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“FIT Rio Preto"

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“FIT Rio Preto"

Crítica

No final da peça Eles não usam black-tie (1958), Romana, a mãe, chora e separa feijões sobre a mesa. O filho acabou de deixar a casa. O pai é líder operário, foi preso algumas vezes por defender os direitos de sua classe e articula mais uma greve. Empregado na mesma fábrica, o primogênito fura o movimento com medo do futuro. A namorada engravidou, o casamento vem aí. Pai e filho rompem ideológica e moralmente. A ação se passa num morro carioca dos anos 1950. Finalmente a condição dos trabalhadores é posta em relevo na dramaturgia brasileira por meio da peça de Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006).

Corta para Buraquinhos ou O vento é inimigo do picumã. Um menino negro de 12 anos narra sua jornada “pelo mundo” na tentativa de escapar da intolerância de um policial em seu encalço. Na perseguição que perdura quase todo o texto, o militar atira dezenas de vezes, decompondo o corpo dele enquanto a mente voa longe na capacidade de invenção. A fábula-denúncia de Jhonny Salaberg dança por entre a engenhosa construção do imaginário e um apurado senso de observação da “realidade sólida”, segundo o narrador.

Se Dalí derreteu os ponteiros, Johnny Salaberg os engole para cuspir a realidade com a concreção e o sonho ocupando-se um do outro em ‘Buraquinhos ou O vento é inimigo do picumã’, direção de Naruna Costa e com o coletivo Carcaça de Poéticas Negras

Mire-se na relação dele com a mãe – todos os personagens são inominados. Ela manda o filho comprar pão na padaria no primeiro dia de ano, dito da Confraternização Universal. Mesmo abduzido pela sequência de realismo trágico-mágico, ele vai reportar o tempo inteiro a essa mulher cultuadora de ancestralidade, inclusive na lida cotidiana, como varrer o quintal, pintar as unhas ou escolher feijão na pia da cozinha para depois apurar a panela de pressão no fogo.

O feijão como fome de justiça há 60 anos, no Teatro de Arena, e a panela de pressão como reflexo da voz negra expressada desde o espaço da periferia e cada vez mais veemente, conforme o espetáculo do coletivo Carcaça de Poéticas Negras (SP), é uma aproximação indicativa do quanto a dramaturgia brasileira tornou-se formalmente mais complexa e sofisticada. Um relevante segmento dela responde à altura da gravidade dos problemas brasileiros e da respectiva margem de inventividade para enfrentá-los.

João Cordioli/FIT Rio Preto A partir da esquerda, Clayton Nascimento, Ailton Barros e Johnny Salaberg em ‘Buraquinhos ou O vento é inimigo do picumã’, direção de Naruna Costa

A sustentação artística combina os talentos literário e dramático de Salaberg, de 23 anos, num dos seus primeiros textos para teatro (consolidado aos 21 anos), e a direção da atriz e cantora Naruna Costa, também ela debutando profissionalmente na função, tendo assinado direção musical no Grupo Clariô de Teatro, ativo em Taboão da Serra (SP), desde 2002, e do qual é cofundadora. Nota-se a noção de arte de resistência conspirando para esse encontro singular afeito à negritude.

Na encenação, a voz tripartida do narrador pressupõe em cena a coletividade da juventude historicamente alvo das forças de segurança. Relatos de ocorrências racistas envolvendo os atores Ailton Barros, Clayton Nascimento e o próprio Salaberg, todos negros – assim como a diretora –, são incorporados com qualidade ao imaginário radical da dramaturgia.

O tecido social-histórico extratexto estende-se ainda à lembrança de vítimas da violência urbana, como o menino de 14 anos atingido com um tiro no tronco no caminho entre casa e escola, no Complexo da Maré (RJ), em junho de 2018. A mãe ainda o encontrou com vida no hospital e ouviu dele que o disparo veio do blindado. “Mãe, eles não viram que eu estava de uniforme?”, perguntou o adolescente.

