos, o pai da crítica teatral brasileira. Essa formação é descrita no último texto do volume, adaptação de palestra sua no Festival Internacional de Londrina.
Em 479 páginas, acompanhase o esforço obsessivo de Sá em interpretar para onde estão soprando os ventos do teatro. Esta ânsia pelo novo, pelo crítico-antena a que se propõe, baliza o trabalho do jornalista na “Folha”.
Algumas questões lhe são pertinentes. Na virada dos anos 80 para os 90, a estética visual cedeu espaço também para o verbo, numa valorização da dramaturgia. Como sintoma maior, o crítico cita a morte do encenador polonês Tadeuz Kantor, em dezembro de 1990, fonte da qual Gerald Thomas bebeu até a última gota.
Nessa guinada para a dramaturgia, portanto, despontam revival de Shakespeare e Nelson Rodrigues. Na esteira, surgem nomes na cena brasileira, como Luís Alberto de Abreu, Fernando Bonassi, Beatriz Azevedo, Hugo Passolo, Bráulio Tavares.
O critico também identifica a retomada de um teatro popular calcado no rito religioso. Encenadores como o pernambucano Romero de Andrade Lima (“Auto da Paixão”), o mineiro Gabriel Villela (“Rua da Amargura”), e o paraibano Luiz Carlos Vasconcelos (“Vau da Sarapalha”) catalisam uma simbiose entre o erudito e o popular. E o acento religioso, cristão, transcende o regional e chega à cultura urbana nas montagens do jovem diretor Antonio Araújo (“O Livro de Jó”).
“Divers/Idade” reflete outro aspecto marcante na crítica de Sá. Trata-se de uma preocupação com o teatro que estã sendo feito lá fora. Ele costuma acompanhar temporadas em Londres e Nova Iorque e acaba servindo como introdutor de muitos nomes até então desconhecidos por aqui. Nesta era globalizada, nada mais pertinente.
Foi assim que “Angels in America”, a peça do americano Tony Kushner, começou a ganhar espaço no Brasil. Sá considera este o espetáculo-síntese dos anos 90, com sua forte temática social, política, sexual, enfim, demasiada humana. E se leu sobre o diretor canadense Robert Lapage, sobre a diretora americana Elizabeth LeCompte (que depois veio ao Brasil com seu Wooster Group). E se leu sobre o escritor e dramaturgo caribenho Derek Walcott, depois Nobel de Literatura, que reivindica a volta dos poetas ao teatro, expurgados pela cena moderna (ou pós).
Além das críticas, propriamente, o livro apresenta entrevistas e panoramas. Sá, por exemplo, costuma “visitar” a temporada carioca uma vez por ano, estabelecendo a ponte num eixo normalmente pichado pelo preconceito em relação ao “teatrão”, comercial. No Rio, como se sabe, existem ótimos trabalhos com gente como Aderbal Freire Filho, Amir Haddad, Moacyr Góes e Enrique Diaz, para citar alguns diretores.
Como o próprio intertítulo sugere, “Divers/Idade” resulta exatamente num guia para o que vem sendo feito nos palcos brasileiros e internacionais. É claro, não se pode abarcar tudo. Sá até que tenta. De quando em vez assiste a algum espetáculo “à margem”, como o fez em “Boca de Lobo”, com garotos de periferia que verteram a linguagem do rap para o teatro.
O livro constitui, por extensão, uma apreciação crítica da crítica. A coletânea de textos expõe um Nelson de Sá passional, que pulsa pelo teatro diante de tanta adversidade – há o cinema, a música e a televisão, donos do mercado cultural. A distância jornalística não bloqueia a veia teatral. Peças amadoras, cursos de dramaturgia, assistência com José Celso Martinez (“As Boas”), enfim, Sá não passa incólume. Pode-se descordar das suas interpretações, com certeza, mas “Divers/Idade” é a resposta de quem cumpre o exercício da crítica com paixão e entrega diária.
Divers/Idade – Um guia para o teatro dos anos 90 – De Nelson de Sá. 479 páginas. Fotos de Lenise Pinheiro. Lançamento da editora Hucitec (rua Gil Eanes, 713, São Paulo, CEP 04601-042, tel. 530-4532). R$ 38,00.
31.8.1997 | por Valmir Santos
O Diário de Mogi – Domingo, 31 de agosto de 1997. Caderno A – 3
VALMIR SANTOS
São Paulo – A figura de Plínio Marcos, com sua camiseta regata, seu chinelão, sua bolsa de livros, a perambular pelos teatros da Capital, no ganha-pão às próprias custas, traduz muito do espírito controverso do escritor. No curso dos 62 anos de vida, ele sempre optou pela margem, pela periferia, pela contramão.
“Navalha na Carne”, “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, “Abajur Lilás”, “Querô” – para citar algumas -, suas peças já escancaram essa condição de artista que carrega uma bandeira. “Eu quero é contar a história da gente minha, que é essa gente que só pega a pior, só come da banda podre, o bagulho catado no chão da feira. Quero falar dessa gente que mora na beira dos córregos e quase se afoga toda vez que chove. Quero falar dessa gente que só berra da geral sem nunca influir no resultado.”
È assim que Plímo se define em “Figurinha Difícil – Pornografando e Subvertendo”, lançamento recente da Editora Senac. Neste livro, ele revela um lado pouco conhecido da sua obra. È um excelente contador de histórias, de “causos” que remontam à sua Santos natal, onde começou mais de 40 anos atrás, sob a lona de um circo. De quebra, relata episódios da sua relação sempre espinhosa com o regime militar.
“Figurinha Difícil…” vem embasar a facilidade com que o autor de “Dois Perdidos…” transita na linguagem das ruas. Uma oralidade espontânea, preenchida com uma língua afiada, ora ou outra com palavrões, sim, como convém ao povão.
Mesmo o leitor não afeito à história recente do Teatro Brasileiro vai encontrar no livro cota de humor para se entreter com garantia. Dom Hélder Câmara driblando o cerco da censura para assistir a “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, gesto decisivo para a liberação da peça; Plínio contando sobre como caiu nas mãos de uma mãe-de-santo e foi protagonista de uma macumba numa encruzilhada movimentada de São Paulo, o que lhe rendeu uma “viagem” no camburão da polícia; a incrível saga surreal de Nego Orlando, o amigo de juventude em Santos, que expulsou um burro do campinho de futebol com um murro no animal, garantindo um pênalti para seu time; enfim, são passagens que envolvem porque rememoradas pelo autor com muita leveza.
Plínio deixa claro que uma regra em sua trajetória foi sempre caminhar, ir à luta, sem chorar as pitangas, mesmo diante das maiores diversidades que um ser humano pode passar submetido a um governo autontário. Dividido em cinco partes, “Figurinha Difícil…” é uma leitura que converge o dramaturgo, o homem e o cidadão – todos funâmbulos entre a tragédia e a comédia. A emoção em Plínio oscila nos dois extremos, daí sua riqueza.
Figurinha Difícil – Pornografando e Subvertendo – De Plínio Marcos. Editora Senac (rua Dr. Vila Nova, 228, 4º andar, tel. 236-2136. R$ 25,00.