O que já é nefasto na travessia épica do narrado soa orgânico nesses desvios ao real. Por outro lado, Naruna obtém dos atores uma movimentação equalizada pelo espaço cênico. Em certos instantes eles tangenciam a figura do Arlequim às avessas, com o acento tragicômico, há anos-luz da ingenuidade e estupidez características desse arquétipo da Commedia dell’Arte. Os olhares são de atenção permanente. O desempenho físico do trio é mais consistente que o vocal. Barros e Salaberg têm limites na enunciação, dificultando a escuta quando superpostas ao dinamismo da ação corporal. Já Nascimento pratica uma performance vigorosa da palavra, especialmente no depoimento sobre como levou chaves de braço, até perder a consciência, de brutamontes que o acusaram de assalto em ponto de ônibus da Avenida Paulista, outra síntese chocante de crime racista impune.

Sob acompanhamento de dois músicos ao vivo (Erica Navarro e Giovani Di Ganzá), multi-instrumentistas em perfeita sintonia com os tempos de fala (a paisagem sonora é como a quarta voz), a direção delineia a força umbilical entre mãe e filho, por um lado, e a dissolução desse laço, aos poucos, por outro, sob o ritmo da série de balas. A desumanidade traduzida nos números de tiros que perfuram os órgãos desse “pequeno corpo negro ambicioso, que corre com uma sacola de pães nas mãos” na tentativa, vã, de se salvar.

João Cordioli/FIT Rio Preto Salaberg concebe a peça como uma denúncia ao genocídio da população negra, ou seja, equilibrando princípio antirracista e criação artística categórica

Buraquinhos é transpassada também pela condição da família marcada pela ausência do pai. Há na inteligência refinada do menino de Salaberg um eco retumbante de quem, logo cedo, descobriu na leitura e na literatura um porto seguro diante dos vendavais da vida (em tempo: picumã designa fuligem ou, na gíria da diversidade sexual e de gênero, cabelo). Pois na era da selfie o autor comove ao retratar a comunidade do seu bairro de infância e atual, Guaianases, na zona leste de São Paulo. Um olhar ao redor por meio do qual enxerga a beleza dos pequenos gestos. Essa territorialidade lírica e lúdica, na contramão do estado policial sanguinário, vem representada nas pipas, nos tênis dependurados na fiação dos postes, nos brinquedos de playground, nos vãos da cenografia concebida por Eliseu Weide.

Ampliando a acepção geográfica, a simbiose tempo-espaço revela-se extraordinária. De como correr da polícia desde o extremo leste da cidade carregando uma sacola com pães que saltam dela em meio a um punhado de terra, outro de céu, mais rim e pulmão. De como equilibrar-se sobre a fiação, pisar nas nuvens e pousar por entre as montanhas de La Paz, as lápides de um cemitério de Lima, o barraco de uma família da favela de Cité Soleil, em Porto Príncipe, entreouvindo o espanhol e o crioulo nessas localidades. Na capital do Haiti, uma senhora vai costurar os buracos de bala no corpo do menino e esquecer o relógio de pulso dela dentro da barriga dele. Se Dalí derreteu os ponteiros, Salaberg os engole para cuspir a realidade com a concreção e o sonho ocupando-se um do outro.

.:. Texto originalmente escrito para o segmento Olhares Críticos do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto. O jornalista viajou a convite da organização.

Serviço:

Onde: Itaú Cultural – piso 2 (Avenida Paulista, 149, próximo à estação Metrô Brigadeiro, tel. 11 2168-1777)

Quando: terça a sexta, às 19h. Até 12/7

Quanto: grátis (ingressos distribuídos uma hora antes do espetáculo)

Duração aproximada: 90 minutos

Classificação indicativa: 14 anos

Com interpretação em Libras

70 lugares

João Cordioli/FIT Rio Preto Trio de artistas do coletivo Carcaça de Poéticas Negras

Equipe de criação:

Idealização, coordenação e dramaturgia: Jhonny Salaberg

Direção: Naruna Costa

Com: Ailton Barros, Clayton Nascimento e Jhonny Salaberg

Instrumentistas: Erica Navarro e Giovani Di Ganzá

Preparação corporal: Tarina Quelho

Direção musical: Giovani Di Ganzá

Cenografia e figurinos: Eliseu Weide

Assistência de cenografia e figurinos: Carolina Emídio

Criação de luz: Danielle Meireles

Operação de luz: Danielle Meireles e Thays do Valle

Artista gráfico: Murilo Thaveira

Fotos: Alessandra Nohvais e João Luiz Silva

Vídeos: Lucas Cândido e David Costa

Produção: Bia Fonseca e Iza Marie

Contrarregragem: Douglas Vendramini e Patrick Carvalho

Realização: Carcaça de Poéticas Negras

Crítica

O corpo manifesto

26.7.2017  |  por Daniel Schenker

Em São José do Rio Preto

Espetáculo aberto a múltiplas possibilidades de interpretação, And so you see… – assinado pela coreógrafa sul-africana Robyn Orlin e mostrado na última edição do Festival Internacional de São José do Rio Preto – é um trabalho de natureza política. Leia mais

Crítica

Em São José do Rio Preto

A necessidade de abordar a realidade inflamada de maneira direta parece nortear duas montagens de rua apresentadas na recém-encerrada edição do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto: Tekoha – Ritual de vida e morte do Deus Pequeno, do Teatro Imaginário Maracangalha, de Campo Grande (MS), e Terra abaixo, rio acima, da Cia. Cênica, de Rio Preto (SP). Leia mais

Nota

Após romper parceria com a Prefeitura de São José do Rio Preto para a organização do Festival Internacional de Teatro, o FIT Rio Preto (entre 1992 e 2013), o Serviço Social do Comércio em São Paulo, o Sesc SP, centra forças no Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente, o Fentepp, cuja 21ª edição acontece de 21 a 29 de novembro. O protagonismo da instituição no interior paulista em encontros de porte nesse segmento é evidenciado ainda pela realização bienal do Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, o Mirada, como transcorrido em setembro passado. Leia mais

Nota

A próxima edição do FIT Rio Preto, de 21 a 30 de agosto, terá dez espetáculos internacionais entre as 44 obras consolidadas pela curadoria. Foram convidados núcleos de prestigiada trajetória, como o italiano Teatro Potlach, com Ventimilla leghe sotto i mari (adaptação do clássico de Júlio Verne, Vinte mil léguas submarinas; os ingleses do Gandini Juggling, com Smashed; os mexicanos do Lagartijas Tiradas al Sol, com El rumor del incêndio; e os chilenos do Teatro Cinema, com Historia de amor.

A programação inclui criadores pouco ou nada conhecidos entre nós, como os espanhóis do El Conde de Torrefiel, com La chica de la agencia de viajes nos dijo que había piscina en el apartamento, e o bailarino e coreógrafo argentino Pablo Rotemberg, com La idea fija.

O desafio da Prefeitura de São José do Rio Preto e do secretário da Cultura, Alexandre Costa, é afirmar a capacidade de autonomia do evento após o fim da parceria com o Sesc SP e manter a inquietude que o festival imprimiu nos últimos anos, independente da oscilação de uma edição ou outra.

'Las chicas...', do espanhol El Conde de TorrefielSem créditos

‘La chica de la agencia…’, do El Conde de Torrefiel

Fazem parte da curadoria a atriz e produtora Paula de Renor, do Janeiro de Grandes Espetáculos – Festival Internacional de Artes Cênicas de Pernambuco, em Recife; o ator, diretor e produtor Cesar Augusto, da Companhia dos Atores e do Tempo Festival, do Rio de Janeiro; o diretor Antonio do Valle, de São Paulo; e o diretor e produtor Manoel Neves, do Grupo Teatral Riopretense, GTR.

Eis a relação de espetáculos oriundos de oito países e oito estados do Brasil:

Internacionais:

Ventimilla leghe sotto i mari – Teatro Potlach, Itália
Saxophonssimo – Misfits, França
Smashed – Gandini Jugling, Inglaterra
La chica de la agencia de viajes nos dijo que había piscina en el apartamento – El Conde de Torrefiel, Espanha
Bestiario – La Llave Maestra – Chile/Espanha
Sueños de gigante – La Gran Marcha de los Muñecones, Peru
Fuera – Maria Peligro, Argentina/Bélgica
La idea fija – Pablo Rotemberg, Argentina
Historia de amor – Teatro Cinema, Chile
El rumor del incendio – Lagartijas Tiradas Al Sol, México

Adulto nacional:

As estrelas cadentes do meu céu são feitas de bombas do inimigo – Cia.. Provisório Definitivo, São Paulo
Adágio – Artesanal Cia. de Teatro, Rio de Janeiro
As três irmãs – Traço Cia. de Teatro, Florianópolis
Uma história oficial – Cortejo Cia. de Teatro, Três Rios (RJ)
Calango deu! Os causos da dona Zaninha – Cia.. Caititu, Rio de Janeiro
Sinfonia sonho – Teatro Inominável, Rio de Janeiro
Cucaracha – Cia.. Teatro Independente, Rio de Janeiro
Sobre anjos & grilos – o universo de Mario Quintana – Companhia de Solos & Bem Acompanhados, Porto Alegre
Elefante – Probastica Cia. de Teatro, Rio de Janeiro
Esta criança [obra convidada] – Cia. Brasileira de Teatro, Curitiba

Diversidade:

Vampiras lésbicas de Sodoma – Treco Produções Cinematográficas Ltda., Rio de Janeiro
Joelma – Território Sirius Teatro, Salvador
BR-Trans, Coletivo Artístico As Travestidas, Fortaleza

Rua:

Na boca do Lixo – Cia.. Talagadá – Teatro de Formas Animadas, Itapira (SP)
Do fundo do mar – Cia.. Fios de Sombra, Campinas
Águas de l´avar – Teatro de la Plaza e Teatro por um Triz, São Paulo
Sandwalk with me – Improvável Produções, Rio de Janeiro
Dentro é lugar longe – Trupe Sinhá Zózima, São Paulo

Para criança:

O sapato que sabia andar – Mariza Basso Formas Animadas, Bauru
Meu pai é um homem pássaro – Cia.. Simples, São Paulo
Cocô de passarinho – Cia.. Noz de Teatro, Dança e Animação, São Paulo
Cabeça de vento – Pandorga Cia.. de Teatro, Rio de Janeiro
De Íris ao arco-íris – Produtores Independentes, Recife

São José do Rio Preto:

Pazsado – Uma fotografia – Jeff Telles
Veludinho – Cia.. Livre de Teatro
Plástico bolha – Cia. dos Pés
Cana.ã – Núcleo Arcênico de Criações
Condenada – G.A.L.
Por quê? – Cia. Cênica
O Tartufo – Cia. da Boca
Oroboro – Grupo Mon’onírico
Os meninos e as pedras – Cia. Girasonhos
Auto da anunciação – Cia. Cênica
Pequeno animal selvagem – Os Cogitadores

Reportagem

Os grupos Ser Tão Teatro, de João Pessoa, e Cia. Les Commediens Tropicales, de São Paulo, cobram cachês que o Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto teria se comprometido a pagar por apresentações, ajuda de custo e atividade reflexiva durante a edição de 2012. A soma das duas dívidas é de R$ 9.300,00, desconsiderando-se correções. Leia mais

Nota

O repórter Gustavo Fioratti informa na Ilustrada de hoje, na Folha, que a curadoria da próxima edição do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, de 16 a 17 de julho, será dividida por dois programadores de eventos afins em outros estados: César Augusto, da coordenação do Tempo Festival, no Rio, integrante da Companhia dos Atores, e Paula de Renor, do Janeiro de Grandes Espetáculos, no Recife, e também atriz e produtora. O Teatrojornal apurou que o convite formulado pelo secretário de Cultura, Alexandre Costa, ainda não teve sua negociação consolidada. Leia mais